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Aqui, neste espaço singelo e bem comportado, pode faltar tudo, menos respeito por leitoras e leitores, que são a razão de ser do jornal e da coluna. E, por respeitá-los, não há como lhes negar o sagrado direito de discutir e contestar forma e conteúdo de qualquer texto.
Um dia desses, falando do Bar Luiz, na Rua da Carioca, Rio de Janeiro, a coluna se referiu a meninas e rapazes que dividiam o prazer sem culpa, "único prazer que vale a pena, embora alguns afirmem que o sentimento de culpa dá um sabor especial às rupturas e aos pecados".
A leitora Maria de Fátima P. utiliza hoje o seu direito para afirmar que esse trecho constitui "lamentável apologia do pecado e da saliência, por apresentar a culpa como ingrediente ou tempero ideal do prazer". Segundo ela, essa receita abominável constitui péssimo conselho aos jovens.
Com a devida vênia, como dizem os advogados, nossa Maria de Fátima viu e encontrou chifres na cabeça de um modesto pangaré. O parágrafo que ela cita - como se pode comprovar em uma segunda leitura - apenas admite que certas pessoas, quando pecam (se é que existe essa coisa chamada pecado), apreciam o sabor da culpa.
É provável que a leitora, em toda a sua vida, nunca tenha feito algo proibido. Por isso, ignora e despreza o sabor do pecado. Se for esse o caso, a virtude dela e de outros seres especiais merece nota 10, com louvor e diploma.
Mas vamos combinar, como ensina o jargão da Rua Augusta, que essa excelsa virtude não é compartilhada pela maioria dos mortais, em nosso tempo e em nosso país. São tantos os calores abaixo da linha do Equador, nos Brasis, Bolívias e Perus, que só um santo acreditaria que virtude e pureza podem sobreviver nestas bandas de cá.
Até os mais virtuosos - tipo Nestorzinho, Doutor Fontes, Dona Carmem, Amáury Machado e André Carvalho - não só pecaram muito, mas também desfrutaram do sabor do pecado até a última gota, cada um no seu departamento: gula, maledicência, preguiça e outros deleites mais raros.
E nem por isso, Maria de Fátima, deixam de ser excelentes pessoas.
Aliás, para seu sossego, que fique bem claro: pecar nem passa mais pela cabeça desse seleto grupo de cidadãos. E não é por virtude, mas pelo decorrer do tempo.
Como diz o antropólogo Roberto DaMatta, todos eles já estão naquela fase da vida em que "a alma cobiça, mas o corpo não acompanha. Não porque não queira, mas porque não pode."
O tempo faz dessas coisas: corrige gostos e transforma grandes pecadores em seres acima de qualquer suspeita. E é recomendável que os amantes radicais da virtude jamais perguntem se esses pecadores se arrependeram. Para que perturbar a tranquilidade de quem já está quieto no seu canto? Além disso, a memória despertada pode produzir resultados surpreendentes, quase milagrosos.
Só resta lembrar a Maria de Fátima P. que a virtude e o sabor do pecado, feliz ou infelizmente, variam com o tempo, a cultura e os costumes de cada povo. Povos que cultuam um grande número de pecados estão disseminando, mesmo que não saibam, o desejo de pecar e a procura do tal sabor.
Essa verdade sociológica, combinada com um princípio elementar da lógica, leva à conclusão de que a permissividade é a maior aliada dos virtuosos. Onde se permite tudo, não existe pecado. E, portanto, não há sabor e prazer.
Será que ficou claro, Maria?
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Ela reconhece que está falando para si mesma, como diante de um espelho, e aposta mais na curiosidade que na paciência de vocês. Não pede compreensão, nem solidariedade. Só quer alguns minutos para falar e, se possível, ser ouvida.
- Ninguém pode tirar esta maior abandonada da bagunça e do nó sentimental em que se meteu - diz Anita. - Quando minha vida está uma droga e sem gosto, sempre arranjo um jeito de piorar. Dá até vontade de morrer, sabia? Mas acho morrer tão deselegante.
Fotógrafa profissional, um marido deixado para trás e muita incerteza pela frente (este é o perfil que ela traça, em seu e-mail), Anita agora está livre, tem tempo de sobra para rever a sua vida pregressa e não gosta do que vê. De tempos em tempos, diz ela, chafurda na nostalgia. E há menos de uma semana chegou à conclusão de que "o amor não leva a lugar nenhum".
