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O vento do mar da Praia do Francês
 


E um vento benévolo, quase frio, vinha do mar, na Praia do Francês, no distrito do Francês, município de Marechal Deodoro, em Alagoas. Um vento que é um bálsamo, sob o sol que começa lentamente a declinar, na tarde evanescente. Caminho sozinho pela praia já pouco movimentada.
Como diria o grande poeta, romancista, contista, ensaísta e cronista Lêdo Ivo: é "o vento do mar", título de um de seus melhores livros, comentado com sensibilidade e argúcia em artigo por Fabio de Sousa Coutinho.
Era, pois, de tarde, o sol brando, despedindo-se das ondas e dos arrecifes. Raras gaivotas rodopiavam em torno das pequenas barcas e dos veleiros.
O relógio avançava para, pouco mais tarde, nos trazer a lua. Ela surgiria clara, límpida, a lua cheia, trazendo mais brisa para a terra. Hora da lua, das lunações perpétuas dentro do assombroso universo. Os mistérios do universo, com o Espírito de Deus pairando sobre as águas ("Veni, Creator Spiritus"!).
O marulho, como uma canção com ritmo melodioso e nunca entediante. O ser humano pressente, em silêncio e rente ao mar-oceano, a imensidão onírica do Cosmos e seus mais abissais abismos inescrutáveis.
Senhor, eis-me aqui, pecador, diante do vosso mar azul, na hora da baixamar. Tenho pena dos ateus e agnósticos, que não buscaram a graça da dimensão do que nos cerca, milênio após milênio. Faltam-lhes a fé e a esperança.
Caminho sozinho, enquanto meu pessoal descansa da soleira da manhã barulhenta.
A solidão à beira das espumas cantantes tem um gosto litúrgico de felicidade, de momento único e intransferível. O som encantatório desse mar do Francês lava a alma do vivente, do penitente que não sabe, nem quer saber, a hora da morte, que só a Deus pertence. Ah, o enfeitiçante rumor das vagas na areia.
Vontade, às vezes, de partir para longínquas terras exóticas, numa "estética da aventura", como escreveu Lêdo Ivo, 87 anos, poeta do mar, do mangue, do curral de peixes, do mítico farol da Maceió de sua infância, farol que o fez zarpar para o Recife, o Rio, Paris e o mundo.
A lembrança de velhos portulanos, marcando o encantamento da aventura em busca de incertos tesouros da juventude, na leitura da velha Coleção Terramarear, que nos fez sonhar e nos abriu as portas dos continentes e dos sete mares. Na página 152 do magistral "O Vento do Mar", Lêdo Ivo escreveu esta frase, como um verso de seu arsenal de mestre de marinhagem: "O vento da aventura sopra nas velas palpitantes como pássaros."
E começa, lentamente, a anoitecer sobre o mar das Alagoas...


(*) Danilo Gomes, mineiro de Mariana, é escritor e jornalista, membro da Academia Mineira de Letras

Postado em 28 de Janeiro, 2012
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Murilo Badaró
 


