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Manoel Hygino dos Santos
O mundo inquieto
 


Aos estadistas cabe repensar o mundo. Sabe-se perfeitamente que nenhuma nação está realmente satisfeita com o período atual e todas reconhecem insegurança em todos os continentes e que a violência crepita. Os focos estão no Oriente Médio, na Ásia inteira à Leste, na América ainda dilacerada por restos de guerrilha, pelo avanço das drogas, pela ação incontida dos traficantes.
As necessidades de petróleo aumentam e inquietam as nações que dele dependem para viver e sobreviver. As baixíssimas temperaturas registradas, nos primeiros dias de fevereiro na Europa e Ásia indicam a importância de se abastecer. Muitos milhares de pessoas pareciam condenadas à morte por baixas temperaturas. Enquanto isso, os países produtores, no norte da África, nas nações árabes da Ásia, enfrentavam as mais duras situações de sua história recente.
Com vencer a adversidade diante das rebeliões populares no continente negro, os levantes na península arábica, para suprir-se e ao mundo de petróleo?
As alternativas energéticas ainda não conseguiram suprir o mercado consumidor. O Irã busca solução com o uso do átomo, mas o mundo teme o regime dos aiatolás. A Líbia se dilacerou. O Egito é um campo de batalha interminável depois da queda de Mubarak. As demais nações africanas tentam meios para vencer suas dificuldades, extrair e exportar o petróleo de suas jazidas.
Na América do Sul, a Venezuela, que já foi a mais rica nação da região, não consegue resolver seus problemas internos. As posições políticas de seu presidente, esdrúxulas tantas vezes, preocupa e põe em dúvida a confiabilidade do governo.
Aqui e ali, eclodem manifestações rebeldes e de insatisfação, enquanto continua, embora minimizada, a ação das Farc na Colômbia e os produtores e traficantes de drogas seguem em seu perigoso afã, mais propiciador de riquezas do que nas atividades honestas e saudáveis. A droga sustenta o paraíso desses criminosos em todo o planeta.
A Europa se mantém em dificuldades extremas, o ouro corre perigo, as dívidas nacionais crescem, os níveis de desemprego chegam ao ápice após muitos anos, os governos exigem sacrifícios a que seus povos não têm costume. A Europa anda trôpega e frágil densas camadas de gelo e os Estados Unidos se esforçam para vencer a mais pesada crise de sua história, depois da de 2008.
O Brasil demonstra sua fortaleza em meio aos acontecimentos, mas não se refere à imensa dívida pública, nem à miséria, patente e reconhecida para milhões. Os índices de violência e criminalidade são elevados e atestados pelos meios de comunicação.
Os remediados aproveitam o ensejo de aparente bonança para viagens ao exterior e aquisições de bens que, mui frequentemente, não pagam.
Em meio ao tumulto, o príncipe William desce nas Malvinas, em meio à tensão crescente entre o Reino Unidos e a Argentina pela soberania do arquipélago. Quem não se inquietaria?

Postado em 10 de Fevereiro, 2012
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09/02- Mineiros em Paris
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03/02- Dilma vai, Yoanni vem
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Manoel Hygino dos Santos
Mineiros em Paris
 


