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FIQ tem magia de Maurício de Souza

 

Jorge Rodrigues Jorge

Maurício de Souza

Maurício de Souza e suas criações: alquimia eterna




Atire a primeira pedra quem nunca, criança ou adulto, deliciou-se com as peripécias da turma da Rua do Limão. Sim, estou falando da dentuça da Mônica e seu coelho azul, Sansão, tão encardido quanto o Cascão, a esfomeada Magali e sua paixão pelas melancias e, claro, Cebolinha trocando os “erres” pelos “eles”, munido de seus planos infalíveis invariavelmente encerrados com uma coelhada na cabeça.
 
Pois é. O criador desta turma inesquecível, que ganhou recentemente uma versão adolescente de enorme sucesso, é o genial Maurício de Souza. O adjetivo é válido, sem nenhuma sombra de exagero. Este inventor formidável de personagens e histórias que driblam a força do tempo é uma das principais atrações da sexta edição do Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), que movimenta Belo Horizonte de 6 a 12 de outubro. Ele conversará com alunos da rede pública municipal no Grande Teatro do Palácio das Artes, nesta quinta (dia 7), às 14 horas. Será uma rara chance de conferir de perto os bastidores da criação de um artista gráfico da melhor estirpe.

Aliás, o FIQ, evento todo gratuito, é a prova de que as histórias em quadrinhos há muito tempo deixaram de ser vistas como 'algo menor' ou 'coisa de criança'. O ledo engano foi decretado, sobretudo, na França, onde os quadrinhos são levados a sério tanto pelos críticos e acadêmicos como pelo mercado. E é sempre bom lembrar da excepcional definição do desenhista norte-americano Will Eisner, criador do “Spirit” e de novelas gráficas como “New York, A Grande Cidade” e “O Edifício”. Para ele, Hqs, antes de mais nada, devem ser vistas como “arte sequencial'.

No Ano da França no Brasil, o FIQ transcende efemérides com as presenças de artistas significativos como Cizo e Frédéric Felder, que gestaram a instalação “Supermercado Ferraille”, uma cítrica crítica aos exageros da sociedade de consumo. Eles substituem produtos comuns das prateleiras dos supermercados por similares irônicos, como o leite de boi e a pizza em lata.

 

Postado em 5 de Outubro, 2009
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Literatura no interior de Minas é modelo alternativo às bienais

 

DIVULGAÇÃO

Ziraldo

Ziraldo teceu revelações sobre o amigo Fernando Sabino em Ipatinga

Participei nesta semana da quarta edição do Salão do Livro do Vale do Aço, em Ipatinga. É a terceira vez que vou àquela cidade para prosear com o público em torno da literatura. Desta vez, o trabalho foi mais extenso e intenso. A gente sente o cansaço físico, mas, por outro lado, é inegável uma certa sensação de regozijo espiritual, de troca de fôlego e renovação de energias. Tudo começou com uma agradável conversa com o cartunista Ziraldo sobre sua amizade com Fernando Sabino, que contou com participação afetiva do filho do autor de “O Encontro Marcado”, o documentarista Bernardo Sabino.

 

O criador de “Flicts”, obra-prima que está completando 40 anos de gestação, lembrou da tristeza e melancolia de Sabino nos últimos anos de vida, principalmente devido à decepção com amigos que detonaram seu romance-folhetim “Zélia, Uma Paixão', principalmente, Millôr Fernandes. Ziraldo insinuou também um provável romance entre Sabino e Clarice Lispector. O filho do escritor, Bernardo, ouviu tudo em silêncio e não retrucou. Como diz o velho ditado, quem cala, consente!

 

Em Ipatinga, tive o prazer de ser mediador de debates do Seminário de Literatura Infantil e Juvenil, sob curadoria do jornalista e contista Adriano Macedo. É sempre muito legal reencontrar autores como Angela Leite de Souza, Neusa Sorrenti e Lino de Albergaria, com quem conversei nas mesas “Memória, Histórias Lá de Casa” e “Descoberta, O Mundo À Nossa Volta”. E conhecer gente nova como o o espevitado escritor Ilan Brennan, autor do delicioso “Até As Princesas Soltam Pum” e a genial contadora de histórias Aline Cântia, mineira de Viçosa, cuja poesia da fala e dos gestos precisa ser amplamente conhecida.

