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Ópera a preços populares
 


Verdadeira multidão acorreu ao Palácio das Artes para assistir à ópera "La Traviata", de Verdi (1813-1901). Pessoas de todas as faixas etárias, predominado jovens, em busca de ingressos a preços populares. Elogiável política da atual administração da Fundação Clóvis Salgado, presidida pela eficiente e dinâmica Eliane Parreiras.
Mais uma vez, BH confirmou predileção pelo que deveras é bom. Em tempos idos, situações análogas se registraram. Nas temporadas líricas da Sociedade Coral, no velho "Chico Nunes", oito ou mais óperas eram montadas, com duas récitas cada. Todos os anos, nas gloriosas temporadas de ópera, balé e concerto sinfônicos.
Por sua vez, o nosso principal teatro não deixou morrer manifestações do gênero. Em menor quantidade, porém sempre qualificadas e admiradas pelo público e pela crítica. Notáveis espetáculos, registra a história. Dos mais recentes, de indelével memória, "Aída" do próprio Verdi e "Turandot", de Puccini (1859-1924), em que a genialidade de Raul Belém Machado muito respondeu pelos êxitos obtidos.
Da mesma forma, solistas, maestros, regisseurs, coreógrafos, a Orquestra Sinfônica e o Coral Lírico de Minas Gerais, sempre atuantes trajetória de elevados méritos.
Ainda que alguns débitos tenham sido apontados os créditos estiverem superiores nesta concepção de "La Traviata", encenada no Grande Teatro do Palácio das Artes. Restrições em torno das quais mister se faz melhor entendimento das intenções do respeitadíssimo Mário Corradi. Artista que, em várias oportunidades, teve seu trabalho aqui aplaudido.
Respondo a e-mails enviados por jovens universitários, indagando se "Alfredo" estava escondido nas coxias, durante a ária "Sempre Libera". Evidentemente não. Apenas a voz tenor, representando intenções e dúvidas que a própria "Violeta" fazia para si mesma.
Nada mais que o seu pensamento, sua reflexão em torno do amor que, pela primeira vez, enchia o seu coração de ternura. Opção entre a vida mundana e um sentimento nobilíssimo. Enfim, nada mais que a materialização de uma reflexão. Quanto à cena do banho que considero de mau gosto face ao contexto, nada tem de imoral, jamais agredindo a sensibilidade de quem quer que seja. Apenas difícil para a cantora diante da "Grande Ária", das mais complexas!
Récitas subsequentes, tanto quanto expressivas, contaram com a protagonista Elizeth Gomes. "Diva" de infinitos recursos. Cantora e atriz. Belíssima nas vestes da heroína das camélias, como sóbria nos registros, na tessitura, afinação e dramaticidade de um soprano capaz de atingir notas altíssimas, de invejável coloratura. Primorosos os concursos de Tereza Cançado (Flora), Marcos Paulo (Alfredo) e Luiz Gaeta (Germont).

Postado em 31 de Maio, 2010
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Música e texto
 