É legítimo que eu registre o lançamento de uma antologia de 33 escritores mineiros, no Salão do Livro, em Paris, no mês que vem. Li a respeito em jornais de vários lugares de nosso país, o que revela efetiva repercussão do acontecimento.
Curiosamente, desta vez não aparecem os chamados "medalhões", os mais conhecidos e aplaudidos nomes dos que fazem literatura entre nós. Embora alguns autores já integrem academias e outros grêmios de letras na capital, a supremacia é do interior mineiro. Constitui um fato inédito, que merece ênfase quando a exposição na capital francesa tem data para inauguração e outorga de insígnias.
É a prosa e a poesia de Minas no coração da Europa. São escritores que se pode dizer também representativos de nosso Estado, aqueles que têm presença e participação nas reuniões acadêmicas, nos suplementos dos jornais, professores, prestigiosos e prestigiados em suas respectivas regiões.
Para que se meça a importância da iniciativa, transcrevo seus nomes e sua cidade de origem: Amélia Marcionila R. da Luz, de Pirapetinga; Andreia Donadon Leal, de Mariana, organizadora; Ângela Togeiro, de Belo Horizonte; Aníbal Albuquerque, de Varginha; Aparecida Simões, de Viçosa; Areoaldo de Paula, de Paracatu; Auxiliadora de Carvalho e Lago, da capital; Brenda Marques Pena, também de Belo Horizonte; Cecy Barbosa Campos, de Juiz de Fora; Conceição Parreiras Abritta, da capital.
E mais: Creusa Cavalcanti França, de Juiz de Fora; Douglas de Carvalho Henriques, de Conselheiro Lafaiete; Elizabeth Rennó, de Belo Horizonte e da Academia Mineira de Letras; Elza Aguiar Neves, da capital; Gabriel Bicalho, de Mariana; Gilberto Madeira Peixoto, de Belo Horizonte, da Arcádia Mineira; Hebe Rola, de Mariana; J. B. Donadon Leal, de Mariana; José de Assis, Luiz Carlos Abritta e Mágada Lúcia Rodrigues, os três de Belo Horizonte; Goretti de Freitas e Marília Siqueira Lacerda, de Ipatinga; Marly Moysés, de Mariana; Miriam Stella Blonski, de São Gonçalo do Rio Abaixo; Nena de Castro, de Ipatinga; Newton Vieira, de Curvelo; Paulo José de Oliveira, de Formiga; Sílvia Motta, de Belo Horizonte; Vilma Cunha Duarte, de Araxá; e Zaira Melillo Martins, de Caeté.
Os parisienses que assistiram ao voo inaugural do mais pesado que o ar há mais de século atrás, vencendo o frio e os percalços do tempo que ora vivem, comparecerão ao Cercle Republicain para a solenidade de condecoração dos autores mineiros na Academia du Mérite et Dévoument Français, no dia 13 de março, data de minha distante nascença, numa cidade norte-mineira.
No dia seguinte, a abertura da mostra "Brasil Art in Paris, e, em 14, instalação oficial do Salão do livro de Paris, inclusive a antologia, intitulada "Ecrivains Contemporains du Minas Gerais", produzida para promover os consórcios e confrades dos mundo das letras de Minas, como consta do programa. Diva Pavesi, que coordenou o evento na histórica capital, está enfática: "Vive les poètes du Minas Gerais!"

Postado em 9 de Fevereiro, 2012
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Manoel Hygino dos Santos
A nobre raça
 


Há mistérios indecifráveis nas velhas cidades mineiras integradas ao Circuito Histórico. Uma imensidão de fatos e personagens, famosas ou quase anônimas, falta ser desvendada e revelada. As incógnitas persistirão ao longo do tempo. Mas há também o ignoto mundo mais ao Norte, às margens do São Francisco ou nas estradas boiadeiras. É outra Minas que Guimarães Rosa despertou para o interesse do Brasil. Ali há outra gente, outro clima, há sertão, que gerações procuram descobrir sem inteiro sucesso.
É o caso de um cidadão, falecido em 9 do 9 de 2009. Em 16 de janeiro, último, faria 90 anos. Já há um livro sobre ele, escrito pela irmã Glorinha, advogada, psicóloga e autora de vários livros. Nascido à beira do rio, teve uma vida rica em acontecimentos, correu mundo, conquistou o diploma superior, voltou às barrancas, foi homenageado pelos integrantes da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco, quando dos 500 anos da descoberta da portentosa corrente unificadora de distantes regiões do país. Naquela ocasião, Marcelo Mameluque Mota, sobre quem agora escrevo, declarou: "Posso dizer sem medo de errar que o rio São Francisco nasce na serra da Canastra, em Minas Gerais e morre no oceano Atlântico, no Estado de Alagoas, mas antes, em seu percurso, ele passa pelo meu coração com o tisnado barrento de suas águas, de onde destaco a sua mais extraordinária riqueza, que vem a ser sua gente, da qual faço parte, pois aqui vivo. Neste vale, dei o primeiro grito de vida e, com certeza, darei o meu último suspiro".
No sertão distante das capitais, dos centros decisórios do poder, a gente que ali sofre há séculos é, apesar de tudo, apaixonada pela terra que a recebeu e a abriga. Incessantemente luta pelas causas mais legítimas de uma população consciente de seus deveres e de seus direitos, assumindo a certeza de que "morrer, só morre o frio cadáver que não sente", na definição de Pedro Mameluque Mota.
É um povo muito especial, a um só tempo manso, bravo, compassivo e corajoso, que não leva desaforo para casa, capaz dos mais vigorosos atos em defesa de sua propriedade, de sua família, de sua fé, de seu nome. É um povo que tem uma sonoridade diferente de falar, que compõe e canta sua própria música, disseminada por recônditos lugares e conservada a autoria quase sempre no anonimato.
João Ribeiro, historiador, define a gente do médio São Francisco e seu papel histórico-geográfico: "...excluído o mar, caminho de todas as civilizações, o grande caminho da civilização brasileira é o rio São Francisco; é nas suas cabeceiras que as grandes bandeiras, e daí se expande e ondula a impulso das minas, é no seu curso médio e interior que se expande e propaga o impulso da criação, os dois máximos fatores de povoamento".
Ali, usos e costumes, tradições, mitos e lendas, hábitos e linguagens são próprios. Ali se chocaram as ondas mais intensas da conquista do interior mineiro e que contribuíram para forjar o tipo humano muito especial que habita a região. Marcelo é um exemplar típico da gente das barrancas, com todas as motivações e sonhos, não submisso às decepções do tempo e do espaço.