 

Eventos como o de Ipatinga me levam a refletir sobre alternativas à grandiloquência das bienais, cada vez mais atreladas ao extrato mercadológico. É preciso entender que consumir livros não significa necessariamente ler os mesmos. Eventos menores, por outro lado, como a Festa de Paraty, no Rio de Janeiro, acabam padecendo de outro mal, o exclusivismo elitista, na contramão da inclusão literária. O Salão do Vale do Aço dividiu suas atividades entre Ipatinga, Coronel Fabriciano, Timóteo e Belo Oriente, apostando a interiorização. Eis aí uma inteligente opção aos modelos vigentes.

 

E, por falar em eventos literários, neste fim de semana (de 5 a 12 de outubro) começa em Montes Claros a edição número 23 de seu tradicional “Psiu Poético”, o mais antigo festival dedicado à poesia no Brasil. O idealizador Aroldo Pereira sonha, agora, com o tombamento do evento como patrimônio cultural imaterial de Minas Gerais. A poesia merece! Vamos todos apoiar esta causa.

 

Postado em 5 de Outubro, 2009
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Jabuti define lista de vencedores, Minas é coadjuvante

 

Divulgação

Carpinejar

Fabrício Carpinejar ganhou o Jabuti de crônica



Quem investe em boa literatura e sabe divulgar bem seus autores colhe os frutos necessários. A editora paulista Companhia das Letras prova mais uma vez sua força com o resultado do Prêmio Jabuti, anunciado na tarde de terça-feira na capital paulista na sede da Câmara Brasileira do Livro (CBL). Na categoria de romance, a editora abocanhou os três primeiros prêmios. O grande vencedor foi o gaúcho Moacyr Scliar pelo seu hino ao onanismo, “Manual da Paixão Solitária”.  O segundo lugar ficou para o amazonense Milton Hatoum, autor de “Órfãos do Eldorado”. O terceiro para Daniel Galera com o seu “Cordilheira”.

Na categoria de contos e crônicas, outro gaúcho, o performático Fabrício Carpinejar venceu com “Canalha”. Minas Gerais ocupou os dois outros lugares, com “Ostra Feliz Não Faz Pérola”, de Rubem Alves, meu conterrâneo da linda Boa Esperança, e o surpreendente “Os Comes e Bebes nos Velórios das Gerais e Outras Histórias”, de Déa da Cunha Rocha, divertida reunião de textos e receitas relacionados com o universo dos féretros.

Os haicais e poemas de matizes orientais da paranaense Alice Ruiz, com “Dois em Um”, reunião de sua poesia lançada pela editora Iluminuras, foram premiados com o primeiro lugar em poesia. Na terceira colocação, uma surpresa, 'Outros Barulhos', do maranhense
Reynaldo Bessa, obra publicada pela editora belo-horizontina Anome, coordenada pelo poeta Wilmar Silva.

O livro “Fazendas de Minas Gerais”, publicado pela Cemig,  ganhou o primeiro lugar de projeto gráfico, através dos irmãos e designers Marconi e Marcelo Drummond Lage. Os gêmeos itabiranos, sempre tão talentosos, mereciam o prêmio. Humberto Werneck ficou em terceiro lugar na categoria de biografia, com seu enriquecedor trabalho sobre o compositor paraense Jayme Ovale, “O Santo Sujo”, publicado pela editora CosacNaify.