Após o falecimento de Vivaldi Moreira, há 12 anos, Murilo Badaró assumiu a presidência da Academia Mineira de Letras. Como seu antecessor, era, ao mesmo tempo, um grande intelectual e escritor, e também um executivo, um empreendedor, um homem de ação, que realizou uma das melhores gestões no comando da Casa de Alphonsus de Guimaraens.
Vitimado por um enfarte agudo, faleceu em seu apartamento, em Belo Horizonte, aos 78 anos, em 14 de junho último, deixando viúva Lucy, 7 filhos, 16 netos e 4 bisnetos.
Nasceu em Minas Novas, em 13/9/1931.Formado em Direito, foi deputado estadual, deputado federal, secretário de Estado do Governo Israel Pinheiro, senador e ministro da Indústria e do Comércio. Foi um dos maiores nomes do antigo PSD e amigo fraternal de Juscelino Kubitschek. Conciliador, verdadeiro líder, diplomata, lúcido e firme executivo verdadeiro democrata, presidiu o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais no Governo Itamar Franco Foi também prefeito de Minas Novas, a que dedicou sua experiência de homem maduro.
Como escritor, deixou obra vasta e de alto valor nos campos do ensaio, da crônica, da biografia, que era uma de suas paixões. Dentre outros, Murilo Badaró publicou "José Maria Alkmin-Uma Biografia", "Milton Campos-O Pensador Liberal", "Gustavo Capanema-A Revolução na Cultura", "Floresta de Símbolos", "O Bombardino", "Rondó Solitário".
Seu penúltimo livro enfocou a vida de seu avô, que foi diplomata junto ao Vaticano, e intitula-se "Memórias Póstumas de Francisco Badaró" (romance histórico-biográfico). Por último, deu a lume a biografia "Bilac Pinto: O Homem que Salvou a República". Incansável, pesquisava para escrever a biografia do antigo ministro da Justiça de Getúlio Vargas, o polêmico Francisco Campos, vulgo Chico Ciência. Murilo Badaró foi um entusiasmado machadiano e sempre recomendava aos jovens escritores a leitura dos livros de Machado de Assis.
O pranteado mineiro, homem afável e de amigos inumeráveis, conduziu com mestria, durante todo o ano de 2009, as comemorações do centenário da Academia Mineira de Letras, realizando eventos em Juiz de Fora (onde a instituição foi criada), Belo Horizonte, Mariana, Ouro Preto, Brasília e Rio de Janeiro, na sede da Academia Brasileira de Letras, que dedicou uma sessão solene em homenagem à agremiação centenária.
Pessoalmente, como amigo e seu confrade acadêmico, presto-lhe aqui o preito de minha profunda saudade e ilimitada admiração. Três semanas antes de seu súbito falecimento, estive com ele no seu gabinete na Academia. Alto, forte, bem disposto, dinâmico como sempre, como iria eu supor que o perderíamos dias depois?
Consola-nos a ensinança cristã, "Vita mutator, non tollitur (A vida é mudada, não é tirada)".
Fique seu modelar exemplo para os pósteros e descanse na luz de Deus sua boa alma.
Assumiu a presidência da Academia o escritor, professor e reitor universitário Miguel Augusto Gonçalves de Souza.

* Danilo Gomes é escritor

Postado em 25 de Julho, 2010
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Milagre na Ponte de Ufa
 