"No princípio era o verbo". Parafraseando João Evangelista, possível iniciar-se a história da ópera. Gênero em que o texto dramático é revestido de música. O contrário ocorre na opereta, sua irmã menor;no singspiel, na zarzuela, vaudeville e similares.
No entanto, divergências ocorreram historicamente, mediante o estabelecimento de escolas e pensamentos. Neste divisor, as águas rolaram, o que em nenhuma hipótese configurou-se inferioridade nas duas vertentes. Ao contrário, difícil, senão impossível, qualificar a grandeza da obra de autores como Mozart e Gluck. Para o gênio de Salsburg, a palavra deve ser entendida como filha obediente da música. Já o segundo, tanto quanto genial, assevera ser o poeta quem faz o desenho, limitando-se o compositor a acrescentar apenas a cor.
Sabido que as óperas mozartianas, algumas delas, chegaram à fronteira da inconveniência literária. Em que a soberanas partituras de inigualável estética em nada foram ofuscadas por textos banais. É o caso de "Cosi fan tutte"...
O leitmotiv wagneriano, de sutileza infinita, evoca a fantasia, falando de figuras mitológicas, lendárias conceituações. Deuses, divas, heroínas e heróis imaginados segundo as mais grandiloquentes páginas musicais. Ademais dificílimas, de inesgotável interpretação, exigindo, dos cantores, específicas tessituras, raros registros e o máximo do seu potencial!
Contemporâneo de Richard Wagner, Giuseppe Verdi, dominando a Europa a partir da Itália, jamais esconde a origem provinciana. Natural de Rôncole, é apontado como a mais fulgurante manifestação da eclosão lírica do século XIX. Criticado cruelmente por seu rival alemão, à cada etapa da sua sofrida existência pessoal, ainda assim, arrebatava o mundo. Seguidor da trilogia formada por Rossini, Donizetti e Bellini, passa o cetro para o nosso Carlos Gomes. Que, para Verdi, iniciava o seu tempo subsequente. Será que o Brasil, "país de todos" sabe disto?
Com "Rigoletto" (185l), inicia Verdi a segunda etapa da sua produção operística. Encontra estilo próprio, inconfundível. Seguem-se "O Trovador" e "La Traviata", cartaz recomendável do Palácio das Artes. Em pleno exercício do verismo, consiste no drama baseado no romance de Alexandre Dumas Filho, "A Dama das Camélias". Título que se traduz como transviada ou cortesã.
Protagonista retratada em folhetim (l848) pelo escritor, certamente terá existido. Alphonsina Plessis, seu nome, fugaz paixão do próprio dramaturgo francês que a chamou de "Margueritte Gauthier". O folhetim transformado em peça teatral, quatro anos depois, deu origem à "Traviata". Libreto de Francisco Maria Piave, criando a figura de "Violeta Valery", no papel central feminino. Seu jovem e desditoso amante passou a se chamar "Alfredo Germont", no lugar de "Armand Duval". Texto e música (sobretudo), justificam a ópera, o mais complexo espetáculo cenográfico.

Postado em 24 de Maio, 2010
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Uma grande perda
 


A Imprensa Mineira perde um dos seus mais legítimos representantes. Recentemente falecido, Paulo Quintino dos Santos deixa memória de elevadíssima expressão. Na editoração de revistas de porte em Belo Horizonte, desponta pioneiro.
Quando ainda a cidade não dispunha de empreendimentos capazes de concorrer com as metrópoles nacionais, Quintino dos Santos obtinha sucesso com o magazine "Comércio & Indústria". De periódica publicação e tiragem competitiva.
Sob todos os aspectos bem ilustrada e fidedigna em suas informações, a festejada revista refletia o estilo e a eficiência singulares do seu editor. Foi capaz de vencer desafios, lutando contra dificuldades financeiras e outras decorrentes de arrojada conquista.
Conquista que o elevou à suprema categoria de comunicador.
Ardoroso amante das artes e da cultura, mantinha diálogo apropriado sobre celebridades. Certa vez, falando de Maria Callas, com ele aprendi muito em torno da "diva". Tive o privilégio de conhecê-lo profissionalmente, tornando-me seu amigo e admirador. À época, era eu apenas estudante colegial. Ainda assim, acreditou em mim. Acreditou sob a proposta de fazer valer a profissionalização de um inexperiente jovem. Que, todavia, dele receberia a necessária orientação jornalística.
Graças ao talento, à sensibilidade e, sobretudo, ao senso ético de Quintino dos Santos, possível se tornou a formação de tantas consciências endereçadas à difícil função de escrever socialmente. Nas entrevistas e reportagens com presidentes da Republica, governadores estaduais, prefeitos e demais agentes públicos, além de empresários, sabia tecer perguntas e comentários sensatos, mediante críticas de interesse econômico, social e político.
Não lhe bastavam abordagens nacionais ou locais. Buscava em todo o mundo ( sem a internet) notícias como por exemplo a Guerra do Vietnã, talvez das mais significativas matérias a respeito do conflito.
Eclética, sua revista destinava nobres espaços para o Teatro, a Música, o Cinema, a Literatura e as Artes Plásticas. Enriquecida de assuntos variados, chegava à fronteira da delicadeza falando ainda da beleza das misses mineiras... Coube-me entrevistar pessoas como Tônia Carrero, Eva Todor, Elizeth Cardoso, Paulo Autran, Adolfo Celi, Jonas Bloch, Jota D'Angelo, Delpino, Maria Fernanda, Othon Bastos, Isolda Cresto, Maria Helena Buzelin, Carlos Eduardo Prates, Carlos Alberto Pinto Fonseca, Lily Krauss, dentre outros que faziam, como ainda alguns fazem, sucesso em todo o país ou no exterior. Paulo Quintino dos Santos, vítima de delongada enfermidade encontrou nas mãos do amigo dr. Raymundo Teixeira Ferreira irrestrito apoio moral e material, até o final dos seus dias.