Postado em 8 de Fevereiro, 2012
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Manoel Hygino dos Santos
Uma viagem ao Acre
 


Acumpliciados, Mauro Pereira Cândido, advogado, e Eduardo Brito de Azevedo, livreiro, conseguiram-me um livro raro: "Euclides da Cunha e o Paraíso Perdido", de Leandro Tocantins, lançado pela Gráfica Record Editora. Uma das curiosidades é não constar a data na publicação, do que dá ideia o prefácio de Arthur Cezar Ferreira Reis, de 1967. Outra: o exemplar foi autografado pelo escritor em novembro de 1969 para o então governador Negrão de Lima, do Rio de Janeiro.
Por esses detalhes, temos à mão, portanto, algo mais do que raro, porque também precioso. No conteúdo descobrimos um Euclides da Cunha renovado, sempre admirável. Leandro Tocantins, ao afirmar que se convencia "de que um novo Euclides se revelava nessas páginas tão pouco lidas, tão pouco estudadas."
A narração da viagem amazônica de Euclides contém a descrição heroica por uma região imensa e muito desconhecida até hoje. O autor revela um profundo conhecimento, sobretudo do homem, não circunscrito ou restrito às disputas lindeiras entre Brasil e Peru.
Sob todos os aspectos, uma obra que merece ser lida, uma aula de história e de vida, de um homem preocupado, sisudo, nervoso engenheiro, ex-aluno da Escola Militar no final da monarquia, republicano, admirador e discípulo de Benjamin Constant. Isto é, Euclides da Cunha.
Há de se perceber que o ingresso de Euclides na Amazônia é, mutatis mutandis, uma continuação do que vira e descrevera no Nordeste, através de "Os Sertões". O pensamento de Leandro Tocantins se presta para definir o caráter e ideal do escritor: "Protesto e acusação pelo atraso e esquecimento de um Brasil que vivia dentro de padrões primitivos, marginal à civilização litorânea. Do choque dessas duas sociedades é que surgiu o incrível conflito de Canudos, como se um deus vingador quisesse repetir, ali no solo crestado do Nordeste, o castigo bíblico da confusão das línguas".
Não é aproximadamente o que se diria do Brasil de hoje: o das mansões e palacetes da orla marítima e o das favelas, dos ajuntamentos humanos à margem dos rios das grandes cidades?
"Os Sertões" abrem ao exame brasileiro o problema que o país tinha de enfrentar e até hoje desafia a sua capacidade de solucioná-lo: as desigualdades regionais.
O homem Euclides e a paisagem sertaneja repontam num estranho processo de simbiose, tão dramático quanto aquela "terra desnaturada", ferida pelo sol que impõe silêncio à natureza, "em cujo seio se abate, imóvel, na quietude de um longo espasmo, a galhada sem folhas da flora sucumbida", com o escritor fluminense registrou.
Os estudiosos de outros países, os leitores de fora, deram mais valor ao gênio de Euclides. O seu estilo é cósmico, segundo Afrânio Peixoto. Joaquim Nabuco admitia que "Os Sertões" foram escritos com um cipó. Um livro que não encontrou similar, porque contém a tragédia, o épico, o poético, a informação científica. Publicado "Os Sertões", seu autor logo comentou em carta a Luiz Cruls, no ano de 1903: "Alimento, há dias, o sonho de uma viagem ao Acre".