Há quem não acredite em destino, em sina, em encontros mágicos, em coincidências e mais coisas misteriosas deste mundo. Mundo, por sinal, cheio de magia, apesar dos problemas e mazelas.
Mas vejam o que aconteceu, recentemente, na ponte de Ufa, cidade situada no centro da Rússia. Parece conto, mas não é. Parece capítulo de novela melodramática, mas não é. Parece cena de filme, mas não é. Trata-se de um acontecimento, um fato real, que os jornais noticiaram, junto com a chamada mídia eletrônica.
Vou dar logo a fonte para não me chamarem de mentiroso, potoqueiro, mitômano, contador de lorotas em mesa de boteco.
Li no jornal "Alô, Brasília", de 12-5-2010, na seção "No Mundo". O título é "Suicidas se encontram em ponte e se apaixonam".
Deu-se, caros leitores, que o russo Andriej Ivanov, de 26 anos, decidiu suicidar-se, massacrado pela dor de ter perdido tragicamente a noiva. Apenas um dia antes do casamento, ela morreu num acidente de carro. Desesperado, querendo reencontrá-la além da morte, além-túmulo, como se diz, ele decidiu que pularia da maior ponte da cidade. Queria rever o seu grande amor.
Era noite fechada. Quando chegou ao local onde se imolaria de paixão, num lance digno da pena de Shakespeare e dos trágicos gregos, eis que o moço encontrou uma jovem, igualmente desesperada e também prestes a dar cabo da vida. Tratava-se de Maria Petrova, de 21 anos, grávida, e expulsa, por isso, da casa dos austeros pais.
Angustiada, desatinada, Maria estava a ponto de se jogar da alta ponte, quando Andriej, num lampejo, aturdido, percebendo a tragédia iminente, correu em direção a ela e, num átimo, puxou-a pela blusa. Assim, salvou-a, na undécima hora, das águas turbulentas do rio.
Mais tarde, ele declararia:
- Não sei o que me deu. Algo no meu coração me disse para salvá-la, mesmo sabendo que eu também queria me matar.
Maria, salva da morte, caiu nos braços de Andriej e ambos começaram a chorar, tomados de forte emoção. O nosso herói quase-suicida comentaria, mais tarde:
- Nós nos abraçamos e conversamos muito. Aquela noite salvou a minha vida e a dela também.
Deixando a ponte sombria, o casal decidiu lutar contra a dor de cada um. Houve um mútuo esforço de superação. Assim, o desespero deu lugar ao amor e os dois agora estão namorando, buscando novos horizontes, uma nova luz para suas vidas. Já planejam até o casório, com filhos e tudo.
Segundo Maria Petrova, Andriej Ivanov vai ser, para sempre, o homem que salvou sua vida e por quem se apaixonou à beira da morte, numa noite escura, digna de Dostoiévski.
Ela acrescentou:
- Afinal, todo aquele desespero teve um propósito. Valeu a pena sentir dor. Porque tudo aquilo me levou ao Andriej.
No jornal brasiliense "Na Hora H", na seção "Mundo Bizarro", vi até a foto dos dois enamorados. Felizes, tentando esquecer o passado e projetando o futuro. Ao fundo, a ponte de seus suspiros...
A antiga sabedoria árabe tem um dístico: Maktub! Ou seja: estava escrito!
E vosmecê, paciente leitor? Acredita em destino, em milagre, em momentos mágicos de floresta encantada? Acredita no imponderável, em alumbramento, em epifania?
Cá eu, humildemente, acredito.

Postado em 30 de Maio, 2010
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Conversa de bar
 


A Birmânia é um país de bela tradição. Arquitetura maravilhosa. Muita religiosidade. Um certo romantismo à antiga. Há anos, mudou de nome e de regime político: virou Mianmar, com uma ditadura militar tipo coreana-do-norte. Ferro e fogo contra a democracia. Os monges se rebelaram. A coisa anda feia por lá. É o tal negócio: não há bem maior que a liberdade! É conhecido este belo verso do nosso Hino da República: "Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós!"


O ex-premiê da Espanha, José Maria Aznar, conservador e liberal assumido, sem medo de patrulhamento, declarou recentemente que o socialismo do século XXI, do coronel Hugo Chávez, da Venezuela, "é o mesmo socialismo do século XX, só que mais chato." Chato e anacrônico. Nada como a democracia e a liberdade.


O jornalista Arnaldo Jabor, que foi "de esquerda" na juventude, como quase todos nós, de sua geração, escreveu há pouco: "Tem gente que fala para mim: 'faz um blog, faz um blog!'. Logo eu, que já sou um blog vivo, tagarelando na TV, rádio e jornais... Jamais farei um blog, este nome que parece um coaxar de sapo-boi. Quero o passado. Quero o lápis na orelha do quitandeiro, quero o gato do armazém dormindo no saco de batatas, quero telefone preto, de disco, que não dá linha, em vez dos gemidinhos dos celulares incessantes." Está certo o Jabor. Eu também sou um saudosista. Só não tenho saudade do ideário político atrasado da nossa juventude "bucha de canhão" dos governos totalitários.

É antiga a frase segundo a qual "a Revolução engole seus líderes", que acabam se consumindo na voragem da fogueira que eles mesmos acenderam. Durante a Revolução Francesa, especialmente durante o Terror (1793-1794), não foram poucos os que subiram ao cadafalso, rumo à guilhotina, onde os esperava Sanson, o carrasco. Entre os que finaram sob a lâmina terrível, contam-se líderes populares e demagogos irados, como Danton, Robespierre, Saint-Just e muitos outros. Marat é outro capítulo: foi assassinado a punhal, no banheiro, por Charlotte Corday, uma corajosa normanda, depois guilhotinada, no período do Terror.