Atenção, o Jabuti ainda não acabou. No dia 4 de novembro, em cerimônia chique na Sala São Paulo, serão anunciados os livros do ano de ficção e não-ficção. Cada um deles levará R$ 30 mil

Confira, a seguir, a lista completa dos vencedores nas principais categorias


Romance
1º: “Manual da Paixão Solitária”,  de Moacyr Scliar (Companhia das Letras)
2º: “Orfãos do Eldorado”, Milton Hatoum (Companhia das Letras)
3º: “Cordilheira”, de Daniel Galera (Companhia das Letras)


Poesia
1º: “Dois Em Um”,  de Alice Ruiz S (Editora Iluminuras)
2º: “Antigos e Soltos: Poemas e Prosas da Pasta Rosa”, Instituto Moreira Salles  (Instituto Moreira Salles)
3º: “Cinemateca”, de Eucanaã Ferraz (Companhia das Letras) e “Outros Barulhos”, de Reynaldo Bessa (Anome Livros)


Contos e Crônicas
1º: “Canalha! – Crônicas”, de Fabricio Carpinejar (Editora Bertrand Brasil)
2º: “Ostra Feliz Não Faz Pérola”, de Rubem Alves (Editora Planeta)
3º:  “Os Comes e Bebes nos Velórios das Gerais e Outras Histórias”, de Déa Rodrigues Da Cunha Rocha (Auana Editora)


Biografia
1º: “O Sol do Brasil”, de Lilia Moritz Schwarcz (Companhia das Letras)
2º: “José Olympio, o Editor e Sua Casa”, de José Mario Pereira (G.M.T.)
3º: “O Santo Sujo: A Vida de Jayme Ovalle”, de Humberto Werneck (Cosac Naify)


Reportagem
1º: “O Livro Amarelo do Terminal”, de Vanessa Barbara (Cosac Naify)
2º: “O Sequestro dos Uruguaios - Uma Reportagem dos Tempos da Ditadura”, de Luiz Cláudio Cunha (L&PM)
3º: “1968 - O Que Fizemos de Nós”, de Zuenir Ventura (Editora Planeta)


Infantil
1º: “A Invenção do Mundo pelo Deus-Curumim”, de Braulio Tavares (Editora 34)
2º: “No Risco Do Caracol”, de Maria Valéria Rezende e Marlette Menezes (Autêntica Editora)
3º: “Era Outra Vez Um Gato Xadrez”, de Leticia Wierzchowski (Record)


Juvenil
1º: “O Fazedor de Velhos”, de Rodrigo Lacerda (Cosac Naify)
2º: “Cidade dos Deitados”, de Heloisa Prieto (Cosac Naify e Edições Sesc-SP)
3º: “A Distância das Coisas”, de Flávio Carneiro (Edições SM)
 

Postado em 29 de Setembro, 2009
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A poesia total de Laura Riding

 

DIVULGAÇÃO

Laura Riding

O rigor modernista de Laura Riding não deve ser esquecido



 

Reler é um dos verbos mais agradáveis da face da terra. Limpando a poeira das estantes, de repente, dou de cara com um livro que me deixou muito impressionado no momento de sua primeira leitura, há, creio, cinco anos.

 

O reencontro com os versos vitais da norte-americana  Laura Riding (1901-1991), um dos principais nomes da poesia modernista em seu país, foi para lá de fortuito.

 

A tradução de "Mindscapes", assinada pelo poeta e ensaísta paranaense Rodrigo Garcia Lopes ("Solarium", "Polivox", "Nômadas"), que já verteu à língua portuguesa Rimbaud e Sylvia Plath, foi publicada pela editora Iluminuras, de São Paulo (SP), e ainda pode ser encontrada em pontas de estoques de livrarias e sebos, um senhor negócio.

 

Laura Riding é autora de dicção única, quase inimitável. Para ela, a poesia tem uma importância muito além do próprio processo de criação e construção literária. É, na verdade, a forma máxima de conhecimento do mundo, uma disciplina, assim como a História e a Filosofia. Dona de uma radicalidade de pensamento, de atitudes ácidas, ela conviveu com nomes como Virginia Woolf, T.S. Eliot, William Carlos Williams, Ezra Pound, William Butler Yeats, W. H. Auden e Gertrude Stein, embora mantivesse uma postura de independência crítica que resvalava, sem dó, em uma ética e estética próprias, capazes de desafiar até mesmo o próprio exercício poético.

