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O último tango em Paris
 

Mil novecentos e setenta e quatro estava apenas começando quando pisei com o pé direito naquele avião da Varig num clima bem bye bye Brasil. Lembro-me muito bem de que o avião era enorme e as aeromoças chiquérrimas num azul marinho impecável. Os guardanapos eram de linho, os pratos de porcelana, os talheres de prata. O cardápio, um capítulo à parte, indicava que naquela noite teríamos canard aux oranges.

 

Fui embora voando enquanto por aqui o edifício Joelma, no centro de São Paulo, ardia em chamas matando 188 pessoas. Patricia Hearst, filha do dono de um império jornalístico, havia sido sequestrada pelo Exército Simbionês de Libertação e se preparava para virar de lado. Em Portugal, a Revolução dos Cravos derrubava uma ditadura de quarenta anos e o povo estava nas ruas, estava em festa, pá!

 

Enquanto o presidente americano Richard Nixon se equilibrava numa corda bamba enrolado em fitas de Watergate, por aqui, um general de nome Ernesto assumia o poder prometendo uma abertura lenta e gradual.

 

Nas nuvens, voando para Paris, sonhava com a cidade desconhecida que me esperava. Sabia que Sãozinha, amiga de fé, camarada, estava lá de braços abertos para o que desse e viesse. Amargurado, estava deixando o meu país, quiçá para sempre, um país encurralado, fechado, censurado.

 

Foi só no décimo dia que saímos à noite para ver O Último Tango em Paris, filme proibido no país tropical e festejado na terra de Pompidou. Revista Pariscope debaixo do braço e sem entender uma palavra sequer de francês, entramos no escurinho do cinema deixando nas mãos da lanterninha uma moeda de 50 centavos de franco, ordem dada por Sãozinha. Se não pingássemos aquela moeda na mão da lanterninha, era bronca na certa. Durante mais de uma hora fiquei ali perplexo diante de cada cena.  A única coisa que entendia era cada uma daquelas cenas. Uma estonteante Maria Schneider de dezenove anos dava um show no papel de amante de Marlon Brando dentro de um apartamento vazio da cidade onde agora eu morava.  

 

A cena da manteiga, que corria à boca pequena lá no meu país, estava lá, em cores. O filme acabou e nós tomamos o rumo da Rue Paillet. A cidade estava muito iluminada naquela noite fria, fazendo jus ao apelido que ganhara há muitos e muitos anos. Uma chuva fina caía na cidade que não era da garoa. Apenas uma coisa acontecia no meu coração quando cruzei a Paillet com a Soufflot. Em casa, tomamos uma taça de Beaujoulais, comemos um restinho de queijo de cabra com baguete e fomos dormir.

 

Confesso que não só sonhei com Maria Schneider naquela noite como fiquei perdidamente apaixonado por ela durante muitos e muitos anos. Muitos e muitos anos se passaram, ela voltou a atuar em filmes sem a menor importância e era sempre e apenas lembrada pela cena da manteiga. Maria Schneider um dia mergulhou nas drogas e no álcool. Levantou-se, recuperou, seguiu em frente. Confessou um arrependimento profundo pelo que foi submetida ao dançar o seu último tango, não perdoando jamais diretor e ator.

 

O tempo passou como tudo tende passar.

 

Hoje voltei a pensar naquele minúsculo cinema da Rue Cujas, na moeda de cinquenta centavos de franco na mão da lanterninha, na página da revista Pariscope marcada com Stabilo Boss amarelo fosforescente, na cena da manteiga, nas ruas brilhantes refletindo a chuva que caia na mais linda cidade do mundo, na garrafa de Beaujolais vazia num canto do quarto e na embalagem curiosa do queijo de cabra. Hoje voltei a pensar em Maria Schneider. Agora morta, me deixando um pouquinho viúvo.    

 

Alberto Villas é jornalista e escritor, autor dos livros “O Mundo Acabou!”, “Afinal, o que viemos fazer em Paris?”, “Admirável Mundo Velho!”, “Onde foi parar nosso tempo?” (Editora Globo) e “Carmo” (Conceito) 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Postado em 25 de Fevereiro, 2011
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AlbertoVillasG
Bisbilhotando
 

Confesso que sou bisbilhoteiro e não é de hoje. É dando uma espiadela aqui, uma escutadinha  ali que vou construindo meus textos, minhas crônicas, meus livros. Penso nisso todos os dias durante minha caminhada matinal pelas ruas da Vila Romana. Hoje mesmo, na esquina da Rua Faustolo com Tibério, vi um casal conversando, cada um com o seu cachorro. Passando rapidamente por eles, só deu pra escutar uma frase:

 

- Olha como o meu tem cara de filósofo!