Postado em 17 de Maio, 2010
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"La Traviata" em BH
 


Situar a ópera em Belo Horizonte, a partir da criação do Palácio das Artes, é quase perder a memória. Memória que, diga-se de passagem, registra aclamados eventos do gênero.
Desde o Theatro Municipal - construído à época em que a capital de Minas veio transferida de Ouro Preto - a ópera, opereta,os concertos e balés têm sido apresentados sob expressisvo sucesso.
Com a demolição do aludido teatro na década de 1940, uma plêiade de idealistas construiu o emergencial "Chico Nunes", até que o Palácio das Artes fosse concluído. Passaram-se 20 anos!
Esta história é sobejamente conhecida. Ainda assim, contá-la pela enésima vez é, no mínimo, justo, oportuno e conveniente diante de tantos equívocos que veiculam por aí...
Tivemos a hegemonia do terceiro mais cobiçado palco lírico deste país. As temporadas produzidas pela Sociedade Coral duravam um semestre. Não raramente, pelo menos oito montagens, cogitadas em várias récitas.
Elencos eram constituídos pelos maiores artistas nacionais e alguns internacionais, ao lado dos nossos cantores. Beniamino Gigli, Elizabete Barbato, Ferruccio Tagliavini dentre outros, aqui estiveram sob aparato. Intérpretes locais; dos municipais paulista e carioca, todos os anos marcavam presença deveras brilhante. As primeiras páginas dos nossos jornais se ocupavam do assunto. Contávamos com excelentes críticos de música erudita. João Etiènne Filho, Luiz Portugal (Wilson Simão), Antero de Alencar, Frederic Machner, Roberto Frank, Luiz Aguiar, Haydèe Cintra, Olívio Tavares de Araújo, Frederico de Morais, Itamar de Faria e Aloísio Rezende, os mais notáveis. Também cronistas se dedicavam ao assunto. Carlos Drummond de Andrade, Alberto Deodato, Jair Silva, Emílio Moura, enfim, a fina flor da nossa imprensa especializada. Ocupavam seus espaços através de comentários sensatos, de elevadíssimo teor cultural.
Vale esclarecer que a encantadora obra verdiana baseada na "A Dama das Camélias", de Alexandre Dumas filho, sempre esteve na programação das inesquecíveis temporadas...
Nos anos de 1940, 50 e 60, encarnaram "Violeta Valery", protagonizando "La Traviata", os consagrados sopranos Lia Salgado, Diva Pieranti, Maria Helena Buzelin, Liza de Moro e Dalka Azevedo.
Quando da inauguração do Palácio das Artes, sob a magistral regência do maestro Carlos Eduardo Prates, todo o esplendor de "La Traviata", com Niza de Castro Tank , profetizando que teríamos nosso templo musical. Fato que se deu em 1970.
A expectativa agora paira sobre Eliseth Gomes, soberana "diva",e a não menos festejada Rosana Lamosa, cujas performances se constatam primorosas.

Postado em 10 de Maio, 2010
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Encantos das formosas
 