E não leva mesmo, Anita, porque amor não é meio de transporte. Enquanto não tivermos um metrô de verdade em BH, é melhor escolher um ônibus, que tem itinerário definido e pontos de parada, pois o amor não tem rumo e nem parada certa.
Outra descoberta da surpreendente Anita: "Gostar só de gente que presta é a coisa mais idiota do mundo. Não há emoção, surpresa e perigo. Os imprestáveis é que me servem, porque eu também sou".
Um analista diria que ela sofre de dismorfismo, porque a cada momento se vê de formas diferentes. Faltam-lhe nexo e estabilidade, como se fosse um filme sem continuidade. Mas Anita discorda:
- Sofro mesmo é de disformismo, se é que isso existe. Estou perdendo a forma a cada noite, cada dia. E não somente eu. O mundo inteiro vai se dissolvendo e não há nada que se possa fazer. Ando tão à flor da pele que choro por motivo fútil. Um choro livre, desatado, que deixa o Xavier maluco.
Xavier ainda é o analista dela, mas já não confia nele. Aliás, desconfia dos próprios fundamentos da psicanálise:
- Nem acredito que ainda estou pagando ao Xavier para ouvir e não me dizer nada. Sou uma pessoa fechada. Ou ensimesmada, como diz o Xavier, que adora palavras antigas e clientes louquinhas. Ele se diverte e eu pago. No princípio, esse brinquedo era engraçadinho. Mas nenhum brinquedo dura para sempre.
Anita conta que a "enchente de lágrimas" não é de hoje e que, em matéria de crise existencial, sempre foi inovadora.
- Minha crise dos 30 começou aos 20. E aos 27 o Arnaldão me chamou de anta de cabeça velha, antes de me dar um pé. Já estava na moda ser cretino? No meu Código do Namorado Perfeito isso não existia, mas o Arnaldão se mandou assim mesmo. É um vampiro moderno, o Arnaldão. Suga a alma da gente e voa pra longe.
(Ela esclarece, e nem era preciso, que Anita e Arnaldão são nomes fictícios. Não quer se comprometer e nem ferir o ex, embora imagine que ele fará isso a outras mulheres).
- Tudo que sempre quis saber sobre desejos e emoções e tinha medo de perguntar aconteceu ao mesmo tempo. Pensei que estava amando, mas era só uma anormalidade no meu ritmo cardíaco. Medicaram e tudo voltou ao anormal. Anita é isso. E a dor de ser Anita é intolerável.
Mas, afinal, aonde Anita quer chegar?
- A lugar nenhum - diz ela. - Não quero agradar ninguém, não faço ginástica pra ficar gostosa e nem trabalho com pecado e culpa. Sou o que sou, sem razão de ser. E só peço que não me toquem mais.
Ninguém tocará, enquanto ela se sentir assim.
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Passados o som e a fúria dos debates em torno do possível estupro ocorrido diante das câmeras da Rede Globo, vamos retomar o assunto com calma e em voz baixa, pois a gritaria impede o raciocínio e a compreensão do caso.
Quanto ao fato em si - se delituoso ou não - há mais dúvidas que certezas. Foi uma obra de encosto e fricção, mas alguns irados telespectadores garantem que houve estupro, mesmo que nada tenham visto, já que o casal se protegeu dos olhares curiosos.
O que se viu foi uma sequência de movimentos do rapaz, enquanto a moça permanecia quieta. Mas há moças quietas e moças inquietas. E ainda não se sabe a que categoria pertence aquela. Entretanto, sendo experientes no ramo, os acusadores não hesitam em afirmar que houve "conjunção carnal", como dizem juízes e advogados.
E conjunção carnal, sem explícita cumplicidade da parceira, é estupro, segundo a lei e a moral do vigentes no Brasil. Pior ainda: teria sido "estupro de vulnerável", pois a moça, que momentos antes parecia embriagada, não disse que sim ou que não.
Segundo a lei brasileira, pessoa de qualquer idade, desde que não possa responder por seus atos, é considerada vulnerável, se sofrer abuso sexual. Em interpretação mais radical, até um simples beijo na boca, não sendo consensual, vale como "estupro de vulnerável". Parece absurdo e é, até para os mais puros de coração.
