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Protegendo o Inimigo
Paulo Henrique Silva

 

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Protegendo

De um lado sabedoria do veterano e do outro a energia jovem



Denzel Washington tem escolhido seus papéis a partir da medição de forças entre dois personagens numa situação-limite. É assim que, mesmo em produções mais despretensiosas, ele consegue por em evidência seu talento, invariavelmente saindo vencedor na comparação com seus companheiros de cena. E não é preciso ser o mocinho para levar vantagem nesse confronto.
 

Em “Protegendo o Inimigo”, Washington aparentemente está do outro lado da lei, como um ex-agente da CIA que vende informações sigilosas. No seu encalço surge um novato, vivido por Ryan Reynolds, ávido por mostrar serviço para os patrões. O primeiro confronto mostrado no filme coloca de um lado a sabedoria do veterano e do outro a energia jovem.
 

O longa acerta ao sustentar a história com esse ingrediente, com cada personagem tentando manipular ou provar que é mais esperto. É o momento para Washington explorar a lábia sedutora, marcante em outros filmes. Ele sempre foi bom de papo, uma de suas armas preferidas em trabalhos como “Um Grito de Liberdade”, “Duelo de Titãs”, “O Gângster” e “Um Dia de Treinamento”, pelo qual ganhou o Oscar.
 

O ator parece apostar que um jogo entre dois atores ainda pode ser elemento interessante para o desenvolvimento da ação. Como em “O Sequestro do Metrô123”, a carga de suspense é ditada por aquilo que os personagens têm para blefar ou revelar, até que a experiência de um e a ética do outro se juntem para mostrar o mundo como realmente  é: corrompido em seus valores básicos.
 

Washington gosta de embaralhar o bom e o mau. Foi assim com “O Gângster”, em que interpretava o carismático traficante do título, e também “O Sequestro do Metrô 123”, na pele de um executivo da companhia de transporte que é julgado por desvio de dinheiro público. É uma forma de sobrepor camadas, fazendo o espectador criar dúvidas sobre se deve apoiá-lo incondicionalmente ou não.
 

O quesito ação ajuda a clarear  as coisas. O protagonista está envolvido numa situação em que precisa dar respostas rápidas. A tecnologia parece ajudar mais o lado inimigo. No caso, a CIA, que dispõe de vários artefatos para não tirar os olhos daquele pode expor os podres da agência.
 

O tema é batido entre os filmes do gênero (está na espinha dorsal da trilogia “Bourne”, por exemplo), mas  o longa do diretor sueco Daniel Espinosa – em sua estreia em Hollywood – se safa com maestria das armadilhas da previsibilidade.
 

O estilo de Espinosa lembra bastante o de um cineasta muito próximo a Washington: o inglês Tony Scott, que fez dobradinha com o ator em “Maré Vermelha”, “Chamas da Vingança”, “Déjà Vu”, “O Sequestro do Metrô 123” e “Incontrolável”.
 

Espinosa domina o ritmo da narrativa, com sequências de perseguição de tirar o fôlego – nas ruas, no trânsito, nos telhados e num estádio de futebol de Cidade do Cabo, na África do Sul, onde a história se concentra. Com o cuidado, porém, de não sufocar a atuação, deixando margem para que os conflitos aflorem com intensidade.

Postado em 25 de Março, 2012
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50 anos de Anjo Exterminador
Paulo Henrique Silva

 

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anjo

"Ilustração do manifesto comunista, ao mostrar que a crise cíclica do capitalismo"



Um dos trabalhos mais comentados do diretor espanhol Luis Buñuel, presença constante na listas dos melhores filmes de todos os tempos, “O Anjo Exterminador” completa meio século em maio. Lançado durante o Festival de Cinema de Cannes, na França, perdendo a Palma de Ouro para a produção brasileira “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, o longa-metragem até hoje choca pela postura crítica em relação à elite burguesa.
 

O filme é uma das atrações da mostra “Luis Buñuel, o Fantasma da Liberdade”, cartaz do Cine Humberto Mauro, com retrospectiva integral das 33 obras do mestre surrealista, além de debates, cursos e lançamento de catálogo.
 

Com uma filmografia repleta de histórias labirínticas e oníricas, Buñuel fez em “O Anjo Exterminador” o seu trabalho mais simples e linear, o que não quer dizer que esteja livre de camadas de interpretações. Afinal, estamos falando de um grupo de convivas que, por algum motivo especial, não consegue sair da casa do anfitrião.
 

Eles passam dias sem chegar à porta da casa, enquanto os empregados circulam livremente. O confinamento os leva a uma transformação comportamental, com o refinamento dando lugar ao animalesco.
 

Professor de História do Cinema na Escola de Belas Artes da UFMG e participante de uma das mesas de debates, Luiz Nazario observa que o filme realiza uma parábola sobre a queda da civilização e do capitalismo. “Os personagens sofrem uma abrupta crise, abandonando as regras da sociedade e tornando-se selvagens. É a lei do capitalismo: quando se está em crise, a tendência é ir para a violência”, analisa.
 

Para Nazario, “O Anjo Exterminador”, último filme da fase mexicana de Buñuel, é “muito lógico, seguindo fielmente  as leis” do pensamento cinematográfico do diretor e do surrealismo, movimento da década de 1920 que teve o espanhol como um de seus expoentes.
 

