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CRISTIANO COUTO
Ex-jogador e treinador de várias equipes e da Seleção Brasileira é tema de longa
Polêmico. Provocador. Moralista. Amoroso. Dono de uma visão romântica sobre o que se passa entre as quatro linhas. Personagem quase “nelsonrodriguiano”. Um velho palhaço, no bom sentido da palavra. Características que se somam em “Esperando Telê”, documentário de Rubens Rewald e Tales Ab’Saber sobre um dos maiores técnicos de futebol do país, o mineiro Telê Santana (1931-2006), sempre lembrado como um dos últimos defensores do futebol arte. O filme é o destaque da programação desta sexta-feira (29) da 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, com exibição às 18 horas, no Cine-Tenda.
Para azar dos atleticanos, que lembram de Telê Santana com carinho por ter comandado a campanha do único título brasileiro do clube, conquistado em 1971, a gênese do documentário está na passagem - igualmente vitoriosa - do treinador pelo São Paulo, na década de 1990. São-paulistano roxo, Rewald logo se interessou pela figura controversa e, ao mesmo tempo, amada por crianças e torcedores de times adversários.
“Ele tinha um carisma enorme. Ainda que tivesse uma postura polêmica, sendo várias vezes expulso de campo por brigar com todo mundo, do gandula ao repórter, ele era um ídolo popular. Uma figura romântica, acima do bem e do mal, que não existe mais hoje”, registra o cineasta.
Contar a trajetória de Telê (em uma de suas últimas fotos, nesta página) é também falar de um Brasil com todas as suas contradições. O documentário capta a atmosfera de uma época sem grandes perspectivas (o governo de Fernando Collor era o epicentro da onda pessimista), valendo-se do idealismo do técnico, que dirigiu a Seleção Brasileira por duas vezes, em 1982 e 1986. “O futebol é quase um índice de estabilidade do país. Podemos ver como o Brasil se relaciona através dele. E Telê serve bem a esse propósito. Todas as questões perpassam por ele, e assim montamos a estrutura do filme”.
Sem dinheiro e com uma equipe mínima, contando apenas com a paixão pelo futebol, Rewald e o psicanalista Ab’Saber transformaram este amadorismo na identidade (e numa das qualidades) do documentário. A começar pelo fato de a dupla passar anos tentando uma entrevista com o técnico itabiritense, sem sucesso _ o que justifica a “espera” do título. A maneira como driblaram essa dificuldade foi recorrer às imagens da TV. Nenhum problema nisso se os realizadores tivessem solicitado autorização para as emissoras. O que não aconteceu. “Precisaríamos de um aparato de produção para conseguir ‘limpar’ o filme, com verba para um produtor fazer esse trabalho. Esperaríamos um ano para concluir o processo, e tínhamos urgência de mostrá-lo”, explica.
“Limpar o documentário”, que é um jargão do cinema para resolver todas as questões de direitos autorais, não é algo descartado. Mas Rewald quer aproveitar ao máximo a liberdade que usufruiu para escolher as imagens, ainda que a custo da exibição limitada, sem poder chegar às salas comerciais.
“Não queríamos abrir mão de nenhuma imagem, correndo o risco de sofrer o mesmo problema que aconteceu com outro documentário sobre futebol, ‘Ginga’, que não recebeu a autorização do Corinthians para mostrar a pedalada que Robinho, do Santos, deu num zagueiro do time, durante a final do Brasileiro de 2002, simplesmente por acharem que era humilhante para o clube. Depois de passar anos e anos montando, não queríamos botar nada na gaveta”.
Rewald, que define “Telê Esperando” como um filme-hobby, devido ao longo tempo (15 anos) de produção, destaca que o documentário não é sem 100% pirata. “Apenas metade foi pirateada, ou melhor, sampleada, para usar um termo da arte contemporânea, já que as imagens foram recicladas, ganhando outro discurso”, observa.
As imagens próprias revelam um Brasil mergulhado no futebol, que não se restringe apenas ao Real Madrid e à seleção canarinho. “Temos uma milhão de formas de falar sobre o esporte. Ele está no boteco, nas crianças chutando tampinha na rua, nas bandeiras penduradas nas casas. Para onde a gente aponta a câmera, há sempre uma manifestação neste sentido”.