Se a lei vale, os dirigentes da emissora e os responsáveis pela produção e direção do programa deveriam ser punidos por indução ao estupro de vulnerável, pois providenciaram música, bebida, casa e cama para que acontecesse. E, em consequência, serão punidos, no mínimo, por danos morais contra o casal.
Além disso, construir clima favorável à relação e, em seguida, gravar cenas do casal fazendo o que a emissora desejava para elevar a audiência do programa, é violar a intimidade e privacidade dessas pessoas. E o que é pior: tudo por dinheiro.
Alguém pode refutar essa tese com o argumento de que os participantes do programa assinam contrato autorizando a gravação do que fazem diante das câmeras. Sendo assim, o casal violou a lei que pune a exploração comercial da pornografia. E, no Brasil, sexo explícito em público ainda é pornografia.
Entre quatro paredes, duas pessoas adultas, sóbrias ou não, podem se entregar às mais loucas fantasias, pois isso não diz respeito a mais ninguém. Mas é caso de polícia, se uma delas registra as imagens para vender.
Armando o cenário, remunerando personagens e vendendo sexo, a Globo tornou-se, portanto, um caso policial. E de nada vale a autorização do casal, que será mero cúmplice, assim como os técnicos, os profissionais que vendem espaços publicitários, os assinantes do programa e as empresas patrocinadoras.
Visto por esse ângulo, trata-se de formação de quadrilha. A maior e mais poderosa que já atuou no Brasil ou no mundo. Se houver um valente procurador disposto a assinar a denúncia e um juiz que instaure o processo e condene os culpados, ninguém mais duvidará de que há lei e justiça neste país.
Mas a questão inquietante vem agora: será que a maioria dos brasileiros desaprova a pornografia e vai aplaudir o juiz? Ou seria melhor consertar a lei ou tirar logo o cobertor? Decidam vocês, antes que alguém do governo ressuscite a ideia de controlar a mídia. Qualquer pretexto serve, para os honrados lacaios de plantão.
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Se for autêntica a autoria da frase que lhe atribuem, Oscar Wilde teria escrito que "Hoje em dia, as pessoas sabem o preço de tudo e o valor de nada.". Se já era assim em seu tempo, atualmente é muito pior.
Está longe a época em que medíamos o valor de um produto ou serviço pelo esforço materiais utilizados para oferecê-los ao consumidor.
Hoje, essa noção de valor está perdida, porque nada sabemos do processo e dos custos que antecedem a oferta. O que nos move e seduz é o marketing, a propaganda, o exibicionismo, a inveja e outras razões inconfessáveis.
Há um filme produzido em Hollywood que desnuda essa realidade. Uma típica família ianque, inventada nos laboratórios de marketing, é enviada a um subúrbio de classe média com o objetivo expresso de gerar desejos de consumo nos vizinhos.
Ao exibir roupas de grife, cremes de beleza, automóveis, joias e até um bidê que fala, essa família artificial induz a vizinhança a gastar o que não pode e contrair dívidas cada vez maiores e mais desnecessárias.
Hollywood se permite esse luxo de tempos em tempos, com a certeza de que seus conterrâneos jamais irão admitir que filmes assim retratam e denunciam a tolice deles. Cabe a você o direito de decidir se a cegueira é excesso de otimismo ou escassez de inteligência.
Para provar que os americanos não estão sozinhos, você será informado - ao longo deste ano - sobre a falência de famílias brasileiras que compraram passagens e embarcaram no transatlântico de otimismo criado para eleger Dona Dilma. E outras, muitas outras, chegarão ao mesmo destino no ano que vem.
Aqui, a dificuldade de distinguir entre o valor real de um produto ou serviço e o impulso induzido de comprar talvez não gerem catástrofe social tão extensa e profunda quanto a que abalou os bancos e os negócios imobiliários nos Estados Unidos. Mas é inevitável que muita gente sofra, a partir de agora, por acreditar que a nova classe média já havia chegado ao paraíso do Primeiro Mundo e podia cair de boca nas macieiras.
Tomara que esse golpe do paraíso - armado por governo, indústrias, bancos e outros aliados - sirva ao menos de alerta e advertência aos milhões que ainda esperam por sua vez de consumir todos os transatlânticos e maçãs disponíveis no mercado.