Ele salienta que, além da crise burguesa, outra lei perceptível é a “do entendimento da saída da casa, após a personagem principal, vivida por Silvia Pinal descobre que todos são peças de um tabuleiro de xadrez e que precisam voltar à posição original para encontrarem a saída”.
 

Várias dessas leis são, na verdade, uma mescla das teorias psicanalíticas de Sigmund Freud e políticas de Karl Marx. O primeiro é responsável pela questão dos sonhos. O segundo pela posição política. “Todos os filmes de Buñuel são políticos. Em O Anjo Exterminador vemos uma ilustração do manifesto comunista, ao mostrar que a crise do capitalismo se repete ciclicamente”.
 

O professor de cinema cita a presença de um urso, na sala da casa, como símbolo dessa abordagem. “O urso surge pouco antes da revolução que explode fora da casa. Ou seja, o animal se transforma, ao final, em revolução”.
 

Nazario avalia que Buñuel é o único integrante da escola criada por André Breton, em 1924, que se manteve surrealista até o fim da carreira. “Toda a obra dele transcorre dentro desta visão de mundo”, assinala Nazario, que tem um gosto especial pelo movimento, assim como pelo expressionismo, ocorrido também na primeira metade do século XX.
 

“São dois movimentos que deram muitos frutos, influenciando o cinema até hoje. As cenas de sonhos mostradas em algumas comédias são inspiradas no surrealismo. Bem como as sequência de loucura e pesadelo baseiam-se no expressionismo”, detalha.
 

Tema do debate que participará, no dia 21de abril, Nazario sublinha a atualidade da obra de Buñuel. “Muitas obras de vanguarda envelheceram muito, devido à repetição e à imitação. Já os filmes do diretor sobrevivem por conta da violência e da anarquia. Até hoje aquele olho cortado no meio em Um Cão Andaluz (1929) choca as pessoas”.
 

Entre os filmes que compõem a mostra “O Fantasma da Liberdade”, ele chama a atenção para “A Morte Neste Jardim” (1956), protagonizado por Simone Signoret. “É um dos menos vistos dele e também um dos mais lindos”, recomenda.

Postado em 25 de Março, 2012
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Paulo Henrique Silva

 

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Cao

Pampas gaúchos: "É um lugar entre coisas, que dialoga com a ideia de inferno e paraíso"



A geografia mineira deixa de ser a protagonista na filmografia do diretor Cao Guimarães, que agora dividirá suas atenções com cenários do Uruguai. A justificativa está no coração: recém-casado com Florencia, o cineasta desfruta na vida particular de uma dupla nacionalidade,  entre as montanhas de Minas e os pampas gaúchos.
 

Os pampas, por sinal, são o tema de seu curta-metragem “Limbo”, selecionado para o É Tudo Verdade, principal festival da América Latina dedicado ao gênero documentário, que acontecerá de 22 de março a 1º de abril, em São Paulo e Rio de Janeiro. Filmado no interior do Uruguai e no Rio Grande do Sul, o filme evidencia a desolação desses lugares.
 

“Estão numa espécie de limbo, que, antes de ser banido do dicionário da Igreja Católica, era um lugar ótimo, que ficava entre o inferno e a o paraíso”, diverte-se Cao, encontrado pela reportagem do Hoje em Dia justamente em sua segunda terrinha, onde passa os últimos dias de prolongadas férias.
 

“São locais perdidos no tempo, em que se vê brinquedos e praças vazias depois que muita gente foi embora para a cidade grande. É um lugar entre coisas, que dialoga com a ideia de inferno e paraíso”, afirma o diretor, que, diferentemente dos documentários tradicionais, imprimiu uma pegada de artes plásticas, trabalhando  “olhar mais sensorial sobre lugar achatado, imerso em sua horizontalidade”.
 

O curta não tem narração ou texto, calcando-se apenas nas imagens e no som dos ventos, características marcantes do realizador dos premiados longas “A Alma do Osso” e “Andarilho”. A última vez que Cao tinha participado do festival É Tudo Verdade foi com “Da Janela do Meu Quarto”, em 2004.
 

Além de “Limbo”, a seleção da 17ª edição contará com sete documentários inéditos na categoria principal. Entre os destaques está “Mr. Sganzerla– Os Signos da Luz”, filme-ensaio de Joel Pizzini que reconstrói o ideário do diretor Rogério Sganzerla (“O Bandido da Luz Vermelha”), um dos criadores do movimento Udigrudi no final da década de 1960.
 

“Coração do Brasil”, de Daniel Solá Santiago, é outro longa que, como “Xingu” (exibido recentemente no Festival de Berlim), acompanha a história dos sertanistas Villas Boas, mostrando a volta de  três integrantes da expedição realizada  nos anos de 1950 ao centro geográfico do Brasil.