 

Em 1939, no auge de sua polêmica carreira como poeta, pesquisadora da linguagem e ensaísta, ela abandonou a poesia. Parecia prever o que o filósofo Theodor W. Adorno comentaria a respeito da gestação literária após o término da Segunda Guerra Mundial e a descoberta para o mundo dos horrores dos campos de concentração nazista e a perseguição aos judeus. "É impossível escrever poesia depois de Auschwitz", disse Adorno.

 

 Por premonição e com antecedência, Laura levou a sério a definição do apocalíptico Adorno. Só voltaria a escrever poemas nos anos 19660, mudando inclusive seu sobrenome para Jackson. Nessas mais de três décadas de silêncio, a autora acompanhou seu companheiro na produção de laranjas em uma fazenda no interior dos Estados Unidos. Embora abraçasse a agricultura e a criação cítrica, não deixou de lado a pesquisa com a linguagem, embora seus cada vez mais raros poemas só ganhassem circulação a partir dos anos 1970.

 

Embora tenha tido seu nome praticamente eliminado do cânone poético norte-americano da primeira metade do século XX e seus versos estivessem presentes em apenas raras coletâneas, Laura Riding fez a cabeça de gerações de poetas e ficcionistas, entre eles John Ashbery (autor de "Auro-Retrato Num Espelho Convexo"), Kathy Acker e Paul Auster, que a cita como uma de suas principais influências no belo e seminal ensaio "A Arte da Fome" (publicado no Brasil pela editora José Olympio).

 

Sua poesia fortemente comprometida com o grau de depuração da linguagem deságua também nas propostas vanguardistas da "language poetry" norte-americana a partir de nomes como Charles Bernstein, Michael Palmer e Jerome Rothenberg. A tradução de Rodrigo Garcia Lopes é a primeira em língua não-inglesa. . Reflexiva, iconoclasta, auto-referente, Laura Riding apostava em seus "mindscapes" (título desta coletânea), cuja melhor tradução aproximativa à língua portuguesa seria "pensagens", espaços verbais transpostos à escrita onde há um constante flerte entre razão e emoção, cálculo e desejo, rigor e respiro, cavalgada de paradoxos sutilmente explorada pela autora. Em um dos poemas, “O Mapa dos Lugares”, a norte-americana assume uma geografia de risco. Confira, a seguir.

 

O MAPA DOS LUGARES


 O mapa dos lugares passa
A realidade do papel se rasga
Onde terra e água estão
Estão apenas aonde já estavam
Quando palavras se liam aqui e aqui
Antes de navios acontecerem ali
Agora de pé sobre nomes nus,
Sem geografias na mão,
E o papel é lido como antigamente,
os navios no mar
Dão voltas e voltas
Tudo sabido, tudo encontrado
A morte cruza consigo por toda parte
Buracos nos mapas dão em lugar algum.

(Tradução de Rodrigo Garcia Lopes)

Postado em 28 de Setembro, 2009
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Dez anos sem Cabral e sem homenagens no Brasil

 

Instituto Moreira Salles/Divulgação

Dez anos

E lá se passaram dez anos sem a presença e o rigor de João Cabral



 

Como o tempo passa! No próximo dia 9 de outubro, completam-se dez anos da morte do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Um dos principais nomes da cena literária brasileira no século XX, ao lado dos mineiros Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes, da carioca Cecília Meireles e do pernambucano Manuel Bandeira, ele se notabilizou por versos secos, ásperos, sempre preocupados com o rigor da linguagem. O resultado pode ser deglutido em obras essenciais como “O Cão Sem Plumas”, “Agrestes” e, até mesmo, em seu livro mais conhecido, “Morte e Vida Severina”.




Nunca mais vou esquecer o momento em que recebi a notícia de sua morte. Era um sábado de manhã. Estava no barbeiro esperando minha vez de ser atendido. O celular toca. Do outro lado, a colega Silvana Arantes, então editora-adjunta do Caderno de Cultura do HOJE EM DIA, hoje na Folha de São Paulo, avisa-me da morte do poeta. Corro da Rua Goiás para o meu apartamento, na época no Caiçara. Saio de lá carregado dos principais livros de e sobre Cabral. Chego na redação, na Rua Padre Rolim e planejamos a edição, driblando problemas de espaço com o então chefe no plantão, Hélcio Zolini. Derrubamos parte considerável das notícias catastróficas da seção “Mundo”. Naquele domingo, dia seguinte à morte de Cabral, o poeta praticamente dominou o “mundo”.





