|
|
| .Filmes |
Primeiro Plano/Divulgação
Visão de Vik Muniz: o personagem Tião como em “A Morte de Marat” (1793)
Açúcar mascavo, xarope de chocolate, geleia, manteiga de amendoim. Itens convidativos para uma farta mesa de café da manhã se transformam em arte, nutrindo o trabalho de um dos artistas plásticos brasileiros mais celebrados da atualidade: Vik Muniz. Mesmo longe da periferia onde cresceu, em São Paulo, radicando-se em Nova York após a consagração nas galerias do exterior, ele não esquece as origens, invertendo a cadeia do processo “alimentar” e passando a usar o que devolvemos para o meio ambiente na forma de lixo.
O “luxo” que sai de um aterro sanitário do Rio de Janeiro – onde catadores de material reciclável ganham menos de 15 centavos por quilo, para ser vendido numa casa de leilão londrina por exorbitantes R$ 100 mil – é acompanhado passo a passo pelo documentário “Lixo Extraordinário”, coprodução anglo-brasileira premiada nos festivais de Berlim (Alemanha) e Sundance (Estados Unidos).
Dirigido a seis mãos, pela inglesa Lucy Walker e pelos brasileiros João Jardim e Karen Harley, o filme nasce, na verdade, de uma “crise de meia idade” de Vik Muniz. Às vésperas de realizar uma grande retrospectiva no Brasil de sua obra, o artista é obrigado a revisitar toda a sua carreira, criando várias dúvidas sobre a validade de seu trabalho.
“Não acreditava que poderia estar falando com você agora, não era para eu estar aqui. Sou autodidata e tive uma infância bastante humilde”, registra Muniz. “Depois de ter alcançado algum reconhecimento, tentei dar um retorno a esta realidade que já conhecia, tocando em temas sociais sem ser um artista panfletário. Mas, ao mesmo tempo, me interrogava sobre se era possível mesmo criar algo que mexesse com arte e outras coisas”.
O filme é uma em resposta a essa interrogação. “Prova que faz sentido, que é possível mudar as coisas”, avalia Vik Muniz.
O líder sindical Sebastião Carlos é a prova de que valeu a pena, quando diz que “o que o filme traz de melhor é que Jardim Gramacho deixa de ser simplesmente o fim da linha, um lugar pouco conhecido e de quase nenhum acesso, para ganhar visibilidade, principalmente sobre uma política pública em torno do tratamento e uso do lixo – que não pode continuar do jeito que está”, salienta o sindicalista, presente à exibição de “Lixo Extraordinário” no III Festival de Cinema de Paulínia.
Sebastião Carlos, o Tião, é um dos personagens do documentário. Ele surge como espécie de interlocutor da vida sofrida dos catadores, expostos às condições precárias ao mexerem no lixo descarregado constantemente de caminhões. Tudo que é jogado fora no Rio de Janeiro vai parar no aterro. Sai daí o grande paradoxo: a questão ambiental que ninguém quer ver ganha as paredes de um museu, onde o importante é o exercício do olhar.
Sucesso de “Lixo Extraordinário” leva Tião aos holofotes londrinos
O filme “Lixo Extraordinário” começa e termina com cenas do “Programa do Jô”. Na primeira vez, exibindo uma entrevista com Vik Muniz. Na segunda, com Sebastião Carlos, que não pensa duas vezes antes de corrigir o apresentador quando este se refere ao entrevistado como presidente de uma associação de catadores de lixo. “Somos catadores de material reciclável. Se não corrigisse o Jô, meus amigos e minha família iriam cair de pau em cima de mim. E foi bom, porque as pessoas passaram a entender o que esta atividade representa”, considera Tião.
A inclusão dessas cenas não foi consenso entre os realizadores. Foi mais uma imposição do produtor inglês Angus Aynsley para dar mercado internacional ao filme. O que acabou dando certo, já que “Lixo Extraordinário” não para de ganhar prêmios.