 

Dei uma olhadinha rápida e não é que o cachorro dele tinha mesmo uma cara de filósofo, uma coisa assim meio Foucault meio Baudrillard.

 

Na Rua Fábia alcancei duas senhoras que todos os dias vejo por ali. Ao ultrapassá-las escutei:
 

 

- Mesmo quando eu quero as batatinhas mais coradas eu asso, não frito!

 

Mas não é só nas ruas da Vila Romana que coleciono frases e observações. Semana passada, na sala de espera do aeroporto Santos Dumont sentei-me ao lado de uma jovem que lia "No Buraco", do Tony Bellotto.  Aflita, ela lia um trecho e corria lá pro final do livro. 

 

Pensei com os meus botões: Como pode uma pessoa estar ainda na página 45 de um livro e ficar bisbilhotando qual é o final da história? Será que ao ler as últimas palavras do livro – “o pesadelo ainda não chegou ao fim” – ela seria capaz de decifrar o enigma do buraco?

 

Na mesma sala de espera, ao meu lado esquerdo, estava uma executiva com vários recibos de cartão de crédito. Ela ia colocando um a um em ordem. Não sei se por data de compra, valor ou loja. A maioria era da Zara.

 

No início do mês, na porta do Morumbi Shopping, fui caminhando atrás de um senhor muito agitado falando no celular. Falando alto e gesticulando muito, ele insistia que o lote de telhas tinha de ser entregue ao cliente naquela quarta-feira mesmo, impreterivelmente! Continuei caminhando e pensando como pode alguém trabalhar com telhas?

 

Outro dia, beliscando tapas no simpático Marcelino Pão e Vinho, um casal ao meu lado - ela uma morena meio índia e ele um nipônico -  conversava animadamente. Parecia início de namoro. Tentei não escutar a conversa, mas uma frase não me escapou:

 

- Por isso me sinto um privilegiado de estar aqui agora com você!

 

Num ônibus que me levou da Lapa a Barra Funda, um jovem ouvia um iPod a toda altura, de pé ao meu lado. Mesmo com o fone enfiado no ouvido, dava para ouvir, praticamente sentir a música. Meu ouvido atento concentrou-se naquele iPod que tocava Sympathy for the Devil. Debaixo de um calor de 40 graus fui pensando por que diabos aquele jovem estava escutando Rolling Stones naquela tarde de domingo. 

 

Foi só isso que escutei naquele coletivo. Mas além de escutar, confesso que não resisti a uma bisbilhotice ao chegar da ponte-aérea no aeroporto de Congonhas na segunda passada. O avião custou a taxiar e quando parou ainda demorou uns quinze minutos ali esperando não sei o quê. Pela fresta das poltronas 5D e 5E, um quarentão de terno escreveu uma mensagem no celular: “Ruth, não se esqueça de colocar o ventilador no quarto do Rafael na velocidade 2, virado pra parede”.

 

Se não tivesse bisbilhotado tanto nos últimos dias, que crônica escreveria hoje para vocês, ora essa!      

 

Autor dos livros “O Mundo Acabou!”, “Afinal, o que viemos fazer em Paris?”, “Admirável Mundo Velho!”, “Onde foi parar nosso tempo?” (Editora Globo) e “Carmo” (Conceito)    

Postado em 18 de Fevereiro, 2011
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A alma do negócio
 

Sempre me impressionou o tino, o faro, a astúcia que os camelôs têm para o negócio. Não apenas aqueles instalados – quando a polícia deixa – aqui em São Paulo na Rua 25 de Março, vendendo guarda-chuvas nos dias de chuva, guirlandas em dezembro ou confetes e serpentinas quando o Carnaval chega.  O que me impressiona é a agenda cultural deles. Qualquer show em São Paulo, por mais underground que seja, lá estão eles vendendo camisetas, pôsteres e recuerdos. Vai de Paul McCartney a Vampire Weekend. De Lou Reed a Yusef Lateef, não importa.

