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A poesia e a música se unem num dos mais encantadores CDs recentemente lançados.
"A Flor de Florbela", de elevado senso literário expõe com tintas fortes todo o sensualismo, a tragédia e a paixão da portuguesa Florbela Espanca.
Dezessete poemas musicados por Marcos Assumpção.
Momento de suprema beleza, em que o cantor assume maturidade, dispondo de participações elogiáveis.
Violões, harpa, oboé, fagote, viola de gamba, violoncelos, violinos, enfim, uma orquestra camerista, nesta demonstração de bom gosto cultural e artístico.
Contudo, o que mais impressiona é o elevado senso de estética, neste casamento litero-musical.
Capaz de tocar fundo o coração reclamando lágrimas que acabam vertendo quase involuntariamente.
O verdadeiro e arrebatador clima que só à arte é possível atribuir.
Iza Assumpção, apresentando o disco, registra mensagem digna de ser reproduzida: " ... vai cantador de Florbela, por esse mundo afora, navegando em caravelas, buscando Horas Rubras e Quimeras; mostra ao mundo a lírica tristeza e a irreal beleza de uma poesia delirantemente forte... com notas musicais, bordões e primas, transforma em arcordes as demais rimas, mesclando um pouco de alegria ao muito de melancolia com que a tua musa em cascatas de amor se diluía.
Faz dos versos de outrora magoados e tristonhos, o renascer da alma em áureos sonhos.
Deixa Sóror Saudade para sempre adormecida e acorda a Maria das Quimeras, com esperança e vida!
Florbela, bela flor de Portugal!
Do Castelo de Luz, onde te encontras, lança asa da tua alma sobre aquele que se fez o teu cantor. E ensina o caminho para ele seguir em frente, mostrando ao mundo que tudo ainda é nada, quando se tem um sofrido, grande, imenso e infinito amor..."
Deveras bom, trata-se de relíquia fonográfica, irrigada de surpresas ao mais exigente dos apreciadores. Música e poema falando desta inconsequente dor causada pelo amor.
Amor? Diria que não, pois sofrer não é o que aspira o ser humano. Sofre, todavia, iludido pela insensatez de outrem.
Difícil, senão impossível, entender a crueldade inspirada no desafeto, que um dia, se disse ternura. Que um dia, mostrou esperança, conforto e amparo. Mas que se cansou como se cansam os covardes diante dos embates da vida.
Nesta antológica proposta, tão lúcida quanto esmerada musicalmente, a delicadeza de Marcos Assumpção, que admiro e respeito.
"A Flor de Florbela" não é para ser ouvido, apenas. É para ser assimilado todos os dias. Algo que permanece elevando o espírito na busca do aprimoramento, enquanto neste mundo. Neste mundo de difícil compreensão, como mais difícil ainda, compreender a criatura que Deus concebeu.
Sua imagem e semelhança? Excepcionalmente sim.
Espanca, poeta lusa, grande exemplo de rara flor jogada num jardim de turvas cores, quando poderia ornamentar.
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