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O último dia 22 de março era uma segunda-feira de expectativa em Brasília. Virou uma segunda-feira histórica. Eu, na redação, já me coçava de ansiedade com a possibilidade de ver perto o mestre, meu ídolo de pelo menos 40 anos, visto que ainda adolescente já ouvia os solos de uma guitarra que gemia e uivava inspirações negras vindas de campos de algodão onde ele forjou-se o maior de todos os guitarristas de blues que já existiu. Ele mesmo, mister B.B. King, não apenas um super blues man, mas o rei deles, que inspirou ícones como Jimi Hendrix, Eric Clapton, Jimmy Page, entre tantos outros.
A noite prometia e eu me preparei, avisei minha alma que iríamos voar, que iríamos flanar com o som de B.B. King. Cheguei antes, percebi que tinha muita gente chegando. Lá dentro do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, jovens e coroas disputavam bonés, camisetas e outras lembranças do mestre. Bem que tentei comprar, mas já não havia mais o meu número. Me consolei com o movimento em torno do show. Percebi que lá dentro músicos e roadies já conferiam o som dos instrumentos e fui logo sentir de perto aquele clima que, não só como fã, mas também como músico, faz a adrenalina subir pelas veias como fogo. Me questionei sobre como aquela acústica duvidosa do espaço iria se comportar diante do meu mestre do blues. Vi aquela poltrona branca e logo o imaginei sentado ali com a Lucille, sua guitarra Gibson cujo nome virou símbolo de qualidade sonora. Me perguntei se iria tocar "The thrill is gone", canção com a cara do mestre. E esperei em silêncio, como quem vai ficar de frente para um guru das profundezas musicais.
Quando o show começou, a emoção tomou conta da plateia, um auditório lotado com 3.300 pessoas, jovens e veteranos, todos fãs apaixonados pelo mesmo mestre: mister B.B. King, um mito, uma lenda, ao vivo e tocando e cantando aos 84 anos. Mais que isso, ele encantou como um mágico aquele espaço. O som saiu perfeito, nem se percebeu que a acústica do local tem problemas. O público gritava, eu gritei. Alguém urrou: "I love you, man". Ele respondeu: "I love you to". Foi inacreditável. Depois de duas canções instrumentais tocadas pela banda, a B.B. King Blues Band, que abriu o espetáculo, o mestre entra no palco como uma entidade, com seu brilho próprio, esplendoroso, distribuindo palhetas, sorrisos e sobretudo uma energia indescritível. Confesso lágrimas de emoção e alegria por estar ali, por poder aplaudir e ouvir o mestre. Vi seus dedos afagarem as cordas de Lucille, reencontrei aquele timbre tão familiar aos meus ouvidos, senti sua voz de trovão e veludo ainda em plena forma entrar pelos meus tímpanos adentro. Foram cerca de 90 minutos de show, entre brincadeiras, declarações amorosas ao público, elogios a Brasília, às mulheres, e confissões de um blues man de alma gigante. Um gentleman no mais amplo sentido. Pareceu uma viagem, inesquecível, pelo planeta blues, como um sonho bom. Me enchi de prazer de vê-lo cara a cara. Confesso que não tinha percebido, antes do show, a força do tempo expressa nos cabelos brancos dele, na sua figura sentada na poltrona. Uma memória afetiva mantinha o mestre na minha lembrança mais jovem, de pé, detonando a Lucille como nos CDs e DVDs que tenho dele e sempre ponho pra rodar. Mas tudo se dissipou diante daquela figura doce e monumental no palco. E ele cantou "The thrill is gone". Saí de lá em estado de graça e com o coração molhado de blues.
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O cerrado ficou mais pobre. Perdeu um pássaro cantador. Foi-se José Ramiro Sobrinho, mais conhecido como Pena Branca, homem que flanava com seus versos, sua voz e sua viola brejeira e que fazia voar quem o estivesse ouvindo cantar como um sabiá.