 

E não são apenas em shows que eles marcam presença firme e forte na porta. Corinthians vai jogar com o São Paulo, cedinho eles já estenderam as camisas dos dois times perto do estádio. Sem contar as cornetas, os bonés, as faixas e as bandanas.

 

Espertos esses camelôs. Em qualquer mostra de cinema lá estão eles oferecendo camisetas em silkscreen caseiro para os amantes da sétima arte. Monet no Masp? Por que não vender na porta um pôster das ninféias? Salão do automóvel? Que tal levar pra casa a miniatura de uma Ferrari estalando de nova?

 

Essa semana fui ao Consulado dos Estados Unidos, que agora se instalou num casarão no Morumbi. Dá a impressão de um bunker. Policiais na porta te revistam dos pés à cabeça antes mesmo de você entrar no casarão propriamente dito. Cartazes anunciam que é proibido entrar até mesmo com o celular. Não seja por isso.

 

Danadinhos, os pequenos comerciantes da redondeza correram para faturar algum. O consulado está cercado de um comércio sui generis. Além dos botequins Tio Sam, Miami Beach, Quinta Avenida, Big Apple e Manhattan Lanches, você dá de cara com cubículos cujas faixas anunciam despachantes e serviços rápidos: “Preencha aqui o seu formulário”,” Foto em 1 minuto”, sem contar o “Guarde aqui o seu celular”.

 

Isso mesmo. Quem chega ao consulado sem saber que celular é proibido não tem onde deixá-lo. Mas lá estão eles, prontos para servi-o. Vários cubículos simplesmente oferecem estacionamento para o seu celular. Muito vivos, os comerciantes logo trataram de, além de guardar o celular, vender jornais do dia e Coquetel de Palavras Cruzadas porque eles sabem que a fila anda, mas é longa.

 

Só faltou ali, naquela antigamente pacata rua, uma placa dizendo assim: “Green Card em 5 minutos! Só 7,99!” 

 

Autor dos livros “O Mundo Acabou!”, “Afinal, o que viemos fazer em Paris?”, “Admirável Mundo Velho!”, “Onde foi parar nosso tempo?” (Editora Globo) e “Carmo” (Conceito)    

Postado em 11 de Fevereiro, 2011
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Sapatinho de Judia
 

Quando chegou 1970, o sonho finalmente acabou. Depois de trocar farpas com John Lennon, Paul McCartney anunciava oficialmente o fim dos Beatles. Na mesma Inglaterra, uma outra  notícia triste. O filósofo Bertrand Russell nos deixava para sempre. Enquanto o presidente americano Richard Nixon enviava suas tropas para o Camoboja, a África do Sul proibia a entrada no país do tenista negro Arthur Ashe.

 
Em Portugal, enquanto o ditador Antônio Salazar parava definitivamente de respirar, os portugueses respiravam um pouco mais aliviados. Mas muita coisa continuava no ar. Por exemplo, um Boeing 737 da Vasp sequestrado aqui no Brasil e levado pra Cuba.
 
Num laboratório do Serviço Nacional de Defesa Vegetal, bem no centro de Belo Horizonte, de guarda-pó imaculadamente branco, eu separava folhas de laranjeira bichadas e colocava os maços dentro de potes de vidro. Sim, eu era Auxiliar de Agrônomo na juventude. Foi em 1970 que o meu chefe Abdênago Lisboa chegou um dia na repartição com pacotinhos de sementes e começou a distribuir entre os funcionários. A parte que me coube foi uma semente grande, redonda que, segundo ele, era de ameixa japonesa.

 
Levei o pacotinho pra casa e, na primeira manhã, lá fui plantá-las na horta da minha mãe, ao lado das couves, das taiobas, das alfaces. Fiz tudo direitinho, como mandava a regra. A semente ficou três centímetros abaixo da terra e foi regada imediatamente. No quarto dia apareceu o brotinho. Continuei regando todos os dias e com uma semana a plantinha já tinha 5 centímetros de altura. Um espanto! Com quinze dias, 18 centímetros e, quando ela completou um mês, tinha mais de um metro de altura, para perplexidade de todos da casa.

 
Percebi logo que aquele pé de ameixa japonesa era do tipo trepadeita. Providenciei um arame bem resistente para que ela pudesse subir à vontade. E com os passar dos dias ela realmente subiu e foi tomando conta do muro da nossa casa, o muro que nos separava do vizinho, seu Ancelmo. Aquilo foi crescendo e crescendo e, quando vimos, o muro inteiro já estava coberto daquela planta linda, verde, vistosa. Mas nada de flores, de frutos, nada de ameixas japonesas.

