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Com todo o respeito que o vice-presidente José Alencar merece, é uma crueldade pensar em fazer dele candidato ao Governo do Estado apenas porque Alencar pode apaziguar a disputa interna que devora o PT e, de quebra, arrastar o PMDB para o aprisco da paz necessária, sobre a qual deveria ser armado o palanque da ministra Dilma Rousseff em Minas. Não só porque Alencar padece de uma moléstia que o debilita, ainda que ela esteja sob controle - pelo menos momentaneamente, e espera-se que para sempre. Mas porque a sua condição de candidato ao Governo mineiro dispararia outra disputa, não menos cruel: a de tantos querendo ser o vice dele.
Dono de uma biografia invejável, tanto do ponto de vista empresarial como político, José Alencar é uma figura humana notável. Com um jeitão tipicamente mineiro, Alencar, a quem os amigos mais próximos chamam de Zé, entre os quais o presidente Lula, tem exercido a função de vice-presidente com admirável retidão. Nesse aspecto, ele se soma a outros nomes que ilustram a história política de Minas e que exerceram o mesmo cargo, cada um a seu jeito e a seu tempo: José Maria Alkmim, Pedro Aleixo, Aureliano Chaves e Itamar Franco.
Os três primeiros, no regime dos generais. Itamar, na transição dos militares para a democracia, no Governo Collor, a quem sucedeu, por ocasião do impeachment. Alencar, de todos, foi o que mais tempo ficou como vice, exercendo até hoje a função. Nela se notabilizou pela lealdade ao presidente e pela briga constante pela queda dos juros. Por algum tempo, acumulou a função de ministro da Defesa, apenas enquanto Lula equacionava a troca definitiva do titular da pasta. Mas, desde então, o vice vem travando uma batalha duríssima contra o câncer que lhe consome parte do abdome.
Otimista, determinado, Alencar vem sobrevivendo à doença e ganhando dela, mas ainda está longe de uma cura definitiva, desejada não apenas pela sua família, mas por todos que acompanham a sua batalha pela vida. Com tudo isso, Alencar passou a ter a admiração do povo e não mais apenas do empresariado que, por seu apelo, votou em Lula nas duas eleições. Ocorre que, de uns tempos para cá, passou-se a articular, não se sabe bem onde, uma manobra política que tem por objetivo arrumar o palanque de Dilma em Minas, onde o PT não se entende e o PMDB ameaça fechar com o governador Aécio Neves. E quem seria o ponto de equilíbrio desse palanque por enquanto bambo? O vice José Alencar, ele mesmo, transformado numa espécie de unanimidade, como se na política, assim como na vida, isso fosse possível.
E aí está a crueldade. Com seu inesgotável sentimento de solidariedade, José Alencar já passa a acreditar que somente ele pode dar à ministra Dilma um palanque arrumado, em Minas. Pode-se até imaginar de onde tem partido a ideia, ainda que José Alencar tenha dito sempre que sua inclinação primeira seja pelo Senado. De tanto dizerem que ele é o equilíbrio de que Dilma precisa em Minas, o segundo colégio eleitoral do país, e onde é forte a presença do tucano Aécio Neves, o vice-presidente começa a balançar. Ora, uma coisa é uma campanha para o Senado, assim como o exercício do cargo. Outra, é a campanha para o Governo do Estado, bem como pesado é o exercício do cargo. Mas os estrategistas da campanha da ministra não pensam assim. Não importam se Alencar estará indo para o sacrifício ou não, desde que o palanque seja montado.
O que Alencar vai começar a ver, daqui pra frente, será uma briga feia logo abaixo de sua possível candidatura, muitos querendo ser o seu vice. Esquecem-se de que uma campanha para o Senado já seria uma empreitada dura, tendo Alencar que duelar com Aécio e com Itamar a um só tempo, para não falar em Clésio Andrade e Tilden Santiago. Para o Governo, no entanto, seria pior. Mas não menos feroz, repete-se, do que a briga que se instalaria para achar um vice que caberia na chapa de José Alencar, e ainda acomodasse os outros dois postulantes. Por aí se vê a crueldade da manobra que, como costuma acontecer na política, não leva em conta nenhum outro bem, mas somente o resultado. Ainda assim, eleitoralmente duvidoso.
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