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ALEXANDRE C. MOTA
Os realizadores de "Estrada Para Ythaca", road movie exibido na Mostra de Tiradentes
Num boteco qualquer de cidade, aparentemente em noite bem alta, quatro sujeitos enchem a cara de cerveja. Considerando o “vasto cervejal” – segundo Chico Buarque, como o poeta e artista plástico Heitor dos Prazeres designava uma noite bem vivida – sobre a mesa que ocupam, imaginamos porque se comunicam quase que através de monossílabos, de interjeições, mas ataquem um inspirado repertório de clássicos da música popular nacional - o que inclui Raul Seixas, é lógico. Lá pelas tantas, os quatro subtraem as chaves do automóvel do cliente ao lado, e partem sem destino planejado.
Assim começa “Estrada Para Ythaca”, representante cearense da Mostra Aurora desta 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que privilegia criadores em sua primeira ou, no máximo, segunda aventura no longa. Declaradamente inspirado em “Ítaca”, poema que o grego Konstantinos Kaváfis (1863/1933) escreveu – por sua vez, inspirado na relação que Ulisses, o da “Odisseia” de Homero, desenvolve com a ilha que governa e onde mora Penélope, sua mulher - como o sumário de uma vida venturosa, abençoada pelos prazeres, o filme foi roteirizado, produzido, fotografado, sonorizado, dirigido e montado por quatro jovens sujeitos: Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti.
Portanto, além de um filme “de estrada”, é uma realização entre amigos. A chamada brodagem. Exatamente assim se comportam os quatro personagens ao longo dos arrastados 70 minutos de enredo – digamos assim, à falta de termo mais justo. O fato é que, enquanto os moços se deslocam estrada afora, nada de expressivo, surpreendente ou ameaçador acontece. Certo, nenhum filme é obrigado a, nem se torna melhor quando proporciona ao espectador a sensação de haver ingerido adrenalina, de cavalgar uma montanha-russa. Há obras que tratam da ausência de novidades, da impressão que o tempo parece não escoar nunca e de pessoas sem ter o que dizer. E são marcantes, grandiosas.
Não é o caso de “Estrada Para Ythaca”. Por isso, em cerca de meia hora, quando um dos quatro amigos exclama aos demais “olha aí, galera, acho que estamos perdidos!”, parte significativa da plateia tivera bem antes a mesma percepção. E já havia batido em retirada.
Talvez não incomode tanto as aparições de natureza mágica que o filme se permite – como encontrar panela, cumbucas, talheres e comida, assim, no meio do nada -, mas o ranço machista da viagem (que não inclui nenhuma mulher, sequer em fotografia), o trato egoísta dos rapazes, que não conseguem articular comentário algum, nenhuma síntese, sequer uma cara sugestiva. Uma falta de assunto tão medonha, que nos leva a crer que, se eles só conseguem expressar algo de interessante através de letras de música, não estarão sacramentando novamente a superioridade da música brasileira sobre o cinema idem?
Fazer cinema é uma tarefa hercúlea, como uma das viagens de Ulisses. Frente aos desafios que têm de enfrentar, de vencer, os criadores de “Estrada Para Ythaca” levantam um manifesto sintético, no finalzinho da sua obra.
Instalado na bifurcação de uma estrada, um outro barbudo como os quatro viajantes brada que por um daqueles lados se chega ao cinema e a suas aventuras: talvez se refira ao cinema mais convencional. Pela outra via se chegaria ao cinema de 3º mundo, “perigoso, mas divino e maravilhoso” também. Que ótimo. Assim, os realizadores de “Estrada Para Ythaca” parecem nos comunicar sua filiação ao cinema perigoso. De fato, o que nos oferecem é uma sucessão inequívoca de belas paisagens e personagens sem estofo, viajando a esmo. Assim se expõem aos perigos de realizar o cinema que acreditam ou imaginam saber fazer.
* Viajou a Tiradentes a convite da produção da 13ª Mostra de Cinema.