Voltando a Oscar Wilde, não basta saber o preço das coisas, principalmente se ele é dividido em "suaves prestações mensais". É necessário comparar esse preço à utilidade do que se compra, ao seu real valor e necessidade e ao compromisso financeiro que irá fazer do comprador um escravo da dívida.
Não é preciso ser economista de carteirinha e calculadora para medir os riscos desse consumo imoderado. Se você teve o privilégio de aprender as quatro operações e sabe desenvolver um raciocínio simples, perceberá que a crise na União Europeia e nos Estados Unidos nasceu de uma estranha forma de canibalismo, na qual o canibal come sua própria carne. O Brasil e milhões de brasileiros correm o risco de virar carro velho, que para subir não tem força e para descer não tem freio.
Como diria a avó Izabel, com sabedoria de sertaneja, "quem gasta o que não tem, a pedir vem". E, para poupar neurônios, mantenha a rima pobre, nesta pergunta final: - Pedir a quem?
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Ao contrário do que sentem, pensam e até dizem certos homens do nosso tempo, as mulheres são seres maravilhosos. E não só fisicamente, se foi nisso que você pensou. Elas são mais humanas, mais carinhosas e - de tempos em tempos - mais duramente sinceras que a maioria de nós.
Dizem verdades que podem doer? Dizem. E ficamos emburrados? Ficamos. Mas elas também admitem verdades, duras de confessar, a respeito de si mesmas, virtude que nem os mais virtuosos dos homens costumam cultivar.
Se dependesse de escolha nossa, seríamos apresentados eternamente como perfeitos e acima de qualquer suspeita, diante dos homens, das mulheres e até do Deus em que cada um acredita.
Já as mulheres às vezes nos surpreendem com o seu despojamento e arrasadora sinceridade a respeito de si mesmas. Juntamos os sentimentos e as palavras de algumas delas, para que os garotos percebam o quanto essas meninas de hoje são melhores do que nós.
Por merecimento ou mero acaso, se você conhece mulheres tão sinceras e corajosas quanto a jornalista Dani Zupo e a Prima Nietta, saberá do que estamos falando.
E, se algum dia tiver o privilégio de trocar ideias com outra jornalista, a Márcia Yellow, também verá que ela é capaz de discordar ou concordar de você um milhão de vezes, com a mesma sinceridade. E será dura nas palavras, se for preciso.
Outro dia, Dani reconheceu expressamente um sentimento que homem algum teria coragem de revelar: "Nós, mulheres, temos várias qualidades, mas entre elas não está a de admirar publicamente outras mulheres. Quanto a mim, tenho o mau hábito de só dizer o que penso quando gosto de alguém, o que torna ainda mais difícil a admiração feminina".
Entretanto, senhoras e senhores, a própria Dani e a Prima Nietta não escondem de ninguém a admiração mútua que cultivam. E Dani até acha necessário explicar:
- Tietta (é o outro nome da Prima Nietta) aprendeu a gostar de mim assim e a entender que o que está por trás da minha "franqueza", como se diz na roça, é o meu jeito de gostar e me preocupar.
E partimos então para o extremo Sul do Brasil e lá encontramos a Fernanda Barcellos, jovem especialista em Direito e em sinceridade.
Recentemente, ela postou no seu blog um pedaço do seu coração, que fala mais alto que qualquer discurso. Fernanda é o oposto daqueles que só desejam agradar, a qualquer preço. Vale a pena transcrever, com a permissão da autora:
"Desculpa, mas não sou perfeita. E nem sei se gostaria de ser. Perfeitos não erram e, logo, não aprendem! Não apimentam, não contestam, não se apaixonam... não se entregam, e não amam. Perfeição me dá sono, me enjoa, me incomoda, me entedia! Gosto dos que erram, dos que se assumem humanos. Dos que se assumem como seres em evolução. Não sei se gostaria de ser algo que não sou. Não sei se gostaria de alguém que quisesse que eu fosse algo que não sou. Eu não sou perfeita, sou humana".
Dani concordaria com ela, embora saiba que a maioria não pensa e age assim:
- Há os que não suportam outras verdades. E assim caminha a humanidade, se enganando mutuamente pra dizer o que - acredita - o outro quer ouvir. Um atraso desnecessário, você não acha? Só preciso exercitar o meu jeito de dizer, para ficar, digamos, mais suave.
