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Difícil, hoje, tentar definir exatamente há quanto tempo sou leitor de quadrinhos, mas posso afirmar que há mais de dez anos me empenho em ir além somente da leitura, aprofundando também no estudo da linguagem e sua aplicação em outras áreas. Durante todo este tempo, a constante que sempre me perseguiu e acredito, vai continuar perseguindo a mim e a todo leitor de quadrinhos é o preconceito brasileiro quanto a este meio de comunicação.
Já vivi inúmeras situações, mas duas me chamaram mais a atenção, porque vieram de profissionais que, se espera, tenham a mente mais aberta e menos preconceituosa: jornalistas. Há cerca de cinco anos atrás ministrei uma oficina sobre a linguagem dos quadrinhos em uma faculdade de Divinópolis. Ok! Admito que me faltou certa habilidade em conduzir a oficina, mas o caso é que quando disse que os quadrinhos ganhariam espaço cada vez mais no mercado, principalmente o brasileiro, uma jornalista presente pegou um revista em quadrinhos, apontou para ela com total desdém (quase nojo, chego a dizer) e disse em um tom de pergunta retórica: “Então você quer dizer que ISTO vai passar a vender mais?”.
O outro incidente foi mais recente e aconteceu via a febre mundial do twitter. Essa ferramenta permite que você saiba mais sobre o que quer e também sobre o que não quer. Trocando alguns “twitts” com um amigo sobre a produção nacional e internacional de quadrinhos, um outro jornalista postou o seguinte: “Vou arrumar uma revista do Chico Bento para vocês lerem no recreio”. E este post ainda foi retwittado por outra jornalista.
Primeiramente vamos deixar bem claro que não tenho nada contra o Chico e nem contra a Turma da Mônica. Muito pelo contrário. Adoro os personagens criados pelo Mauricio de Souza e ele merece os parabéns pelo trabalho que fez e continua realizando neste meio século com as histórias em quadrinhos.
Pois bem! Sabendo que não tenho preconceito quanto a Turma da Mônica, ainda hoje tento entender o que se passa na cabeça de pessoas, umas até bem instruídas, para acreditarem piamente que hq`s são, exclusivamente, coisa de criança e ainda fazerem piada de quem lê histórias em quadrinhos. Talvez morra sem saber a resposta para essa questão, já que em países como EUA, Japão, França, Inglaterra e Coréia, não existe esse preconceito besta e sem sentido.
Sidney Gusman é responsável pelo mais importante site de quadrinhos do Brasil (www.universohq.com) e também é considerado o jornalista com maior credibilidade sobre o assunto em terras tupiniquins, participou de um podcast especializado recentemente e deixou claro o que pensa e como enxerga os quadrinhos no Brasil. Quadrinhos é coisa de criança? É, mas não é só para crianças! Existem quadrinhos para todos os gostos e idades. Gusman compara os quadrinhos ao cinema: existem vários gêneros para vários gostos, basta cada um escolher o seu.
Gusman deixa um recado interessante, que cabe aos leitores de quadrinhos o trabalho de “formiguinha” para tentar destruir o preconceito a respeito das hq`s. O difícil não é tentar, mas sim a pessoa dar o braço a torcer.
Fiquei pensando sobre a fala de Sidney e rememorando esses dois episódios. Indaguei-me: “Será que essas pessoas tiveram sequer a curiosidade de ler uma graphic novel qualquer para saberem o que estão dizendo?”. Entendo eu, como jornalista, que não nos cabe ter um juízo de valor pré-concebido sobre praticamente nada, pelo menos, não antes de termos um conhecimento parcial do assunto. Isso porque se um profissional de comunicação se deixar levar pelas suas crenças e definições, ele corre o risco de se cegar perante boas matérias, simplesmente porque na sua visão, tal fato não é interessante.
Maus, de Art Spielgman, ganhou o Pulitzer e é, historicamente, a única história em quadrinhos a receber o maior prêmio de jornalismo no mundo. O italiano Joe Sacco realizou uma série de reportagens em formato de quadrinhos, recebendo inúmeros elogios da crítica internacional. Jornais de grande destaque no Brasil e no mundo, como a Folha de São, Hoje em Dia e o New York Times, apresentam quadrinhos com a mesma importância do cinema, música ou literatura.
Com tamanha divulgação, circulação e relevância mundial das hq`s, em vez de um preconceito, seria na verdade uma ignorância generalizada, baseada no senso comum e difundida por inúmeras pessoas sem o menor senso crítico? Porque neste meu trabalho de formiguinha, como disse Gusman, o que percebo que nós, leitores de quadrinhos, nos esforçamos em derrubar mitos e fábulas sobre o assunto. O problema são pessoas que não querem ver a situação sob um novo ponto de vista.
Retomando o caso do mercado de hq`s, indagado pela jornalista durante a oficina, há cinco anos. Hoje, uma das mais importantes editoras do país, a Companhia da Letras, criou um selo exclusivo para publicar histórias em quadrinhos no Brasil: Quadrinhos na Cia.
O dia do quadrinho nacional foi comemorado na semana passada, para ser mais exato, no dia 30, sexta-feira. Esta data é lembrada em honra ao pioneiro artista Ângelo Agostini [1843-1910] que publicou, a 30 de janeiro de 1869, Nhô-Quim, ou Impressões de uma Viagem à Corte, considerada a primeira história em quadrinhos brasileira e uma das mais antigas do mundo. Várias cidades realizaram eventos para marcar o dia, como São Paulo, Fortaleza, Pernambuco e Belo Horizonte. As comemorações reuniram fãs, quadrinistas e curiosos, em uma das datas mais importantes para as hq`s no Brasil.
Vale lembrar também o FIQ: Festival Internacional de Quadrinhos, que acontece em Belo Horizonte de dois em dois anos, reunindo um público imenso. O evento, antes realizado na Serraria Sousa Pinto, no ano passado ganhou mais destaque e o Palácio das Artes se tornou durante uma semana inteira a sede de quadrinhos mundiais.
Diante desse impasse, dos quadrinhos versus o preconceito, poderia discorrer ainda mais sobre o assunto, mas deixo aqui um desafio para aqueles que carregam um conceito falho e decadente: leiam uma revista em quadrinhos. Procurem uma indicação – como já postei aqui – e leiam sem receios. Conheçam mais sobre o assunto antes de falarem (ou criticarem) a respeito. Aí sim, um pouco mais sabedores do assunto, fica aberta a porta para críticas, mas sem preconceitos, por favor. Porque se continuar assim, vão existir jornalistas afirmando que um negro jamais chegaria ao cargo de líder da nação mais poderosa do mundo. Cegos por um preconceito tolo...
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