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O Centro Cultural Pró-Música de Juiz de Fora, lança o CD "Orquestra Barroca", gravado durante o Vigésimo Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga.
De requintado bom gosto, elevadíssimo teor de erudição, trata-se de mais uma conquista fonográfica nacional. Conquista que se comemora há duas décadas. Ou a projeção da grande civitas mineira, arrojado centro artístico e cultural do país, no que se refere à pesquisa, ao resgate, à preservação e divulgação da música. Da música barroca e antiga por excelência, envolvendo ícones da interpretação instrumental, canora e da regência.
Luiz Otávio Santos, preparador e condutor da orquestra, responde pelo êxito alcançado. Atua com as mais conceituadas mostras de música barroca no panorama mundial. Na condição de brilhante violinista, tem seu nome cogitado para eventos expressivos, inclusive internacionais, reiteradamente agraciado com insígnias como a Ordem do Mérito do Minc.
Já a orquestra tem sido aclamada expressiva escola de formação de elementos para a música antiga, graças à seriedade da instituição à qual pertence.
Reconhecido e admirado não só em Minas Gerais, no Brasil e no exterior, o Pró-Música engrandece a nossa terra!
Esta elogiável gravação que decorreu do aludido festival, traz registros da suíte para orquestra, extraída da ópera "Les Indes Galantes", de Jean Philippe Rameau. Importante compositor francês do século XVIII.
Considerado pioneiro nesta exuberante manifestação musical, o grupo interpretou também a peça "La Fantasie", de Jean Fèry Rebel. Curioso saber que na cidade de Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, foram encontradas partituras de Jerônimo Sousa. Nada menos que as preciosas páginas "Salve Regina" e "Vide Domine", produzidos no sec.XVIII.
Em 2006, o Pró -Música ecebeu por sua orquestra barroca o prêmio "Disco de Ouro", concedido pela revista "Diapason".Cobiçado prêmio, alcançado em razão das performances de beleza e acerto, contemplando J.S.Bach, J.F.Rebel e Emerico Lobo de Mesquita.
Historicamente, elogiosos registros vêm coroando tantos esforços desenvolvidos por todos os que compõem a família "Pró-Música". Neste aspecto, mister registrar os êxitos alcançados que presenteiam a discografia erudita nacional. Cantatas e Magnificat de JS Bach, Suítes de G.F.Handel e G.P. Telemann, além de desconhecidas páginas francesas de J.M.Leclair e J.F.Rebel.
Vozes equilibradas, empostadas e sonoras, de excelente conceituação, podem ser apreciadas neste CD de lúcida regência. São de Gilzane Castellan, Pedro Couri Neto, Tiago Pinheiro e Marcelo Coutinho.
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Proscrito historicamente, o violão foi considerado instrumento indigno dos salões. Dos salões habituados à música de câmara. Em que a burguesia se locupletava de partituras dedicadas ao piano, ao violino ou à harpa, dentre outros congêneres.
Portanto, é possível admitir-se a intolerância social em relação à mulher que se dedicasse a executá-lo. Uma mulher decente, pelo repudiado preconceito, não poderia ser violonista...
Ao homem coube a prerrogativa de se deleitar e aos demais, extraindo o peculiar e mavioso som que o violão produz.
Na busca de novos conhecimentos musicais, ligado familiarmente à erudição, à ópera, procurei conhecer grandes intérpretes de diversos segmentos. Paco de Luccia já havia despertado em mim curiosidade e emoção. Era apenas um jovem ávido de me tornar amante que sou da divina arte.
Comecei a observar que do violão, só intérpretes masculinos despontavam brilhantes aqui e no exterior. Raramente a mulher. Certa vez, encantei-me com Rosinha de Valença! Passei parte do meu tempo pesquisando sobre o assunto. Quase nada obtive em torno do sexo oposto, dedilhando, mediante primor, decantadas cordas.
Vencidos tantos janeiros, deparo-me com a genialidade de Andrea Bazán. Jamais, em tempo algum, estive alteado a igual deslumbramento. Noutras palavras, deparei-me com uma artista digna de perfilar-se no mesmo patamar de Segóvia!