Postado em 1 de Março, 2012
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Meio termo: agradando tanto o cinéfilo mais exigente quanto aquele quer se divertir



Ao longo de mais de três décadas de carreira, os irmãos Coen mudaram de gêneros e atmosferas, dialogando com questões atuais, sem nunca abandonar a predileção por personagens erráticos. “Os heróis deles são aqueles que não vingaram. Não há vencedores, chefes de Estado ou o homem do ano. Estas figuras, por sinal, são sempre ironizadas”, assinala Rafael Ciccarini, coordenador do Cine Humberto Mauro
 

Característica que poderá ser melhor analisada com a retrospectiva completa da obra de Ethan e Joel Coen, com início hoje no Cine Humberto Mauro. De “Gosto de Sangue, primeiro longa-metragem lançado em 1984, a “Bravura Indômita”, refilmagem com Jeff Bridges indicada ao Oscar no ano passado, a dupla construiu um estilo que, de acordo com Ciccarini,  “é possível enxergar uma visão de mundo muito semelhante, ao mesmo tempo em que notam-se propostas tão diferentes”.
 

Para o coordenador, os 15 longas-metragens assinados por Ethan e Joel revelam uma interessante articulação com a história do cinema, despejando grande referencial cinéfilo. O olhar é agudo, principalmente no trato com os personagens. “Através deles incutem certa ironia, mas sem serem arrogantes, posicionando acima deles. São também carinhosos. É como se rissem de si mesmos”, destaca.
 

Para Ciccarini, é um prazer especial levar a filmografia dos irmãos Coen para a tela do Cine Humberto Mauro. Em 2009, sua dissertação de mestrado na UFMG abordou as visões de cinema e de mundo dos realizadores, concentrando-se em dois longas (“Gosto de Sangue” e “Barton Fink”). “Eles estão num meio-termo, agradando tanto o cinéfilo mais exigente quanto aquele quer se divertir”, registra.
 

O que distingue um trabalho do outro é que os Coen podem ser extremamente sérios ou melancólicos, como “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007), faroeste existencial ganhador do Oscar, e também donos de comédias soltas, entre elas “Na Roda da Fortuna” (1994) e “Queime Depois de Ler” (2008).
 

Indiferentemente da abordagem, a dupla realiza trabalhos autorais mesmo quando está à volta com  refilmagens. Fizeram duas, uma oficial, com “Bravura Indômita”, inspirada no western  protagonizado por John Wayne em 1969, e outra “disfarçada”, quando dirigiram “Matadores de Velhinha” (2004), livremente baseada em “Quinteto da Morte” (1955). A mostra exibirá os filmes originais no mesmo dia, alimentando as comparações.

Postado em 1 de Março, 2012
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Politicamente correto
Paulo Henrique Silva

 

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Michel

Pela primeira vez um francês ganhou na categoria de melhor direção



O Oscar está longe de se tornar um exemplo de equilíbrio, carregando folha corrida com inúmeras injustiças desde a sua criação, em 1929. A cerimônia do último domingo, porém, mostra que Hollywood está repaginando a premiação para se tornar politicamente correta, abarcando o velho e o novo, o local e o universal, o branco e o preto, o ocidental e o oriental. Transformação percebida tanto na escolha dos vencedores como no formato da festa.
 

Apesar do tema principal da 84ª edição ser os primórdios do cinema, fazendo do palco do teatro um grande palácio de exibição à moda antiga, principalmente em função dos dois filmes favoritos da noite (“O Artista” e “A Invenção de Hugo Cabret”, que levaram cinco troféus cada um), o velho foi contrabalanceado pela presença de artistas que estão fortemente ligados à faixa de público adolescente.
 

Do cantor Justin Bieber, um dos maiores ídolos teen de hoje, às participações de Robert Downey Jr e Christian Bale, protagonistas de duas franquias poderosas, “Homem de Ferro” e “Batman”, respectivamente, o Oscar não quis embarcar numa viagem nostálgica ao passado, deixando claro que as primeiras décadas do cinema têm igual importância com a chamada era dos blockbusters

.
Ao homenagear a sétima arte com trechos do que considera os principais filmes da história da premiação, não faltaram imagens de “Crepúsculo”, “Titanic”, “Avatar”, “Se Beber, Não Case” e “Guerra nas Estrelas”, evidentemente para provocar a identificação do espectador mais jovem. Apesar de mais ágil, a cerimônia cortou a entrega de prêmios especiais e honorários, que sempre rendeu momentos emocionantes com veteranos tendo liberdade de tempo em seus agradecimentos.
 

Em outros blocos, a produção se esforçou para misturar o velho e o novo, como transformar o clássico “O Mágico de Oz” (1939) em alvo de piadas de comediantes da velha guarda. Ou quando o Cirque du Soleil realizou acrobacias a partir da projeção de imagens de “Intriga Internacional” (1959), de Alfred Hitchcock. A entrada em cena de humoristas da nova geração também chamou a atenção, para tornar as apresentações mais divertidas.
 

Enquanto tentou agradar o público americano, escolhendo principalmente astros de Hollywood para lembrar os primeiros filmes vistos no cinema, o Oscar buscou ser generoso com os estrangeiros. Pela primeira vez um francês ganhou na categoria de melhor direção (Michel Hazanavicius, por “O Artista”). Também é a inédita a estatueta para um ator desta nacionalidade (Jean Dujardin, de “O Artista”).
 