Postado em 7 de Fevereiro, 2012
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Manoel Hygino dos Santos
Poesia e cinema
 


Nascido em 1897, quase simultâneo com o cinema. Assim, Ronaldo Werneck começa trecho de um livro cuja leitura não pode ser negligenciada: "Humberto Mauro revisto por Ronaldo Werneck, editado pela artepaubrasil. A publicação não é rigorosamente, nova, tampouco velha. O que é bom vence o tempo e deixa marcas e sabores inesquecíveis. O vinho que o diga.
O volume tem outro nome: "Kiryri rendáua toribóca opé", que o cineasta traduziu ao pé da letra como: "Calma lugar rancho alegre no", ou simplesmente "Lugar de calma e sossego no Rancho Alegre". Ora, seria um trabalho para brasileiro algum desconhecer, muito menos os mineiros.
O livro é primoroso no texto, na concepção, na riquíssima iconografia, na felicidade do material - redigido, fotografado e extraído dos filmes. Enfim, algo para ninguém botar defeito e que, mais do que isso, deve ser preservado carinhosamente em lugar adequado, por conter o que agrada ao coração e ao espírito.
Quem assiste ao cinema contemporâneo tem o dever artístico, histórico e cívico de conhecer Humberto Mauro, que nasce naquele remoto 1897, quando também nasceu Belo Horizonte como capital de Minas Gerais. Para se ter ideia da importância desse montanhês de Cataguases, poderia recorrer a Sheila Schvatzman, numa publicação da Unesp, de 2033. Ali, ela diz: "Mauro percorreu e construiu com suas lentes o país que se inventa e reinventa sem cessar. Colocou em movimento as imagens e o imaginário que conformaram o Brasil até então e continuavam a se produzir, dando-lhes a sua interpretação, acrescentando símbolos, reiterando outros... Humberto Mauro constrói um Brasil que vem a se tornar, elas mesmas, matrizes do cinema brasileiro".
Ofereço tópicos do livro de Ronaldo para se avaliar a relevância do papel do cineasta e do poeta. O indomável Glauber Rocha, há 40 anos, deixou registrado: "...chamaríamos Humberto Mauro de puro, mas não de primitivo. E neste puro não está implícita a mínima relatividade. Puro como John Ford, puro como Griffith ou puro como o cinema intelectual de Eisenstein (…) Seu mundo é a paisagem mineira, o Mauro seria o único cineasta capaz de filmar Guimarães Rosa e dar no cinema a mesma dimensão do grande romancista".
E diria o próprio cineasta de Cataguases: "A roda d'água, por exemplo, é de uma fotogenia extraordinária. Aquele rodar lento, os musgos, a água batendo contra o sol. Agora, troca por um motor a turbina e vê a porcaria que fica. Pega um carro de bois no topo de um morro, contra o sol, o candeeiro, o carroceiro em cima do cabeçalho - é de uma beleza incrível! Agora, tira e bota um caminhão fenemê: é uma droga. O progresso é antifotogênico".
O poeta conterrâneo, que voltou ao lugar de nascença, diz que "revendo essas palavras, suas palavras-imagens, percebo como o cinema estava nele como se dele nascido, de tal modo que Mauro acabava sempre falando como se filmasse", extraindo beleza.
Quem não ler e sentir esse livro, não conhece nosso cinema.