Mais que nunca, reconheço a imposta e injusta mediocridade feminina decorrente de tolos preconceitos, donde nem mesmo as "anormais", como diria Nelson Rodrigues, conseguem se destacar.
À exceção da regra, Andrea Bazán firmou definitivo elo com o consagrado Rufo Herrera, através de parceria inusitada. Parceria de avantajados instrumentistas, capazes de superar até mesmo uma orquestra sinfônica.
Sob todos os aspectos notáveis, sua apresentação empolgou, arrebatando o público que os ovacionou!
No programa, a trajetória da canção portenha, envolvendo manifestações latino-americanas.
Tributos sucessivos, cronológicos, realçando celebridades.
Alfonsina Storni, Atahualpa Yupanqui, a incomparável Mercedes Sosa, assim como o genial Astor Piazzolla.
Tributos elogiáveis e indispensáveis a Buenos Aires de l900, ilustrados pelos exímios dançarinos Mônica Ribeiro e Arnaldo Alvarenga.
Enriquecido por este espetáculo, o palco do Teatro Marília conquistou a tradição que lhe faltava no âmbito musical erudito-popular, de elevado nível.
Loas ao projeto Verão Arte Contemporânea 20l0, nesta eloquente demonstração intitulada "Música Argentina: Tributos". Digna de reprise.
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Dos mais fascinantes tenores brasileiros, Geraldo Chagas terá sido o melhor exemplo. Não apenas a voz, o desempenho teatral ou o coleguismo, o tornaram referência artística e cultural. Acima de tudo, sua capacidade interpretativa e criativa, capaz de transformar pequenos papéis em gigantescas performances. Na história do teatro lírico brasileiro, um dos únicos detentores de versatilidade, carregando talento e dignidade profissional, em primeiro plano.
Consciente e capaz de sustentar um espetáculo de grande montagem.Propiciava às cenas e aos capilares segmentos de uma ópera, extraordinário colorido. Na condição de regisseur - o que exercia com sucesso - jamais permitiu a monotonia. Ou a falta de postura de todo e qualquer participante.
Aos co-primários; centrais femininos, masculinos e coralistas, conferia preciosa orientação. De tal modo que todos se movimentavam em sintonia. Em sintonia com a música, o ritmo, o texto, enfim, observando a arte dramática. Lembrava sempre que a ópera é teatro. Teatro musicado, cantado e dançado.
Professor por vocação e rara formação, além de atuar, ensinava a declamação lírica, sua maior conquista.
A declamação lírica, da qual foi precursor, trata do conhecimento técnico que o cantor carece ao desempenho teatral do seu personagem. Ou seja, dominar dificuldades próprias da ribalta.Não se deixar levar pela insegurança ou pela incerteza do que se deve fazer ou não fazer.
A declamação lírica, portanto, ensina posturas das mãos , de como se deve andar,assentar ou ficar parado. Ensina a expressão corporal e facial necessárias ao papel. Desenvoltura para cada momento, na medida em que a música e o texto a ensejam.Em suma, não só a voz,mas a dramatização.
Há óperas que exigem muito. Madame Butterfly por exemplo, em que a protagonista passa enorme tempo sozinha no palco. Aí repousa tamanha difculdade. Dificuldade que Chagas equacionava acertadamente. Formou e preparou muita gente que acabou se celebrizando. Inclusive a consagrada Violeta Coelho Netto Neves de Freitas. Esta que a despeito de mais antiga que ele, ainda assim buscava aprimoramento através do mestre. Jamais passou tanto know-how aos que se viam na condição de cantor lírico. Notadamente os homens que muito aprenderam através dos seus ensinamentos. Deixa memória inigualável nos principais teatros daqui e do exterior.
Terminou seus dias na década de 1990, lecionando no Cefar do Palácio das Artes e na Escola de Música da Universidade do Estado de Minas Gerais. Mineiro, realçava orgulhoso sua amada terra. Jamais deixou de atender solicitações da ópera. Comumente atacado por cálculos renais, ainda assim, em plena crise, comparecia aos ensaios, orientando e contribuindo. Fica pois a saudade deste homem que viveu produzindo sonhos, transformados em soberba e real emoção.