- Garçom, mais uma bem gelada, por favor. De tira-gosto, queijo de meia-cura! Do Serro ou de Cruzília, se possível!


Para meditar: "Escuta e serás sábio. O começo da sabedoria é o silêncio."


Este mundo tem muita história, sinhá! E a gente não sabe nem a metade, sinhô!

Postado em 16 de Maio, 2010
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Armando Nogueira, craque da crônica
 


Armando Nogueira (1927-2010) foi não apenas um grande jornalista; foi também um cronista da melhor categoria. Não fez apenas crônica esportiva. Fez crônica esportiva com revestimento literário. Era um escritor de mão cheia, um craque da crônica literária. Deixou-nos excelentes livros.
Figura simpática, saiu de Xapuri, no Acre, onde nasceu, e chegou ao Rio com 17 anos de idade, em setembro de 1944. Participou de várias Copas do Mundo de Futebol. Alma sensível, alma e texto de poeta, como Nelson Rodrigues.
Eis algumas de suas famosas frases, tomadas a esmo em página inteira da revista "Veja" de 7 de abril deste ano: "Para entender a alma do brasileiro, é preciso surpreendê-lo no instante de um gol.Nosso povo não canta o Hino no dia 7 de setembro,mas sim quando a Seleção joga. É nesse momento que sua manifestação cívica é mais ardente.Ao longo da vida,troquei de namorada, sei lá, mil vezes. Jamais trocaria o Botafogo, nem por outro clube nem por nada neste mundo. Minha memória é um feixe de deslumbramentos. Fui mal acostumado pela contemplação da utopia."
Diante dos tropeços, solavancos e sobressaltos da República, Armando Nogueira sempre brilhou e agora brilha ainda mais, na eternidade. Ele é agora uma estrela serena e solitária e um exemplo para todos os jornalistas e escritores.
Mencionei Nelson Rodrigues, outro craque da crônica, não só esportiva. Foi um poeta da crônica, um escafandrista da alma humana e um apaixonado pelo futebol. Se não estou enganado, ele e José Lins do Rego eram torcedores do Fluminense. José Lins do Rego, além de romancista, dedicou-se a escrever crônicas. Eis aí um trio notável, uma zaga sensacional da crônica esportiva elevada ao mais alto nível literário: Nelson Rodrigues, Armando Nogueira e José Lins do Rego. Deixaram páginas antológicas. Ficarei apenas nessa trinca de ases. Nessa área temos outros autores modelares, mas aí teríamos que esticar muito a conversa. Na verdade, se me derem corda fico falando sobre crônica por um tempão, pois é meu gênero predileto. E o Brasil é riquíssimo nesse campo, desde José de Alencar, João do Rio, Olavo Bilac, Machado de Assis, Carlos de Laet e tantos outros do passado.Mencionarei apenas mais alguns notáveis, entre os que já partiram para a outra margem: Rubem Braga,Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Rachel de Queiroz, Dinah Silveira de Queiroz, Eneida, Maluh de Ouro Preto, Manuel Bandeira, Roberto Drummond, Carlos Drummond de Andrade, Lourenço Diaféria. A lista é grande, o espaço acabou e agora vou visitar os netos, que espero sejam torcedores do Vasco e do América Mineiro...

Postado em 9 de Maio, 2010
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Um pouco de história. E de vento
 


