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Morgan Freeman interpretando o presidente Nelson Mandela: composição perfeita
A cada discurso de Nelson Mandela em “Invictus”, principal estreia desta sexta-feira (29) nos cinemas, vem aquele nó na garganta. As palavras pacifistas do ex-presidente sul-africano, o primeiro negro a ocupar o cargo após anos de conflitos étnicos, sobre a importância de vencermos nossas diferenças para a construção de um mundo melhor, são destacadas a todo momento para fazer o espectador se emocionar. Num outro filme, elas soariam gratuitas, buscando arrancar lágrimas a qualquer custo. Mas estamos falando de um trabalho de Clint Eastwood, até bem pouco tempo listado entre os homens mais durões do cinema.
Estaria o dono do personagem Dirty Harry de coração mole, por causa da idade (ele completa 80 anos em maio)? Não quando olhamos para trás e passamos a limpo a filmografia de Eastwood. Em boa parte deles, vemos um solitário, de pensamentos considerados ortodoxos, que consegue se fazer ouvir, ainda que, muitas vezes, seu final não seja dos mais felizes. Isso vale tanto para o policial linha-dura Dirty Harry como para o aposentado Walt Kowalski de seu filme anterior, “Gran Torino”, lançado no ano passado.
Este arcabouço também se encaixa na figura de Nelson Mandela com muita propriedade. A diferença está no fato de o personagem ser real e ainda vivo. Fora isso, os principais conflitos investidos nos seus protagonistas estão presentes, como a ideia “suicida” de caminhar contra a corrente.
Seria muito fácil para Mandela, ao se eleger, em 1994, presidente da África do Sul depois de 28 anos na prisão, virar a voz da comunidade negra esmagada pelos brancos e mudar a discriminação de lado.
Então, chegamos ao cerne de “Invictus”, forte candidato a entrar na lista dos dez indicados ao Oscar 2010. Eastwood não é um filme biográfico, no sentido de acompanha toda a trajetória do personagem, tentando reconhecer as origens que o levaram a se destacar na sociedade. É bem mais do que isso.
O diretor estabelece um recorte muito interessante que, mesmo não contemplando todos os principais episódios da vida de Mandela, como a luta iniciada na década de 1960 pelo fim do apartheid, diz tudo o que precisamos saber sobre o vencedor do Nobel da Paz.
Para o mundo de hoje, cínico e revanchista, seu empenho em unir as duas Áfricas ao abraçar um time de rúgbi - antes considerado o maior representante da segregação racial - como símbolo de dignidade e respeito ao outro, é um exemplo muito palpável da possibilidade de paz. O filme assinala isso o tempo inteiro, em cada ação e palavra do personagem.
Entra em cena outro elemento forte nos filmes de Eastwood: sua mensagem está escorada à ideia de movimento, a um embate que representa a grande guerra travada pela humanidade.
Este movimento surge através do trabalho de policiais em perseguição a bandidos, ao dinamismo do esporte e à violência da guerra. Em todos eles, há a disciplina exigida para vencer e alcançar seus objetivos.
O cineasta se apropria de uma realidade “micro” para falar deste drama maior que é a vida, recheando seu discurso com lições morais. O que é “Menina de Ouro” se não a difícil luta pela sobrevivência num mundo marcado pelo egoísmo (dos familiares das boxeadora) e pelo preconceito (do treinador, que não gosta de trabalhar com mulheres)? Só que sintetizada num ringue de boxe.
Em “Invictus”, o realizador mais uma vez recorre ao esporte para falar menos de uma modalidade e mais do que ela pode representar em termos de solidariedade, força de vontade e fé na humanidade.
Como uma espécie de “patrono” do time, fadado ao fracasso na Copa do Mundo, o presidente interpretado por Morgan Freeman (perfeito em sua composição) vai contra o desejo da maioria negra e, no lugar de abolir as cores originais da equipe formada basicamente por brancos, passa a ver nos Sprinboks a síntese de tudo o que vinha pregando sobre a ideia de irmandade.
A construção do filme caminha neste sentido, apontando a inteligência de Mandela para enxergar no esporte uma maneira rápida e eficaz de unir seu país. O time decadente se torna sinônimo da África do Sul do apartheid, enquanto os jogadores, orientados dentro de campo (por François Pienaar, interpretado por um musculoso Matt Damon) e fora dele, sendo contaminados pela energia e crença do dirigente de que a vitória é possível, desde que todos se esforcem.
Olhando apenas por este prisma esportivo, “Invictus” não é muito diferente de tantos outros, como “Rocky, o Lutador” ou “Jamaica Abaixo de Zero”, através da ilustração da passagem bíblica de Davi e Golias, em que o pequeno e supostamente mais fraco pode derrubar o favorito. Da metade para o final, o filme se concentra basicamente na competição e na aplicação dos “ensinamentos” de Mandela.
A forma como o líder negro se vale do esporte para juntar os cacos de seu país é a mesma usada por Eastwood no filme. O cineasta concentrou-se no rúgbi para dar mais força dramática à história, sem prejuízo para a biografia de Mandela.