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Pouco se sabe que nesta Terra de Santa Cruz, o gênero lírico começa com D.João VI.
Preocupado com a aculturação social, o monarca desenvolveu saudável política no âmbito das artes.
Nada menos que a criação de um teatro imperial no Rio de Janeiro terá sido a semente fértil de frondosa vegetação, abrangendo extensa área de interesse e valorização da nossa música.
Patriarca de uma dinastia de notáveis estadistas, seu filho D.Pedro I, não só proclamou a nossa independência, como deixou primoroso acervo de composições.
Composições envolvendo partituras e poesias de requintado bom gosto. Tais como canções, peças sacras, cameristas e o Hino à Bandeira, considerado obra-prima!
A instalação da corte portuguesa no Brasil em l808, possibilitou no início do século XIX, o hábito europeu dos espetáculos da predileção dos monarcas, conquistando o povo.
O referido teatro imperial posterior ao colonial que já existia na capital, foi denominado São João.
Passou a ser nobre espaço, apresentando óperas nacionais.
Foi então que a pedido de D.João VI, o Pe. José Maurício Nunes Garcia (l767-l830) compôs As duas pequenas gêmeas.
Em seguida Zemira, genuína manifestação da nossa música clássica.
Cinco anos depois, o lisboeta Marcos Portugal, radicado no Brasil, escreveu, dentre outras, o Basculho da chaminé, com repercussão na Europa.
Nos primórdios da ópera neste país, os textos eram escritos em português. Praxe que acabou abandonada pelos próprios compositores.
No final do século XIX, entretanto, deflagrou-se um movimento enfatizando nosso idioma nos libretos. Algo defendido por Alberto Nepomuceno.
Dos mais aclamados músicos, o ilustre cearense compôs Abul, levada à cena em Buenos Aires-Argentina, em l9l3, sob a magistral regência de Gino Marinuzzi.
Em março de 1875, foi criada a Imperial Academia de Música e Ópera Nacional, também no Rio de Janeiro.
Responsável pela formação de musicistas, musi_cólogos e intérpretes, seus frutos conferem célebres nomes.
O mais consagrado deles, sem dúvida alguma, é Antônio Carlos Gomes, apadrinhado que fora por D.Pedro II, para estudar em Milão, na Itália.
Autor de arrebatadora obra, conjuga os gêneros camerista e sacro; as missas, os oratórios e poemas, com imorredouras páginas operistas.
Não só o Guarani, mas o Escravo, Colombo, Salvador Rosa, a Noite do Castelo, Fosca ou Maria Tudor e outras, constituem o máximo exemplo da grandeza brasileira.
Anteriormente ao genial patrício, Elias Álvares Lobo, Henrique Alves de Mesquita, Luiz Inácio Pereira, Domingos José Ferreira são alguns dos que tiveram seus trabalhos encenados.
Já na fase republicana, Villa-Lobos, de exuberante versatilidade, se faz tanto quanto expressivo.
Além das Bachianas ou da Floresta Amazônica, escreveu as óperas Izaht, a Menina das Núvens, Jesus, Yerma, para exemplos.
Camargo Guarnieri com o Homem Só; Francisco Mignone, com Chalaça e Malchner e sua Yara, ícones da ópera entre nós.
Lamentavelmente ignorados ou esquecidos pelo povo. Por quê?
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Com o olhar perplexo, a moça abre o leque de curiosidades, procurando refrescar conhecimentos sobre música. Música erudita de que pouco se fala por aqui.
Trata-se de pessoa ávida de informações artísticas, dotada de extrema sensibilidade, na medida em que pisa patamares, às vezes surpreendentes.
O grande sobressalto decorreu em meio a prazeroso susto, ao saber que Charles Gounod (l8l8-l893) não é autor apenas de famosa ave-maria. Diga-se de passagem, da melodia tão somente, porque o prelúdio é de J. S. Bach. Prelúdio que enseja a superposta melodia, colocada pelo mestre francês, certamente num momento de elevada religiosidade.