Patriotada maior foi a vitória da canção de os Muppets, muito inferior, sobre “Real in Rio”, da dupla brasileira Carlinhos Brown e Sérgio Mendes. Prevaleceu a força icônica dos bonecos de Jim Henson, numa premiação já antecipada – como aconteceu em 1997, quando a italiana Sophia Loren entrou o Oscar de filme de língua não-inglesa para o  italiano Roberto Benigni (“A Vida é Bela”), derrotando “Central do Brasil”, o sapo Kermet e a porca Piggy participaram da festa.
 

A intenção de ser politicamente correto se fez perceber ainda na vitória de “A Separação” na categoria de filme de língua não-inglesa. A produção é do Irã, inimigo dos Estados Unidos. Um sinal de que os americanos estão abertos ao diálogo, ao contrário dos asiáticos, que perseguem seus próprios cineastas. O troféu para Octavia Spencer, melhor atriz coadjuvante por “Histórias Cruzadas”, embora merecido, preenche uma espécie de cota para a ala negra – aliás, satirizada de forma exagerada pelo mestre-de-cerimônia Billy Cristal.

Postado em 28 de Fevereiro, 2012
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"A Lista de Schindler" foi o último filme em P/B ganhador do Oscar



Produto da indústria de cinema, realizado anualmente para promover os filmes de Hollywood numa grande festa assistida por centenas de milhões de pessoas em todo mundo, o Oscar também é um “menino de recados”. Antes mesmo do anúncio dos vencedores, logo mais à noite, no Teatro Kodak, em Los Angeles (EUA), já é possível ler nas entrelinhas o desejo de reencontrar a essência perdida, buscando no passado de glórias e glamour aquela chama que transportou milhares de espectadores para o mundo de sonhos.

 

Não é por acaso que os dois grandes favoritos da cerimônia são homenagens aos primórdios do cinema. “A Invenção de Hugo Cabret”, com 11 indicações, e “O Artista”, com dez, lembram com saudosismo, humor e reverência as primeiras décadas da arte, destacando limitações que hoje são vistas como importantes ingredientes de desenvolvimento da linguagem: a ausência de som e cor. “O Artista”, que leva vantagem sobre o concorrente nas bolsas de apostas, radicaliza nesta celebração.

 

No caminho oposto da transformação mundial das salas em 3D, a última palavra em tecnologia, o filme do diretor francês Michel Hazanivicus testa as novas audiências com um trabalho totalmente em preto e branco e mudo. A última vez que o Oscar premiou este tipo de ousadia foi em 1994, com “A Lista de Schindler”, de Steven Spielberg, quando a fotografia monocromática serviu para expressar a dor provocada pelo extermínio de judeus nos campos de concentração nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

 

Em “O Artista”, o tom é outro. A intenção de Hazanivicus é reproduzir, nos dias atuais, o modelo de produção da década de 1920. Sua história é tão ingênua como os melodramas da época. E a atuação do elenco está calcada em expressões exageradas, exigindo do público uma leitura mais visual e corporal das situações, abrindo mão dos diálogos. Elementos que devem pautar boa parte das brincadeiras do apresentador Billy Cristal durante as quase quatro horas da festa.

 

Antes de “A Lista de Schindler”, o último filme em preto e branco que levou a estatueta dourada dói “Se Meu Apartamento Falasse”, de Billy Wilder, em 1961. Aqui não havia nenhum propósito nobre para recorrer ao P/B. Naquele tempo, filmes coloridos significavam custos mais altos. O Oscar mantinha ainda categorias específicas para os que ainda abdicavam das cores. O longa-metragem de Wilder ganhou as estatuetas de direção de arte em preto e branco e quase faturou o prêmio de fotografia em preto e branco.

 

Como os filmes coloridos surgiram em 1935, quatro décadas depois da invenção do cinema pelos irmãos franceses Auguste e Louis Lumière, evidentemente a balança de vencedores no Oscar pende para o time da cor. São 56, contra 27 em preto e branco. Curiosamente, o reinado dos P/B se estendeu muito, tanto que até 1956 apenas três produções coloridas haviam faturado o prêmio máximo – “...E o Vento Levou” (1940), “Sinfonia de Paris” (1952) e “O Maior Espetáculo da Terra” (1953).

 

Por outro lado, depois de 1957, quando “A Volta ao Mundo em 80 Dias” consagrou-se na cerimônia, o time dos sem cor se viu reduzido aos dois ganhadores já mencionados. Embora alguns tenham batido na trave, aparecendo entre os indicados. A partir de 1970, foram sete candidatos: "A Última Sessão de Cinema" (1971), "Lenny" (1974), "O Homem Elefante” (1980), "Touro Indomado" (1980), "A Lista de Schindler (1993) e "Boa Noite, e Boa Sorte" (2005).

 

Se a vantagem da cor sobre o P/B é enorme, imagine então a disputa entre filmes sonoros e mudos. A aparição do som é anterior à cor, datando de 1927, quando é exibido “O Cantor de Jazz”, primeiro longa falado. Na história das 83 edições do Oscar, só “Asas” venceu como representante do grupo sem som, justamente na primeira festa de entrega, em 1929, realizada no Hollywood Roosevelt Hotel, em Los Angeles. Oitenta e três anos depois, “O Artista” poderá ser o segundo, provando que a indústria não se esqueceu de seus pioneiros.

