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Os lábios se movem lentamente. Com cuidado e paciência, dá para contemplar o mínimo instante em que a pontinha da língua ultrapassa a fronteira da boca, voltando rapidamente à sua geografia de origem.
Bom mesmo é ouvir o resultado desses movimentos sutis, quando a voz entra em cena, burilando a brevidade do momento.
É a carne da linguagem, cerne que brota histórias, fruto de verdades alheias e construção, metamorfose a partir das vivências dos outros.
Contar uma história não é ato fácil. Antes de mais nada, é resultado de longo processo de assimilação cultural, onde o coração de quem conta deve estar intimamente ligado ao de quem ouve.
Simbiose gestada pela escola dos afetos, de repente, estamos diante de um êxtase, ludibriados pela aventura da língua, fala que seduz, ora sintética, ora demorada.
E como é gostoso ser enveredado por estas trilhas.
O ouvinte permanece sem eira, nem beira, à deriva de um vestígio qualquer.
A linda moça que conta sua história, os cabelos negros e olhos de jabuticaba madura, não usa só a potencialidade da voz para extrair da história todo seu amálgama de fúria e delicadeza. O corpo, inteiriço, se insinua, abrindo leques à pluralidade da narrativa.
As mãos, ágeis, tiram da sacola o pó de café e o surrado coador. É impossível trazer ao terreno do escrito a emoção daquela narrativa. Dois objetos que se tornam amigos inseparáveis, sendo que os fragmentos de um, moléculas e átomos do outro, apostam em um amor híbrido e pulsante.
Esta história, apesar dos pessimistas de plantão, sempre muitos, tem, claro, um final feliz. Um dia, o pó de café chega à finitude frágil daquele pacote. O coador, amarrotado, ganha a ênfase do abandono.
Até que um dia, esses objetos tão sujeitos, transformados em um só, o pedaço de pano cheio de minudências de café, viram um prosaico vaso de flores, pura poesia.
(P.S: Para Aline Cântia, por saber narrar)
(*) Última crônica publicada no HOJE EM DIA, em 6 de outubro.
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Os lábios se movem lentamente. Com cuidado e paciência, dá para contemplar o mínimo instante em que a pontinha da língua ultrapassa a fronteira da boca, voltando rapidamente à sua geografia de origem.
Bom mesmo é ouvir o resultado desses movimentos sutis, quando a voz entra em cena, burilando a brevidade do momento.
É a carne da linguagem, cerne que brota histórias, fruto de verdades alheias e construção, metamorfose a partir das vivências dos outros.
Contar uma história não é ato fácil. Antes de mais nada, é resultado de longo processo de assimilação cultural, onde o coração de quem conta deve estar intimamente ligado ao de quem ouve.
Simbiose gestada pela escola dos afetos, de repente, estamos diante de um êxtase, ludibriados pela aventura da língua, fala que seduz, ora sintética, ora demorada.
E como é gostoso ser enveredado por estas trilhas.
O ouvinte permanece sem eira, nem beira, à deriva de um vestígio qualquer.
A linda moça que conta sua história, os cabelos negros e olhos de jabuticaba madura, não usa só a potencialidade da voz para extrair da história todo seu amálgama de fúria e delicadeza. O corpo, inteiriço, se insinua, abrindo leques à pluralidade da narrativa.
As mãos, ágeis, tiram da sacola o pó de café e o surrado coador. É impossível trazer ao terreno do escrito a emoção daquela narrativa. Dois objetos que se tornam amigos inseparáveis, sendo que os fragmentos de um, moléculas e átomos do outro, apostam em um amor híbrido e pulsante.
Esta história, apesar dos pessimistas de plantão, sempre muitos, tem, claro, um final feliz. Um dia, o pó de café chega à finitude frágil daquele pacote. O coador, amarrotado, ganha a ênfase do abandono.
Até que um dia, esses objetos tão sujeitos, transformados em um só, o pedaço de pano cheio de minudências de café, viram um prosaico vaso de flores, pura poesia.
P.S: Para Aline Cântia, por saber narrar.
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Tudo era trapo. Madeira corrompida, ventre de intrépidos cupins. O resto da casa, semi-dizimada, véspera da definitiva demolição, jazia sob sol de verão voraz.
Antes da chegada dos pedreiros e serventes que toparam o serviço, chegou à pretérita morada com uma fábrica de cliques a tiracolo, surrada e negra Kodacolor. A casa assassinada ainda não havia vindo a pique.
Passos lentos, caminha pelas paredes vazadas por martelos, amparadas por escoras, próximas a caçambas lotadas de pedregulhos e falecidos madeirames, descascados e podres.
