Nesta mesma data, no próximo ano, estaremos dando posse a um novo presidente da República, que será eleito no dia 3 de outubro. A expectativa é que ele tenha liderança política suficiente para fazer as reformas que o país tanto necessita depois que o presidente Itamar Franco implantou o Plano Real. Por um motivo ou por outro, tanto o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso quanto o presidente Lula não conseguiram, nos seus quatro mandatos, concluir a estabilização da economia para alavancar o país. Não que estes eles não tenham feito nada. Ao contrário, cada um fez a sua parte. Porém, poderiam ter feito muito mais.
Itamar Franco, que ocupou o Palácio do Planalto por dois anos e três meses, só teve tempo de acabar com a inflação através do Plano Real. Esta estabilidade é comemorada até hoje. As novas gerações nem sabem mais o que é conviver com 80% de inflação ao mês, não sabem o que é o overnight nem o que é fazer filas quilométricas nos postos para encher o tanque antes de um novo aumento da gasolina.
Depois de estabilizada a inflação em patamares aceitos mundialmente, o próximo passo seria as reformas tributárias, previdenciária, política, trabalhista e sindical, para citar apenas as principais. Em um sistema presidencialista forte, como o brasileiro, apenas e tão somente o presidente da República é capaz de liderar reformas polêmicas. O que se fez, desde Itamar, foram reformas superficiais. E para tocar qualquer uma delas, seria necessário que o presidente eleito utilize o potencial de votos recebidos, tão logo tome posse, ou seja, exatamente daqui a um ano.
Não se faz reformas em um ano eleitoral como este que hoje começa. O contencioso de uma reforma tributária é imenso. O sistema tributário brasileiro, dizem os especialistas, é perverso na medida em que cobra os mesmos impostos de pobres e ricos, achaca a classe média no imposto de renda e concentra a maior parte do bolo nas mãos da União. Restabelecer a federação, distribuindo, tal qual Salomão, os impostos entre União, estados e municípios, é tarefa hercúlea, mas necessária. Deus queira que nós brasileiros tenhamos sabedoria suficiente para eleger um presidente capaz de preparar o país para os próximos anos, quando deveremos ser, no mínimo, a quinta economia mundial.
O Brasil merece mais do que ser apenas pentacampeão mundial de futebol, de ter o melhor Carnaval do mundo e de ser exportador de matérias primas, como há mais de 500 anos. É preciso eleger um líder, alguém capaz de resolver o problema previdenciário. Todos nós pagamos pela previdência do servidor público, que recolhe pouco e se aposenta com muito. O déficit é bancado por todos nós.
Todos nós pagamos também pelo mensalão, seja do PSDB, do PT ou do DEM, anomalia advinda da falta de uma reforma política que, pelo menos, minimize as possibilidades de se promover farras com o dinheiro público, de gerar caixas dois para tornar desigual uma eleição que deveria ser igual entre todos os candidatos.
Ano novo! Vida nova! Que Deus ilumine os brasileiros neste ano tão importante, quando se encerra uma era - FH e Lula - e começa uma nova fase. Há quem diga que ainda não tivemos "aquele" presidente após os governos militares. Seria Tancredo Neves, mas Deus o levou na véspera da posse. Sarney concluiu a transição democrática e depois vieram outros que não conseguiram transformar, em realidade, o sonho da Nova República.
Também hoje entra em vigor um novo salário mínimo, de R$ 510. É pouco para quem ganha, mas é muito para quem paga. É o principal instrumento de distribuição de renda no país. Milhões de trabalhadores e aposentados recebem o salário mínimo, que movimenta a economia no interior brasileiro. R$ 510 ainda é pouco, mas é o que se pode fazer. Porém, poderia ser uma quantia maior se o próximo presidente conseguir fazer as reformas.
(*) Adriano Souto é editor-adjunto de Política (asouto@hojeem dia.com.br)