Adivinhem onde estão previstas as principais homenagens ao autor na passagem de uma década sem a força cabralina. Em Recife? No Rio de Janeiro, onde passou os últimos anos de sua vida, praticamente trancado em seu apartamento, sofrendo de uma enxaqueca crônica e enfrentando uma quase cegueira, que o afastou da vida social e dos poucos amigos? Que nada! Os tributos acontecem lá na Espanha, onde João Cabral de Melo Neto morou durante 14 anos exercendo atividades de natureza diplomática. Cidades como Salamanca, Sevilha e Barcelona promovem ciclos de conferências sobre a obra do poeta.




O tributo a Cabral na Espanha está sendo organizado pela Fundación Cultural Hispano Brasileña e conta com um apoio de uma entidade brasileira, o Instituto Moreira Salles, de São Paulo, que criou uma versão em espanhol do volume dedicado a João Cabral na série “Cadernos de Literatura Brasileira”, lançado originalmente em 1996.




Os dez anos sem Cabral mereciam maior destaque, sem sombra de dúvida.




P.S: Acabo de receber a notícia de que a Academia Brasileira de Letras realiza amanhã, dia 25, a partir das 17h30 na sua sede no Rio de Janeiro, uma conferência em homenagem a Cabral, com as participações dos poetas Antônio Carlos Secchin e Lêdo Ivo. Ainda é pouco, muito pouco. Cabral necessita de muito mais.

Postado em 23 de Setembro, 2009
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Um gauche na Internet

 

ESPÓLIO CARLOS DRUMMOND

dRUMMOND

Carlos Drummond de Andrade ganha site oficial, presente da editora Record aos fãs do poeta



Um presente para os fãs de um dos maiores nomes da literatura  brasileira no século XX: o itabirano  Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) foi dado por sua editora, a Record, em comemoração aos 25 anos das presenças da poesia e prosa do autor de “Boitempo” e “A Rosa do Povo” no catálogo daquela casa editorial. Em 1984, o poeta trocou a editora José Olympio pela Record. Dois grandes lançamentos póstumos marcaram a permanência do escritor na nova geografia: os versos explicitamente eróticos de “O Amor Natural” e a nostalgia saborosa e reflexiva de “Farewell”.

 

O site oficial do poeta pode e deve ser acessado no seguinte endereço eletrônico www.carlosdrummonddeandrade.com.br.

 

 Com informações preciosas sobre a vida e obra de um escritor que continua seduzindo leitores e driblado a força do tempo, o site traz minudências de uma ampla obra. É sempre bom lembrar que Carlos Drummond escreveu até o final de sua vida. O site traz uma lista completa de livros do autor publicados pela Editora Record, além de fotos e vídeos de Drummond em momentos de cotidiana intimidade. Atualizado semanalmente, o sítio contará ainda com poesias, contos e algumas curiosidades, como fotos pessoais e manuscritos, fornecidos por Pedro Augusto Graña Drummond, neto do autor, filho da também escritora Julieta Drummond de Andrade, e principal responsável pelos direitos autorais da obra do avô.


Outra novidade é a “Rádio Drummond”, que apresenta alguns de seus principais poemas musicados. Em breve, entrarão no ar também entrevistas e trechos de poesias ditos  pelo próprio Drummond. Os leitores podem baixar no site papéis de parede com imagens do autor e participar de promoções quinzenais, nas quais serão premiados com livros do escritor. O site conta ainda com uma área dedicada aos internautas, onde estes podem entrar em contato com a editora sobre assuntos relacionados ao autor, tirar suas dúvidas, dar sugestões, solicitar poesias e fazer comentários. Os leitores cadastrados receberão por e-mail newsletters e novidades sobre as promoções.

 

Drummond, quem diria, foi ser gauche nas ondas vibrantes da Internet. O mundo, vasto mundo, agora, é virtual! 

