A Serra da Gandarela, que guarda as últimas reservas de água de classe especial (as de melhor qualidade encontradas na natureza) da Região Metropolitana de BH, é hoje a bola da vez da exploração de minério de ferro em Minas. O projeto da Mina Apolo, da transnacional Vale SA, ao destruir no relevo da região a camada de canga que possibilita a filtragem e armazenagem natural de água da mais alta qualidade, além de rebaixar o nível do lençol freático da área para possibilitar a exploração e a lavagem do minério, pode comprometer seriamente o abastecimento futuro de água da RMBH. Também coloca em risco a população de Raposos, ameaçada por uma gigantesca barragem de lavagem de rejeitos a poucos quilômetros da cidade, no leito do Ribeirão da Prata, pouco acima da Cachoeira de Santo Antonio, importante atração turística da região. O equilíbrio ecológico da região é extremamente delicado, e as áreas remanescentes de mata atlântica e campos rupestres ferruginosos da Gandarela guardam exemplos importantes e endêmicos da fauna e flora regionais, além de um patrimônio de grutas ainda pouquíssimo estudado. A proposta de criação do Parque Nacional da Serra da Gandarela, atualmente em estudos pelo ICMBio - Instituto Chico Mendes/MMA, visa preservar esta importante reserva natural, parte integrante do Corredor Ecológico do Espinhaço, região declarada pela Unesco como Reserva Mundial da Biosfera, dadas suas características únicas de biodiversidade, importância estratégica em recursos hídricos e potencial de aproveitamento turístico sustentável.
É importante desmistificar a ideia de que a exploração mineral pode ser feita de maneira sustentável - a opção é sempre entre explorar o minério ou preservar a paisagem e os recursos hídricos e de biodiversidade. No caso do Quadrilátero Ferrífero - que seria melhor denominado Quadrilátero Aquífero, pois as áreas que concentram os depósitos de ferro são também as que armazenam a maior quantidade de água de alta qualidade - Minas Gerais já pagou um preço demasiadamente alto por ter em seu território imensas jazidas minerais, sem que a população tivesse garantido os benefícios desta exploração, ficando apenas, de modo geral, com os prejuízos ambientais, humanos e financeiros, enquanto os acionistas nacionais e estrangeiros levam o lucro para longe. Itabira e Caeté são alguns dos exemplos do que não se deve fazer neste sentido. Conceição do Mato Dentro vive hoje uma situação degradante, com aumento da poluição e comprometimento da vazão dos seus cursos d’ água, além da explosão da violência e da prostituição causadas pela importação de mão de obra desqualificada, sem que a população local tenha melhores condições de emprego ou perspectivas para o futuro.
É preciso mudar o paradigma de uso dos recursos naturais de um cenário de exploração míope e imediatista de lucro fácil para um modelo que garanta aos nossos filhos e netos a qualidade de vida de que a humanidade necessita.
Professor da Universidade Federal de Minas Gerais
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