Postado em 26 de Fevereiro, 2012
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A Invenção de Hugo Cabret
Paulo Henrique Silva

 

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Hugo

O filme nos introduz no universo apaixonante do cinema



A Academia está saudosa daqueles tempos áureos do cinema, quando a arte começava a se descobrir, encontrando as melhores maneiras de seduzir o espectador, e as estrelas eram fabricadas e controladas com rédeas curtas pelos grandes estúdios. Os maiores favoritos ao Oscar deste ano mostram que a noite do dia 26 tem tudo para se transformar numa grande homenagem aos primórdios das imagens em movimento.


Além de “O Artista”, “A Invenção de Hugo Cabret” é de um carinho só com a chamada “época de ouro”, representada como sinônimo de glamour, aventura, singeleza e também de esquecimento e carreiras destroçadas. Os dois filmes têm em comum a admiração pelos pioneiros, reconhecendo seus primeiros movimentos – o cinema mudo em “O Artista” e George Méliès, em especial, naquele que é o primeiro longa-metragem em 3D de Martin Scorsese.
 

Iniciando-se no cinema juntamente com a geração de diretores que ganhou plenos poderes em Hollywood (Francis Ford Coppola, George Lucas, Steven Spielberg, entre outros), Scorsese foi desde sempre um realizador preocupado com a sua arte, não somente o que é feito no presente. Ele criou uma fundação para restaurar clássicos do cinema mundial e tem no currículo vários documentários que tratam desta história centenária.
 

Baseado em livro de Brian Selznick, “A Invenção de Hugo Cabret” é a primeira vez que Scorsese leva esta paixão para a ficção. Uma das qualidades do filme, e que justifica as 11 indicações ao Oscar, é a embalagem sentimental, bem-humorada e, principalmente, lúdica como encara os primeiros capítulos da sétima arte. É o mesmo caminho trilhado por “O Artista”, segundo concorrente com maior número de nomeações (dez).
 

Se Michel Hazanavicius adota postura radical nesta homenagem, abrindo mão dos diálogos e da cor para tentar reproduzir no espectador as mesmas sensações de uma obra do período silencioso, Scorsese não chega a ir tão longe. Apesar de se valer de uma tecnologia nova, o 3D, o cineasta recupera a atmosfera ingênua e onírica dos primeiros filmes. A estação de trem da Paris do início do século XX se transfigura num espaço cênico mágico, onde um garoto órfão encontra literalmente a chave para entrar em contato com seu pai (viés muito semelhante a outro candidato do Oscar, “Tão Forte e Tão Perto”).
 

O detalhismo como a câmera percorre cada parte da estação impressiona, revelando um excelente trabalho de direção de arte. Ao contrário de muitos filmes barulhentos e com efeitos especiais até o pescoço, a tridimensionalidade não é para criar estardalhaço, usando a profundidade para aumentar a magia. Scorsese não quer ser, desta vez, realista. Amante dos clássicos, ele não ousa mudar uma atmosfera que exige a nossa total cumplicidade.
 

Com um vilão de bom coração (Sacha Baron Cohen), que só precisa encontrar o amor para deixar seus ressentimentos de lado, o diretor nos conduz pelos olhos ora esperançosos ora medrosos do garoto vivido por Asa Butterfield (de “O Menino do Pijama Listrado”), cujo conhecimento da engrenagem dos relógios da estação o leva de encontro ao criador de um ser autônomo, deixado num museu e encontrado pelo pai de Hugo (Jude Law) antes dele falecer. Fazê-lo funcionar passa a ser a sua obsessão, acreditando que dali sairá uma alguma mensagem do além.
 

Além dos temas da perda e da maturidade forçada, “Hugo Cabret” lentamente nos introduz no universo apaixonante do cinema. A partir da segunda metade, o filme põe em primeiro plano os bastidores fascinantes dos pioneiros e suas fantasias. A estação de trem ganha seu correspondente na pedra fundamental da sétima arte – o documentário “A Chegada na Estação de Trem”, dos irmãos Lumière. Bem como o garoto que vive no relógio central reproduz, em determinada cena, Harold  Lloyd às voltas com enormes ponteiros em “Homem Mosca”.
 

Scorsese seleciona sequências marcantes do cinema mudo de forma primorosa, numa contagiante aula de história que culminará com a trajetória de uma homem (Méliès) que inventou a fantasia e os efeitos especiais e que, mais tarde, acabou no ostracismo. Um relato verídico que recebe contornos comoventes, numa grande prova de amor ao cinema.

Postado em 25 de Fevereiro, 2012
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Dois veteranos no Oscar
Paulo Henrique Silva

 

PARAMOUNT

Max

A vitória de Max von Sydow representará um recorde, com o oscarizado mais velho da história



Num mundo em que a juventude está em primeiro plano, com filmes cada vez mais voltados para esta faixa de público, o Oscar pode dar um testemunho contrário em torno da valorização da terceira idade. Na categoria de ator coadjuvante, a vitória de Christopher Plummer ou Max Von Sydow representará um recorde, com o oscarizado mais velho da história da premiação. Ambos têm 82 anos.