Postado em 4 de Fevereiro, 2012
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Dilma vai, Yoanni vem
 


O governo concedeu visto de turista para a dissidente cubana Yoanni Sanchez vir ao Brasil a fim de apresentar o documentário "Canexión Cuba - Honduras", do cineasta Dado Galvão, do qual participa. Ela pedira autorização em carta enviada à presidente Dilma. Esta, cuidadosa no relacionamento com Havana, consultou antes a ilha, que sinalizou pela permissão.
A blogueira também solicitou, na oportunidade, audiência com Dilma, durante a visita que esta faria a Cuba nos dois últimos dias de janeiro. Mas o Planalto, de antemão, esclareceu que a agenda da presidente, embora não fechada, possivelmente não admitisse encontros com dissidentes. Suponho que o encontro entre as duas possa consumar-se, na permanência de Yoanni Sanchez no Brasil em data ainda não fixada.
Esses fatos se desenrolaram enquanto morria em Santiago de Cuba, o preso político Wilmar Villar Mendoza, no Centro de Cuidados Intensivos do Hospital Clínico Cirúrgico, onde se hospitalizara recentemente, durante longa greve de fome. É o segundo a falecer netas circunstâncias, repetindo o ocorrido com Orlando Zapata, de 42 anos, sobre quem se negou a manifestar-se o ex-presidente Lula. Mais uma vez, outros dissidentes foram proibidos de ir ao velório e ao sepultamento. Depois de mais de 50 anos de "democracia comunista" na ilha, com os sacrifícios enormes causados à população, pelo sistema de governo e pelo embargo econômico dos Estados Unidos, vão-se abrindo novamente caminhos para o capitalismo. O mesmo, enfim, que aconteceu com a União Soviética, de que se guardam dolorosas memórias.
A viagem de Yoanni ao Brasil será um acontecimento importante, se realmente se efetivar. Ela é responsável por um dos 100 blogs mais influentes do mundo, segundo a revista "Time". Terá muito que contar, se a tanto se dispuser, além do que divulgar incessantemente pelo seu "Generación Y".
Formada em Filosofia Hispânica, Yoanni confessou: "Para evitar endeusamentos e futuras crucificações, deixo claro em uma das páginas que o meu blog é um exercício de covardia: dizer na rede tudo aquilo que não me atrevo a expressar na vida real".
Mas se há de argumentar que não o conseguiria, mesmo com a acanhada abertura que se faz em Cuba.
Através de seu instrumento de comunicação, a cubana faz com que as paredes de sua vida se tornem transparentes: "Gentes de todas as partes do mundo estão atentas aos meus estados de ânimo e prestam atenção aos possíveis castigos que podem me ocasionar o trabalho on-line. Só a perda de minha privacidade - o fim de uma bolha fabricada com anos de silêncio, intimidade e reserva - evita que eu seja devorada pela engrenagem que já engoliu tantos". Entre eles, o que a autora não cita, Mendoza e Zapata, que visitantes ilustres de Cuba preferem ignorar.
As coisas assim estão. Cuba precisa de solidariedade e seu povo de compreensão e carinho. Na pauta da presidente, não deveria constar o pagamento do Brasil dos US$ 450 milhões emprestados pelo Brasil, para reforma do Porto Mariel. Há muito a registrar, mas pode não ser conveniente falar nisso. Entre os registros, de que em dezembro se completaram 40 anos de ter Fidel anunciado a adesão ao marxismo-leninismo. São fatos que se tornaram passado. Mas não se esquecem as privações, provações e sacrifícios.