Começou plantando milho, feijão, no cio da terra, com a família humilde, pai, mãe e sete irmãos. Desde cedo tocava viola e tinha asas. De Uberlândia, em Minas Gerais, onde nasceu em 1939, levantou voo para o mundo, com sua voz e sua inspiração, ao lado do irmão Ranulfo, o Xavantinho. Pena Branca e Xavantinho são hoje uma lenda nacional. O que há entre os melhores defensores, e compositores, da verdadeira música de raiz, caipira, com cheiro de terra, com sabor de mato. Seus seguidores, e amigos, Zé Mulato e Cassiano, ficaram muito tristes. Foram Pena Branca e Xavantinho que resgataram a dupla brasiliense em 1994, depois de treze anos sem gravar, para a gravadora Velas, que deu a eles o Prêmio Sharp de Música em 1998. Mas esse é só mais um caso que revela a qualidade de Pena Branca e Xavantinho, como seres iluminados, como seres humanos em toda a amplitude do que isso quer dizer. Chorou também Volmi Batista, presidente do Clube do Violeiro Caipira de Brasília, empresário de Zé Mulato e Cassiano e também músico e defensor da autêntica música caipira. Chorou todo o Brasil que teve o privilégio de conhecer Pena Branca. Depois da morte do irmão Xavantinho, Pena Branca não conseguiu parar. A música falava mais alto dentro de si. E ele seguiu em frente.
Tive o prazer de uma vez buscar Pena Branca no Aeroporto de Brasília. Veio para um show em homenagem a um grande amigo que fazia 50 anos, mineiro, conhecedor da importância daquela música e admirador daquela figura voadora, pura e inspirada. Foi um show inesquecível, com muitos "causos", com a riqueza de detalhes dos caipiras verdadeiros. A música de Pena Branca cutuca a alma, invade o coração feito chuva no descampado. E a pessoa dele, que conheci fora do palco, era de uma doçura de fazer inveja a qualquer confeitaria francesa. Um anjo negro inspirado.
Houve outra vez, no final da década de 90, quando em almoço com a dupla para uma entrevista tive o prazer da convivência por algumas poucas horas. A comida, um filé de frango com molho de maracujá, levemente adocicado, suscitou uma piada. Pena olhou pra Xavantinho e atirou: "É cumpadi, eles trocaram o prato. Veio a sobremesa na frente da comida".
A herança de Pena Branca e Xavantinho está em mais de uma dezena de discos como "Velha morada", "Uma dupla brasileira", "O cio da terra" (esse com participação de Milton Nascimento, Marcus Viana e Tavinho Moura). Ganharam destaque no Festival MPB Shell, em 80, com a canção "Que terreiro é esse". Em 88, lançaram o LP "Canto violeiro", com participação de Fagner, Tião Carreiro e Almir Sater. Viajaram pelo Brasil com Rolando Boldrin. Em 90, levaram o Prêmio Sharp de melhor música, com "Casa de barro", e melhor disco, com "Cantadô do mundo afora". Em 92, ganharam de novo o Prêmio Sharp em disco com Renato Teixeira. Em 93, com o disco "Violas e canções", em que se destacou a canção "Viola quebrada", seus shows se estenderam aos Estados Unidos.
Pena Branca morava em SP, em Jaçanã, e pegou esse trem, que sai agora às 11 horas pelo céu afora e faz flanar os anjos que ouvem suas canções tão puras vindas de dentro.
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O "Pioneiro do Antes" se foi para o andar de cima. Brasília, a capital construída sob o signo da modernidade, a partir da obstinação visionária do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, se vestiu de luto com a ida do médico Ernesto Silva, falecido no último dia 3 de fevereiro. Ernesto Silva chegou ao Planalto Central antes da maioria dos pioneiros, em 1956. O título de "Pioneiro do Antes", ele ganhou do coronel Affonso Heliodoro, também um pioneiro, amigo de décadas e um colaborador de primeira hora de Juscelino Kubitschek na construção da nova capital. A história de Brasília se confunde portanto com a história de Ernesto Silva. Ele foi secretário da Comissão de Localização da Nova Capital do Brasil entre 1953 e 1955, ainda no Governo Vargas, e presidente da Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Capital, em 1956. No mesmo ano, foi ele que assinou o Edital do Concurso do Plano Piloto, que escolheu Lúcio Costa para desenhar Brasília num projeto genial. Foi diretor da Novacap (1956-1961) e conselheiro da Fundação Educacional e da Fundação Hospitalar do DF.
Ernesto Silva nasceu em 1914, no Rio de Janeiro. Era médico diplomado pela Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, bacharel em Ciências e Letras e coronel reformado do Exército. Fez vários cursos de especialização em Pediatria no Brasil e no exterior e publicou vários trabalhos científicos. Mas sua obra mais conhecida, com maior repercussão, foi o livro "História de Brasília", publicado em 1970 e reeditado em 1997. O pioneiro faleceu aos 95 anos, no Hospital Brasília, onde estava internado desde agosto de 2009, para tristeza de todos.
A capital perdeu um defensor da cidade como polo de saúde da região Centro-Oeste. Ajudou a estruturar o segmento da saúde com ações pessoais e a energia de quem acredita e faz acontecer. Colaborou no planejamento e na implantação do Sistema Único de Saúde de Brasília, na criação da Fundação Hospitalar do Distrito Federal, do Hospital de Base, e no recrutamento de médicos e enfermeiros de renome nacional e internacional. Cuidou de detalhes, como gostava de enfatizar, como a compra de equipamentos e adoção de novas tecnologias.