 

Alguns meses depois catei uma meia dúzia de folhas e levei para a repartição porque ninguém melhor do que os engenheiros agrônomos que ali trabalhavam para fazer uma análise profunda e constatar que males tinha aquela planta para não dar flores, não dar frutos. 
 
Não precisou nem mesmo de uma análise. O doutor Antônio Macário bateu os olhos naquele chumaço de folhas e foi logo dizendo:
 
- Isso é Sapatinho de Judia!
 
Como assim Sapatinho de Judia? Ele pegou um grosso compêndio de plantas tropicais que repousava em cima da sua escrivaninha e foi direto na letra S. E lá estava, com ilustração e tudo, uma frondosa trepadeira chamada Sapatinho de Judia. Entre parênteses tinha até mesmo o nome científico: Thunbergia mysorensis.
 
Para meu espanto e decepção, não restava a menor dúvida de que aquela planta que tinha em casa se alastrando pelo muro era mesmo a tal Sapatinho de Judia. Voltei pra casa disposto a podá-la, mas no meio do caminho, olhando pela janela do lotação Carmo-Sion, decidi que a planta iria ficar ali no quintal como decoração, apesar de eu ter espalhado para toda a vizinhança que aquilo era um pé de ameixa japonesa. 
 
Lembrei-me dessa história agora porque, no final do ano passado, ao passar pelo pedágio rumo ao litoral paulista, uma simpática mocinha - moreninha dos olhos de jabuticaba - me ofereceu um pequeno vazinho com uma plantinha medindo uns quatro centímetros de altura.
 
- É pau Brasil!
 
Acreditei nela, trouxe pra casa e, com o mesmo cuidado de 1970, plantei num vaso maior, tomando o cuidado de colocar pedrinhas no fundo, terra preta umidecida e húmus. Já faz mais de um mês que está ali, tomando sol, tomando chuva. Nesse tempo, cresceu nada mais que uns dois centímetros. Mas está lá, vistosinha, verdinha.
 
Aguardemos para saber se um dia vai virar uma árvore de Pau Brasil.              
 
 

Autor dos livros “O Mundo Acabou!”, “Afinal, o que viemos fazer em Paris?”, “Admirável Mundo Velho!”, “Onde foi parar nosso tempo?” (Editora Globo) e “Carmo” (Conceito)    
 

 
 

Postado em 2 de Fevereiro, 2011
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Agora é cinza
 

Viver em São Paulo é bom mas não é fácil. Primeiro veio o rodízio de automóveis. De repente, uma lei proibiu o motorista de tirar o carro da garagem dependendo do final da placa do veículo. Certo que o trânsito melhorou um pouco. Em vez daqueles duzentos quilômetros de engarrafamento todos os dias, passamos a ter apenas cento e noventa.

 

Depois veio a lei Cidade Limpa. Nada a ver com as toneladas de lixo que os moradores jogam diariamente nas ruas da cidade. A Cidade Limpa queria se livrar das propagandas espalhadas por todos os cantos de São Paulo. Da noite pro dia arrancaram os outdoors e obrigaram todo o comércio a diminuir o tamanho das placas nas fachadas das lojas. A maior cidade da América do Sul, que já era cinza, ficou ainda mais cinza. E mais triste também, sem aquele outdoor das calcinhas Hope que ocupava toda a lateral de um prédio de quinze andares pertinho do minhocão.

 

Como se não bastasse, resolveram acabar com os fumantes também. Num golpe fatal, a cidade amanheceu sem aquela fumacinha nos aeroportos, nos bares, nas baladas, nas lojas, galerias, museus, em tudo quanto é canto.

 

Essa semana, conversando com a minha filha sobre essa nova cara de São Paulo, nos demos conta de uma coisa: onde foram parar os cinzeiros da cidade?

 

Olha que eram milhares os cinzeiros espalhados pela cidade. Nas mesas dos bares, dos restaurantes, das repartições públicas, das redações, nos pontos de táxi, nos supermercados, nos campos de futebol, nas boates, não tinha um cantinho desta cidade onde não avistássemos um cinzeiro. Só no meu prédio eram três na portaria, cinco nas garagens e  um cinzeiro por andar. Não tenho a menor idéia onde foram parar. Será que foram guardados num depósito, esperando um dia essa lei antifumo cair? Sei lá!

