SIM
Sueli Baliza Dias
O Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) foi instituído pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), em 1998. Previsto para ser realizado anualmente, seu objetivo é avaliar o desempenho do aluno ao término da escolaridade básica, buscando aferir o desenvolvimento de competências fundamentais ao exercício pleno da cidadania. Pretende permitir ao estudante fazer sua autoavaliação com vistas às suas escolhas futuras, tanto em relação ao mercado de trabalho quanto à continuidade de estudos. Visa ainda estruturar uma avaliação da educação básica de modo a auxiliar nos processos dos diferentes setores do mundo do trabalho. E, finalmente, servir como modalidade alternativa ou complementar aos exames de acesso aos cursos profissionalizantes pós-médios e ao ensino superior. Este excerto inicial compõe o Documento Básico de 2000, extraído do site do Inep.
Vivemos durante décadas uma cultura de “decoreba” de conteúdos pontuais, muito bem adestrados por competentes professores de cursinhos, também treinados para o magistral show de técnicas mnemônicas, dirigidas especialmente para a entrada desses estudantes no ensino superior. Muitos se lembram das letras das músicas para a tabela periódica, para as difíceis equações de segundo e terceiro graus, para a adição de arcos, e por aí vai. Ficou marcado “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, SENO A, COSSENO B, SENO B, COSSENO A”. Lamentavelmente, após o vestibular, o resultado provoca um efeito catártico, em que a purgação para aquela quantidade de dados decorados ocorre na forma de esquecimento.
Não é isso que o Enem propõe. Sua característica de auto-avaliação das competências e habilidades adquiridas nos onze anos (ou mais) de ensino básico, busca aferir as estruturas mentais responsáveis pelo desenvolvimento do conhecimento com o qual nos situamos no mundo do trabalho, da política, da cultura, da ciência e das relações sociais. Nesse sentido, diferentemente dos modelos avaliativos tradicionais que valorizam, sobretudo, a memória, é possível perceber que a proposta do Enem é interdisciplinar e contextualizada. A avaliação das competências busca aferir a capacidade do estudante em relação ao domínio da linguagem, à compreensão de fenômenos (vários), ao enfrentamento de situações-problema, à construção de argumentos e à capacidade de elaborar propostas. Conhecimentos que ele adquire e desenvolve para a vida e não somente para realizar uma prova. Ao se avaliar o conjunto de alunos de uma determinada escola é possível verificar os parâmetros curriculares desenvolvidos naquela instituição. A média dos resultados pode indicar o melhor rumo para os projetos em curso. Assim, melhorando o ensino básico, melhoram as condições cognitivas do aluno que chega ao nível superior. Contudo, entendemos que a questão não se resume ao fato de o Enem avaliar ou não, de forma integral e única, a competência para o ingresso na universidade. É sabido que a inspiração do MEC foi o modelo norte-americano do Standard Reasoning Test (SAT), literalmente “Exame Educacional Padronizado”, elaborado pelo Conselho de Universidades para avaliar os conhecimentos adquiridos no segundo grau pelos estudantes que desejam fazer carreira universitária. Lá, o processo funciona muito bem, mas não se realiza em uma única prova, são várias etapas. Na verdade o nosso maior problema é que o ensino básico brasileiro ainda não consegue preparar o aluno para o bom desempenho nas várias áreas do conhecimento. Por isso, ele fracassa quando é avaliado.
O que não se pode é confundir a proposta avaliativa do Enem com as trapalhadas da equipe do MEC, responsável pela operacionalização da avaliação.
*Reitora do Centro Universitário UniBH
Não
Henrique Cordeiro Martins
Podemos iniciar esta breve análise de um tema tão complexo por uma pergunta: qual a diferença entre o vestibular tradicional e o Enem? A resposta é clara: em linhas gerais, não há grande diferença. Em ambas as formas, o aluno se vê intensamente pressionado a ter um desempenho excepcional em um emaranhado de provas sobre todos os assuntos, em dias e horários que, às vezes, não lhe são convenientes. De um único resultado - tanto do vestibular tradicional, quanto do Enem - depende o futuro do aluno, que poderá, ou não, ingressar no curso e na universidade dos seus sonhos.
O Enem é, sem sombra de dúvidas, uma metodologia mais avançada do que o velho vestibular, que ainda resiste aqui e ali depois de algumas décadas em vigor. O novo processo é constituído de questões mais analíticas e num contexto mais integrado. Nesse caso, o aluno precisa refletir mais, fazer inferências e buscar correlacionar assuntos. No entanto, o Enem ainda não é a excelência em avaliação. O ideal seria um acompanhamento da totalidade do histórico escolar do aluno, levando-se em conta os aspectos regionais e particulares de cada um.
De que adiantam as propostas e discussões sobre mudanças no ensino médio, elaboradas pelo Governo federal, se ao final o aluno terá que decidir o seu futuro por meio de uma única prova? O MEC anunciou e abriu para discussões da sociedade a intenção de promover mudanças curriculares no ensino médio. Uma das primeiras medidas adotadas foi a obrigatoriedade da inclusão das disciplinas de filosofia e sociologia nas 23.561 escolas públicas e privadas de ensino médio do país, que têm um total de nove milhões de alunos. Outras mudanças, ainda não implementadas, se relacionam com a ampliação de carga horária dos três anos do ensino médio, como também a leitura como elemento básico de todas as disciplinas, fomento de atividades culturais e professores com dedicação exclusiva, dentre outras. O objetivo maior do MEC, com essas propostas, é, sem dúvida, melhorar a qualidade oferecida pelas escolas brasileiras. Ora, se o propósito é oferecer maior atratividade e qualidade nesse período da vida acadêmica, então que a avaliação e a definição da educação continuada do aluno não seja de forma única, como está prevista pelo Enem, mas que isso ocorra por meio de um conjunto de avaliações ao longo das atividades ou anos de estudo.
Os números divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, são irrefutáveis: quase a metade dos 2,6 milhões de alunos que fizeram as provas, no final de 2009, teve notas inferiores aos 500 pontos estabelecidos como média em todas as quatro áreas avaliadas. Isso sem falar na sucessão de problemas envolvendo o Enem.
A opção pelo acompanhamento integral da vida escolar do aluno, a exemplo do que acontece nos Estados Unidos, seria a saída para uma educação superior inclusiva. Hoje apenas 13,9% , dos 24 milhões de jovens brasileiros entre 18 e 24 anos, estão matriculados no ensino superior, um dado que envergonha o Brasil tanto na América Latina quanto no restante do mundo.
**Doutor em Administração e professor da Universidade FUMEC
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