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Quem tem o hábito de ler revistas masculinas é levado a acreditar que, à exceção dos profissionais, homem só vai para a cozinha com segundas intenções: quer seduzir uma garota. Além disso, as revistas disseminam a informação, historicamente incorreta, de que é recente essa descoberta de que a cozinha é o caminho mais curto para o quarto.
Se você acredita nessa lenda urbana, precisa conhecer alguns sujeitos que cozinham bem há algumas décadas, nunca usaram os temperos como artifício para conquistar mocinhas distraídas e fazem da cozinha uma espécie de altar, onde pessoas de bom gosto cultivam prazer mais sutil, sofisticado e menos exigente do ponto de vista físico.
É claro que existem os outros, do gênero Dom Juan e Casanova, mas esses são suspeitos, no mínimo, de falta de critério.
Giovanni Jacopo Casanova, por exemplo, citou nominalmente, em suas "Memórias", nada menos que 116 mulheres de várias idades, classes sociais, peso e consistência que ele amou e com as quais confraternizou. Já Dom Juan, personagem de ficção, não passava de um caçador, para quem toda mulher era apenas a próxima presa.
Nenhum dos dois fez da mulher uma sobremesa, como sugerem as revistas. E nenhum teve o talento culinário dos mestres e amigos aos quais este texto se refere, ainda que sem lhes revelar os nomes (a omissão é deliberada, a fim de evitar crises de ciúme entre os demais).
São jornalistas ou publicitários mineiros, todos eles. E todos fazem da cozinha o espaço por excelência da amizade, sem intenções suspeitas ou estrelismo imerecido. Ao contrário, a grandeza deles reside na simplicidade, generosidade e convicção de que são aprendizes. E, de preferência, eternos, como devem ser os amigos.
Nenhum faz mistério em torno de receitas. Os grandes são assim.
Quando estão juntos e discutem os ingredientes, os passos e a estratégia para se chegar a um molho perfeito, não querem abafar ninguém. O objetivo é a perfeição em si, meta dos grandes artistas, ainda que não desprezem os aplausos da sua privilegiada plateia, reunida em torno da mesa e do fogão.
Cozinhar não exige rebuscamento, que é sinônimo da mais inútil complicação. Trata-se de atividade amorosa, feita de sensibilidade, concentração, tato e carinho. Como no amor, em certos momentos exige os cinco sentidos, além de silêncio e concentração. Em outros momentos, os cinco sentidos falam, proporcionando deleite e festa, para comemorar o resultado feliz. E, também como acontece no amor, não admite pressa, acaso ou negligência.
O apressado, já ensinava o velhíssimo ditado, come cru. Quem não domina a técnica e aposta no acaso é porque ainda não entendeu a regra do jogo. E o negligente merece tudo aquilo que irá extrair do fogão. Ou seja, absolutamente nada.
Os metrossexuais que confiam nas revistas e se metem a fazer figuração para a mais recente presa deveriam bem, antes de usar a cozinha. Podem quebrar a cara e errar o bote, além de queimar os dedos e os ingredientes mais sensíveis. Quem não se entende com o fogão estraga até o que nem jogou na panela.
Assim como o mau ator polui um texto brilhante, o cozinheiro de primeira viagem pode realizar até o que antes parecia impossível: estragar ainda mais o gosto do miojo. Por maior e mais profundo que seja, o amor não tolera esse e outros desaforos.
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Os mais antigos diziam que a conversação é uma arte. Arte de expressar sentimentos, contar histórias e encantar os que ouvem. E, em contrapartida, também arte de ouvir, sem cortar a todo instante a palavra do outro, seja para dar sua própria versão de um fato ou provar que sabe ser mais divertido.
Nunca se falou tanto e nunca se ouviu tão pouco, quanto neste nosso tempo. Se você estiver agora em um bar ou restaurante, olhe à direita ou à esquerda. É quase inevitável que, na mesa ao lado, as pessoas estejam envolvidas em um combate feroz.
Elas não só disputam o troféu da indelicadeza, mas quase se atracam. Não querem apenas falar, mas também calar de vez os demais. Não se interessam pelo que ninguém diz: estão em busca de audiência cativa e intimidada, que engula em silêncio o seu discurso.