Postado em 3 de Fevereiro, 2012
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O mundo tem pressa, o Brasil tem pressa, o homem deste país tem tanta pressa que abrevia o próprio destino. Fica a meio do caminho.
Dizia-se ser a pressa inimiga da perfeição e pode ser o caminho mais curto entre dois pontos. A pressa causa estresse e é letal. Compulsem-se as estatísticas.
Os casos de invalidez permanente entre operários vítimas de acidentes de trânsito quintuplicaram praticamente entre 2005 e 2010, passando de 31 mil para 152 mil por ano. Dados mostram que a maioria dos acidentados - mais de 70% dos casos em 2011 - usava moto e estava em plena idade economicamente ativa, entre 18 e 44 anos.
A situação não deixa em pânico apenas as famílias, que perdem um ou o único membro ativo, passando a viver da ajuda do governo.
A situação inquieta a Previdência, que teme arcar com os custos de uma geração de aposentados por incapacidade.
O quadro, ampliado, ainda mais preocupa. Em 2011, a previsão é de que o país deve ter perdido de R$ 4,5 bilhões com acidentes nas estradas federais. Isso representa toda arrecadação de impostos, em um ano, no Acre, Alagoas, Amapá, Maranhão, Paraíba, Sergipe e Tocantins juntos.
No exercício passado, até agosto, os acidentes custaram R$ 9,5 bilhões ao país, um crescimento de 4,6% em relação a 2010, descontada a inflação. Foram 3.768 acidentes com mortes, 43.361 com feridos e 79.430 sem feridos nas rodovias da União. Um acidente por morte custa, em média, R$ 567 mil e 60% vem da perda de produção da pessoa.
Em 2012, são quatro feriados em sextas-feiras, que propiciam viagens prolongadas e, consequentemente, riscos e pôr a vida a prova. As advertências das autoridades e o amplo destaque dado às tragédias pela imprensa não têm dado o resultado esperado na população. E a frota continua crescendo, inclusive com a inadimplência e o aumento do número de carros abandonados.
A produção da indústria automobilística se mantém elevada. Bom sinal sob determinados aspectos, mau sob muitos outros, porque estradas não serão recuperadas de um ano para outro, e as enchentes de recente período chuvoso causaram grandes danos à malha rodoviária e às vias urbanas. O número de acidentes tende a evoluir e a letalidade das estradas é fato patente, num país em que há pessoas que insistem em dirigir alcoolizadas, sob efeito de outras drogas e sequer sem habilitação.
Um panorama complexo, pois. Sem se esquecer de um dado significativo. Setenta e cinco por cento dos moradores das cidade brasileiras com mais de 100 mil habitantes, ou seja, 32% levam mais de uma hora no trajeto entre a casa e o trabalho ou escola. Levantamento da CNI/Ibope revela que o transporte coletivo é utilizado por 61% dos brasileiros, mas somente 42% o consideram seu principal meio de locomoção. A última informação a despeito da propaganda sobre a produção brasileira de petróleo, não somos auto-suficientes.
A própria Petrobras relata que o governo se verá na obrigação de importar este ano mais gasolina do que em 2011. Virão de fora cerca de 45 mil barris por dia, 4 mais do que no ano findo. Pior: o parque de refino nacional está no limite e nova refinaria, se tudo correr bem, somente em 2013.

Postado em 2 de Fevereiro, 2012
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08/02- A nobre raça
07/02- Uma viagem ao Acre
04/02- Poesia e cinema
03/02- Dilma vai, Yoanni vem
02/02- Todos têm pressa
01/02- Um grande mineiro
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Manoel Hygino dos Santos
Um grande mineiro
 