Babaya, Lu e Celinha Braga, as "Formosas", trio que se recomenda pela excelência do repertório e da interpretação. Páginas imortais, abordadas mediante respeitável observação da nossa música. Do nosso incomparável ritmo. O samba sincopado, de breque, a canção, enfim, o que se pode chamar de brasilidade. Deste país, cuja heráldica anda deformada. Difícil entender a cor vermelha no "L" da palavra "Brasil", por aí divulgada. A Terra de Santa Cruz, cujas cores sempre foram o verde, amarelo, azul e branco.
Tais cores encontram-se no repertório das encantadoras cantoras de belíssimos timbres, afinação esmerada, senso musical irretocável. Uma sequência de antológicas partituras, envolvendo além do samba, choros e marchas carnavalescas.
No palco armado na Praça da Liberdade, através do bem-sucedido projeto "Conexão Vivo", sob os auspícios da Lei Estadual de Incentivos, a cidade convive com elogiáveis eventos do gênero. E não foi outra a presença das aludidas cantoras, senão a mais lúcida e empolgante.
Convidada especial, as intervenções brilhantes de Marina, toque de esmerado bom gosto. Voz possante, timbrada, bem empostada, em que a dicção de acentuados erres e esses, lembram Carmen Miranda. Sem contudo imitá-la.
Ao contrário, Marina tem a sua própria personalidade, seu estilo e, neste sentido, integra elencos históricos das mais aclamadas vozes pátrias.
Categorizados instrumentistas compõem o grupo. São eles Totovi Ladeira, na percussão. Dodô Rodrigues, violonista; Du Macedo, cavaquinista e Agostinho Paolucci, nas sete cordas.
Direção de Marina, com expressiva dramatização.
Projetos assim, além de entretenimento e lazer de qualificado nível artístico e cultural, contribuem em prol do aprimoramento do ser humano. Nada melhor para transformar a violência em ternura.
Em meio a tanta crueldade de extermínios por tortura, corrupção, desmandos e injustiças sociais; diante do sofrimento dos aposentados com míseros proventos, neste processo inflacionário que se instala, a alegria comparece gratuitamente, oferecendo ao povo momentos de descontra-ção. Prazer que ilumina a alma e restaura o humor, fazendo renascer a esperança. Eis o valor de eventos apresentados em praças públicas.
O presidente Roosevelt, humanista estadista norte-americano, soube valorizar as artes. Sabido que uma menina de apenas cinco anos de idade, em l930 e 40, graças à venturosa política então adotada, foi responsável pela otimização do espírito e da predisposição daquele povo amigo.
Trata-se de Shirley Temple com suas incomparáveis performances de cantora, bailarina e atriz de Hollywood.
No mesmo diapasão a nossa Carmen Miranda teve o seu quinhão de responsabilidades, chegando a salvar a Broadway da depressão financeira de l929.
Mister portanto, o crescente apoio do governo e da sociedade para que bons espetáculos sejam divulgados cada vez mais.

Postado em 3 de Maio, 2010
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Pacífico e Juarez Moreira
 


Intitulado "Standards" ("As músicas que tocavam nas festas que a gente ia"), Pacífico Mascarenhas, ao piano, e Juarez Moreira na guitarra elétrica, comparecem neste CD que tem cheiro de saudade.
De saudade dos tempos em que Belo Horizonte era uma cidade amável, vergel, perfumada por magnólias, jasmins e damas-da-noite. Hoje, em meio à sujeira que predomina nos logradouros, amontoados de lixo por toda parte; pichações infinitas, repetidas e impunemente exercidas, a cidade é paradigma da deseducação urbana. Grosseira, barulhenta e hostil, não mais condiz com seu recente passado. Passado não longínquo que enseja CD como este. De preciosas músicas, excelente bom gosto, em que a ternura constitui denominador comum do talento dos seus intérpretes.
Sui-generis, o piano de Mascarenhas, natural, espontâneo e sonoro, registra todo o clima das famosas horas dançantes do Minas Tênis Clube ou dos memoráveis bailes do DCE. Tempo bom, sem banditismo nas ruas, de saudável boemia que só mesmo o bar de Munhoz, no Sto. Antônio, é capaz de testemunhar.
Tempo da minha juventude, de amigos verdadeiros e inesquecíveis. As paqueras ingênuas na Praça da Liberdade aos domingos e na Raul Soares, às quintas. Meninas lindas, desfilando com sus vistosos brincos e colares, vestidos de seda pura, bolsa, luvas e salto alto. Cabelos bem penteados, com laquê e tudo mais.
A Savassi veio depois, assim mesmo cheia de graça e beleza, ainda perpetuadas. Palco que foi da incomparável "Autêntica Jazz Band", liderada por Rodolfo Padilla.
Em todos estes momentos, Pacífico Mascarenhas do alto da sua invejável singeleza de homem despojado de tolas vaidades, desponta no cenário cultural, ornamentando a música. Sobretudo pelo seu amor às artes, é pesquisador de primeira linha. Algo que está patenteado neste "Standards". Nada menos que 50 páginas antológicas, contemplando os maiores autores da humanidade, admiráveis instrumentistas e cantores. Muitos deles, em Hollywood e na Broadway, deixaram indelével passagem. Para simples exemplos, Cole Porter, Rodgers-Hart, Murden-Muller, Kern-Hammertein, Ira e George Gershwin, dentre outros. Com os quais, Pacífico Mascarenhas comparece nas suas composições, tanto quanto elogiáveis.
Nesta bem sucedida conquista, de pesquisa musicológica deveras sóbria, a parceria genial de Juarez Moreira. Violonista de reconhecidos méritos, cujo nome se inscreve nos mais aclamados feitos da nossa canção.
Acompanha o CD, livreto contendo as respectivas partituras. Bem ilustrado, com fotos de representantes legítimos do gênero jazzístico e afins.
Um presente para a fonografia mineira, seguramente das melhores do país.