Em casa ou na rua, casais disputam quase a tapa quem fala mais e mais alto. Ninguém ouve, antes de falar. Ninguém pensa, antes de contestar. As palavras voam de um lado para o outro, inúteis, e todo mundo sai frustrado, porque não ouviu e nem disse algo minimamente relevante.
Pode não ser o fim do mundo, mas o mundo ficou mais chato,
Até os mineiros, que sempre tiveram fama de bons conversadores e ótimos ouvintes, já não são os mesmos.
Dá saudade do Zé Guilherme Mendes, que sabia transformar em apimentada e colorida crônica de costumes até o caso mais simples, mais banal.
Tínhamos esse talento, antigamente, mas a modernidade, engolindo o tempo, roubou-nos a delicadeza de ouvir e esperar a nossa vez. Não para contestar bestamente os outros e muito menos para provar que a infelicidade dele é menor que a sua, mas para emendar uma história na outra, causo depois de causo.
Dá saudade de Minas, quando você lê o livro "O voo e o pouso", do Nestor de Oliveira, que trabalha o texto como um pescador trabalha a sua rede, fio por fio, na certeza de que a pressa é a maior inimiga de uma boa pescaria.
São causos simples, os do Nestor. Coisas de pai e mãe, família do interior, com muitos filhos e o costume tanto de premiar quanto de punir, porque era assim que se fabricava um bom caráter, em outros tempos.
Os pais não precisavam gritar, para que os filhos ouvissem. Um simples olhar dizia tudo. Não precisavam ameaçar, porque o danado do menino já sabia que o castigo vinha a cavalo. E sem falta.
Uma vez que todas as paredes têm ouvido, assuntos de família eram tratados e resolvidos em casa, em voz baixa, sem expor as pessoas ao julgamento das ruas. Discutia-se para se chegar à concórdia e não para disseminar o desentendimento.
Esse é o clima em que os relatos do Nestor avançam, através das 150 páginas do livro. Avançam como a canoa que atravessa o riacho. Como o garoto que cresce um pouco a cada dia. Como a vida, que naquele tempo não tinha pressa de chegar ao seu oposto.
Está tudo lá, nesse voo e nesse pouso, às vezes em um parágrafo mínimo:
"Sonhava, mas a realidade andava devagar".
Podem chamar de saudosismo ou do que mais queiram, mas a verdade é que está faltando gentileza nas conversas, assim como faltam generosidade e inteligência nos relacionamentos e é cada vez mais escassa, quase nula, a sabedoria de ouvir.
Se já não sabemos ouvir uma história, um causo, é sinal de que estamos ficando mais surdos a cada dia.
E mais pobres, muito mais pobres.
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O desabamento de prédios no Centro do Rio de Janeiro não roubou apenas a vida, a propriedade e os empregos de um grande número de cariocas. O cineasta mineiro Alberto Graça também perdeu tudo. Ou melhor, quase tudo: não perdeu a vida, por uma questão de minutos, e também conserva a sólida vontade de recomeçar do zero.
Quem ouviu dele um depoimento emocionado foi a vibrante Márcia Yellow, repórter em Montes Claros, cidade natal de Alberto e paixão que os dois dividem desde que nasceram.
Aliás, Montes Claros é assim mesmo: mais que lugar de nascimento de tantas pessoas talentosas, é o cenário de uma vasta rede de paixões.
Poucas horas após o desabamento dos prédios, ao lado da Cinelândia, Márcia falou por telefone com o produtor e cineasta e ouviu dele a notícia de que encarou as suas perdas como recomeço.
- Vou recomeçar do zero. Perdi tudo que era parte física, mas os projetos continuam.
Sua produtora ocupava dois andares de um dos prédios e ele deixara o escritório alguns minutos depois de oito da noite e poucos minutos antes do fim do mundo. Por muito pouco, quase nada, teria desabado também, assim como os funcionários da produtora.
Estava chegando em casa, na Zona Sul, quando soube por uma amiga que o pior havia acontecido, e voltou rapidamente ao centro do Rio, para avaliar o tamanho do estrago. E certamente não imaginava que seria tão grande.
Em lugar do prédio, encontrou - ou viu de longe - "apenas poeira e escombros", como descreve sua amiga Márcia, no blog mais agitado de Montes Claros.
Alberto Graça faz justiça ao seu nome, quando aceita o desastre sem desespero e só pensa no que terá de fazer para reconstruir o espaço de sua outra paixão: o cinema.
