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Divulgação
Marco Nanini, Zezé Polessa, Andréia Beltrão e Drika Moraes
Um dos ingredientes mais saborosos da novela e da série “O Bem Amado”, exibidas na Globo nas décadas de 1970 e 1980, era a sátira política, especialmente ao Brasil ditatorial daquela época.
Está certo que a dificuldade seria grande em encontrarmos, nos dias de hoje, um “coronel” como Odorico Paraguaçu, um dos papéis mais marcantes de Paulo Gracindo, mas a adaptação para tela grande – que estreia nesta sexta-feira (23) nos cinemas de todo o país – perde força ao substituir este tipo de humor pelo estilo acelerado dos programas televisivos.
A direção de Guel Arraes, cineasta pernambucano que consagrou um estilo de comédia popular baseada na chanchada, no cordel e na literatura picaresca, só evidencia ainda mais os defeitos do roteiro.
Grande nome por trás de “O Auto da Compadecida” e “Lisbela e o Prisioneiro”, sua condução se pautou pela fragmentação e pela brincadeira com os diálogos, que não funcionam nesta adaptação.
Os cortes rápidos em cenas mal escritas transformam o filme numa espécie de “Zorra Total”, como se a narrativa quisesse empurrar a fórceps uma história sem qualquer consistência.
Os diálogos aparecem sempre gritados e a trilha sonora ostensiva constantemente atropela a boa trama criada por Dias Gomes para uma peça de teatro – mais tarde levada por ele mesmo para a TV.
O enredo acompanha um prefeito populista (Odorico Paraguaçu), de uma pequena cidade baiana, que tenta de todo jeito arrumar um morto para inaugurar sua principal obra, um superfaturado cemitério.
Arraes acelera tanto o humor que o filme perde de vista as sutilezas dos personagens e o retrato de uma República de Bananas marcada por todo tipo de armação.
Em algum lugar da transposição se perdeu o desenvolvimento dos personagens, que viram mais referências de uma obra de prestígio do passado do que elementos vivos e funcionais para fazer a trama avançar.
O trio das irmãs Cajazeiras é uma das “perdas” mais sentidas, já que a graça delas estava na imagem de mulheres recatadas, a favor da tradição familiar e dos bons costumes, mas que escondiam várias perversões. No filme, estão resumidas a uma disputa amorosa com Odorico, muito pouco diante do que representavam como máscara social.
Também deixa muito a desejar o personagem de Caio Blat, que é o narrador da história. Na pele de um fotógrafo iniciante, que trabalha no jornal de oposição, ele teria um papel relevante na ponte com o público, como a voz da razão na balbúrdia de Sucupira. Função que dá lugar à ênfase num romance com a filha do prefeito (Maria Flor), que se revela um apêndice desnecessário.
Outro personagem forte é Zeca Diabo, um matador cheio de frases divertidas, brilhantemente defendido por Lima Duarte na novela.
Na nova versão, o papel coube a José Wilker, um dos melhores atores em cena, mas que também é prejudicado pelo ritmo claudicante de Arraes.
Enquanto Gracindo dava voz e personalidade a um controverso e hilário Odorico, Marco Nanini vira uma pálida cópia, concentrando-se em gestos e nos neologismos.
A invenção de palavras, que era um dos vários elementos de humor, passou a ser a única ferramenta para gerar risos. E usada à exaustão, logo cansa o espectador.