Escrevendo sobre Danton, famoso líder da Revolução Francesa, o historiador inglês Stanley Loomis, no seu magnífico livro "Paris sob o Terror -1793-1794", à página 143 registrou: "Jamais cursara a escola aristocrática da autodisciplina, na qual o álgido e indomável comando das emoções conduziu homens como Talleyrand e Fouché, vitoriosamente, em meio a distúrbios, através da Revolução, do Diretório, do Consulado e do Império".
Não se trata, estou certo, de uma apologia da hipocrisia, mas da constatação de uma lição de sobrevivência no mundo caviloso da política, especialmente no fragor sanguinário de uma Revolução medonha, que mandou tantos para a guilhotina. Inclusive Danton e, depois dele, seu arquiinimigo Robespierre. Dantou não aprendeu a se controlar (é cognominado "o Titã da Revolução Francesa") e Robespierre e aliados o condenaram à morte nas mãos do carrasco Sanson. Danton tinha apenas 34 anos de idade e estava no auge de sua exaltação quase histérica.
Em política, é preciso ter cabeça fria, para sobreviver e triunfar. Muita emoção atrapalha. Em ano eleitoral, o trecho de Stanley Loomis vale em dobro, como discreta advertência.
***
A poeta, declamadora e cantora Elisa Lucinda abre sua crônica intitulada "A Música das Estações" com uma frase que, de tão bonita, considero um verso. Cheguei a me emocionar. Era sábado à noite e eu estava tomando cerveja em casa (com a "lei seca" não se pode brincar...). Vejam que frase poética, digna de Pablo Neruda e Augusto Frederico Schmidt: "Quem me acordou foi o vento." O vento como gente, pessoa, persona.
Repitam comigo, por favor, se lhes apraz: "Quem me acordou foi o vento." Parece Dorival Caymmi numa praia da Bahia. Demais, né? Demais da conta, sô! E fui pegar outra cerveja, para agüentar (faço questão do trema!) a emoção. Eu gostaria de ter escrito esse verso: "Quem me acordou foi o vento." Estou certo de que Adélia Prado o assinaria, de bom grado. O vento do mar-oceano, o vento batendo nas palmeiras e nos coqueiros, o vento, a brisa, a tarde caindo sobre o mar de Itapoã, com Vinicius de Morais tocando violão...

Postado em 2 de Maio, 2010
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Saudade da Comiteco
 


Frequentemente, nomes da minha geografia sentimental de BH voltam à minha memória, saltam à minha frente como amáveis e doces fantasmas. Eu os recebo saudoso e de coração aberto. Por exemplo, nomes de estabelecimentos, siglas de organizações, lembranças de pessoas e coisas que não mais existem mas que me acompanham vida afora, habitam meu passado.
A casa da minha avó Sinhá e do tio Aldo Motta (onde, estudante, morei), na Inconfidentes 911 e, depois,1041. A casa do tio José Motta e tia Naty, na mesma rua, nº 611. As lojas Guanabara, Ducal, Ingleza-Levy,Sloper, O Mundo Colegial. Na Ingleza-Levy comprei meu primeiro terno, a prestações suadas, dinheiro minguado.
Livrarias e sebos, como o do Amadeu Rossi, que frequentei no meu tempo de estudante "revolucionário de esquerda" (ai dos reacionários!), adepto da reforma agrária "na lei ou na marra", passeatas do padre Lage, utopias, bobagens, imaturidade, entusiasmo juvenil adubado a canções de Vandré, Gilberto Gil, Chico Buarque. Tempo quente, agitação e, depois de 1964, a água na fervura da moçada castrista.
Às vezes, como se eu fosse ao menos a sombra do poeta Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), em seus livros como "As Florestas", chove no meu passado, melancolicamente: são lembranças mais amenas, que vêm também de Mariana e Ouro Preto. Chove sobre esse passado, como sobre "os campos de Cachoeira" do romancista paraense Delcídio Jurandir.
Lembro-me da Churrascaria Camponeza, aonde, menino, fui certa vez com meu pai, mas que não frequentei quando moço por ser escassa a mesada; não era ambiente para estudante pobre ou remediado. Lembro-me da Livraria Itatiaia, de Edison e Pedro Paulo Moreira, na Rua da Bahia. Da Feira de Amostras, onde construíram depois a Rodoviária.
Outro estabelecimento daqueles tempos que, menino, frequentei com meus pais em vésperas de Natal, chamava-se Estâncias Califórnia, debaixo do Viaduto Santa Teresa. Vendia frutas e doces importados. Foi um precursor dos supermercados e delikatessens. O cronista Alberto Villas mencionou-o há pouco neste caderno em delicioso texto.
Há pouco tempo, coisa de dois anos, numa mesa de bar, recordava as Estâncias Califórnia com os escritores José Bento Teixeira de Salles, Roberto Elísio e os saudosos Dr.Viotti e Dr. Neves na Petisqueira Guajajaras.
A Casa Giácomo lidava com bilhetes de loteria sob o slogan "Você era criança e Giácomo já vendia a sorte grande". Acho que ficava na Afonso Pena. Lembro-me da Gruta Metrópole e outras grutas de chope bem tirado. Do Café Frei Velloso, do Café Pérola, do Café Nice, este, felizmente, em funcionamento (alô, irmãos Tadeu e Renato!) Ainda vou ao Café Palhares saborear o famoso kaol, prato feito à vista do freguês.
Recomendo a leitura do precioso livro de José Bento Teixeira de Salles, "Rua da Bahia" (Ed. Conceito). O subtítulo é "Do Estrela à Gruta, uma trajetória boêmia". Na dedicatória, ele escreveu: "Ao prezado amigo acadêmico Danilo Gomes, para percorrer esses ínvios caminhos da nossa juventude. Abril 2009".
Para concluir esta página saudosista, schmidtiana, este cronista, à beira dos 70 anos e avô de dois netos, menciona um nome de que só mais antigos se lembram: Comiteco. Vosmecê se lembra,meu querido Plínio Barreto. Desde menino ouvia a palavra Comiteco à chegada de BH, com os outdoors anunciando as novidades e as rádios divulgando o nome celebrado: Comiteco. Que todos fizessem negócio com a sólida empresa. Tratava-se de uma sigla muito em voga. Significava: Companhia Mineira de Terrenos e Construções. Era a Capital mineira crescendo e progredindo sob o impulso do trabalho fecundo dos grandes prefeitos Juscelino Kubitschek e Américo René Giannetti. Saudade de Belo Horizonte de outrora, do Museu Abílio Barreto e do Arquivo Mineiro!