Na versão publicada por Márcia Yellow, ele se declara privilegiado por ainda estar vivo e saber que pelo menos duas dezenas de pessoas morreram no local.
- Em nenhum momento da conversa mostrou-se revoltado ou nervoso. Resignado, disposto a reconstruir e com lucidez, relatou ter passado na porta do prédio maior, de 18 andares, que desabou sobre o dele, de dez andares, por volta das 15 horas.
Se o desabamento acontecesse no meio da tarde, os seus funcionários - cerca de 40 - estariam trabalhando. E seria o último dia para todos eles. Por isso, não admite gastar tempo com a desesperança. Segue em frente, para que a tragédia não seja ainda maior.
- A memória do computador, assim como tudo que o equipamento armazenava, está perdida para sempre - informa La Yellow, "mas a memória emocional do sobrevivente está mais viva que nunca".
Ainda este ano, Alberto Graça tem compromisso para filmar na Espanha, além de atuar na produção de um filme brasileiro, e esses projetos estão de pé.
Recomeçar foi a mensagem que recebeu. E é isso que ele fará, custe o que custar. Os sertanejos são assim mesmo: quanto maior a perda, mais forte é a vontade de sacudir a poeira e dar a volta por cima.
Com sua alma de sertanejo e o excelente conceito que construiu no meio cinematográfico, Alberto Graça não estará sozinho nessa nova empreitada.
Como todas as pessoas, o carioca pode ter - e tem - mil defeitos, mas é também a gente mais solidária que existe. Não faltarão trabalhos ao cineasta mineiro.
Pena que os atuais governantes do Rio não estejam à altura da sua terra e do seu povo.
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Pela primeira vez em cinco anos ou mais, o autor sai do palco, abandona a neutralidade e o possível humor, pede silêncio e faz apenas uma pergunta a você: diante desta notícia, que o Hoje em Dia publicou há menos de uma semana, ainda temos o direito de acreditar que somos humanos?
Se você já leu, releia. Se for a primeira vez, prepare o seu coração. Comentar o fato seria apenas adjetivá-lo. E, diante dessa realidade, não há espaço para adjetivos.
A polícia de Itamogi, cidade próxima a São Sebastião do Paraíso, no Sul de Minas, apreendeu nesta quarta-feira (25) duas menores de 13 e 17 anos suspeitas de envolvimento na morte de um aposentado de 62 anos, queimado vivo na madrugada de segunda-feira (23).
A polícia informou que um terceiro menor, de 17 anos, teria confessado o crime e apontado as adolescentes como comparsas. Os depoimentos foram prestados à delegada Renata Matoso Libório de Paula, que conduz as investigações. A delegada disse que as garotas teriam confirmado a participação no crime.
De acordo com o depoimento das adolescentes, prestado à delegada, Pedro Aparecido Alves estava sentado na porta de um bar, já de madrugada, quando os três se aproximaram. O menor, que teria feito uso de drogas, puxou conversa com o homem, que estaria bêbado. Em seguida, sugeriu às adolescentes colocar fogo na vítima.
O menor usou o próprio isqueiro para colocar fogo no homem, com auxílio da bebida alcoólica que a vítima carregava em um pequeno cantil. Pedro Aparecido teria gritado por socorro e tentado, em vão, se livrar das roupas em chamas.
Com 80% do corpo queimado, foi levado ao hospital de São Sebastião do Paraíso. Como seu estado era muito grave, foi transferido para o Hospital de Pronto-Socorro João XXIII (HPS), em Belo Horizonte.
Submetido a cirurgia, Pedro Aparecido não resistiu aos ferimentos.
O enterro de Pedro Aparecido, às 13 horas desta quarta-feira, parou Itamogi e seus 12 mil habitantes. "Ele era alcoólatra, mas era um homem bom, muito conversador e querido por todos. Nunca fez mal a ninguém. Não merecia morrer desta forma", lamentou o dono do bar, Eduardo Silva, a última pessoa a estar com o aposentado, antes do atentado.
"Ele ficou aqui o dia inteiro no domingo. Bebeu muito, falou coisas engraçadas e quando eu fechei o bar ficou ali, quietinho, sentado do lado de fora".
Ainda na quarta-feira, quando a notícia da apreensão do menor se espalhou pela cidade, muitos moradores saíram às ruas para protestar contra a violência. "Este menor, que é de Casa Blanca (SP), estava passando férias com uma companhia de circo que havia chegado aqui na cidade".