Postado em 26 de Abril, 2010
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Bravos ao Grupo Líbero
 


Dos raros e excelentes grupos operísticos de Belo Horizonte, o "Líbero" desponta sólido. Com propostas que executa, mediante brilho e invulgar predestinação. A predestinação de levar avante o gênero lírico, nem sempre valorizado entre nós.
Idealista e empreendedor, o tenor Alexandre Carvalho conduz todos os trabalhos musicais do aludido conjunto de notáveis artistas, com os quais divide inesquecíveis performances.
De memorável atuação do soprano Priscila Ferrari que tão cedo desta vida se foi, à exuberante voz de Elizeth Gomes, nada menos que o concurso de sopranos de primeiríssimo mundo!
Concurso este que se ornamenta sobremaneira pelos instrumentistas. São eles Lígia Becker, a encantadora pianista de suprema qualificação; Adriana Costa, violinista portadora de expressivo currículo e sensibilidade ímpar, e o celista Cláudio Urgel, nome obrigatório de grandes acontecimentos culturais. Enfim, todos festejados por aplausos reconhecedores do talento e da técnica que possuem.
Assim apoiado, Alexandre Carvalho, de privilegiado timbre, ampla tessitura e generosa aptidão canora, constitui atração, inclusive pela bela presença.
A "diva" Elizeth, detentora de prestígio nacional e internacional, seja nas árias ou nos duetos com Carvalho, empolga! Empolgação correspondida pelos demais, cada qual no desempenho do seu papel, sempre complexo. Superam dificuldades, alcançando patamares interpretativos únicos!
Admirado pelo professor grego Yorgos Manesis, Alexandre Carvalho esteve na Grécia, convivendo com o mestre. Encontrou a oportunidade de amealhar novos conhecimentos obtendo preciosa chance. A chance de participar com o Grupo "Líbero", no Festival de Música Internacional, naquele país. Conquista deveras única!
Recentemente, no comovente culto religioso em sufrágio pela alma do nosso querido Marcelo Rios, o Grupo "Líbero" registrou momentos de elevadíssimo mérito.
Músicas diversas, inclusive "Eu Crei em Ti", de que Rios tanto gostava, foram empreendidas sob reverência. Discretos soluços em meio ao silêncio da meditação conveniente ao momento. Inequívoca demonstração de carinho a Marcelo que o "Líbero", com seu brilho, pode oferecer...
Excepcionalmente, os acompanhamentos pianísticos estiveram a cargo de Mauro Chantal. Talentoso e respeitado por suas inúmeras atuações, sempre acobertadas de sucesso. Chantal que por diversas vezes, tive o prazer de aplaudir e dele falar nesta coluna. Jovem que desfruta do apreço de toda a classe musical em Belo Horizonte.
Estará defendendo tese sobre ópera, aprovado que foi para doutorado na Unicamp.
Bravíssimo por mais esta aquisição.