Na Novacap, que presidiu por cinco anos, Ernesto Silva esteve à frente da venda dos primeiros lotes da cidade. Viu Brasília crescer e imprimiu sua marca indelével de empreendedor na história da capital. Era constante personagem e fonte em matérias jornalísticas por ser testemunha da epopeia de criação de Brasília. Foi Ernesto Silva que sugeriu o convite a Anísio Teixeira para formular o projeto de educação de Brasília, que agregou o modelo inovador da Escola Parque. Junto com Anísio Teixeira, acreditava que os estudantes deveriam ter acesso, além das disciplinas tradicionais, ao ensino das artes, da música e dos esportes. A idade não o intimidou. Seguiu sua vida sempre defendendo o patrimônio cultural e o plano urbanístico da cidade. Dizia sempre: "Tenho o dever de cuidar e preservar a cidade e suas características originais, para que meus descendentes possam desfrutar daquilo que tive o privilégio de ajudar a criar".
Para quem quer saber mais sobre a capital, o livro "História de Brasília" é uma pérola. Lá, o leitor saberá que foi em 1891 que se estabeleceu que seria no Planalto Central a área para a construção de uma futura capital do país. E que, décadas depois, a Comissão de Localização da Nova Capital Federal foi criada pelo então presidente Getúlio Vargas, em 1953. E que, em 1956, 41 projetos foram apresentados por 26 concorrentes, quando venceu Lúcio Costa. E que Planaltina, desde 1859, e Brazlândia, desde 1932, já existiam e acabaram se tornando cidades-satélites. Mas muito mais histórias estão ali relatadas num verdadeiro tributo histórico para as gerações futuras. Assim era Ernesto Silva, um homem culto, predestinado e admirável, que dedicou sua vida a contribuir com a vida do próximo.
Numa Brasília hoje abalada por uma crise ética em sua vida política, Ernesto Silva é uma lição do passado que servirá de parâmetro para quem ama a capital e sabe que essa cidade merece respeito e tem exemplos disso em sua história de 50 anos de glória.
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No último dia 23 de novembro, Claudio Franco de Sá Santoro, o saudoso maestro Claudio Santoro, falecido há exatas duas décadas, teria completado 90 anos. Sua obra e vida deixaram marcas Brasil e mundo afora, e muito significativamente em Brasília, onde morou por muitos anos e onde se foi em plena atividade, quando regia um ensaio da orquestra sinfônica que fundou e que hoje leva seu nome, assim como o Teatro Nacional de Brasília, também titulado merecidamente como Teatro Nacional Claudio Santoro. O acervo da sua obra musical e pictórica agora é tombado como Patrimônio Cultural, pelo Depha, incluindo as orquestrais, sinfônicas, de câmara e eletroacústica (foi um pioneiro nessas pesquisas e incursões), partituras de óperas, sinfonias, obras para coro, solistas, conjuntos instrumentais e instrumentais solo, música incidental para cinema, rádio e televisão, obras de arte visual, quadros e litografias, como também textos, artigos, material pedagógico, anotações e comentários musicais e correspondência pessoal, prêmios, condecorações e honrarias. O governador José Roberto Arruda assinou decreto que tomba todo esse acervo, no evento.
Claudio Santoro nasceu em 1919, em Manaus e desde cedo se revelou prodígio talentoso, depois inquieto e incansável. Foi um criador, intérprete, pesquisador, compositor, regente, professor e se tornou famoso e reconhecido nacional e internacionalmente. Os prêmios que recebeu confirmam isso. Desde o da Orquestra Sinfônica Brasileira, em 1943, aos que se seguiram: Chamber Music Guild de Washington e RCA Victor (44), Dornelles (45), Guggenheim em Nova Iorque (45), Paris (47), Boston (48), Berkshire (49), RJ (50), Viena (53), Saci, o Oscar brasileiro (54), SP (59), RJ (60), Brasília (60 e 64), Jornal do Brasil (65), RJ (70, 73 e 77), SP (79 e 85), Shell (85) e Lei Sarney (87), fora incontáveis condecorações internacionais. Santoro foi fundador e maestro de várias orquestras no Brasil, representou a América Latina e chegou, por concurso, entre 70 e 78, a professor de Regência e Composição e Diretor da Orquestra e do Departamento de Músicos da Orquestra da Escola Estatal Superior de Música Heidelberg Mannheim, na Alemanha Ocidental. Uma verdadeira epopeia alcançada por um amazonense. Foi ainda Doutor Honoris Causa da Universidade de Brasília (UnB) e Cidadão Honorário da capital. Como regente convidado, atuou em grandes orquestras em Leningrado, Moscou, Berlim, Paris, Montevidéu, Bonn, Praga, Bucarest, Porto, Varsóvia, Sofia, Londres, Leipzig. Foi-se em 27 de março de 1989, durante ensaio da orquestra em Brasília, fazendo o que mais gostava: reger. Claudio Santoro pode ser ouvido em dezenas de LPs e CDs, estes gravados por também dezenas de intérpretes, todos admiradores e reconhecedores da alta qualidade de sua obra.