“É um filme com perfil de produtor mesmo e que, dentro de um contexto funciona muito bem. Estava um pouco receosa com a utilização de cenas do Programa do Jô. Até por achar que o filme terminando assim traria uma redenção um pouco duvidosa. Mas a proposta do filme é atingir o mercado internacional. E o faz de maneira surpreendente. O trabalho de transformação pela arte de Vik toca as pessoas”, salienta a diretora Karen Harley.
A “redenção” de Sebastião acontece justamente depois que o personagem vai para Londres acompanhar o leilão dos quadros de Vik confeccionados a partir do lixo coletado em Jardim Gramacho. Todo esse material é usado na recriação de alguns dos catadores.
Como já fez com uma réplica de “Mona Lisa”, de Leonardo da Vinci, em que se valeu de geleia e manteiga de amendoim, Vik primeiramente fotografa seus personagens, realizando cópias em papel que ocupam grande espaço de um galpão. O lixo toma o lugar da tinta, resultando num desenho formado por dejetos.
Vik não é ingênuo a ponto de acreditar que seu trabalho não seria moldado pelo filme. “Faço um projeto de arte abordado num documentário. É claro que a experiência afeta o fenômeno”, registra.
E como “Lixo Extraordinário” contou com três diretores diferentes, a diversidade de olhares é, ao mesmo tempo, seu defeito e a sua virtude. O lado bom, como destaca Vik Muniz, é que “o filme conta com três direções em sua proposta”, tornando-o rico em nuances.
O lado ruim foi a intervenção do produtor, que tirou a montagem final das mãos de Karen Harley para repassar novamente a Lucy Walker, que começou as filmagens e teve que abandoná-las para trabalhar num documentário sobre o político e ativista verde norte-americano Al Gore.
Montadora de trabalhos elogiados como “Cinema, Aspirinas e Urubus” e “Amarelo Manga”, Karen revela que fez um primeiro corte que foi rejeitado por Angus Aynsley. “O encontro de Vik com estes catadores apresentavam duas realidades diferentes. Minha montagem caminhava muito neste sentido. A proposta era fazer um documentário mais humano. O tom era diferente, não sei se seria melhor”.
Vik Muniz não esconde os problemas de produção “Ele (Angus) tinha uma fome grande de espetáculo”. Esta “visão mais superficial da situação”, nas palavras do artista plástico, motivou muitas discussões, como a vontade do produtor em levar para Londres todos os catadores que aparecem na narrativa. “Seria um espetáculo antropológico, como se pessoas do século XIX fossem transportadas para o mundo de hoje. Levamos apenas o Tião, que sentiu uma chacoalhada doida”, observa.
O artista também acha “ridícula” a cena em que aparece ao lado de seu assistente Fábio e de sua ex-mulher, Janaína, conversando em inglês. “Aquilo é horroroso, mas tem a ver com o fato de não sabermos qual direção tomar. Como no início a diretora era uma inglesa que não falava português, não fazia sentido conversarmos numa língua que ela não compreendia. Como ela iria dirigir? Como na arte em geral, há partes que não são perfeitas”, pondera.
Com a intenção de buscar o mercado internacional, o filme ganhou até mesmo uma dramaturgia, como admite João Jardim, também diretor. Realizador dos documentários “Janela da Alma”, ao lado de Walter Carvalho, e “Pro Dia Nascer Feliz”, ele observa que “Lixo Extraordinário” tem uma estrutura em arco, “apresentando muito bem os personagens e depois colocando o desafio a ser enfrentado pelo herói representado por Vik. Acompanhamos a sua jornada, que, num filme normal, seria pautada por perigos. No nosso filme, são pessoas como o Tião que apresentam uma nova emoção. Por fim, vem a redenção”.
O que nos faz voltar a questão do “Programa do Jô”. De acordo com João, a inclusão de cenas do talk show no início e no final do filme apenas reproduz um “código reconhecido internacionalmente, sobre um tipo de programa aonde vão pessoas que atingiram um certo nível”, servindo para mostrar a importância que o trabalho dos catadores alcançou.
Tião salienta que continua vivendo um conto de fadas. “Londres não foi o final de tudo. O resultado que temos obtido é astronômico”.