Jornalista fiscaliza tudo, não apenas os políticos. Assim, causou-me surpresa quando encontrei no "Opção", de Goiânia, em seu suplemento "Opção Cultural" um extenso, e bem elaborado artigo do escritor J.J. Leandro. Nele evoca os nomes e os feitos de brasileiros que ajudaram a desbravar o Oeste, inclusive Goiás.
O articulista observa que pouca gente ouviu falar em Couto de Magalhães, militar, político, homem das letras. Refere-se ao personagem, à época em que foi presidente da vizinha província e "rasgou os sertões de Goiás a passo de cavalgadura ou em batelões por água. O fruto dessas viagens inquietas foi o livro "Viagem ao Araguaia", onde ao lado de um estudo da terra e do homem, ele antecipa Pedro Ludovico defendendo a mudança da capital goiana de Goiás para Leopoldina, à margens do grande rio".
Depois de expressões de admiração pelo desafio enfrentado por Couto de Magalhães em sua peregrinação cívica pelo interior do estado vizinho, J. J Leandro o elogia pela obra literária que produziu. "Em pleno século XIX, quando a linguagem rebuscada era padrão entre os autores acadêmicos, homens como Couto de Magalhães, calejados no lombo de burros, tinham a pena livre de atavios e aprumada como o passo das mulas com que varavam os sertões".
E disse mais o autor goiano: "Ele, Couto, tinha clara a preocupação em registrar as mudanças na vida e nos costumes do povo para que as gerações futuras soubessem mais sobre nosso país. Em "Viagem ao Araguaia", ele diz: "Ah, leitor, quantas e quantas coisas, mesmo neste São Paulo de onde escrevo esta, já vi mudar, desde o tempo em que era rapaz até hoje!"
E as transformações deviam a Couto Magalhães. Só que o articulista não fez a mínima referência à origem e procedência do desbravador. Nem deixou uma pista de onde viera, de que Estado, de que município.
Couto de Magalhães, de nome José, foi batizado em 18 de dezembro de 1837 na Vila de Diamantina. Terminados os cursos elementar e médio, matriculou-se na academia de Direito em São Paulo, enquanto lecionava filosofia no mosteiro de São Bento, sendo seu aluno Prudente de Morais, depois presidente do Estado e da República.
Foi presidente também das províncias de Goiás, Pará, Mato Grosso, designado a governar Minas no gabinete Zacarias, não aceitando a distinção, como não quis presidir a província do Rio. Com exceção de São Paulo, esteve à frente dos destinos das demais províncias, quando sequer chegara aos 31 anos.
A seu respeito, escreveu o historiador Sóter Couto: "Cientista emérito, notável escritor e poliglota, era uma organização fora do comum. Falava inglês, francês, alemão, italiano, espanhol, tupi e vários dialetos indígenas".
Sua via foi uma epopeia. Paladino do nacionalismo, indianófilo apaixonado, teve atuação marcante na Guerra do Paraguai, lutando em Mato Grosso contra três perigosos inimigos: fome, peste e paraguaios. Pena que J.J. Leandro não o soubesse!

Postado em 1 de Fevereiro, 2012
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Manoel Hygino dos Santos
Canellas, anarquista
 


Embora destinado a focalizar um personagem singular na vida brasileira nas primeiras décadas do século XX, extrapola. Consegue reconstituir, com riqueza de minúcias, o surgimento e tentativas de consolidação do Partido Comunista Brasileiro, muito aproximadamente ainda da ascensão dos soviéticos na Rússia.
O título é forte, mas apenas extraído de uma peça acusatória do processo em que se viu acusado o protagonista, por desafiar os donos da Internacional Comunista e seus áulicos, naqueles duros, bélicos e sangrentos tempos. Assim é "Um cadáver ao sol", que levanta, ao preço de insistentes pesquisas no Brasil, na América do Sul e na Europa, a vida de Antônio Bernardo Canellas. Anarquista, comunista suspeito e frustrado, e termina a carreira e a existência dramática, mas silencionasamente. Como foi mesmo seu fim?
A autora é Isa Salles, sobre quem os editores não registram muito. Jornalista, formada em 1965 na Universidade do Brasil, com extensão na Fundação de Ciências Políticas da Sorbonne e no Programa Jornalistas na Europa, em 1977-78. Presa política pela ditadura militar, acusada de integrar a VPR, Vanguarda Popular Revolucionária, respondeu a dois processos no Rio de Janeiro e São Paulo e trabalhou em jornais da resistência, como "Opinião" e "Pasquim", com o pseudônimo de Iza Freaza.
Antônio Bernardo Canellas, nascido em Niterói em 1898, cedo se inclina às ideias da esquerda e, em 1922, ei-lo desembarcando em Moscou, depois de muitos esforços. Participaria do IV Congresso da Internacional Comunista, que empolgou jovens daquela época, pouco sabedores do que de fato acontecia na União Soviética e no âmago das discussões.
Uma experiência decepcionante, porque Canellas descobriu que não havia uma ditadura do proletariado, mas sim uma ditadura do partido, sobretudo cruel depois da ascensão de Stalin. O jovem brasileiro, todavia, não era senão um dos 394 delegados à Internacional, e foi considerado como anarquista, o que no fundo continha dose de verdade.
As lutas internas na IC, as disputas pelo poder, o contato com importantes figuras do socialismo, do comunismo, dos partidos europeus e americanos, seus embates verbais e suas tentativas de elevar a voz no grande conclave em Moscou, o fizeram descrer de um futuro venturoso. Em plena assembleia, interpelou o camarada Trotsky, divergiu, votou contra matérias de interesses dos bolcheviques, levou a pior. Foi expulso da Internacional e do partido, e carregou ao longo da curta vida o peso da suspeita, de graves acusações sofridas.
Uma luta sem êxito, mas que a autora, tão dentro do tema, soube explorar muito bem na edição da Ediouro. Enfim se pode saber profundamente sobre aquele período difícil para a humanidade, aberto com a vitória da revolução e, depois, maculado o caminho pelo sangue na era Stalin.
O anarquista Alexander Berkman, americano de origem russa, definiu aquele momento: "São dias sombrios. O terror e despotismo esmagaram a vida nascida em outubro. Os ideais da revolução foram traídos, os ideais sufocados no sangue do povo. A ditadura esmaga as massas. A revolução está morta, seu espírito grita no deserto".

