Há quem tenha saudade de um tempo em que, depois dos bares, as pessoas saíam pela cidade - mais especificamente pela Savassi - para acabar a noite comendo um pedaço de abacaxi, uma maçã, uma pera. As frutas eram vendidas em carrinhos, e saborear uma delas com o dia clareando, além de ser mais barato do que um jantar, dava a ilusão de que a glicose queimada com o álcool estava sendo reposta. Era saudável - acreditava-se.
Os carrinhos ninguém sabe por onde andam. Mas dos bebuns caminhantes da madrugada é fácil saber: não ousam mais encarar as ruas escuras a pé. Pode acabar em assalto. Ou morte. Faz tempo que já não se pode mais andar pra ajudar a curar o porre. Nem a Lua se pode ver mais.
Se Nelson Gonçalves ainda cantasse entre nós, certamente tiraria do repertório aquela canção que anuncia, galhardamente, seu regresso à boemia: "suplicante eu te peço a minha nova inscrição...". Está cada vez mais difícil ser boêmio. Coitados dos que ainda gostam de molhar a palavra nas mesas dos bares discutindo com seus pares até o amanhecer, falando ou ouvindo verdades pouco duráveis e nada consistentes sobre política, futebol, amores, cinema... Coitados daqueles que adoram filosofar em volta dos copos enquanto a noite teima em virar dia sem que ninguém perceba - ou queira.
Resta a eles, pobres e românticos boêmios, voltar para casa de táxi - que é politicamente correto mas não tem nenhuma poesia - ou esperar que o dia clareie para tomar um ônibus ou caminhar com segurança protegido pelo sol. Mas aí o coitado pode ter que pagar mais caro pela conta do bar. Alguns daqueles homens que cuidam das nossas leis lá em Brasília estão propondo que, a partir das 11 da noite, o cliente pague, em vez de 10, 20% de gorjeta ao garçom.
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