 

O canadense Plummer, sempre lembrado como o capitão Von Trapp de “A Noviça Rebelde” (1965), lidera as bolsas de apostas por sua atuação em “Beginners”, em que faz um pai septuagenário que revela ao filho ser gay. Em “Tão Forte e Tão Perto”, Sydow é o avô de garoto que sofre com a perda do pai, morto no ataque terrorista às Torres. Detalhe: o ator-fetiche de Ingmar Bergman não diz uma única palavra durante todo o filme.
 

 

Se a preferência for por idade, Sydow leva vantagem. Ele nasceu em 10 de abril, enquanto Plummer só aniversaria em 13 de dezembro. O sueco também sai na frente no conjunto da obra. Trabalhou com Bergman em clássicos como “Morangos Silvestres” (1957) e “O Sétimo Selo” (1957) e, em sua carreira em Hollywood, destacam-se “O Exorcista” (1973), “Três Dias do Condor” (1975), “Fuga para Vitória” (1981) e “Hannah e suas Irmãs” (1986).

 

Depois de despontar em “A Noviça Rebelde”, Plummer foi dirigido por Robert Mulligan em “À Procura do Destino” (1965), Anatole Litvak em “A Noite dos Generais” (1967), John Huston em “O Homem que Queria Ser Rei” (1975), Terry Gilliam em “Os 12 Macacos” (1995) e “O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus” (2009), Michael Mann em “O Informante” (1999), Ron Howard em “Uma Mente Brilhante” (2001) e Oliver Stone em “Alexandre” (2004).

 

Em matéria de estatueta dourada na estante de casa, os dois estão empatados. Somam a sua segunda nomeação, sem nunca ter levado o prêmio. Sydow foi indicado como melhor ator em 1989, por “Pelle, o Conquistador”, perdendo para Dustin Hoffman (“Rain Man”). Apesar do longa carreira, Plummer apareceu na lista pela primeira vez em 2010, como ator coadjuvante em “A Última Estação”, sendo derrotado por Christoph Waltz (“Bastardos Inglórios”).

 

Qualquer um que ganhar estará superando George Burns, que ganhou o Oscar de ator coadjuvante por “Uma Dupla Desajustada” (1976), de Herbert Ross, e Jessica Tandy, que em 1990 faturou o cobiçado troféu de melhor atriz por “Conduzindo Miss Daisy”, de Bruce Beresford. Na época da premiação, Burns tinha 80 anos e Jessica, 81. A intérprete inglesa, por sinal, seria nomeada outra vez, em 1992, como atriz coadjuvante, por “Tomates Verdes Fritos”.

Postado em 1 de Março, 2012
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Homens de Preto 3
Paulo Henrique Silva

 

Rogerio Resende

Homens

Pós-Carnaval: Will Smith e Josh Brolin divulgam filme no Rio de Janeiro



RIO DE JANEIRO – Will Smith torna público que sua maior preocupação em “Homens de Preto 3” são as orelhas, que ganharão o dobro de tamanho no formato 3D. Pouco depois é a vez de Josh Brolin brincar com o nome do arquipélago das Cagarras, um dos pontos turísticos da Cidade Maravilhosa, que em sua transposição muito particular para inglês virou “Shit Islands” (ou Ilhas Cocô). “Quero deixar claro que esta declaração não reflete o que a equipe está pensando”, corrige imediatamente Smith, com uma voz grave, fingindo ser politicamente correto.

 


A dupla entrou na sala da coletiva de imprensa, montada no hotel Copacabana Palace, na tarde de quinta-feira, disposta a dar um aperitivo do humor negro que retornará às telas em abril, dez anos depois do lançamento do segundo filme. A diferença agora é que os agentes J (Smith) e K (Tommy Lee Jones), que vigiam as ações de alienígenas ocultos no nosso planeta, ganham companhia na figura de Brolin, intérprete de um K remoçado, encontrado pelo companheiro de agência quando tem que voltar ao passado para salvar o planeta.

 


Uma das piadas mais recorrentes da entrevista foram as comparações físicas entre Jones e Brolin. Smith não perdeu tempo em zombar do colega, dizendo que somente ele poderia concorrer com a avantajada cabeça de Jones. Diante da pergunta sobre como foi reproduzir o mau humor crônico do personagem de Jones em “Homens de Preto”, Brolin não pestanejou: “Que humor?”, emendando que o veterano só esboçava algum tipo de comicidade quando Smith estava por perto no set. Realmente, é impossível não rir do ator revelado em “Independence Day”.

 


Desde o instante que pisou na sala de imprensa, Smith deixou claro que não queria levar nada a sério, divertindo-se com frases em português como “tudo bem?” e “estou feliz por estar no Brasil”, entremeadas sempre por um “yeah!”. Se era uma tática para quebrar o gelo com os jornalistas, funcionou. Brolin confessa que parecia estar filmando com Fresh Prince, nome artístico de Smith no início de sua carreira, mais tarde usado também no título de um sitcom em que o ator fazia o papel dele próprio. “Tinha muito rap no set”, ressalta.

