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O candidato José Serra parece que final achou o discurso de sua campanha. Há pelo menos duas semanas, Serra não fala em outra coisa que não seja no suposto vazamento de informações da Receita Federal envolvendo mais de uma centena de pessoas, algumas delas ligadas ao PSDB e ao próprio José Serra, entre elas, sua filha Verônica.
Não há o que discutir sobre a gravidade de vazamento de dados da Receita Federal. Nisso aí, não importam os nomes, os parentescos, as possíveis vinculações partidárias e o Governo está no dever de apurar o escândalo rapidamente e entregar os culpados à Justiça. Doa em quem doer. Nesse ponto, não há como transigir. Há uma denúncia. O Governo, por seus órgãos, tem a obrigação de apurar a veracidade da denúncia e punir os culpados. Ponto.
Mas José Serra achou que esse poderia ser um bom mote para o discurso de campanha tão dificilmente procurado e nunca encontrado. E fez sua opção, até porque a grande Imprensa, aliada à sua campanha, passou a exigir do seu candidato uma postura mais agressiva em relação ao Governo federal - inegavelmente o grande escudo protetor de Dilma Rousseff, não por acaso a adversária de Serra e que já o massacra nas pesquisas - de ponta a ponta. O problema é que Serra está, ouvidos os espíritos santos de orelha, atribuindo a Dilma e ao partido dela, o PT, a responsabilidade pelo vazamento das informações. Aí as coisas começam a se complicar e, curiosamente, para José Serra.
Primeiro, porque essa caso, ao que se sabe, vem desde o ano passado. Fala-se em setembro, fala-se em maio, enfim, fala-se de uma época em que de fato Dilma e Serra ainda não eram adversários declarados, embora todos soubessem que viriam a ser - a menos que o então governador de Minas, Aécio Neves, tomasse o lugar de Serra. O que não se verificou, por mais que Aécio pudesse acreditar na possibilidade.
Ora, Serra deveria, então, denunciar essa questão, sobretudo a que envolve seus parentes quando não também correligionários, e já exigir ali a rigorosa apuração do que se ouvia dizer - também pela Imprensa. Mas Serra não fez isso. Ou porque não acreditava no que lia ou porque achava que sua posição nas pesquisas talvez o fizesse prescindir de recurso tão primário.
Mas ainda é oportuno lembrar que o que está em jogo não é a disputa eleitoral, mas o direito de o cidadão ter seu sigilo fiscal preservado. De forma que o estranhável, neste momento, é a oportunidade da acusação e o seu direcionamento a alvos pré-escolhidos: a adversária e o partido dela.
Não bastasse o estardalhaço que a grande Imprensa do Rio e São Paulo faz do fato agora revelado, já há indícios da inevitável CPI - outro instrumento muito usado em eleições quando os tucanos estão em desvantagem. Foi assim em 2005, quando por pouco não conseguiram aprovar o impeachment de Lula, ato político de consequências imprevisíveis e que contou, como se sabe, com a ação pacificadora de alguns tucanos, segundo revelou há pouco tempo o ex-ministro Ciro Gomes.
Não se sabe o que Serra poderá ganhar com o discurso finalmente encontrado. Pode ser que a classe média ou parte dela acredite de fato no que diz a grande Imprensa e se indigne com o que estariam fazendo com o seu candidato. Mas Serra já é o candidato da classe média. Como crescer mais nesse segmento? Isso coloca em dúvida a eficácia do discurso, até porque as últimas pesquisas mostram que Dilma continua engolindo fatias enormes do eleitorado de Serra - agora já é o sul do país que passou para o lado da candidata de Lula.
Mas é preciso ficar atento para os últimos artigos de Fernando Henrique Cardoso. É ali que pode estar o ovo da serpente.
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