 

Sei que, fazendo uma continha rápida, chegamos a alguns milhões de cinzeiros. Que ninguém sabe onde foram parar. Será que no mesmo lugar onde estão os guarda-chuvas que esquecemos nos táxis? Ou será que veremos todos brilhando na noite do Oscar, quando o nosso filme -  o Lixo Extraordinário - aparecer no telão como forte candidato?       

 

Alberto Villas é jornalista e escritor, autor dos livros “O Mundo Acabou!”, “Afinal, o que viemos fazer em Paris?”, “Admirável Mundo Velho!”, “Onde foi parar nosso tempo?” (Editora Globo) e “Carmo” (Conceito) 

 

Postado em 28 de Janeiro, 2011
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Papo de calçadão
 

De tempos em tempos a revista Piauí realiza um concurso original, divertido e muito bacana. Ela convida os seus leitores a escrever um miniconto a partir de uma frase pinçada de um clássico. Outro dia foi uma escrita por Nietzsche: “Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo”. Depois veio Lima Barreto: “Mudemos o uniforme; e já!”


Pensando nisso há três semanas eu venho caminhando de manhã pelo calçadão de Ipanema com um bloquinho na mão anotando frases soltas de pessoas desconhecidas que vejo indo pra lá e pra cá. Quem sabe esses fragmentos de discursos à beira mar não teriam uma continuação, não dariam uma bela história? Imagine só. Deu nisso:


- Ele ficou assim desde que casou com a Shirley.


- Deixei a bicicleta dormir do lado de fora com cadeado e já era.


- Depois de aprender bem o inglês, aí sim vai aprender outra língua.


- O metro quadrado?


- Dia de jogo do Flamengo, minha filha, esquece!


- Ninguém consegue fazer esse tipo de conta.


- Detesto areia!


- Todo dia eu tenho que passear pelo menos meia hora com ele.


- Não adianta porque ele não compra carro zero.


- Eu não janto há uns cinco anos.


- Eu gosto de praia, mas gosto de frio também.


- Ela é mais velha que ele?


- Faz, mas só o trivial.


- Eu só ouço música no iPod.


- Já falei pra ela que ela precisa mudar.


- Eu nunca tenho dia de fazer supermercado.


- Está fazendo computação primeiro.


- Eu nunca durmo de tarde.


- Já leu aquele Comer, Rezar?...


- Pago 600 mais o transporte.


- Eu gosto mais quando o dia está assim.


- É engraçado, nunca sonhei com ele.


- Ele só come bem amassadinho.


- Fica depois de Petrópolis.


- Quando ele chega sempre muda o clima.


- Acho que ele já conhece o mundo inteiro.


- Só vou pegar depois do dia 5, quando eu receber.


- Eu já tive muito medo de avião, agora minha filha, entreguei pra Deus.


- Passa um e-mail, manda um recado pelo celular, mas não fica calada não.


- Só arruma, não cozinha não. 


- Esse ano estão pensando em ir pro Egito. Já pensou?


- Eu já desisti de pedir. Ele não faz.


- É por isso que o Brasil não vai pra frente!


- Essa vida é muito engraçada.


Autor dos livros "O Mundo Acabou!", "Admirável Mundo Velho!", "Afinal, o que viemos fazer em Paris?", "Onde foi parar nosso tempo?" (Editora Globo) e "Carmo" (Conceito)

Postado em 24 de Janeiro, 2011
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O ano do coelho
 

Não acredito em horóscopos, mas que eles existem, isso existem. Logo cedo, quando abro a porta da minha casa e pego os jornais no capacho, vou direto aos horóscopos. Às vezes passo até mesmo por cima da manchete dizendo que o PMDB está brigando com a Dilma. Confesso que gosto muito do texto elegante do Oscar Quiroga, mesmo sabendo que ele disse a Veja que estava escrito nas estrelas que José Serra seria o próximo presidente da República.