Inspirado por peculiar genialidade, Gounod não se deu por menos quando compôs o Fausto, decalcado na obra homônima de Goethe. Narra a história de um senhor de idade avançada que se apaixona por uma adolescente, capaz de remover montanhas. Ou de arrebatar aquele corpo encanecido. Cuja alma acaba negociada com o Demônio, em busca da juventude. Enfim reconquistada. Amor consumado e, como se pode deduzir, desgraça total, envolvendo traição, assassinato e loucura.
Ao final, o Céu para a encantadora Margueritte. E o Inferno para o inconsequente conquistador. Ópera de suprema beleza lítero-musical que Gounod assina juntamente com outras onze.
De precoce talento, o compositor impressionou Palestrina na Cidade Eterna, por seu misticismo. Tal o seu apreço ao cristianismo que quase o levou a vestir o hábito. Impulsionado pela veia dramática, encontrou no gênero lírico vasto caminho.
Ainda que tenha deixado incomensurável acervo de partituras sacras, lieder, oratórios e congêneres.Considerado o melhor autor da escola romântica, os exemplos são verificáveis em Thomas, Herold e Halévy". Sua música é pouco interessante quanto à harmonia e ao ritmo", afirmam alguns musicólogos.
No entanto, nada mais que gratuita conclusão de prepotente intelectualismo.Basta ver e ouvir Noites de Walpurgis, do aludido Fausto.
Na primeira cena do quinto ato, com descrições fantásticas de orgias. São lendas medievais celebradas em certas noites do ano, numa abrupta montanha do centro da Alemanha.
Difícil, senão impossível, a percepção de harmonias e ritmos tão diversificados, de incrível refinamento num andamento inigualável!
Gounod constitui preciosa joia de erudição e bom gosto. Raramente divulgado neste Brasil, terra de poucos.
Talvez mais surpreendida ficaria a fascinante pesquisadora, se conhecesse todas as óperas do imortal campineiro Carlos Gomes. Vão muito além de O Guarani, com sua protofonia deformada pelo programa radiofônico Voz do Brasil.
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A luz das estrelas permanece, ainda que a própria estrela tenha desaparecido. Não é este o caso da atriz Luise Rainer, cujo prestígio de raro talento com ela.
Poder ser vista nos requintados ambientes europeus, desfilando sob charme e curiosidade popular.
Austríaca, nasceu na lírica Viena, terra dos sonhos, em que seus bosques arrebatam, como arrebatam as velas de Johan Strauss.
Aí desponta imorredoura memória de Luise Rainer. Celebridade de Hollywood, onde iniciou sua carreira nos anos de 1930. Num portentoso e inesquecível filme da Metro Goldyn Mayer, intitulado "A Grande Valsa", protagonizado pelo ator Fernand Gravet. Fidedigna e empolgante abordagem da vida e a obra do grande mestre, tem a soberba participação do soprano ligeiro-coloratura Miliza Korjus.
Ainda assim, Reiner nas vestes de esposa traída, acabou roubando todas as cenas, ostentando um nível interpretativo de emocionante dramaticidade. Com tintas fortes, constatou valor, na medida em que o seu desempenho conquistava o público e a crítica. Assumiu o personagem em questão, conferindo-lhe de singela meiguice, do histrionismo que muito terá inspirado Olivia de Havilland e Joan Fontaine...
Anteriormente, levada pelas mãos do cineasta Max Reinhardt, fez sua primeira aparição nos Estados Unidos em "Flirt", ao lado de William Powell. Outras produções se sucederem e, a cada oportunidade, mostrava versatilidade. O que se pode constatar em "Ziegfeld, o criador de estrelas", em 1936. Já em "Terra dos Deuses", na parceria do genial Paul Muni, foi uma convincente chinesa. De origem escrava e paupérrima que se torna riquíssima. Ninguém melhor que ela no aludido papel, o qual lhe valeu um Oscar, além de outros.
Este ano completando cem anos de nascimento, "La Reiner" se mostra ativa, bonita, charmosa, bem vestida, exibindo amplo e bem humorado sorriso. Ainda desperta curiosidade. Todos a sua volta a observam sob admiração e pedem autógrafos!