Mas, acreditem, paradoxalmente à dimensão da obra do compositor e regente, ainda não há um local, um espaço físico, um memorial, em que seus admiradores possam pesquisar e conhecer melhor a sua produção e o seu acervo. Até agora, tudo se resume ao tombamento. Falta portanto que, como Niemeyer, como Lúcio Costa, como Israel Pinheiro, Claudio Santoro tenha um endereço em que possam estudantes, músicos e admiradores terem acesso ao que ele deixou para a posteridade. Enquanto isso não acontece, resta acompanhar a programação, tirada a fórceps, por amigos e familiares e que têm rolado aqui e ali, em homenagem ao grande maestro para 2009.
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Disse Antonio Olinto que "é mister que se inclua o nome de Anderson Braga Horta na lista dos grandes poetas deste país". Concordo plenamente, pela qualidade e pelo volume, pela densidade da obra. Anderson Braga Horta chegou em Brasília em 1960, é um pioneiro na cidade. Publicou vários livros poéticos desde 1971, como Altiplano, Marvário, Incomunicação, Exercícios de Homem, Cronoscópio, O Cordeiro e a Nuvem, O Pássaro no Aquário, Auto das Trevas, Pulso, Quarteto Arcaico, Fragmentos da Paixão: Poemas Reunidos (ganhador do prestigioso Prêmio Jabuti em 2001). E traduziu belas obras como Poetas do Século de Ouro Espanhol, Victor Hugo: Dois Séculos de Poesia, O Sátiro e Outros Poemas, Poetas Brasileños y Portugueses: De los Simbolistas a los Modernistas, além de ter publicado vários ensaios e contos de sua autoria. Anderson Braga Horta não se cansa, faz por amor e está em permanente ebulição criativa. Neste mesmo espaço, há exatos doze meses atrás, em sua casa no Lago Sul, me mostrou um projeto que queria publicar em 2009. Aí está, para os leitores, como prometeu, Soneto Antigo, que acabo de receber dele, gentilmente autografado, na redação do Caderno Brasília. Pura sensibilidade, pura poesia de um mestre, que reafirma a qualidade de sua produção poética. Me emocionei na leitura, o que, para mim, resume o mais importante no fazer poético. Para o poeta, da mesma forma, nada melhor que saber que emocionou, mexeu por dentro das pessoas com sua obra. Difícil parar de ler, depois de começar. E começa já com coisas fortes como "Tanto, tanto de amor me eu tenho dado, hei-me em tantas fogueiras consumido, que fora de esperar no peito ardido nada me houvera de ilusão sobrado". São cento e cinquenta poemas requintados de delicadeza, profundidade, dedicação à linguagem de forma expressiva, uma obra prima para almas abertas ao poema na sua forma mais pura e verdadeira. Como em "Existir fora de ti, é quase igual que não ser. Melhor fora não querer teu amor que andar assi. Nada esperar, ou esquecer o tudo que és para mi; que desde quando te vi, minha vida é um desviver. Nada ter e não sonhar; ou ser só... o teu olhar! ser mais tu mesma do que eu! Que, a viver qual vivo aqui, antes fora um sonho teu: vivera dentro de ti." Anderson dá uma aula de amor, o amor de dentro, o amor profundo, ao seu jeito, à moda antiga: "Eu lhe daria, à moda antiga, um beijo, e, à moda antiga, ela enrubesceria. Depois, tão longo o dia duraria quão breve a noite para o meu desejo. Serás a lira, amada (eu lhe diria, todo imerso num sonho benfazejo); serei o vento a desferir o arpejo. Serei o sol... serás a cotovia. Tu sorrindo em meus olhos, eu sorrindo nos teus, e ambos ansiando, ambos fremindo ao luar, sobre a relva, à moda antiga... E a vida passaria tão de leve que a continuaria a morte, em breve, como uma doce e acolhedora amiga." Ao cabo e ao fim, o mesmo ímpeto singelo, no Soneto de Alfa e Ômega: "O teu amor é todo o meu conforto, o cais a que recolho as minhas velas, eu - capitão de rotas caravelas, tu - senhora da noite, enseada e porto", para fechar com chave de ouro: "Assim tens sido para mim, querida, o ponto de partida e o de chegada, o amor que circunscreve a minha vida." Bem avaliou Henriqueta Lisboa, ao dizer que "o poeta tem itinerário bem planejado, bem articulado e bem construído num todo harmônico e severo... numa linguagem analógica de sons, ritmos e metáforas de intensa vibração, testemunho de sua força imaginativa. "