As fotos são tímidas. Passeando pelos escombros, encontra a parte intacta da residência dos avós, onde a imagem quebradiça do Sagrado Coração de Jesus ocupa o alto parietal, próximo ao forro rasgado. Recolhe a peça, retira meticulosamente o vidro e guarda o tecido úmido, cheio de furinhos, óleo sobre tela, testemunha, ali do alto, de tantos encontros e desencontros, rancores e amores.
Resgata a pintura numa sacola e prossegue a caminhada. Curta, breve, átimo de segundo, comparado às quase nove décadas de vida da casa. Recorda o umbral da janela, as fortes tramelas de madeira, a chuva de antigos janeiros, fecunda em ventania e enxurrada, cachoeira aos olhos meninos.
Os barquinhos de papel-jornal, devidamente manipulados pelo avô, eram arremessados janela abaixo. É o primeiro contato com o universo da tragédia. Os naufrágios pioneiros integram batalhas navais imaginárias, estratégias militares que se repetem no amplo quintal, onde sabugos de milho, metamorfoseados em guerreiros, disputam o Santo Graal. O limoeiro é a Távola Redonda. Excalibur, a desejada espada, contenta-se com o formato de um canivete enferrujado.
O chiqueiro, lá atrás, escondido, na divisa entre o terreiro e o espaço vizinho, não guarda mais o ardido cheiro suíno, a lembrança travestida em trauma dos porcos castrados, berrando, sendo caçados sem dó nem piedade, antes de serem transformados em apetitosos torresmos. A dor dos leitões amarrados e trucidados era também o prazer comensal. Paradoxos desta doideira ao qual batizam vida. Do galinheiro, sobram pequenas minudências do gradil, envoltos em estrutura danificada.
Ele pega a câmera e, num último clique, registra a paisagem desolada. Na memória, secura do tempo presente, é cessado o espaço à epifania. Abandona a casa enquanto ouve os ruídos da chegada operária. Afasta-se, vagaroso, do ambiente. Na esquina da rua, encruzilhada à sombra da imponente Igreja Matriz, assiste, perplexo, ao crime. Menos de uma hora depois, espessa nuvem de poeira cobre o local. Como enigmática neblina. Quando o pó se esvai, sem chance à Fênix, resta apenas a imagem fugidia de tempo (e)terno. `
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O cheiro forte, pútrido, invade as narinas. O sobrevoo dos urubus, avistados desde longe, deixa claro a mudança de territórios. A memória dos olfatos e afetos, extraviada, guarda registros de uma dor coesa. Mas como podem, indagariam os incautos, a dor ser coesa?
A lógica irrefutável das coisas não permite o erro. Aquela imagem, evocando sensações híbridas de morte e merda, era dolorida como dúvida. Não soube ao certo como chegara ali. Atravessara o lago nadando, duas horas de braços e pernas formigando.
Roupas molhadas secam rapidamente. O sol, melancolia luminosa, é inclemente, áspero. Quase inexistem árvores e um descampado abre-se, sem sombra, até o matadouro.
Poderia ser até mesmo sonho ruim, daqueles pesadelos que inundam os lençóis de suor e pânico. Pisca os olhos, belisca a pele. Nada acontece. Só o sol sangra rajadas de um calor que sufoca.
Três homens abatem os bois. Sem dó nem medo. Acostumados ao massacre, máquinas de movimentos humanos. Executam a tarefa com lentidão. Cutelos, ganchos e machadinhas são pinturas tingidas pelo vermelho.
A lembrança do vinho barato, batizado Sangue de Boi nos botequins, é absolutamente veraz. Voraz também, tanto é que os olhos teimam em querer não testemunhar o morticínio.
O esforço é inútil. As pálpebras e seus movimentos contínuos são estimuladas pelo horror. Por mais mórbida a cena, os olhos transformam-se em uma câmera, filmando as pancadas no crânio, o furar de outros olhos, a explosão das artérias, a flacidez dos músculos que recusam a rigidez no instante da batalha final.
Pela vida, inutensílio, presa frágil de cordas inalcançáveis onde o humano (será possível?) baila. O matadouro é mnemônico. O visitante, entre o susto e a sombra, olha o sangue viscoso que escorre pelo chão e logo, seco, atrairá outros bichos do solo. Baratas, ratazanas e morcegos, esses últimos, noturnos, sedentos e seduzidos pelo odor de hemácias envelhecidas, sem barris de carvalho, iniciarão farto banquete. Mas ainda estamos no tempo presente.