Postado em 21 de Setembro, 2009
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Definidas atrações do Fórum das Letras de Ouro Preto

 

Divulgação/Gallimard

Definidas atrações do Fórum das Letras de Ouro Preto

Stéphane Audeguy participa do Fórum das Letras em novembro



 


Passarinho pousou neste terreiro virtual e trouxe alvíssaras de bom tom. A quinta edição do Fórum das Letras de Ouro Preto, que acontecerá entre os dias 28 de outubro e 2 de novembro, já tem parte de sua programação definida, com destaque, claro, para os laços afetivos e culturais do Ano da França no Brasil. A principal mudança do festival literário, que tem curadoria da professora e ensaísta Guiomar de Grammont, é de natureza geográfica. Sai de cena o Centro de Convenções, no Parque Metalúrgico da UFOP e entra em campo o delicioso e aconchegante Cine Vila Rica.

Quanto à programação, que será divulgada integralmente só no dia 29 de setembro, em entrevista coletiva a ser realizada em Belo Horizonte, já estão garantidos nomes como o premiado ficcionista e ensaísta francês Stéphane Audeguy, autor de livros como “Filho Único”, elogiada biografia ficcional de François Rousseau, irmão do pensador iluminista Jean-Jacques Rousseau (autor do célebre “Contrato Social”), cuja existência foi catapultada pela fama do irmão, celebridade intelectual de seu tempo e, claro, fora dele.

O Fórum também trará a editora Anne-Marie Metallié, para celebrar, em Ouro Preto, os 30 anos das edições Metaillié, uma das principais editoras francesas especializadas em literatura de língua portuguesa, a qual já editou diversos autores brasileiros, inclusive contemporâneos. . Estão confirmadas também as participações da portuguesa Lídia Jorge e do poeta Arnaldo Antunes, que dará coloração pop à noite de abertura, ao lado do belo-horizontino e performático Ricardo Aleixo.

O casal Ruy Castro e Heloísa Seixas, a historiadora Mary Del Priore, os jornalistas José Castello e Edney Silvestre são outras atrações confirmadas. As discussões do Fórum das Letras de Ouro Preto vão girar em torno do tema “Biografia e Ficção”, o que justifica a escolha de grande parte dos autores. O encerramento terá uma aula-show com as presenças de José Miguel Wisnik e Arthur Nestrowski. Detalhe: os dois encerraram com brilho a segunda edição do Festival Literário de São João Del-Rei (Felit), no ano passado, então sob curadoria do poeta Mário Alex Rosa. A dupla emocionou quem esteve no Teatro Municipal de São João naquela manhã de domingo. E deve repetir a dose em Ouro Preto.
 

Postado em 18 de Setembro, 2009
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Dois mineiros na final do Portugal Telecom
Alécio Cunha

 

DIVULGAÇÃO

Maria Esther Maciel

Maria Esther Maciel é finalista de um dos mais importantes prêmios literários do país

São 10h50 de uma quente quinta-feira em Belo Horizonte. Acabo de receber, em primeira mão, a lista dos finalistas de um dos mais importantes prêmios literários do país. Dois escritores mineiros estão na listagem final do Prêmio Portugal Telecom de Literatura: Maria Esther Maciel e Silviano Santiago. Mineira de Patos de Minas e uma das mais criativas professoras da Faculdade de Letras da UFMG, Maria Esther concorre com o delicado e provocativo “O Livro dos Nomes”, publicado pela Companhia das Letras. É uma obra que brinca com a taxonomia e as órbitas gravitacionais em torno de manias classificatórias. De certa maneira, é uma sequência dialógica e suplementar com o trabalho anterior da autora, “O Livro de Zenóbia”, lançado pela editora Lamparina, obra igualmente original.

 

O outro finalista, mineiro de Formiga, enfant terrible na Belo Horizonte dos anos 1950, Silviano Santiago, concorre com “Heranças”. Radicado no Rio de Janeiro desde a década de 1960, o poeta, ensaísta, romancista e professor, autor de 'Em Liberdade”, “Crescendo Durante a Guerra Numa Província Ultramarina” e “Cheiro Forte” cria no romance “Heranças”, publicado pela editora Rocco, uma reflexão sobre a identidade brasileira, ecoando influências de Machado de Assis na saga de um protagonista devasso e decadente, acertando as contas consigo mesmo e com o mundo.