Postado em 19 de Abril, 2010
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Vem aí "La Traviata"
 


Há quarenta anos, inaugurava-se o Palácio das Artes, sob portentosa encenação da ópera "La Traviata", de Verdi (1813 - 1901). A primeira grande montagem do nosso principal teatro. Um teatro essencialmente lírico nos seus objetivos, ainda que seja centro artístico e cultural eclético, em que todas as manifestações decorrem brilhantes. Sempre no mais elevado nível de produção.
Para as comemorações da efeméride, a Fundação Clóvis Salgado levará ao palco do Grande Teatro a mais popular das partituras do gênero, no próximo mês de maio.
Giuseppe Verdi é, sem dúvida, o mais robusto de todos os compositores de ópera. Não só pela qualidade, como pela quantidade da música e dos textos.
Sua obra demarcada por fases, inicia a segunda etapa com "O Rigoletto", em 85.Estilo peculiar, de características românticas e realistas. Nada místico, atinge o clímax com as subsequentes "O Trovador" e "La Traviata". Embora desiguais, despertam enorme interesse mundial.
De fácil assimilação auditiva, basicamente uma enorme valsa, "La Traviata" assume características dramáticas, envolvendo a dor de um amor proscrito, impossível, porém verdadeiro. Em que o preconceito assolou o coração de uma mulher, cuja vida até então mergulhara-se nas conveniências de fáceis e vantajosas conquistas. Apenas o dinheiro interessava... Até que um jovem, bem mais novo que ela, arrebata-lhe a alma. Pela primeira e única vez, teria conhecido o nobre sentimento que une um homem a sua eleita amada.
No entanto, não foi possível a consumação de desejável romance. Procurada pelo pai do rapaz (Alfredo), ela teve que abdicar-se de tamanha felicidade, mediante contundentes desculpas que irritaram profundamente o inexperiente amante. E tudo termina em dor e sofrimento. Para ambos, com fortes tintas para ela. Ela que finaliza seus dias na mais absoluta miséria, explorada por falsos amigos, exterminada por uma doença incurável naquela época. Tísica, ainda assim teve fôlego para reencontrar seu amor, morrendo nos seus braços.
Inspirada no romance "A Dama das Camélias", de Alexandre Dumas Filho, com libreto de Francesco Maria Piave, "La Traviata" desenvolve-se através de quatro atos, ainda que tenha sido concebida para três. Uma sequência de riquíssimas melodias, de harmonias singelas, de indescritível beleza. Algumas vezes ouvi do saudoso maestro Sérgio Magnani que Deus foi o autor do prelúdio, delegado a Verdi por inusitada graça!
A protagonização, ou "Violeta", é considerada um desempenho de primeira categoria, exigindo do soprano admiráveis dons. Pelo menos duas tessituras. A do primeiro ato, ligeiro-coloratura e nos demais, o lírico puro e dramático, este sobrecarregado no último quadro.

Postado em 12 de Abril, 2010
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Sobre Marcelo Rios
 


A mais pungente melodia, na delicada expressão chopiniana da emocionante marcha fúnebre, linguagem universal do sentimento. Do sentimento que palavras não traduzem. Que a poesia fica a dever à música. E, ainda assim, a música fica devendo ao encantamento de poucos ornamentados por
Deus.
Marcelo Rios, um destes, acaba de partir. Deixa o que leva. Uma passagem de amor e realizações.
De respeito a todos.
De tolerância e irrestrita bondade.
Com ele convivi pouco. Mas o suficiente para admirá-lo como exemplar jornalista. Mais que isto, rara personalidade dotada de espiritualidade cristã indisfarçável. Amigo de todos. Sempre sorrindo para a vida e até mesmo para o sofrimento.
Há mais ou menos dois anos - internada minha mãe no Lifecenter - andava pelos corredores daquele hospital. Subitamente, ao meu encontro, sustentado por alguém, Marcelinho tentava trocar os passos. Magrinho e abatido, todavia não perdera a luz. Ao contrário, sua face se iluminava a todo instante. Vendo-me, ensejou afável cumprimento, de inesquecível abraço. Mãos frias, algum cansaço e um depoimento repleto de otimismo e fé.
Saía de uma cirurgia complexa. Aguardava resultados de um pré-diagnóstico sombrio. No entanto, alimentava a esperança da recuperação. Da saúde que meses a fio cobrou-lhe talvez o que não pudesse dar. Espécie de calvário ao qual são submetidos em geral os bons...
Finalmente o descanso. O descanso de uma luta que não chamaria de inglória. "Overture" para uma ópera, cuja estreia acontece na paz celestial.
De singular enredo, certamente sob a regia divina, a aclamação ocorre mediante presenças célebres:Caruso, Callas e outros.
Todos os dias na segunda página do Caderno de Cultura do HOJE EM DIA, Rios era uma referência enaltecedora da nossa imprensa. Alegria para os vizinhos de páginas. Sempre me orgulhei disto!
Muito importante figurar numa coluna por ele assinada. Algumas vezes, contemplou-me com tamanha distinção, reconhecendo méritos, por excessiva generosidade.
Chamava-nos de "colega". Maneira carinhosa, nivelando-se aos que com ele puderam conviver profissionalmente.
Nesta fraternal dimensão, seu trabalho fluía sólido, respeitável, admirável. Um portentoso e legítimo representante da nossa comunicação social. De um jornalismo honestíssimo, de delicadeza sutil, jamais concessiva ou bajuladora.
Verdadeira expressão dos fatos, mostrados segundo elogiável desempenho.
Incomensurável perda, decretada por moléstia cruel. Priva-nos da singela e encantadora presença física de Marcelo. Cuja memória habita-nos o coração.

