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Não dá para entender a razão de a política externa do presidente Lula entrar na agenda política do país a essa altura do debate pré-eleitoral. A começar pela absoluta ineficácia do debate. Pode-se concordar ou não com a opinião de Lula sobre os presos políticos cubanos. Pode-se até condenar a sua afirmação de que os presos políticos cubanos são como bandidos comuns, ate porque, não são. Da mesma forma, pode-se discordar de Lula quando ele diz que não se envolve nas questões internas cubanas para que Cuba também não interfira nos problemas que competem apenas ao povo brasileiro - uma forma, óbvio, de evitar entrar em choque com o governo da Ilha.
Tudo isso é possível. Mas daí a colocar a política externa brasileira como tema do debate pré-eleitoral vai uma distância enorme. E só há uma justificativa para tal bobagem: os adversários de Lula perderam o discurso e querem criar um pé de vento qualquer para atrapalhar o presidente nessa marcha batida que empreende para eleger, em outubro, a sua candidata. O que não deixa de ser uma perda de tempo. A eleição não se decidirá pelo debate da política externa brasileira. O tema, a rigor, quando muito, entrará num debate qualquer, à época, por falta de outro assunto.
Mas não é a primeira vez que se tenta confundir a opinião pública do país com coisas assim. Houve um tempo em que tudo girava em torno de Hugo Chávez. Queriam porque queriam comparar Lula com o mandatário venezuelano, como se o Brasil fosse uma enorme Venezuela e como se Lula tivesse os arroubos supostamente esquerdistas de Hugo Chávez. São coisas distintas. Lula não tem nada, mas nada mesmo, de Chávez, assim como o Brasil tem realidades política e econômica distintas da Venezuela. Mas insistiram até que perceberam a inutilidade das comparações.
Agora, Cuba é que está no centro das atenções, e há quem já comece a tentar aproximar a questão cubana do que seria parte do pensamento "marxista" da ministra Dilma Rousseff, justo aquele que supostamente defende um "Estado forte". Ora, esse discurso sobre a oportunidade de voltar-se para o fortalecimento do Estado não é da lavra de Dilma Rousseff. É um dos temas do último congresso do PT e nada mais. Há ainda, no entanto, quem diga que, por isso mesmo, seria parte do "pensamento" de Dilma. Quando o argumento chega nesse ponto é preciso parar e perguntar: mas se dizem que Dilma não é candidata do PT, mas de Lula, por que razão o discurso do PT seria necessariamente também o de Dilma Rousseff? Nesse caso, é preciso esclarecer se Dilma é candidata do PT ou de Lula, já que também se diz que Lula não é mais PT, mas alguém que está muito acima do PT.
Com efeito, tudo é muito confuso mesmo. Mas também há uma razão para a confusão. Enquanto Lula e sua candidata voam em céu de brigadeiro, a oposição bate cabeça atrás de seu candidato, corre na busca de um discurso consistente, lógico e propositivo, sem, contudo, achar o que procura. Daí a confusão em que a própria oposição está envolvida. Em consequência, busca-se de tudo um pouco para tentar atrapalhar a candidata do Governo, quando não o próprio chefe do Governo. Longe a ideia de que Lula não comete erros e que Dilma Rousseff já está ungida vencedora das eleições que sequer começaram. Mas é forçado demais buscar argumentos tão bobos como esse da questão cubana para criar embaraços para a candidata e seu patrono.
Jamais, em qualquer tempo, a política externa brasileira teve influência na política interna do país - nem mesmo quando Jânio Quadros condecorou Guevara com a Medalha do Mérito do Cruzeiro do Sul, nos idos de 1960. O que decidirá a eleição, agora, será o debate sobre a continuidade ou não da percepção de que o povo está vivendo melhor neste momento do que há 10 ou 20 anos. O resto é conversa fiada, perda de tempo da própria oposição, que poderia usar melhor os recursos midiáticos que são colocados à sua disposição para apresentar ao país propostas melhores do que as oferecidas ao povo pelo atual Governo. É isso que poderá definir as eleições. Se o povo achar que Dilma continuará lhe fazendo feliz, votará com ela. Se quiser mudar, vai votar com Serra. E pronto. O resto é gastar tinta à toa.
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