O menino de 12 anos, filho de uma amiga, escreveu uma carta para a mãe pedindo desculpas pela nota bem abaixo da média em matemática e reafirmando seu amor por ela. Recheou o papel de corações, disse estar arrependido e "despreparado" para enfrentar a escola em que entrou neste ano. Para entregar a carta, o garoto esperou a mãe sair para uma reunião com a coordenação pedagógica da escola, correu à janela quando ela ainda estava no passeio do prédio em que moram e lançou do alto o envelope cheio de pedrinhas. O peso garantiu que o papel não fosse desviado pelo vento.
Passamos hora, eu e essa amiga, tricotando sobre as expectativas que alimentamos em torno de nossos filhos quando o assunto é estudo. Por mais que os psicólogos nos avisem que até uma certa idade a criança não dá conta de projetar para um futuro tão distante, sempre nos pegamos a falar com os pequenos sobre aonde não chegarão caso continuem desleixados com a única tarefa que lhes é dada nessa fase da vida: estudar!
Atire a primeira pedra mãe ou pai que nunca alertou aos filhos sobre o risco de não conseguirem um bom emprego quando adultos e, por consequência, perderem conforto e segurança. Seja rico, seja pobre, desejar que os filhos conquistem coisas melhores do que têm hoje é sonho quase unânime entre os pais. Que essas sejam coisas emocionais, como realização profissional ou na vida afetiva, estão sempre em foco.
Mas quem disse que estudar é pouco quando se é criança? Pode ser para gente grande, tanto que muitos conciliam faculdade e trabalho. Porém, viver por si só para os pequenos é muito. Todo dia é dia de descoberta, toda hora é tempo de aprendizado, mesmo para os mais desatentos. O problema é que nossa memória não armazenou o tamanho da ansiedade sentida diante de cada prova, de cada novo conteúdo e da vergonha ao não conseguir uma boa nota, mesmo que isso fosse previsível diante do esforço zero.
Ansiedade percebida na carta do filho da minha amiga, que é severa e dedicada mãe, porém sempre carinhosa. Pontuada por uma grande dose de chantagem, estratégia para convencer aquela que ele decepcionou de que nota ruim tem pouco a ver com falta de amor (ele repete várias vezes que a ama), a carta se traduz em puro medo desse futuro, sobre o qual não nos cansamos de alertar nossos pequenos.
Em horas como essa, penso que devemos tentar ser menos ansiosos e transferir mais tranquilidade aos nossos filhos, organizar nossa rotina e a deles, mostrar que as coisas acontecem por etapas, mesmo que às vezes um pouco "atrasadas" em relação ao tempo dos filhos dos outros. Está aí o segredo, mas desvendá-lo não o torna menos desafiante.
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