 

Confira os outros finalistas do Prêmio Portugal Telecom, cuja entrega será no dia10 de novembro, em São Paulo, quando serão conhecidos os três vencedores (o primeiro lugar leva R$ 100 mil)):


A arte de produzir efeito sem causa,  de Lourenço Mutarelli (Companhia das Letras)
A eternidade e o desejo, de Inês Pedrosa (Alfaguara - Objetiva)
Acenos e afagos, de João Gilberto Noll (Record)
Aprender a rezar na era da técnica, de Gonçalo M. Tavares (Ciompanhia das Letras)
Cemitério de pianos, de José Luís Peixoto (Record )
Cinemateca, de Eucanaã Ferraz (Companhia das Letras)
Ó, de Nuno Ramos (Iluminuras)
Ontem não te vi em Babilônia, de António Lobo Antunes (Alfaguara - Objetiva)

Postado em 17 de Setembro, 2009
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Leituras passionais de Ruy Castro
Alécio Cunha

 

DIVULGAÇÃO/COMPANHIA DAS LETRAS

Ruy Castro

Ruy Castro não tem medo de revelar seu amor pelos livros



Quem trafega pelos rumos loucos da literatura conhece, claro, o trabalho plural de Ruy Castro. Mineiro de Caratinga, carioca por adoção, o jornalista e escritor é de uma polivalência à toda prova. Em mais de quatro décadas de ofício, já escreveu (e bem) sobre cinema, música, futebol, teatro e, claro, literatura. Fragmentos essenciais desta vertente habitam as páginas do livro "O Leitor Apaixonado - Prazeres à Luz do Abajur", reunião de 45 textos do autor, publicados em veículos da mídia impressa brasileira entre 1974 e 2007. O livro é uma delícia porque não tem medo de assumir seu caráter passional.

 

Como o escritor em questão é o perfeccionista Ruy Castro, os leitores encontrarão, obviamente, artigos especialmente revisados para o volume, publicado pela Companhia das Letras, de São Paulo (SP), editora que lançou alguns de seus principais trabalhos como as biografias do dramaturgo Nelson Rodrigues ("O Anjo Pornográfico"), do artilheiro Garrincha ("Estrela Solitária") e da cantora Carmen Miranda ("Carmen"), e a, digamos, biografia coletiva da bossa nova ("Chega de Saudade").

 


O grande mérito dos textos de Ruy Castro, além da concisão, é a entrada em cena da leveza e do humor, mesmo quando lida com temas mais densos e tensos. A maneira como ele se refere aos livros que resenha é totalmente desprovida da arrogância dos intelectualismos frágeis. É uma escrita luminosa, gostosa, mesclando saber e sabor na dose exata.

 

Ao falar sobre o conteúdo de determinada obra,  Ruy Castro é tão límpido e transparente que quase traz ao lume um outro livro a partir daquele lido e deglutido. Há uma fator de natureza autobiográfica aí.  O primeiro livro que o jornalista leu, aos cinco anos, foi uma adaptação de um clássico da literatura infantil e juvenil, "Alice No País Das Maravilhas", do inglês Lewis Carroll, feita por ninguém menos do que o criador do "Sítio do Picapau Amarelo", Monteiro Lobato.  O mago de Taubaté  reescreveu completamente a história de Carroll, mas sem perder, em instante algum, a essência da obra: a força da imaginação e do devaneio. O pequeno leitor Ruy Castro parece ter captado esta característica peculiar de Lobato e a entronizado.

 

Organizado pela mulher do autor, a escritora Heloísa Seixas, "O Leitor Apaixonado" obedece a um critério essencial: “matérias que me deram prazer de ler".  São escritos que não sofrem a ação residual do tempo, driblando o envelhecimento precoce através da permanência da palavra. A obra cai como luva no título e proposta deste blog. Ler, reler e viver são verbos absolutamente suplementares e dialógicos.  C'est la vie!