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O clique é mais que um aperto de dedo. É uma inspiração que vem de dentro, como poesia, como coisa de artista. E exige ainda olhos de lince, paciência de monge tibetano, sensibilidade de compositor. Foi assim que o escritor, jornalista e fotógrafo Marcelo Prates construiu uma obra prima, o livro "Pássaros da Liberdade". E tudo começou há mais de uma década, quando fotos de um casal primordial de canários na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, causou comoção. O tema era banal mas as imagens ganharam dimensão humana e afetiva. A história teve repercussão porque um canário solitário escolheu a Praça da Liberdade para morar. E um outro jornalista chamou Marcelo para fazer uma reportagem sobre o pássaro na praça. Conseguiram um canário fêmea e lá soltaram-na. Os dois se acasalaram e fizeram sua morada no coração da cidade. A série de reportagens foi transformada em exposição no BDMG Cultural e garantiu aos dois jornalistas a Comenda do Mérito Ambiental da OAB/MG. E Marcelo percebeu que iniciava ali uma provocação a si mesmo a respeito dos pássaros inseridos na vida urbana. BH e a Região Metropolitana perderam em décadas muito do seu verde para o desmatamento de minerações e do movimento crescente da cidade. Asfalto e concreto se opuseram à natureza, mas o plantio de ipês, magnólias, flamboyants e outras árvores nas calçadas e parques da cidade deram de novo vez aos pássaros, que mostraram novamente as caras, plumas e cores ao homem urbano. Entre postes, fios, ferragens da construção civil, radares, semáforos, alto de prédios e lugares os mais inusitados, tucanos, bem-te-vis, canários, carcarás, pardais, garças, rolinhas, pica-paus, periquitos, sabiás e muitos outros pássaros de todos os tamanhos e coloridos fizeram casas, fizeram amor, se alimentaram ou apenas apreciaram a paisagem urbana, sempre flagrados pela câmera curiosa e inspirada de Marcelo Prates. Aos poucos, foi nascendo o livro, uma quase ode ao meio ambiente em lugar inóspito e transformado em habitat para os pássaros. E Marcelo Prates, em homenagem ao meio ambiente, plantou 13 árvores em matas ciliares para compensar todo o processo de editoração do livro, para compensar as duas toneladas de CO2 emitidas na fabricação da obra. O primeiro do Estado a receber o selo Carbono Zero. São 180 páginas coloridas com tiragem de 1.000 exemplares. A obra, já lançada em Belo Horizonte, será lançada em Brasília no próximo dia 18, no Bar Brahma, na 201 Sul, a partir das 19 horas. Evento para ir e adquirir obra rara. Para quem ama a natureza, os pássaros e acredita que a vida urbana pode ser útil ambientalmente. Para quem acredita no ser humano, na sua capacidade de recriar a vida e defendê-la. Mais sobre o autor, tenho a dizer que merece os vários prêmios que ganhou na profissão. Prêmios no Brasil, no Japão, em Cuba, em Portugal, da National Geographic, do Goethe-Institut. E exposições também em vários estados, em vários países. No currículo de Marcelo Prates, trabalhos para os jornais mineiros HOJE EM DIA (onde atua), Estado de Minas, e para O Globo, onde militou por mais de dez anos, para a Folha de S. Paulo, Estadão, Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Libération (França), Corriere Della Sera (Itália), agência France Press, revistas Veja, Manchete, Istoé. Na quarta-feira, dia 18, portanto, vá ao Bar Brahma e conheça o autor de "Pássaros da Liberdade", leve o livro e depois saboreie página a página essa verdadeira obra de arte.
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Brasília é terra de músicos variados e bons. Não podia ser diferente. A capital é formada por gente de todos os cantos do país, de todas as vertentes. JK ungiu essa cidade no nascedouro com o emblema do amor à música de Dilermando Reis, Tom Jobim, Vinicius de Moraes. Da seresta e da raiz. Assim, além de capital do rock e do choro, Brasília é a terra de Zé Mulato e Cassiano, uma dupla que honra a música caipira de fato, aquela que traduz o universo rural e mantém a matreirice singela e inteligente de quem nasceu na roça e mesmo que viva na cidade faz da vida uma boa razão para ser feliz.