Não esconde entusiasmo quando fala da sua carreira no cinema e no teatro. Aos jovens aspirantes do palco e das telas, aconselha integridade, sem jamais fazer concessões vulgares. Ou não se deixarem levar pelos chamados efeitos fáceis. Pois, o verdadeiro artista não tem outro compromisso senão com a própria arte. Assim tem sido Luise Rainer, uma das mais festejadas estrelas de Hollywood!
Que venham a minha casa, para vermos um mini-festival da atriz, os amigos cinéfilos Celso Freitas, R. Brandão, F. Versiani, W. Machado, Fábio Leite e Marcos Maurício, mentor desta matéria que me apraz publicar.
Aliás, Marcos Maurício, conhecido oficial da Polícia Militar, merece meu apreço, por considerá-lo entusiasta pesquisador da Sétima Arte, a partir da inesquecível e cativante Simone Simon. Do cinema francês e americano, cuja aparição junto a Jean Gabin, ficou na imortalidade do magnifico best-seller "A Besta Humana".
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Não faz muito tempo, a Praça Raul Soares vestiu-se de nova roupagem, voltando a ser cartão postal da cidade. Recuperados a pavimentação, os jardins, com feérica iluminação, a legendária fonte luminosa retornou esplendor. Esplendor pelas alegorias das suas águas, dos repuxos, enfim, da sua beleza de histórica referência de mais de 70 anos!
Além de iluminada em cores matizadas, a fonte vinha sincronizando músicas que acompanhavam as aludidas alegorias, deveras de bom gosto.
Trechos de óperas famosas, árias, duetos e coros, ecoando pelo logradouro, lúcida proposta educativa, de aculturação do povo.
Chorinhos de Nazareth, de Chiquinha Gonzaga ou Villa-Lobos, compondo momentos de emoção. Emoção pelo "Carinhoso" de Pixinguinha ou "Aquarela do Brasil" de Ary Barroso, despertando sensibilidade nos corações dos que muitas vezes se ocuparam de assaltar...
Em suma, a praça plenamente saneada de um passado que lhe dera má fama, passou a ser reduto de pessoas de nível, com propostas de lazer saudável e convivência construtiva.
Mas como tudo o que é bom dura pouco, a música foi deixada de lado. Já não mais se pode ouvi-la. Enquanto que a fonte também não mais se ilumina. As cores deram lugar à convencional pobreza de rotineiro dever. Dever que a prefeitura cumpre, todavia, sem a mesma finalidade inicial. Noutras palavras, a praça vai retomando aquele indesejável clima social. Clima que só não fica pior, graças à ação eficaz da polícia, sempre atenta!
A impressão é de que apenas existe a Praça da Liberdade, aliás, obra-prima de paisagismo e tradição.
Vale lembrar que a "Raul Soares" foi construída sob requintado estilo, para sediar o Congresso Eucarístico, salvo engano, em 1935.
Considerada centro geométrico do plano piloto da Capital, é dividida em quatro vertentes. Para o Centro, para os bairros de Lourdes e Barro Preto e para a Avenida Amazonas em direção à zona oeste.
Durante décadas, foi alvo de manifestações de interesse artístico, como o Cine Grátis, às quintas-feiras. Noites perfumadas por suas árvores e flores, emoldurando as graciosas e belas moças que iam ao footing, encantar os rapazes. Eu fui um destes que acabei me casando com uma destas moças. Vai tempo nisto!
PELA MEMÓRIA
Sob grande dificuldade de patrocinadores, a memória fonográfica e biográfica da cantora Maria Helena Buzelin deverá ser lançada, oportunamente.
Seis CDs, contendo trechos líricos, árias, duetos, além de músicas camerísticas. Concertos com grandes sinfônicas e maestros, tudo isto por ela interpretado no Brasil e no exterior.
O endereço do respectivo blog para acompanhar é "www.sopranomhbuzelin.blogspot.com".
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Nasce uma estrela no cenário da ópera no Brasil. Jovem de apenas 24 anos de idade, ostenta uma carreira envolvendo papéis centrais femininos das mais populares do gênero. Nada menos que Elixir de Amor,La Bohème, Manon, Gianni Schichi, Simon Boccanegra,La Traviata, Bodas de Fígaro, dentre outras. Também missas, oratórios e música camerista, em geral, a colocam no âmbito de promissoras e aclamadas cantoras da atualidade.