"As pessoas ficaram furiosas e foram até o circo, que teve de baixar a lona e ir embora, escoltado", contou a moradora Lúcia de Fátima Santos.
Funcionários da delegacia de Itamogi informaram que as menores apreendidas são filhas de lavradores, que estavam trabalhando quando foram buscados para acompanhar o depoimento delas.
"Eles choraram muito aqui e entregaram as meninas ao Conselho Tutelar. Disseram que para eles também acontecia o enterro das duas. Não querem mais saber delas", contou uma funcionária, que pediu para não ser identificada.
As garotas esperam a decisão do juiz substituto de Itamogi, José Márcio Parreira, sobre seu destino. O adolescente foi levado para o presídio de São Sebastião do Paraíso, onde ficará à disposição da Justiça.
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A tolice não tem idade e nem sexo definido: está ao alcance de qualquer um e em qualquer momento da vida. É natural, portanto, que de tempos em tempos alguns tolos se juntem e resolvam consertar a desorganização do mundo com ideias e valores tão antigos quanto aqueles que os nossos pais e avós defendiam.
O lance da virgindade como valor a ser preservado até o casamento por homens e mulheres renasceu há alguns anos nos Estados Unidos, terra onde as mais variadas tolices proliferam como praga. E copiar bobagens ianques, infelizmente, ainda é o esporte predileto de muitos brasileiros, mania que passa de pai para filhos desde 1910.
Traçado o território, vejamos como se comportam os nossos ativistas da virgindade. Por pressão dos pais, influência de certas crenças religiosas ou desejo incontrolável de participar de qualquer bobagem que junte mais de dez participantes, rapazes e meninas do Rio de Janeiro, Espírito Santo e outros Estados brasileiros estão anunciando ao mundo que vão guardar sua virgindade para depois do casamento.
Mas não lhes basta tomar a decisão: querem que o mundo saiba que são virgens. Por isso, usam uma pulseira de silicone, bem visível e colorida, além da camiseta com slogan e o desenho da mão esquerda. O conjunto identifica os ativistas da virgindade, afasta os candidatos mais sôfregos e, em princípio, foi criado para ajuda a lembrar a jura e repudiar qualquer tentação que venha de fora.
- E daí? - você pergunta.
E daí, nada, rigorosamente nada.
Qualquer um tem o direito de ser virgem até os 100 anos de idade, sem que se obrigue a comunicar isso ao mundo. Nesse caso, por que esses militantes sentem tanta necessidade de fazer propaganda da virgindade jurada? Para atrair interessadas e interessados? Para agradar os avós? Para provar que são portadores de maior pureza que os mortais comuns? Para convencer outros jovens a aderir à castidade?
A avó Izabel, que viveu até os 93 anos e era mais moderninha que essa pequena gangue da repressão, sempre desconfiou dos novidadeiros de ocasião. Hoje, se ainda fosse viva, diria que há patranha nessa história, que parece jogada promocional e de marketing, mais que qualquer outra coisa.
Esses brasileirinhos singelos copiaram até o slogan dos ardentes defensores norte-americanos da virgindade: "Eu escolhi esperar". Eles só não percebem que, anunciando essa aflição ao distinto público, estão dizendo - aos berros - que já não suportam mais esperar. Ou seja, mais que afirmação de virtude, é a confissão de um desejo deliciosamente normal.
Alguns coitadinhos fazem questão de dramatizar ainda mais a espera: para não dar asas ao desejo, dizem que não admitem nem beijos, antes do casamento. Juram que vão embarcar na lua-de-mel mais inexperientes que Adão e Eva e aprender somente com os outros participantes, que também não sabem nada, como se livrar rapidamente da famosa pureza.
Se fosse tudo uma grande brincadeira, como os jovens adoram inventar, não haveria nada de errado nessa história de virgindade, pulseira, slogan e repúdio ao amor físico. Mas há sempre aqueles que levam a sério qualquer invenção dos amigos e aderem, por solidão, medo ou timidez, a essas campanhas moralistas.
Esses nunca saberão quando é que as amigas e os amigos (quase sempre, os líderes) deixaram as pulseiras de lado e partiram para o lugar-comum.
- Azar o deles - dirão os líderes.
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