Zé Mulato e Cassiano, irmãos de sangue e de percurso profissional, são símbolo do que há de melhor na música caipira, aquela da estirpe de Tião Carreiro e Carreirinho, de Tonico e Tinoco, de Pena Branca e Xavantinho. São festejados com razão por quem ama a música de raiz. E completaram 30 anos de convivência nos palcos e estúdios com uma obra múltipla, um documentário em DVD sobre essas três décadas juntos, um CD cantado com o título "Sertão ainda é sertão" e outro CD, o Zé Mulato e Cassiano Instrumental. No CD "Sertão ainda é sertão", há de tudo um pouco, cururu, pagode, rumba, cateretê, moda de viola, guarânia, xote, polca, bolero, batuque e rasqueado. Todas as canções são de sua autoria. Um dos motivos do seu sucesso é o fato de serem ótimos compositores do seu gênero. Já no CD instrumental, além de muitas composições próprias, eles homenageiam outros compositores como Braz da Viola, J. Oliveira, Antenógenes Silva, Jorge Gallati, Raul Torres, Vanuque, Daniel Fernandes, Sebástian Yradier e o mesmo Dilermando Reis que JK tanto admirava e de quem falo no início desse texto (e cujo violão está exposto no Catetinho para a posteridade), com o chorinho "Fogo na canjica".
Zé Mulato e Cassiano são hoje um exemplo a ser seguido pelos novos violeiros que buscam a autenticidade para plantar o seu trabalho na história da música de raiz brasileira. Nada contra sertanejos, mas esses dois são a prova de que a verdadeira raiz musical caipira está como nas árvores, plantada no chão da roça, de onde sobe a seiva para dar viço à copa verde e aos frutos saborosos e flores coloridas quando é época de surgirem. A harmonia da natureza dá o tom na música que soma melodia e ritmo às batidas do coração de quem toca por amor a canção do homem da terra. Ouvir "causos" contados por Zé Mulato e Cassiano é garantia de desopilar o fígado e dar alegria à vida. Com simplicidade e ironia, eles misturam as cenas rurais de rios, bicas, serras, vales e terra batida a muitas críticas sociais e políticas sobre o que vivenciam como atores qualificados do mundo rural, mas que vivem na urbe cosmopolita que é capital desse Brasil continental. As três obras, que batizam de Zé Mulato e Cassiano - 30 anos - Fidelidade a Brasília, é um produto independente de um também violeiro mas ainda empresário que não abre mão da música de raiz e faz da sua defesa uma causa: Volmi Batista, criador da VBS, a Viola Brasileira Show, responsável pela produção fonográfica. O trabalho contou também com o apoio da Secretaria de Estado de Cultura, da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento e da Brasiliatur.
Para comprar essa obra imperdível e histórica, basta acessar o site www.violabrashow.com.br, ou o e-mail violabrashow@gmail.com ou ainda o telefone da VBS: (61) 3301 1267 e falar com o próprio Volmi ou com Geralda.