 

Postado em 16 de Setembro, 2009
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Duas poetas e a morte
Alécio Damasceno Cunha

 

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Alejandra Pizarnik

Alejandra Pizarnik em registro dos anos 60

Há alguns anos, sempre que sobra um tempinho extra em meio ao contínuo turbilhão cotidiano,  tenho me dedicado à tradução de versos de duas poetas sul-americanas, que merecem ser conhecidas por um público mais amplo. Alejandra Pizarnik (1936-1972) e Alfonsina Storni (1892-1938) são praticamente inéditas no país. A primeira ganhou versões de Bella Jozef e do mineiro Mário Alex Rosa, que publicou plaquetes com alguns de seus textos; a segunda foi traduzida por Henriqueta Lisboa e Cecília Meireles, na década de 1940. A intenção é reunir futuramente as traduções em um único volume.

 

Há muitas coincidências entre as duas poetas. A principal delas, sem sombra de dúvida, é o suicídio. No entanto, outros elementos habitam os textos tanto de uma quanto de outra: a contemplação da sensibilidade feminina, a revolta em busca de um maior espaço de atuação e, sobretudo, o lirismo escancarado em versos densos que arrebatam. A questão da morte e do autoextermínio leva a poesia de Alejandra e Alfonsina ao mesmo patamar estético da brasileira Ana Cristina César e da norte-americana Sylvia Plath.

 

Admirada por autores como Olga Orozco e Julio Cortázar, Alejandra Pizarnik possuía uma língua ferina, que pode ser sentida tanto na poesia como na prosa, escrita em forma de diário, sempre colocando em zona fronteiriça o confessionalismo e as reflexões sobre sobre os seres e as coisas que a rodeiam. Nascida em Buenos Aires em 29 de abril de 1936, em família de imigrantes vindos do Leste Europeu, Alejandra estuda Filosofia e Letras na Universidade de Buenos Aires e também dedicou-se ao estudo da pintura e do desenho. Entre 1960 e 1964, vive em Paris, onde cultiva e cultua temas como o exílio.

 

De volta a Buenos Aires, a poeta publica seus textos mais importantes: “Os Trabalhos e as Noites”, “Extração da Pedra da Loucura” e “O Inferno Musical”. No dia 25 de setembro de 1972, após ter alta de uma clínica psiquiátrica nos arredores de Buenos Aires, ela morre de overdose de barbitúricos.

 

A seguir, duas das minhas traduções da melancolia de Alejandra Pizarnik.

 

MADRUGADA

Nua sonhando uma
noite solar

Têm feito dias
animais.

O vento e a chuva
me sujaram

como a um fogo,
como a um poema,

escrito no muro

 

SEM TÍTULO

O poema que
não digo

O que não mereço

Medo de ser dois

caminho do espelho

alguém adormecido
em mim

me come e me bebe.

 


Alfonsina Storni, por sua vez, nasce em Tessino, na Suíça, em 29 de maio de 1892. Seu pai foi um imigrante italiano que se mudou para Buenos Aires em 1880 e vivia perambulando por vários países. Aos quatro anos, Alfonsina vai morar em Rosario. Seus temas  extremamente sensíveis chamam a atenção de professores e poetas. Logo, a poeta é publicada em revistas de circulação nacional como “Caras Y Caretas”. Em 1916, lança seu primeiro livro, “A Inquietude do Roseiral”. Seus primeiros críticos destacam a insistente presença na obra de Alfonsina das figuras do rio e do mar. Em 25 de outubro de 1938, ela entra no mar. Seu corpo é encontrado dois dias depois.

 

A seguir, confiram minhas versões de dois poemas de Alfonsina Storni.

 

LÁPIDE

Tudo está acabado

Minha boa ilusão já
não dá seu rumo

Meu empenho não teima
Meu sonho não lavra

Meu desejo já não insiste.
Resta-me a palavra.

E até ela resiste.

 


A MEMÓRIA

O poço da memória
logo obscurece
sobre o balde sem água.

Onde está o universo?

 

Postado em 14 de Setembro, 2009
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