Postado em 5 de Abril, 2010
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Carlos Buzelin
Salve o Palácio das Artes
 


Há quarenta anos, inaugurava-se o Palácio das Artes, até então sonhado pelo povo de Belo Horizonte. Sonho que durou no mínimo duas décadas. Justamente o tempo em que a cidade ficou desprovida de um teatro lírico definitivo. Sabido que o então Municipal, fora vendido para uma empresa de exibição cinematográfica. E que o "Chico Nunes", tão somente solução emergencial.
Oficialmente, a primeira grande montagem da nova casa de espetáculos, a ópera "La Traviata" de Verdi, tendo como protagonista Niza de Castro Tank. Seguramente das mais privilegiadas vozes de soprano lírico-ligeiro de todos os tempos. A regência esteve a cargo do maestro Carlos Eduardo Prates, sempre brilhante na sua portentosa carreira. Coro e orquestra já integrantes da estrutura da instituição que seria vitoriosa sob todos os aspectos, atualmente apontada exemplar centro de cultura e arte. Respeitada em todo o país, com prestígio internacional.
Para as comemorações da efeméride, a atual administração da Fundação "Clóvis Salgado", sob a direção artística de Cláudia Malta, houve por bem brindar o público com a encantadora obra do mestre de Roncole. Retorna, pois, em maio próximo, "La Traviata". Auspiciosa notícia, há tempos reclamada.
Recordista de bilheteria, desde as inesquecíveis temporadas da Sociedade Coral. Duas ou mais récitas extraordinárias se tornavam obrigatórias ao atendimento da demanda de ingressos. Nada menos que expressivo retorno financeiro na composição orçamentária respectiva.
Belo Horizonte teve a chance de assistir o que era restrito ao Rio de Janeiro e a São Paulo. Tornou-se referência do eixo das duas metrópoles. Significativo o fato de tais produções operísticas decorrerem dos nossos próprios esforços. Tempo em que se estabeleceu intercâmbio com o Municipal Carioca, com a finalidade de trazer celebridades do mundo inteiro e apresentar os nossos valores.
A chance reveladora de talentos mineiros que se consagraram no país e no exterior.
Criada a Fundação "Clóvis Salgado", responsável por todo o complexo que envolve o Palácio das Artes e outros espaços congêneres a ela vinculados, passos gigantescos foram dados. Passos que pisaram e pisam firmes na condução dos objetivos da Casa. Templo da música, de tradicional respeitabilidade. Cuja organização administrativa é exemplar.
Voltada para a erudição, seu elogiável aparato institucional estabelece os chamados "Corpos Artísticos". São eles a orquestra, o coro e o balé. Tripé indispensável ao equilíbrio na consecução de complexas manifestações que não podem , da mesma forma, prescindir da extensão cultural. O teatro, o cinema, as artes plásticas, a documentação, pesquisa, memória, enfim a produção.
Segmentos sem os quais seria impraticável a realização de arrojados projetos que a FCS leva avante. E os leva mediante raro brilho, de luz que resplandece atingindo os mais longínquos recantos deste imenso Brasil.
40 anos de gloriosos e ininterruptos anos de sucessos.

Postado em 29 de Março, 2010
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