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Todos os dias quando passo em frente ao Teatro Nacional Claudio Santoro, na Esplanada dos Ministérios - meu caminho para o trabalho - sinto um vazio sob o olhar, acostumado a ver a obra do mestre Athos Bulcão, que ele mesmo intitulou de "O sol faz a festa". Aqueles painéis gigantes nas laterais do teatro são para mim tão cartão postal de Brasília quanto os ministérios, a Catedral e o Congresso Nacional, com a Praça dos Três Poderes ao fundo. Sempre penso que vai chegar a hora em que verei novamente os relevos que se movimentam, ou cujas sombras se movimentam com o andar do sol todos os dias, do nascente ao poente. Talvez até por ser jornalista, por valorizar a presença da obra e sobretudo por ter tido a honra de conhecer pessoalmente Athos Bulcão, a quem por duas vezes entrevistei, sinta tanto a ausência dos painéis. Me lembro da surpresa que, segundo Athos, ele teve ao ver a obra pronta, naqueles tempos áureos de uma Brasília que apenas começava e ainda nem era tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade. O mestre me disse que tinha ideia do conjunto de relevos prontos, em tamanhos diferentes, espalhados por uma grande superfície e que isso daria certamente um belo efeito. Mas jamais imaginou que esse movimento fosse tão perceptível aos olhos de quem estivesse diante da obra. Um artista do quilate de Athos Bulcão até o imponderável é capaz de ajudar no sentido de valorizar a obra. Coisas de Deus e de deuses da criação. Parceria infalível. Portanto, para mim, esse detalhe cresce e toda vez que passo ali sinto um certo abandono inexplicável do poder público em relação não só àquela obra, mas também a outras da capital, como a Igrejinha da Asa Sul, o Panteão, o Catetinho, entre outras. Vejo que recentemente estiveram por lá alguns trabalhadores, que aplicaram na lateral do teatro um produto que talvez seja impermeabilizante. Bom, pelo menos, penso em silêncio, estão fazendo alguma coisa, o que pode significar que em algum momento vão de fato recolocar os blocos de Athos Bulcão no seu devido lugar. Claro que fico ainda na dúvida de se vão recolocá-los exatamente como eram antes, conforme a criação do mestre e não um arremedo com nova versão da obra. Mas como é preciso crer e ter esperança no ser humano, me acalmo ao pensar que os relevos foram mapeados de forma a não perder a concepção original. Recolocados, sim, sentirei que o mestre estará sendo respeitado como merece. Mas ainda assim, para quem conhece o Teatro Nacional por dentro e não apenas como o público o vê da plateia, sei que há muita coisa a mais para ser reformada por ali. Parte elétrica, parte hidráulica, infiltrações e rachaduras ou fissuras no concreto, carpetes, poltronas, palco, banheiros, o porão, e as várias salas de audição em seu conjunto, têm uma série de problemas que o tempo e o desmazelo conseguiram estragar.
Nos 50 anos de Brasília, muito pertos já que estamos em outubro e o aniversário acontece em 21 de abril próximo, seria importante que, entre outras edificações fundamentais para a cidade criada por Juscelino Kubitschek, o Teatro Nacional estivesse completamente reformado para receber com pompa e circunstância visitantes, turistas, moradores e o público em geral num templo criado por Niemeyer para ser palco de inesquecíveis espetáculos e para confirmar que Brasília foi mesmo feita para ser a capital de todos os brasileiros, num contexto de modernidade e compromisso com o futuro.
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Filho de Brasília, Tião Cândido nasceu em 1965, quando a capital era ainda um canteiro de obras com apenas cinco anos de existência. Foi criado em Planaltina e até hoje reside lá. Por volta dos 16 anos de idade, começou a estudar na Escola de Música de Brasília, onde ficou por cinco anos. Mesmo tempo que estudou Educação Musical na UnB, numa licenciatura que o levou para as salas de aula, onde milita como professor há quinze anos, na rede pública de ensino. Tião sempre foi atraído pela música, desde pequeno. E foi na música que enveredou e onde costurou sua própria história, não só como professor, mas também como músico. Tião Cândido toca na noite, em bares, eventos, festas, e faz shows sempre que é possível. Foi musicalmente influenciado pelos astros do Clube da Esquina. Sempre ouviu muito Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Tavinho Moura, Flávio Venturini e em seu repertório há sempre músicas deles. Mas seus dois CDs são autorais, onde se revela como compositor, cantor e arranjador. Seu primeiro CD foi gravado nos anos 2002/2003, com o título "Tempero Brasileiro". Lá estão suas canções e uma homenagem a Aldo Justo e Paulo Tovar, dois artistas da cidade que se revelaram através do Liga Tripa, grupo emblemático na música brasiliense, com a canção "Voo da Juriti". Aqui na redação, enquanto falávamos, ficou sabendo da morte prematura de Paulo Tovar, se entristeceu, mas se consolou pela homenagem feita no disco ao colega músico. Seu segundo CD, "Festa do Cerrado", é uma ode à natureza que nos cerca no Planalto Central. Há no disco uma clara intenção em defender a preservação do meio ambiente, as coisas do cerrado e não só nas canções se percebe isso, mas também no trabalho gráfico do CD, onde há fotos de obras minúsculas do artista Adeilton, também de Planaltina, com pequenos animais presentes no habitat do cerrado. Esse segundo CD teve o apoio do FAC, mas como o primeiro, foi um disco independente, feito com amor à causa, motor exclusivo para artistas como Tião Cândido que, mesmo sem recursos, fazem sua obra existir a partir da perseverança, disciplina e paixão pela música. E Tião já está com repertório predefinido para o terceiro CD, que pretende começar a gravar em 2010. Juntas, seguem sua vida como músico profissional e sua carreira como professor de música, agora ainda mais valorizada com a decisão governamental da inclusão da disciplina como obrigatória no currículo da rede pública. E Tião toca, há dez anos, o projeto "A Música Através do Violão" nas escolas públicas de Planaltina, como coordenador e como professor. Tem ex-alunos seus que já estão tocando profissionalmente, o que o enche de orgulho e responsabilidade diante da missão que escolheu. Sua meta é "educar a meninada para ouvir coisas de qualidade e estimular neles o gosto pela boa música", diz. E é exigente no quesito repertório: "Não toco de tudo que pedem, não toco coisa ruim", avisa. Mas aceita convites para tocar em festas, eventos de confraternização, sem nenhum problema. Aliás, seus contatos para os interessados são os telefones (61) 8131 1384 E (61) 8144 0120, além do e-mail "tiao_candido@hotmail.com". Certamente o contratante e seus convidados ouvirão ótima música por quem realmente é do ramo e o faz por vocação. Tião Cândido tem show marcado para o próximo dia 23, sexta-feira, no Asterix, no Lago Sul, a partir das 21h30. Vai tocar, é claro, pérolas da MPB e canções de sua autoria.