 


Ao lado do detetive Mike Lowrey, de “Bad Boys”, o agente J é um dos personagens que impulsionaram Smith em direção aos grandes sucessos de bilheteria. Dirigido por Barry Sonnenfeld, o primeiro filme foi lançado em 1997, faturando US$ 250 milhões nos Estados Unidos e US$ 327 milhões no resto do mundo. Cinco anos depois veio a continuação, sem repetir o mesmo resultado. “Homens de Preto apresentou um conceito absolutamente novo”, salienta Smith, destacando a mescla de humor, ação e ficção científica.

 


“Retornar ao meu personagem foi fácil. Estava em casa. Quem fez o trabalho duro foi Josh. Vocês vão se surpreender com a caracterização que ele faz do agente K. A dinâmica foi a mesma de quando eu e Tommy nos encontramos no primeiro. Eu me senti como se estivesse no filme original”, elogia Smith. Para o ator, os dez anos que separam a segunda e a terceira partes foram fundamentais para o amadurecimento da série. “Era o tempo que precisávamos para pensar numa história consistente e não apenas criar a terceira saga da franquia”, avalia.

 


Brolin pode não ter o mesmo status de astro de Hollywood que Smith, mas seu nome está ligado a trabalhos menos barulhentos e mais artísticos, como “Onde os Fracos Não Têm Vez”, “O Gângster”, “W.” e “Bravura Indômita”. Além de ter uma indicação ao Oscar, como melhor ator coadjuvante em “Milk – A Voz da Igualdade”. Com “Homens de Preto 3”, faz seu primeiro blockbuster. Ele lembra que, quando recebeu o convite para viver K, passou uma noite inteira ouvindo a voz de Jones no computador. “Fiquei assustado e tomei o maior porre da minha vida!”.

 


Verdade ou não, o fato é que Brolin entrou no espírito anárquico do filme, exibindo um lado cômico pouco explorado. Perguntado sobre o que fazia na época do lançamento do primeiro “Homens de Preto”, lembrou que estava desempregado. “Vi o filme, achei-o demais e não parava de chorar em minha cama”, afirma. Exagero, é claro. Cenas da terceira parte, exibidas em primeira mão para os jornalistas presentes no Rio, mostram que a química entre Brolin e Smith têm boas chances de dar certo, especialmente quando o primeiro imita o jeitão bronco de Jones.

 


Outro ingrediente que promete render boas risadas é o momento “De Volta para o Futuro” do filme, quando J viaja no tempo para encontrar seu amigo no passado. O diretor Sonnenfeld não perdeu a oportunidade para brincar com o que Smith chama de ficção científica retrô. “O filme é genial ao idealizar os extraterrestres da década de 1960 com o mesmo visual que eles tinham nos filmes de ficção científica e programas de TV da época. Nos faz lembrar dos episódios de Jornada nas Estrelas, quando você via o zíper na parte de trás da roupa”.

 


Filmando atualmente na Costa Rica ao lado do filho, Jaden, Smith só não quis entrar na brincadeira de um jornalista, que entregou fotos de três celebridades brasileiras para que ele pudesse identificar se alguma delas poderia ser alienígena. “Adoro o Brasil. Não vou me comprometer”, esquivou-se. Brolin, no entanto, não se intimidou e comparou Suzana Vieira e Mulher Melancia, em pose sensual, com a sua madrasta. Para quem não sabe, o ator é enteado da atriz e cantora Barbra Streisand.

Postado em 25 de Fevereiro, 2012
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Belas Artes: 20 anos
Paulo Henrique Silva

 

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Belas

Pedro Olivotto: "Estamos saindo da UTI"



Único cinema de Belo Horizonte que, na contramão do fechamento de salas de rua, ainda sobrevive da exibição comercial de filmes de artes, o Belas Artes completa 20 anos em agosto. Apesar de outros espaços terem entrado para a História com uma vida mais duradoura, atravessando quase todo o século XX, a pouca idade deste complexo localizado na Rua Gonçalves Dias, no bairro de Lourdes, é uma vitória devido à rapidez com que alguns dos maiores templos da cidade foram atropelados pelos multiplexes, pelos sacos de pipoca e pela alta tecnologia.

 


Embora tenha sofrido um forte abalo no ano passado, quando quase fechou as portas por problemas de administração, o Belas Artes dá sinais claros de que continuará sendo sinônimo de uma programação diferenciada em que blockbuster não entra. Hoje conta com o dobro de espectadores de 2011, com uma média de 45% de ocupação por sessão. “Estamos saindo da UTI”, comemora Pedro Olivotto, que retomou o complexo de três salas em julho de 2011, após uma penosa batalha judicial. Ele se agarra a uma recuperação mundial do chamado “cinema de rua”.

 


Olivotto observa que a capital mineira sempre esteve atrasada em relação ao ritmo dos modismos - “é uma característica cultural”, assinala – e que a falta de concorrentes não passa de um fenômeno passageiro. “As capitais europeias e americanas estão deixando a massificação do consumo em shoppings para voltar às ruas, estimulando a abertura de novas salas”, registra. Esta efervescência era o que caracteriza o final da década de 1980 e o início dos anos de 1990, época em que estes cinemas se multiplicaram pelo país.