 

Não tem nada mais chocante do que ler o horóscopo de domingo, dia de plantão 24 horas nas redações, dizendo que eu deveria deitar numa rede, esquecer os problemas cotidianos e pegar um bom livro para ler. Mesmo assim, gosto de horóscopo. De tudo. De saber quais são os dias favoráveis ao amor, ao dinheiro, a viagens. De saber que a esmeralda é a minha pedra e que o amarelo é minha cor da sorte apesar de eu não gostar nem um pouquinho de amarelo.

 

Esse ano estou feliz. Dia 3 de fevereiro começa o ano do Coelho.  Explico: gosto também do horóscopo chinês. Ao invés de Leão, Virgem, Sagitário, Capricórnio ou Gêmeos, o horóscopo chinês é o bicho: Boi, Serpente, Cabra, Dragão, Cavalo. E este ano, é o Coelho. Sabia que ao invés de ver São Jorge montado num dragão, os chineses, quando olham para a lua,  enxergam um coelho numa rocha? Pois é.

 

Os astrólogos chineses garantem que, no ano que começa dia 3 de fevereiro, o bom gosto e o refinamento vão reinar. Chegou a hora de curar as feridas do ano do Tigre que está se encerrando e partir pro abraço. Vai ser um ano para quem nasceu Coelho ganhar muito dinheiro sem precisar fazer muito esforço. Que beleza!

 

Quem nasceu Coelho é benevolente, calmo e responsável. É o símbolo da graça, das boas maneiras. Enfim, todo Coelho é um sábio conselheiro. É também reservado, amante das artes e tem boa capacidade de juízo. Além de ser sempre terno e carinhoso com as pessoas amadas. Enfim, esse ano novo chinês tem tudo pra dar certo.

 

Com todas essas qualidades só nos resta um grito de guerra: Vamos lá, Coelho! Vamos lá, América! Vamos ser campeões!

 

Autor dos livros “O Mundo Acabou!”, “Afinal, o que viemos fazer em Paris?”, “Admirável Mundo Velho!”, “Onde foi parar nosso tempo?” (Editora Globo) e “Carmo” (Conceito)   

Postado em 7 de Janeiro, 2011
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AlbertoVillasG
De A a Z
 

Vou começar o ano buscando palavras na memória, perdidas no espaço. Pescando uma aqui, outra ali. Palavras que de vez em quando escapam da boca dos mais velhos para a perplexidade dos mais jovens.

 

Outro dia o filho arregalou os olhos para o pai quando ele disse:

 

- O aparelho de som está escangalhado!

 

Ele não sabia o que significava o tal escangalhado. São palavras que estão sumindo com o tempo, tempo cada vez mais curto e corrido.

 

Mas por que estou em busca de palavras perdidas? Explico: estou organizando o primeiro dicionário brasileiro da língua morta. Quero que ele se chame assim. Talvez ainda inclua um “ilustrado” entre o “brasileiro” e o “da” e acrescente um “pequeno”. Pequeno Dicionário Brasileiro Ilustrado da Língua Morta.

 

Nos últimos meses centenas de palavras já foram jogadas dentro do meu laptop, fora de ordem, sem a mínima organização. Agora, nos primeiros dias do ano-novo quero conseguir organizar a letra A. Vou começar com Abafando. Os olhos azuis de Frank Sinatra não abafavam? E os seios de Brigitte Bardot?

 

O meu dicionário vai ser brasileiro com um pé em Minas Gerais, com um leve sotaque mineiro que acabei perdendo depois de tantos anos. Abobado, por exemplo, acho que só se falava – ou será que ainda se fala? – em Minas. Quem não se lembra daqueles mineiros que, quando voltavam do Rio de Janeiro, diziam: “Fiquei abobado com o tamanho do biquíni das moças na praia!”

 

É com prazer que escrevo sobre algumas palavras como Abreugrafia, por exemplo. Hoje, todo mundo faz um Raio-X, mas ninguém mais diz que fez uma Abreugrafia, aquela chapa inventada por Manuel Dias de Abreu.

 

O meu livro, que espero terminar até dezembro de 2011, vai falar dos gays que eram chamados de Afeminados, da babá que era a Ama-Seca, dos amantes que eram Amasiados, das pessoas que venciam na vida, que Aprumavam e das amizades que dançaram, que Azedaram. O tal dicionário vai falar também das pessoas que chegavam cansadas em casa e diziam: “Estou arreado!”

 

Por enquanto, não passei de palavras que começam com a letra A. Mas o dicionário vai até Z, de A a Z. Não vejo a hora de chegar na última letra do alfabeto para explicar que aquele colega estrábico que tínhamos no curso primário, aquele quatro olhos, pobre coitado, era chamado de Zarolho.