Postado em 18 de Abril, 2010
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Juan Rulfo no Instituto Cervantes
 


(Para Juninho Motta, primo, amigo e fotógrafo de arte)
Ali pelos começos dos anos 1960, ainda morando na nossa querida Belo Horizonte, li o romance mais famoso do escritor mexicano Juan Rulfo (1918-1986), "Pedro Páramo", que ele dera a lume, pela primeira vez, em 1955.
Cenário: a aldeia de Comala (como Macondo seria o cenário de Gabriel García Márquez em "Cem Anos de Solidão").
Livro maravilhoso esse "Pedro Páramo", vindo para o Brasil e para o mundo no "pacote" do "boom" do chamado realismo mágico hispano-americano. Esse "boom" consagrou figuras de fato estelares, grandes narradores do fantástico, como o citado García Márquez (o Gabo), Alejo Carpentier, Júlio Cortázar, Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Jorge Luís Borges, Cabrera Infante, Miguel Angel Astúrias, Roa Bastos e outros nomes ilustres.
"Pedro Páramo" é de uma beleza estilística e de uma força surrealista ímpares, de uma comovente poeticidade. Um romance curto e imortal.
Juan Rulfo era um escritor discreto, reservado, quase casmurro, avesso aos holofotes da mídia e da fama. "Pedro Páramo" é um romance sombrio, permeado de uma atmosfera poética. Publicara já nosso autor, também, o livro de contos "El Llano em Llamas" - tradução: "A Planície em Chamas" (1953). Dedicou-se também ao cinema e à fotografia. Muitos de seus contos foram levados às telas do cinema.
Pela alta qualidade de sua obra literária, Rulfo recebeu o Prêmio Nacional de Literatura e o Prêmio Príncipe das Astúrias, outorgado pela pátria-mãe, a maravilhosa Espanha.
A partir da década de 60, dedicou-se a fotografar um mundo parecido com sua ficção escrita. O grande escritor, oriundo do campo, do mundo rural e seus distúrbios por posse de terras, está presente, com as fotos que fez, no Instituto Cervantes, em Brasília.
A exposição vai até o dia 24 de abril, de segunda a sexta-feira, na quadra 707/ 907 Sul, das 9 às 21 horas.
Essa bela mostra tem a parceria da Editora Lunwerg e da Fundação Juan Rulfo. São 70 imagens que recuperam o legendário, mitológico povoado de Comala.
Por trás do universo rural, o drama profundo da condição humana que Rulfo tão bem expressou na sua prosa poética. O panorama rural, interiorano, de sua infância está profundamente presente na obra fotográfica de Juan Carlos Nepomuceno Perez Rulfo Vizcaíno, um mestre do texto e da imagem.
A exposição faz parte das comemorações dos 50 anos de Brasília, uma Brasília do trabalho honesto, que JK deu ao Brasil e ao mundo, uma Brasília da qual nos orgulhamos.
Gostei muito das fotos de Juan Rulfo, uma de minhas admirações literárias. Quem ainda não viu, deve ver assim que puder. O Instituto Cervantes, com a nobre fidalguia de sempre, os espera de braços abertos, sob a bandeira da gloriosa Espanha. Vida longa ao rei Juan Carlos e à rainha Sofía!