Esse futuro é daqui a horas e a algum Deus pertence. Não sabemos de suas essência e premonição. Só resta, sem cerimônia, a liturgia da espera. Finda a tarefa, o trio de homens, sujo, sem camisa, resolve limpar o velho estábulo, adaptado à câmara mortuária dos animais.
O homem some lentamente na paisagem desértica que ronda o rio magro porém longo. Longe dali, na areia movediça da escrita, o ficcionista, abalado por não conseguir imprimir um final digno à sua história, entra em profunda depressão. Sabe que a literatura é extravio, mar danoso. Deixa seus personagens à deriva. Lacunares, em busca do ponto final.
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Ama aquele instrumento como se mulher fosse. Agarra as cordas, o arco, beija a madeira, sente as gotas de suor, salpicando, súbitas, da sua pele, descendo pelos braços até caírem, quase secas e imperceptíveis, ao solo, bem ao lado do violoncelo.
Adora tocar Brahms pela manhã, logo depois de se levantar. Às vezes, nem escova os dentes. Adia o café para depois. A música, em primeiro lugar, sempre. A saliva, seiva de hálito quase nunca suave, deixa pequenas marcas no instrumento, bafo na nuca, carícia.
À noite, quem reina é Schumann, seguido de perto por Bach, embora esse não consiga superar o primeiro, perdendo a corrida nas últimas voltas. A melancolia do lugar é visível. A ampla sala, as plantas murchas, mal cuidadas, são repouso de insetos que banqueteiam sobre os restos de comida, largados no canto da mesa.
Nem sempre o violoncelo é amor absoluto. Antes dele, o violino, o violão, o contrabaixo, até mesmo o piano, embora por pouco tempo, ganham o carinho de seus dedos, a força das mãos. Não gosta dos instrumentos de sopro. O fôlego é insuficiente, mas respeita a performance alheia.
É fã de Charlie Parker, Chet Baker e Miles Davis. O violoncelo ganha a batalha por causa dela. A moça alta, loura, cujo batom nos lábios, aquele que precisava ser vermelho, senão não teria a mínima graça, observa, atenta, da plateia sua récita no palco.
Ele deixa de ver todo aquele emaranhado de rostos. Só enxerga aquele corpo sentado na quarta fila, à esquerda.
No camarim, o encontro. Muitos elogios, o convite para jantar, surgido, rápido, sem muitas delongas.
O fettuccine com paillard, o vinho tinto chileno, a conversa sobre música, a despedida, a espera pelo dia seguinte, que demoraria uma eternidade sem fim. O primeiro beijo, tardio, sinal verde para que os corpos procurassem o maior aconchego. Nus, no tapete, claro, vermelho, a poucos metros do violoncelo.
O sexo simultaneamente doce e selvagem, ali mesmo no chão. Os hematomas do dia seguinte, o despertar junto, um pouco de sol entrando pelas frestas da janela, iluminando os seios, os pêlos dourados no ventre. Daquele dia em diante, ele e ela se revezavam no instrumento.
Muitas vezes, nus, ele ao lado dela, acariciando seus ombros, enquanto ela tocava o que lhe vinha na mente. Sem método ou rigor, apenas uma sensação de inebriante liberdade. Na noite do fim, há pouco espaço para lágrimas. A despedida dos corpos, mais uma vez.
O violoncelo é testemunha. Anos depois, bate saudade.
O homem, resignado, sorri. Dedilha o instrumento, sente novamente a textura da madeira.
Como se mulher fosse, ela, tão longe, tão perto...
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No princípio, não queria sair de casa de jeito algum. O tempo, entre o nublado e o chuvoso, era convite perfeito para ficar no quarto, olhando as gotas d'água na vidraça, tela lírica.
Escutar o murmúrio da enxurrada, lá fora, absoluta canção de ninar, trazia o sono fora de hora, concerto temporão.
A mãe insistiu demais e lá foi ela, vestidinho de domingo em plena segunda-feira, cinco anos de idade, faixa etária das dezenas de perguntas por minuto quadrado, interrogatória e infantil equação.
Chega no quarteirão fechado da Pernambuco, dedos entrelaçados com as maternas mãos. Levanta o par de pequeninos pés e toca a campainha.
Tão mínima quanto os pés da menina, a senhora abre a porta, xale preto nas costas, um ligeiro perfume de jasmim.
Nos lábios, o largo sorriso anuncia a boa nova, motivo da vespertina visita. Na ampla mesa da sala de estar, mogno duro, maciça madeira, as xícaras de chá aguardam quem chega.
Matematicamente contadinhas, estão três bolachas Maria.