 

Autor dos livros “O Mundo Acabou!”, “Afinal, o que viemos fazer em Paris?”, “Admirável Mundo Velho!”, “Onde foi parar nosso tempo?” (Editora Globo) e “Carmo” (Conceito) 

 
 

Postado em 29 de Dezembro, 2010
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AlbertoVillasG
O ano que passou em branco
 

Está chegando a temporada das retrospectivas nos jornais, revistas e na televisão. O ano de 2010 está com os dias contados e nas redações é chegada a hora de catar os cacos dos doze meses que passaram porque recordar é viver. Vamos ouvir novamente o som da vuvuzela, as promessas da Dilma, muitos tiros no Alemão. Todo dezembro me dedico a passar a limpo os 365 dias, lembrando apenas das coisas que passaram praticamente em branco. Coisas que ganharam espaço mínimo ou nenhum nos jornais no ano que, queiram ou não, vai acabar à meia-noite do próximo dia 31.

 

Dois mil e dez começou, talvez ninguém se lembre, com uma pesquisa mostrando que a maioria dos brasileiros ainda não sabia o que é blue-ray, bluetooth, flashmob, giga, kindle, scrap, twiter, facebook e wi-fi.

 

Foi nesse ano que está acabando que um médico italiano revelou que as bolsas de gordura em torno dos olhos da Mona Lisa, obra prima de Leonardo Da Vinci, podem indicar que ela tinha altos níveis de colesterol.

 

Na China, enquanto um homem foi condenado a doze anos de prisão por ter fuzilado e comido o último exemplar de um tigre-da-Indochina, aqui no Brasil pesquisadores da Universidade Federal Fluminense descobriram uma nova espécie de cobra, a Tantilla sp. Assim que a pobre coitada foi descoberta, já entrou pra lista dos animais que correm risco de extinção.

 

Em São Paulo, uma pesquisa da Fundação Sead revelou que Maria é o nome mais registrado no Estado. Lá na Espanha, arqueólogos provaram que o amor é eterno. Aquele casal de esqueletos encontrado abraçado um ao outro estava agarradinho há seis mil anos.

 

Enquanto no Metropolitan de Nova York uma mulher tropeçou e caiu em cima do quadro O Ator, de Picasso, causando danos à obra-prima, a brasileira Lily Safra arrematava por 104 milhões de dólares a escultura L’Homme qui Marche, de Giacometti.

 

No momento em que o Salão do Livro de Paris exibia pela primeira vez uma fotografia  inédita do poeta Arthur Rimbaud, nos Estados Unidos uma tira inédita do Snoop de Charles Schulz  era leiloada por uma quantia equivalente a 308 mil reais.

 

Muitas coisas aconteceram em 2010 e passaram quase despercebidas. A diretora do MAM de Nova York, por exemplo, comprou para o acervo do museu o símbolo @. A sopa Campbell’s, celebrizada pelo rei do pop Andy Warhol, mudou sutilmente a sua embalagem enquanto a Pepsi-Cola prometeu aos argentinos que se a seleção azul e branca ganhasse a Copa do Mundo de Futebol o refrigerante seria vendido durante um mês sem rótulo, já que Maradona prometera ficar pelado em praça pública em caso de vitória.

 

Enquanto no Marrocos um grupo de militantes lançava a Mithly, a primeira revista gay do país, cientistas filmaram pela primeira vez, na reserva florestal de Sabh, a pantera-nebulosa-de-bornéu.

 

Foi em 2010 que um anônimo em Las Vegas arrematou em um leilão, por um preço não revelado, um raio-x de Marilyn Monroe revelando a sua beleza interior. Enquanto isso, um outro anônimo pagou 1 milhão de dólares pelo raríssimo número 27 da revista Detective Comics.

 

Foi também em 2010 que ficamos sabendo através de uma pesquisa da Onepoll que o brasileiro é o segundo povo mais bonito do mundo, só perdendo para os americanos. Enquanto isso a apresentadora Ana Paula Padrão se transformava na primeira celebridade brasileira a virar uma boneca Barbie.

 

Enquanto o lançamento do disco Y Not de Ringo Starr passava em branco, Between My Head and the Sky de Yoko Ono também passava em branco.