Trata-se de Jamila Farah. Aluna da consagrada soprano Leila Guimarães e do escritor, musicólogo e crítico internacional Marcus Góes. Do alto da sua autoridade, afirma o mestre ser Farah encantadora representante da novíssima floração de valores. Evidencia entusiasmo em torno da cantora, testemunhando suas apresentações no Rio de Janeiro.
A partir do Municipal, onde tem recebido calorosa manifestação do público e da crítica, inúmeras performances empreende mediante êxito. Êxito por interpretações magistrais das Bachianas n.5 (ária e cantilena), de Villa- Lobos. Em que aplausos no Teatro Municipal de Macaé prolongaram-se por dez minutos!
Góes afirma ser ela um raro e pessoal exemplo de canto pré-verista, ou seja, canto sem esforço da voz, beleza de legato e ornamentos.Expressão dramática e corporal apropriadas. Primorosos gestos e maneirismos faciais. Uma incrível linha-de- canto comparável à Maliban.Todavia, sem perder o próprio estilo. Além do mais, belíssima e carismática presença. Pianíssimos de sonho que arrebatam. Enfim, Jamila Farah é, sem dúvida, a grande conquista que acaba de ganhar nossa arte, nossa cultura.
São minhas as palavras do respeitável crítico, inclusive por conhecer Farah, dela guardando a melhor das impressões.
Falar de uma artista de tamanha qualificação é falar da esperança para a música erudita neste país. Neste país que parece abandonar tudo o que amealhou por um século...
Graças às lúcidas mentes de Gabriela Besanzoni Lage, Violeta Coelho Netto de Freitas, Sylvio Vieira, Assis Pacheco, Paulo Fortes ou tantos outros que no passado, souberam edificar a nossa grandeza. Lamentavelmente esquecidos, como esquecida a incomparável Bidu Sayão. Cujo centenário de nascimento em 2008, passou por aqui em brancas nuvens. Enquanto nos Estados Unidos, foi alvo de homenagens prestadas pelo Metropolitan Opera House, de Nova Iorque.
Belo Horizonte já se orgulhou de ter sido o terceiro mais cobiçado palco operístico brasileiro. Cidade que empreendia temporadas com sete a nove montagens de elevado porte; que formou notáveis cantores, maestros, bailarinos, regisseurs e diretores, com prestígio internacional. Atualmente, relegada a uma situação inferior, em relação a outros centros.
Farah está a mercê de ser conhecida pelos promotores culturais. Talento, sensibilidade e técnica não lhe faltam.
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Cirurgião vascular e angiologista, pioneiro na aplicação de técnica de escleroterapia com espuma, Francisco Reis Bastos é, também, escritor, compositor, cuja prosa e poesia compõem seu CD intitulado "D. Quixote.
De extrema singeleza, o desfile de canções mediante melodias enriquecidas de letras que falam da vida. Do amor, da ternura, enfim, da beleza que só um romântico menestrel é capaz de produzir. Gosto bem brasileiro, sambas suaves que decorrem das mais salutares escolas do gênero. Cartola, Pixinguinha, Chico ou Adoniran Barbosa, autores eternos que inspiram.
Tamanha delicadeza, tão bem elaborada, a confirmação do talento de Bastos. Talento capaz de empolgar. Que desperta saudade do que não se sabe. Ou brasilidade que vai além da mineiridade e esbarra nas mais portentosas obras do nosso cancioneiro.
Não se trata, pois, de um disco regionalista. Mas, de uma obra com visão extensa, abrangendo todo nosso torrão.
De encantadores temas, resgata o sentimento humano, notadamente quando fala do amor. Deste sentimento nem sempre correspondido ou verdadeiro. De amor que ilude e pede licença para sair, como se sai socialmente de qualquer lugar. Deste aspecto, o clímax é "O tempo". Música e letra retratando a dor do abandono e do desprezo. Ainda que o verdadeiro amor jamais se apaga, a despeito do tempo. Este inexiste, simplesmente.
Márcio Boufler, sensível por experiência, vence pela emoção. Canta com o coração, lembrando os mais dignos e genuínos representantes do samba nacional. Autêntico representante da nossa música popular, bem popular!