A menina devora o lanche, degusta o chá e, sem cerimônia, pergunta à dona da casa onde está o restante das bolachas.
Ganha sutil beliscão de presente da mãe, assustada com a reação da garota.
A anfitriã, imune à pequena fúria materna, deixa a gulosa abrir o guarda-louças.
Lá estão, enfileiradas, dúzias de guloseimas, biscoitos e doces a granel, uma mini-confeitaria.
A mãe chama a atenção da filha. «Larga de ser boba, menina, nem parece que tem comida em casa».
A garota, sapeca até a medula, nem deu ouvidos ao puxão de orelhas verbal.
A senhora não titubeou e soltou doce pérola: «A diferença entre ser boba e ser boa é apenas um b».
Distinções ortográficas à parte, a máxima trazia à tona a filosofia nossa de cada dia, instantes onde a poesia, sorrateira, entra em cena, sem eira nem beira, só para contrariar.
Após o lanche, a anfitriã lê carta de uma amiga distante.
A menina ouve, atenta, as divagações sobre o ser humano, maçãs no claro e no escuro, reflexões sobre a necessidade da palavra, base de sustentação das coisas, pilar de enigmas e elegias.
As duas trocam missivas há décadas. A garota descobre que a remetente e a destinatária possuem o mesmo ofício: a metamorfose.
Elas transformam a experiência do dia-a-dia, suas dores e amores, em texto.
Em meio aos doces, a menina vislumbra a força da poesia e da prosa, alquimia capaz de melhorar o mundo.
O tempo passa e a lembrança daquela tarde é cada vez mais visível. Arde na memória a vontade do recuo, sentir a voz e o cheiro da anfitriã, tocar de novo Henriqueta.
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O Bardos Araújos não precisava de estratégias de marketing para sobreviver no competitivo mundo do capitalismo etílico das cidades do interior.
Tinha a exata e necessária geografia, capaz de garantir, sem solavancos, a rentabilidade de cachaças, cervas geladas, tira-gostos, bolinhos de feijão e pratos feitos.
Localizado no comecinho do Morro do Cemitério, era a média aritmética ponderada entre a Igreja-Matriz, onde eram velados, em missa de corpos presentes, os recém-ausentes de plantão, e a necrópole, morada final das vítimas da indesejada das gentes.
Naquela época, os cortejos tristes eram marcados por um ritual sonoro, iniciado pelo ritmo diferente do badalo do sino da Matriz.
Em seguida, um potente alto-falante irradiava a Paixão Segundo São Mateus, de Johann Sebastian Bach.
A voz soturna, ora do padre, ora do ministro da Eucaristia, anunciava: "A família de Fulano de Tal comunica o seu falecimento e convida para o sepultamento, hoje à tal hora, saindo o féretro da rua...".
Dada a notícia, as carpideiras entravam em ação e, muito antes do e-mail, comunicavam-se rapidamente.
Vestidas de preto dos pés ao pescoço, mesmo em dias de calor intenso, lá batizado "sórquente", cheiravam a uma mistura inebriante de suor e lavanda.
Munidas de terços, rosários e Bíblias de rosadas polpas, elas lamentavam a perda do falecido (a), orando e chorando, velando a dor alheia madrugadas adentro.
Ficava particularmente impressionado com a força expressiva do vocábulo féretro, palavra pomposa demais para ser apenas um sinônimo do popular caixão.
É claro que os mais abastados apostavam suas fichas vernaculares no verniz vocabular das urnas.
No Bar dos Araújos, as manhãs e tardes de enterros eram marcados por uma macabra democracia. Com sol ou chuva, pobres, remediados e ricos eram conduzidos ao portão de aço do cemitério municipal sob os olhares atentos dos frequentadores do botequim.
Zé Buzina, por exemplo, não podia ver um cortejo que pedia uma dose extra de cachaça. Para beber o defunto, na hora da passagem pelos paralelepípedos brancos do morro.
Só não brindava quando o caixão era de criança, branquinho. "Pinga e anjo não combinam", dizia. Nesses dias, ficava só, escondido num canto, guardando silêncio e segredo só seus.
Diziam que perdera uma filha, vítima de uma ferida não curada, desconversa popular para o tétano.
Até que chegou a hora derradeira do Zé, derrubado pela cirrose, defunto bebido com a honra própria dos pinguços.
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A memorável apresentação de Chuck Berry no Chevrolet Hall, em Belo Horizonte, na última sexta-feira, traz à tona uma série de reflexões que extrapolam a cartilha dos clichês musicais. A propósito da alegria que tomou conta do público, ela não foi em vão.