 

Em 2010 um estudo do INPE sobre as mudanças climáticas revelou que São Paulo não é mais a terra da garoa. Até aí tudo bem. Já no Rio, em plena luz do dia, ladrões levaram pela quinta vez os óculos da estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade que fica no calçadão de Copacabana.

 

E foi Pedro Drummond, neto de Carlos, que em 2010, remexendo os baús do poeta, encontrou um bilhete que ele guardou durante toda a sua vida, bem dobradinho e muito bem guardadinho em sua carteira de dinheiro. O bilhete estava escrito assim: “Recomendações de mamãe: não guardes ódio de ninguém. Compadece-te sempre dos pobres. Cale o defeito dos outros.” Notícia que merecia ter sido manchete dos jornais. Mas que passou praticamente em branco.  

 

Autor dos livros “O Mundo Acabou!”, “Afinal, o que viemos fazer em Paris?”, “Admirável Mundo Velho!”, “Onde foi parar nosso tempo?” |(Editora Globo) e “Carmo” (Conceito).

Postado em 17 de Dezembro, 2010
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AlbertoVillasG
Meu porquinho da Índia
 

 

Álbum de família

AlbertoVillasG

A maior herança que já recebi na vida foi um baú medindo um metro de comprimento, 60 centímetros de altura e 50 de largura. Um baú cheio de fotografias, a maioria delas em branco e preto, todas ainda em perfeito estado de conservação. Uma história que começa no início do século passado e vai até quase o fim dele.


O meu pai vivia com uma Rolleiflex dependurada no pescoço e gostava muito de fotografar. Não só fotografar, mas de escrever legendas atrás das fotos. Meticuloso, colocava a data e fazia observações do tipo: “Dia 5 de fevereiro de 1961. Tarde muito agradável com a família no zoológico de Belo Horizonte. Ao fundo um elefante faz peraltices com um feno de capim”.


De tempos em tempos, abro o baú para checar se alguma traça não estaria ali dentro destruindo o meu tesouro. Toda vez que levanto a tampa vem um leve cheiro de mofo que lembra não sei se a casa dos meus pais ou dos meus avós. Na verdade, é um cheiro de fotografias, de história. Abro, escolho algumas e fico observando. Elas dariam um livro, penso eu.


Ontem mesmo abri o baú e a primeira foto que surgiu foi uma feita no final da década de 50. “Albertinho segura o seu porquinho da Índia no alpendre da nossa casa na Rua Rio Verde. Dia 9 de agosto de 1959”.


Lá estou eu, muito loiro, com o cabelo cortado à moda príncipe Danilo, uma blusinha de malha surrada, a orelha grande, os dentes separados e o meu porquinho da Índia nas mãos, bem seguro. Era um porquinho pelo qual eu tinha uma paixão especial. Uma fêmea que, num belo dia, deu cria a três filhotinhos de uma só vez, coisa rara entre os porquinhos da índia.


É tudo que me lembro da fotografia. Gostava de tirar fotos com os  meus bichos. No baú, quem procurar vai encontrar fotografias do cachorro Tupi, de uma pomba chamada Asa Branca, de uma ninhada de coelhos, um viveiro de passarinhos e algumas galinhas Leghorn.


De tempos em tempos eu escolho uma dessas fotografias e coloco no meu escritório, de pé, numa prateleira de livros ao alcance dos olhos, para visitação pública mesmo. As pessoas que aqui entram sempre se surpreendem:


- É você?


- O que você está segurando é um porquinho da Índia?


Sim, sou eu e dessa vez eu explico: a minha paixão por porquinhos da Índia começou quando, menino ainda, li um poema de Manuel Bandeira que diz assim: “Quando eu tinha seis anos/Ganhei um porquinho da Índia/Que dor de coração me dava/Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!/Levava ele pra sala/Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos/Ele não gostava: Queria era estar debaixo do fogão/Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas/O meu porquinho da índia foi minha primeira namorada”.


Pensando bem, essa fotografia sozinha aqui, de pé na prateleira, não dá um livro. Mas deu uma crônica.


Autor dos livros “O Mundo Acabou!”, “Afinal, o que viemos fazer em Paris?”, “Admirável Mundo Velho!”, “Onde foi parar nosso tempo?” (Editora Globo) e “Carmo” (Conceito).


 
 

Postado em 10 de Dezembro, 2010
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