Na mesma sintonia, a presença inigualável de Paulinho Pedra Azul, com seu timbre exclusivo, de uma voz lamuriosa, sonora, de agradabilíssimos registros.
Sem dúvida, inteligente participação, oportuna e conveniente. Engrandece sobremaneira este CD.
Ainda emoldurando monumental quadro de instrumentistas, vozes e tanta poesia, Guido Guglielmelli e Marcelo Jiran, também arranjador e coralista.
Gravação que enaltece a cultura em Belo Horizonte, cidade carente de coisas boas. Cidade que perde aceleradamente a posição de um grande centro que fora há pouco tempo.
Capital que do terceiro lugar, assume agora o sexto, dentre as maiores cidades do país.
Cidade que conviveu com a glória do cobiçado palco lírico nos anos cinquenta e sessenta do século XX e perdeu tal hegemonia. Literalmente pichada, nada mais existe senão a Praça da Liberdade. Ainda bem.
"D. Quixote", de Bastos, uma nova esperança.
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Há décadas assino colunas de crítica musical. Trajetória que percorro por mais de 30 anos, graças aos empenhos de meu saudoso pai. Maestro e pianista, é, para mim, a maior referência que trago do artista. Homem de rara sensibilidade e dedicação, conduziu com elevado mérito os destinos da Sociedade Mineira de Concertos Sinfônicos. Entidade que deu origem à atual Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Altruísta, referia-se aos colegas de maneira elegante e elogiosa. Assim foi seu convívio com Clóvis Salgados, Juvenal Dias da Silva, Marinuzzi, Strambi, Júlia (violista), Pedro de Castro, Olga Zecchina e tantos outros que contribuíram em prol da grandeza cultural mineira. Portanto, louvo a memória de Francisco Buzelin, de quem herdei amor à música.
Sempre afirmo que nada poderia ter feito esses anos todos, não fossem os músicos. São eles fonte de minha inspiração e, graças a eles, considero-me enriquecido. Enriquecido diante de concertos, recitais, óperas, shows e congêneres.
Não distingo o erudito do popular. Ambos merecem o meu apoio e irrestrito respeito.
Declinar-lhe os nomes seria impossível. Incorreria em injustas faltas. No entanto, elejo alguns. Alguns que, deveras, representam os demais. Representam o que de valoroso existe no âmbito da música em Minas, com projeção nacional e internacional.
Elejo Maria Lúcia Godoy, Wanda Werneck, Mariline Gangana, Edison Aude, Lício Bruno, Tereza Cançado, Lukas D'Oro, José Carlos Leal, Eliseth Gomes, Alexandre Carvalho, Rita Medeiros, Lilian Assumpção, Eliane Fajioli, Vânia Soares, Marcelo Magalhães Pinto, Tânia Cançado, Eduardo Hazan, como alguns dos mais consagrados artistas que temos.
Refiro-me, ainda, a Clóvis Aguiar, Toninho Horta, Dado Prates, Paulinho Pedra Azul, Célio Balona, Luiz Marques, Geraldo Vianna, Caxi Rajão, Selmma Carvalho, Carla Villar, dentre inúmeros da MPB em Minas.
As orquestras, notadamente a Sinfônica e a Filarmônica de Minas Gerais, seus regentes Fábio Costa e Mechetti; ao titular de Sinfônica de Minas Gerais, Afrânio Lacerda; à Orquestra de Câmara do Sesiminas, na pessoa do seu condutor Marco Antônio Drumond e aos que concorrem para o aprimoramento artístico de jovens talentos, ou seja, a Escola de Música da UFMG; da UEMG; o CEFAR/Fundação Clóvis Salgado, enfim, ao incomensurável mundo de verdadeiros realizadores dos sons, recadeiros de Deus.
Homenagem extensiva aos que partiram e deixaram imorredoura memória. Que, um dia, fizeram sua parte, somando potencial de significativo valor!
Mais um ano se vai. Novas esperanças chegam. A vida prossegue. Batalhas são vencidas. Conquistas alcançadas. Aos músicos, meus agradecimentos e um feliz ano de 2010!
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