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Outro dia, ao telefone, o maestro e amigo Rênio Quintas me convidou para ser jurado de um festival de música. "É coisa séria", disse ele. Não podendo, em função de ter de ir a três eliminatórias antes da final, indiquei o jornalista Ivan Iunes, colega aqui na redação, para ir no meu lugar. Ele aceitou. Por ele, fiquei sabendo de cada uma das eliminatórias e dos bastidores do evento, o Festival de Música Candango Cantador. Tive a grande satisfação de perceber que o Rênio estava certo, era coisa séria. Atraiu 753 inscrições de músicas, das quais 278 foram validadas e que foram reduzidas a 45 por um seleto grupo de jurados para as três eliminatórias, realizadas em São Sebastião, Planaltina e Samambaia, sempre com um show de repercussão ao final. Vieram Chico César, Jorge Aragão e Moraes Moreira. Na final, o show foi de Elza Soares e Farofa Carioca, no Museu da República. Das 15 canções de cada uma das três eliminatórias, foram selecionadas 12 para a final.
E a grande vencedora foi a cantora e compositora Vanessa Pinheiro, com a canção Temporal, que encantou os jurados e não deixou dúvidas sobre o merecimento do pódio com o prêmio de R$ 10 mil, mas muito mais que isso, o aval da qualidade do seu trabalho musical. Muito aplaudida, Vanessa humildemente confessou: "No meio de tantos artistas bons, eu ser escolhida foi uma surpresa! Aqui só tem profissional mesmo. Eu estou super feliz". O Ivan Iunes, que estava lá, confirma: "Ela mereceu o primeiro lugar, a letra é muito linda, ela canta muito afinada, a canção, no conjunto, seduziu todos os jurados". Segundo Iunes, havia uma preocupação entre os jurados de escolher um artista com perfil pronto para construir uma carreira, ganhar um up grade no horizonte profissional, de forma a justificar todo o trabalho dos organizadores do festival, numa ótica de isenção e seriedade nos critérios de seleção. "Tanto é que vários artistas carimbados e respeitados em Brasília não chegaram entre os três premiados e alguns deles nem foram para a final", avalia o jurado.
Vanessa Pinheiro nasceu no Pará, morou no Rio de Janeiro e em Curitiba e reside em Brasília há 11 anos. Lançou o primeiro CD em 2004 e já cantou em Portugal, Espanha e França. A sorte lhe sorriu numa noite em um bar onde tocava. Um produtor de Portugal estava ali, ouviu, gostou e fez o convite. Ela aceitou e já voltou outra vez à Europa. E está agendando retorno a Portugal para mostrar o seu segundo CD. Já recebeu elogios de ninguém menos que Nelson Motta, mago da MPB. E seus dois discos revelam preocupação com qualidade não só nas músicas mas também no nível dos músicos com quem trabalha, como Carlos Malta, Gabriel Grossi, Kiko Continentino. Os dois CDs foram produzidos por Arthur Maia, outro craque respeitado do Rio de Janeiro. Em Temporal, contou com a parceria do pai, Mário Jovita, também músico, que conta na letra episódio vivido na infância, na ilha de Marajó, quando uma chuva braba caiu sobre ele na dimensão amazônica do seu habitat. Para Vanessa, "a letra é uma pintura de um temporal: roupas voando do varal, a passarada se recolhendo, um alvoroço na plantação". Ela lembra que a letra também traz "uma reflexão sobre a fugacidade da vida, sobre a falta de poder do homem diante de certos acontecimentos da natureza". E deu no que deu. Venceu e convenceu a todos. E o festival mostrou que Brasília tem diversidade musical, com qualidade, em estilos diferentes.
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