Postado em 11 de Abril, 2010
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Danilo Gomes
Johnny Alf e a brisa da bossa-nova
 


Uma das tristezas que levarei para o resto da vida é a de não ter conhecido pessoalmente o músico Johnny Alf, nome artístico do menino nascido Alfredo José da Silva, em Vila Isabel, Rio de Janeiro, a 19 de maio de 1929.
Não tive o gosto de conhecê-lo e ouvi-lo cantar e tocar piano. Seria querer demais! Ele acaba de morrer aos 80 anos, vitimado pelo um câncer de próstata, em São Paulo, onde morava, mais exatamente numa casa de repouso, em Santo André. Deus o tenha!
É considerado o verdadeiro pai da bossa-nova. Não deixou filhos biológicos, deixou um estilo de alta classe. Já é muito, ser o pai da bossa-nova, que ele buscou no jazz norte-americano, deu-lhe os balanços iniciais e deixou para a nova geração o resto, isto é, concluir a obra.
Carlos Lyra, compositor, declarou: "Quando a minha geração chegou, ele já tinha lançado as sementes: sambas, canções modernas e letras coloquiais".
Ele começou a estudar piano aos 10 anos de idade. Fã de Frank Sinatra e do também saudoso Dick Farney, foi sócio do Sinatra-Farney Club, fundado na Tijuca, em 1948. A partir de então, nos seus shows, começaram a fazer sucesso suas composições "Rapaz de bem", "Céu e mar" e, em especial, "Eu e a brisa".
Precursor da bossa-nova, em torno dele se aglomeraram Tom Jobim, Vinicius de Moraes, João Donato, João Gilberto, Carlos Lyra. Quando estourou a bossa-nova, no Rio, ele já estava trabalhando em bares e boates de São Paulo, onde encontrou melhores condições de sobrevivência.
Cantor, compositor e pianista carioca, poeta, boêmio, cercado por uma aura especial de que só os iluminados desfrutam em vida.
O depoimento da cantora Claudette Soares é eloqüente (faço questão do trema!): "Johnny Alf não tem tamanho". Imagine que Tom Jobim o seguia em boates para vê-lo tocando piano, ficava enlouquecido com aquelas harmonias". Sabe-se que Alf formou o embrião do que viria a ser a bossa-nova, pelo violão de João Gilberto.
O cantor e compositor Pery Ribeiro não deixa por menos: "O caminho para a bossa-nova foi aberto por ele".
Deixou Johnny Alf várias músicas. Seu maior êxito foi essa beleza que é "Eu e a brisa", de 1967. O artista gravou 13 álbuns -apenas- em mais de 40 anos de trabalho prazeroso e fez seu derradeiro show em agosto de 2009, em São Paulo, com Alaíde Costa. Platéia completa, pedindo bis. Morrerei com o pesar de não ter assistido a pelo menos esse derradeiro show.
Johnny Alf, saudade do pessoal da bossa-nova! Além da saudade deste cronista, lamentam Duílio Gomes, Bob Tostes, Pacífico Mascarenhas, Sidney Meirelles e tanta gente mais, só em BH. Parece que perdemos um pai. E perdemos, sim.

