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Um dia de fatos e boatos na sucessão
 


A anunciada recusa do senador Tasso Jereissati em ser o vice na chapa do governador José Serra é mais um desgaste que se soma a tantos outros já contabilizados pela candidatura do tucano paulista. Nesse episódio, aliás, há duas peculiaridades: a primeira, é que Tasso recusou sem ter sido convidado. A segunda, é que Serra faz de conta que não é candidato e que a recusa não é com ele. Ora, perguntem a qualquer vendedor de acarajé, em Salvador, quem era aquele moço desajeitado que passou uma noite de Carnaval na capital do axé, para que a resposta venha na hora: trata-se do governador José Serra. Claro! Serra esteve em Salvador como esteve em Olinda e no Recife, em pleno Carnaval, embora não se saiba que ele tenha algum dia se destacado como folião. O que se sabe é que, para ter voto, é necessário ir atrás dele. Foi o que Serra fez, ainda que não se confesse candidato.
A propósito, essa estratégia do silêncio está deixando a oposição de cabelos em pé. Nessa mesma entrevista, em que recusou a especulação de que poderia ser o vice de Serra, o senador Tasso Jereissati praticamente desafia o candidato tucano a assumir logo a condição de pretendente à cadeira de Lula. Serra não está nem aí. Ontem mesmo, em Santos, onde anunciou a construção de uma ponte que sequer tem edital de licitação (ah, se fosse a Dilma Rousseff...), Serra disse que só toma conhecimento do que pensa pelos jornais. Uma ironia, claro, para se recusar a assumir a candidatura.
No caso da possível escolha do senador Jereissati para vice de Serra, pelo que se sabe, quem fez a indicação do nome foi o governador Aécio Neves, quando ele próprio recusou o convite. Para Aécio, Tasso poderia agregar o Nordeste à candidatura de Serra. Há quem veja, nessa sugestão, uma pequena maldade de Aécio, que conhece a personalidade dos dois e sabe que Serra e Tasso não se dão bem, entre outras coisas, porque o senador tucano apoiou, em 2002, o seu conterrâneo Ciro Gomes, numa eleição em que Serra era candidato, e Tasso era o presidente do PSDB. Em 2006, Tasso fez parte do triunvirato que escolheu Geraldo Alckmin para enfrentar o presidente Lula, quando Serra também pleiteava a indicação.
Sobre isso, aliás, quem bem descreve a situação é o presidente Fernando Henrique, que com Aécio e Tasso formava o triunvirato, no seu livro de memórias. Fernando Henrique conta que Serra só não foi escolhido porque ele, Serra, ficou indeciso o tempo todo, enquanto Geraldo Alckmin estava decidido a topar a parada. Com efeito, o governador Aécio Neves também contou a um interlocutor, recentemente, essa mesma história, para concluir que o processo de tomada de decisão de Serra é cheio de angústia, de idas e vindas. É algo parecido com um suplício.
Tal quadro parece se repetir agora. Nesse caso, a indecisão de Serra não seria mais uma estratégia, mas um traço de sua personalidade. Ele seria indeciso mesmo e custa a tomar decisões, o que vai acabar pesando, também, na sua escolha pelo eleitor. Se para decidir que é candidato seria assim, é de imaginar como poderia ser na hora de decidir algo que envolva o país, no caso de ser eleito para o lugar de Lula. Os amigos de Serra, no entanto, preferem encarar a já aflitiva decisão como uma certa estratégia, que estaria ligada à espera da desincompatibilização da ministra Dilma Rousseff. Pode ser.
Além da recusa de Tasso, um outro fato noticioso mexeu ontem com a sucessão presidencial. Alguém de São Paulo noticiou em seu blog que o governador Aécio Neves teria admitido a um tucano e a uma democrata (que com ele estiveram recentemente) retomar a pré-candidatura à Presidência da República, caso Serra desista. A informação é improvável, por duas razões. A primeira, é que Aécio precisa tomar cuidado para eleger seu sucessor no Estado, e nada garante que a condição de candidato presidencial poderia ajudar tanto assim. A segunda, é que uma desistência de Serra, a essa altura, poderia significar uma espécie de suicídio político do governador paulista. Mesmo que ele não tenha admitido publicamente ainda que é candidato. Como reagiria o eleitor paulista ao saber que seu candidato teve medo de disputar a eleição presidencial e estaria optando pelo Governo de São Paulo?

Postado em 10 de Março, 2010

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