Ora bolas, Berry é uma lenda viva do rock, um dos fundadores desse gênero musical enquanto linguagem. O sujeito completará 83 anos em outubro. E não é que teve gente que achou um disparate o velhinho subir todo serelepe no palco, encarar as doses maciças de energia da plateia?
Vivemos a ditadura da eterna juventude, com jovens profissionais de várias idades prolongando ao máximo a ideia equivocada de uma eterna adolescência, morando até os 35, 40 anos, na casa de papais e mamães, usufruindo de comida e roupa lavada.
É dentro desse foco amplo de preconceito que surge a visão de que o cantor deveria se aposentar ou nunca mais subir ao palco porque a voz está falhando, as pernas não aguentam mais o tranco e o passo do pato, marca registrada de Chuck Berry, é apenas ensaiado, esboço do que foi, complementado por jovens sarados na primeira fila e levados ao palco para contracenar com o músico.
Há elegância na decadência. Quem viu o show do guitarrista com o coração aberto e não se deixou levar pelas hipocrisias de ocasião, pôde vislumbrar seu esforço em terminar as músicas. Sim, o suor de Berry era fruto de cansaço, mas o octogenário instrumentista e compositor não deixou a peteca cair, mesmo quando a voz não é mais dominada com a mesma potência, a ginga é sombra protocolar de apresentações pretéritas.
Chuck Berry não tem que parar e abandonar as chuteiras. Fez muito mais pelo rock e o blues do que milhares de imitadores e diluidores. Trouxe a negritude do gueto à base de um gênero, construiu, lapidou e desconstruiu toda a essência de uma linguagem. Ele não é escravo das aparências. De que adiantam corpos sarados sem o sabor da experiência? O guitarrista não tem medo de desafiar o tempo e assusta covardes.
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Nenhuma rua era capaz de estancar aquela hemorragia, tristeza de asfalto. Os cabelos loiros desgrenhados, sujos, ainda refletiam sinais de beleza pretérita. Os olhos tinham súbitas margens vermelhas ocultando território de intacta dor, superfície ressequida pelas lágrimas, líquidos incertos, rumos precários. Ela era um poço de contradições e naquela cidade pouca gente estava interessada na causa de suas inquietações.
Seu nome verdadeiro, assim como o passado, era uma incógnita. Não havia registros de onde veio, o que fazia antes de sua tumultuada chegada. Na falta de um nome, começou a ser chamada de Maria, nome da Virgem, embora todos duvidassem de sua santidade. Ainda mais que era vista rondando, noturna, os postos de gasolina da Rodovia Nova, lotados de caminhoneiros.
Na igreja, quase não a deixavam entrar. Olham de soslaio a maltrapilha desconhecida na intolerância nossa de cada dia. Sobrava a Rodoviária, de onde partiam poucos ônibus, a maioria velhas jardineiras recauchutadas que circulavam pela área rural, transportando boias-frias e seus amarelados sacos de aniagem.
No bar, vez em quando, algum bêbado lhe oferecia uma pinga, aceita com gosto, e os centenários troncos das árvores da Praça 12 de outubro abrigavam, mais tarde, a silhueta vertiginosa dos corpos entrelaçados, dois em um.
De repente, estranhos incidentes, que nunca haviam ocorrido, começam a assustar as pessoas. Bonecas de vários tipos, preços e procedências desaparecem nos quartos das crianças. Não há testemunhas dos roubos. Simplesmente, as bonecas sumiam sem deixar vestígios. O delegado balofo, comandante da delegacia de grades abertas, onde não havia um único preso, investiga, curioso, o ocorrido. Passa-se um mês e as bonecas continuam tomando chá de sumiço. As janelas, antes abertas à noite, são fechadas e enferrujadas tramelas voltam à cena, rangendo o ressuscitar de velhos fantasmas.
Uma noite, surge a primeira pista. Na horta de Baniquinho, ruídos atraem o pastor alemão que late como nunca e acorda toda a vizinhança. Archotes de madeira queimada, improvisadas lanternas, iluminam o breu e antecedem a surpresa coletiva. Numa velha gruta, antiga mina, não há sinal de gente, mas são encontradas dezenas de bonecas, cobertas por folhas, gravetos e cascas de frutas, aconchegantes berços. Os perseguidores ficam à espreita, aguardando a chegada do larápio.
O susto é enorme. Maria chega com uma Mãezinha, da Estrela, atração numa época em que a Barbie ainda não era arroz de festa. Guarda a boneca junto às outras e, como em um transe, entoa doces cantigas de ninar. Para Maria das Bonecas, a vida é uma brincadeira. Sempre.
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