 


Além do Belas Artes, que entrou em funcionamento no dia 29 de agosto de 1992, exibindo três produções de países diversos (“O Marido da Cabeleireira”, do francês Patrice Leconte, “Urga”, do russo Nikita Mikhalkov, e “Ladrão de Crianças”, do italiano Gianni Amelio), Belo Horizonte viu nascer o Cineclube Savassi (em 1988) e o Usina de Cinema (também em 1992). Os dois fecharam recentemente, criando um gargalo na distribuição de filmes de arte na cidade, hoje limitada ao Belas Artes e ao Cine Humberto Mauro, de gestão pública.

 


“O cinema foi bem aceito desde o início. Cada sala fazia três mil espectadores por semana”, recorda Tâmara Braga, que, juntamente com Elza Cataldo e Jean-Gabriel Albicocco, criaram o Belas Artes. Albicocco era um francês representante no Brasil da distribuidora Gaumont e enxergou na abertura do cinema um canal natural de escoamento de seus filmes. “Entramos com o espaço e ele com os filmes. Com uma carteira de filmes, ficou fácil”, lembra. O cinema foi montado num espaço alugado do Diretório Central dos Estudantes (DCE), que pouco antes lançou um edital para a cessão do prédio.

 


“(O prédio) Estava em ruínas e o edital exigia que teria que estar pronto e inaugurado em seis meses. Como não tínhamos nenhum tostão, o tempo não era suficiente para correr atrás de dinheiro e abrir as portas. Para não perdermos, fizemos um pré-lançamento em meio às obras, trazendo atores italianos”, diverte-se Tâmara, que, assim como Elza, vendeu um apartamento para aplicar no novo investimento. “Naquela época, esta história de patrocínio cultural era nova e acabamos lançando isso na cidade, com a parceria com a BMS”.

 


A animação durou até o final daquela década. Tâmara conta que a frequência começou a cair, exigindo novas formas de gestão. Foi assim que os dois principais grupos de cinema de arte se uniram, em 1997. Ao Belas Artes, ao Nazaré e ao Ponteio se juntaram o Usina e o Cineclube Savassi, “formando a maior rede de salas de artes do Brasil”, como assinala Olivotto, que pertencia ao grupo Usina. Foi assim que ele passou a fazer parte da história do Belas Artes, só interrompida depois em 2009 e 2010, quando vendeu o cinema para Anderson Faria.

 


“Esta junção foi importante para dar uma sobrevida ao circuito, que já estava mudando. Lembro que, em 1998, a frequência no Belas Artes caiu para uma média de 800 espectadores por sala, na semana. Vi o primeiro multiplex de perto em Barcelona, no final dos anos de 1990, e fiquei completamente estarrecida. Logo percebi que não iríamos dar conta, até porque não tínhamos uma política de incentivo ao cinema que permitisse o acesso mais barato a equipamentos. Nem mesmo o tradicional grupo Severiano Ribeiro conseguiu segurar esta onda”, lamenta Tâmara.

 


Os dois grupos se separaram, em 2001, desta vez com Olivotto e Tâmara permanecendo à frente do Belas Artes (além de Nazaré e Ponteio). Desgastada, um ano depois Tâmara vendeu a sua parte para Adhemar Oliveira e Leon Cakoff. Atualmente ela trabalha com o que define como “futuro” dos filmes de arte, exibindo longas-metragens de diversos países em streaming, na internet. “Resolvi apostar nesta exibição online, que é uma tendência mundial. Particularmente me sinto muito feliz por ver o Belas Artes sobrevivendo a estas mudanças”.

 


Para Olivotto, o Belas Artes é um patrimônio cultural de Belo Horizonte e é com estes olhos que pretende chamar a atenção de patrocinadores para investirem no cinema. “São raros os cinemas de rua que não precisam ter um patrocinador. Só na França, onde há um subsídio direto do governo para essas salas. No Brasil, não se sobrevive sem este tripé formado por bilheteria, porcentagem em serviços conexos e patrocínio”, registra. Ele discorda de Tâmara ao dizer que não é a queda de público que inviabiliza a continuidade do cinema de rua, mas sim a ausência de investidores.

 


“Enquanto nos shoppings os custos de um cinema se diluem, nos cinemas de rua eles se multiplicam, porque o cinema está sozinho, contando apenas com os conexos. No shopping, ver um filme é uma das muitas coisas que o frequentador pode fazer”, diferencia Olivotto. Quando voltou a comandar o Belas Artes, no ano passado, logo percebeu que “não era o cinema que havia deixado”, vendo-se obrigado a promover uma grande reestruturação no espaço. “Melhoramos tudo, da estrutura ao humor e à moral dos funcionários”, regozija-se.

 


A boa notícia é que, em abril, o Belas Artes deverá deixar de ser o único cinema de programação regular com lançamentos de filmes de arte. Com patrocínio da Usiminas, o Centoequatro, localizado na região central, na Avenida Santos Dumont, está reformulando sua sala de 90 lugares para receber lançamentos de produções nacionais e estrangeiras. “Num momento de fechamento de salas, existe agora esse movimento contrário, num lugar que está sendo redescoberto pelo público por inúmeros mecanismos culturais”, destaca a coordenadora Inês Rabelo.

Postado em 17 de Fevereiro, 2012
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