Postado em 31 de Janeiro, 2012
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Manoel Hygino dos Santos
Lembrando Afonso X
 


Ângela Vaz Leão lançou, na Academia Mineira de Letras, o seu livro "Cantigas de Santa Maria", tornando-se, como enfatiza Jacyntho Lins Brandão, da UFMG, "uma das mais destacadas conhecedoras desse corpus, em todas as suas peculiaridades linguísticas, culturais e poéticas". As "Cantigas de Afonso, o sábio" ou "Cantigas de Santa Maria", obra de Afonso X, constituem o grande cancioneiro medieval galego-português. O soberano dedicou-se à cultura e às letras, em meio às lutas e inquietações de sua época, merecendo perfeitamente o apodo".
As "Cantigas" são eminentemente do rei e, pelo apuro da forma, um monumento literário de nossa língua arcaica, não inteiramente extinto pelo passar destruidor do tempo. Logo após o lançamento do livro da professora Ângela, Yvonne de Oliveira Silveira, formada em Letras pela hoje Unimontes, de que se tornaria professora de Literatura Portuguesa e Teoria da Literatura, decidiu lançar seu "Cantar de Amiga", Pós-graduada pela PUC e sempre atualizada em cursos onde ocorrerem, ela trata a matéria com dedicação e denodo, como o demonstra.
O livro de Yvonne é a mais recente declaração de amor à região em que vive, à terra em que nasceu, as pessoas com as quais conviveu e convive, ressoando "traços fundamentais da gente montes-clarense", como observa Anelito de Oliveira, doutor em letras pela USP, dentre outros títulos.
Para apresentar o livro da escritora norte mineira, Raquel Mendonça diz que o caminho de Yvonne "foi sempre o das palavras, das lições, das letras e de cultivar a língua portuguesa e a literatura com generosas doses de amor, talento e conhecimento". Miriam Carvalho, mestra em Literatura Brasileira, aprofunda o comentário:
"Poeta, merecedora das "doçuras matinais" (sequestro suas palavras) e "do sol da ventura imortal", e "das ondas de espumas dos Quinze anos", e do "mar longo da vida" e "do canto de violino ao redor dos sonhos rendados", Yvonne, influenciada pela cultura portuguesa, pelas cantigas de amigo, atualiza em seus cantares a vida de nosso tempo sob a ótica de uma intimidade espontânea, às vezes, na forma versificatória de quadras.
Outra escritora Maria Luíza Silveira Teles, proclama: "Yvone, ao exprimir toda a gama de sentimentos que a tomaram pela existência, brindou a uma celebração maior: a celebração de tudo que caracteriza a sua própria vida e compõe a belíssima canção da vida do Ser Humano".
Enfim, "Cantar de Amiga" é um hino de amor, porque a própria palavra dela emana. Nesse volume gracioso, a autora lembra minha mãe, "Tercília", que não mais está entre nós. Tampouco a rua não é mais aquela em que ambas residiram, pois - tomada pelo asfalto - perdeu a paz e o encanto, transformou-se em fervedouro:
"Carros, motos, bicicletas,/ bancos, lojas, farmácias,/ lanchonetes, restaurantes,/ tiraram amigos e o lar". Mas a autora, em espírito, lá permanece em evocação porque lá é a sua rua, a rua de sua infância, que tão longe está.
Cantiga ou Cantar de Amiga são versos para sempre.

Postado em 28 de Janeiro, 2012
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