(*) Danilo Gomes é jornalista, escritor e membro da Academia Mineira de Letras

NOTA DA REDAÇÃO
Na reportagem sobre os artesãos da edição da semana passada (nº 671), faltou incluir os nomes de Leila Caldeira e Clara Camarano como colaboradoras de Regina Martinez no texto e apuração da matéria.

Postado em 21 de Março, 2010
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Danilo Gomes
Entre o mar e a montanha
 


Meu coração, que é boêmio de longa data, balança entre o mar e a montanha, entre o mar e o campo. Tanto me faz bem a visão do oceano batendo na praia - e neste momento estou em Cabo Frio, na panorâmica Praia do Forte - como a gostosa sensação de estar na montanha, no campo, na roça, que conheci na infância, já remota, no tempo dos trens-de-ferro, as marias-fumaça.
Meu lado country, sertanejo, rancheiro, roceiro, convive bem com minha banda oceânica, carente sempre do murmúrio das ondas, do marulhar das águas verde-azuladas que vêm de tão longe.
Meu coração não-ateu pertence às águas e à terra, simultaneamente, sem conflitos.
Como diriam Cecília Meireles, Manuel Bandeira e Mário de Andrade: meu coração é múltiplo, pertence ao mundo, que é vário e cheio de nuances, mistérios e abissais silêncios.
E é em silêncio que, sentado numa cadeira de praia, de camisa branca, calça comprida e mocassim sioux, contemplo a beleza do mar-oceano e sinto a bênção de sua brisa.
Sou um rancheiro acostumado ao cheiro de estrume dos currais de minha infância, mas sou também um marinheiro que andou com as frotas da Descoberta, que sofreu com as calmarias e se alegrou com as descidas à terra, em busca de aguadas, caça, frutos silvestres e, quem sabe, uma bonita Iracema, uma tristonha Potyra de cabelos mais negros que as asas da graúna.
Sou Rodrigo de Triana na nau que levava Colombo em 1492; sou Aires Gomes que veio com Cabral e naufragou na caravela que regressava; sou um pobre marujo cujo nome se perdeu num naufrágio esquecido.
Ah, meu gosto pela música sertaneja do saudoso Pena Branca, que conheci em Brasília. Ah, minha paixão pelo mar.
Contemplo em silêncio a beleza e a grandeza do mar, sobre cujas águas sopra o Espírito sempiterno. É como se eu chegasse numa caravela ibérica.
Quero chegar, quero partir, o coração aventureiro de um Fernão Mendes Pinto, um Ponce de León, um Cabeza de Vaca...
Meu coração aventureiro quer o mar, quer a montanha e o que está atrás da montanha. Sou desse jeito. Às vezes sou solar, matinal, às vezes sou crepuscular, noturno, lunar, penumbroso.
Tropeiro e marinheiro, ando por este mundo de Deus Nosso Senhor, até que Ele decrete o fim desta minha atual peregrinação.
Estou sob o sol da manhã dourada; estou caminhando solitário pelo vale da sombra da morte.
Em silêncio e meditação, contemplo o mar de Cabo Frio, como um náufrago, cuja consolação é o marulhar, mais a luz do dia, e a esperança de sobreviver, que a vida é um dom de Deus.
Ao longe, surge um trivial navio mercante, talvez um graneleiro, em direção ao porto. Mas é como se fosse uma caravela para resgatar o náufrago e o levar de novo a uma velha taberna de Lisboa, onde contará suas peripécias mar afora.
Digo mais: meu coração sente uma saudade mourisca da Alhambra, uma coisa que vem de Granada.
Meu coração não tem jeito, senhora, é uma nau sem rumo no mar-oceano desta vida.

* Danilo Gomes é escritor, jornalista e membro da Academia Mineira de Letras

Postado em 7 de Março, 2010
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