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Enfim, acharam um dossiê
 


A 30 dias das eleições, estava faltando um dossiê que pudesse ser usado pela oposição para pôr o governo ou sua candidata em xeque. Foi assim em 2006, foi assim em 2008, nas sucessões estaduais, e não seria diferente agora -ou este país não se chamaria Brasil e o PT e o PSDB não teriam a mesma origem, o Estado de São Paulo. Notaram a coincidência? Mas o dossiê apareceu. E, claro, como o principal instrumento de propaganda da oposição. A receita é a mesma. Quando a vitória começa a ir pelo ralo, acha-se um dossiê. Não importa de que tipo e, se possível, com uma CPI junto.
Até parece coisa da época em que a velha UDN, sentindo o cheiro da derrota, recorria à imprensa para apelar aos nobres sentimentos da classe média. Nem sempre dava certo e, quando isso acontecia, deixava-se a imprensa e recorria-se aos quartéis. Costumava dar certo, sobretudo num tempo em que os quartéis, às vezes, se confundiam com células de partidos políticos. A última vez foi em 1964.
Pois estava demorando a aparecer um dossiê. Tentou-se há alguns meses um, em Brasília. Não deu em nada porque a acusação era vazia como ovo choco. Chegaram a tentar envolver o ex-prefeito de BH Fernando Pimentel, político de ações, às vezes, um pouco duras, mas jamais envolvido em qualquer falcatrua. Pimentel, à época, parecia oferecer algum perigo como pré-candidato ao Senado. Como parece ter deixado de oferecer perigo a quem quer que seja, deixaram-no de fora. Mas nem por isso esqueceram de achar um dossiê. E o do suposto vazamento de informações da Receita Federal passou a ser o principal argumento dos discursos do tucano José Serra, que, para lhe dar mais legitimidade, tem uma filha citada como vítima da ação certamente criminosa - se comprovada.
Notaram como Serra já não fala de planos de governo, de mais investimento em saúde, em infraestrutura, da suposta falta de experiência da sua adversária Dilma Rousseff? Só fala de um dossiê em que são citadas 122 pessoas como vítimas da xeretagem fiscal, meia dúzia do PSDB e uma especialmente ligada a Serra -sua filha Verônica. E por que diabos alguém quereria saber dos negócios da filha de Serra? E quem estaria interessado nisso? Não se sabe. Mas Serra já sabe. Para ele, óbvio, a interessada seria a adversária petista. Por coincidência, líder nas pesquisas eleitorais. E por coincidência maior, as suspeitas tornaram-se mais fundamentadas, digamos assim, depois que Dilma passou, de fato, à frente de Serra nas pesquisas.
É natural, em qualquer processo eleitoral, que os adversários troquem acusações. Mas não é cabível que a cada eleição a oposição recorra ao mesmo expediente: os inevitáveis dossiês quase sempre de origem e fins obscuros. Lembram dos aloprados? No fundo, era uma visagem que virou verdade e depois foi exorcizada pela própria inconsistência. Ainda que insista em ser lembrado. O tal dossiê dos aloprados teria sido criado pelos petistas ligados ao senador Aloizio Mercadante, que concorria em desvantagem à prefeitura de São Paulo. Um possível perdedor querendo inverter o jogo. Pensando assim, talvez fizesse sentido. Fato é que não acharam os aloprados até hoje. Mas agora, como acusa Serra, o dossiê da Receita teria sido encomendado por alguém que está com a vitória praticamente garantida? Pra quê? Qual a razão, sem entrar em juízo de valor, para um favorito na disputa mandar fazer um dossiê contra o possível perdedor? Não faz sentido, a não ser para lembrarmos da velha UDN da calúnia e a quem o general Castelo Branco chamou um dia de vivandeiras em visita aos quartéis.

Postado em 3 de Setembro, 2010

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