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ALEXANDRE C. MOTTA
Maya Da-Rin buscou um dos limites amazônicos para realizar seu primeiro longa
À noite faz frio e continua chovendo em Tiradentes. Pancadas rápidas, felizmente, nada que inviabilize o trânsito de turistas na cidade, ainda em número bastante expressivo, e a sequência da programação desta 13ª edição da Mostra que é hoje uma das mais importantes do país. Às vezes, ainda é necessário ter que deslocar o que estava previsto para ser exibido no Largo das Forras, portanto ao ar livre, para o ambiente fechado do Cine-Tenda. Caso dos cinco curtas da Série 1 da Mostra Foco. Mas falemos primeiro de “Terras”, de Maya Da-Rin, longa-metragem que abriu a programação da Mostra Aurora deste ano, ideia plantada pela curadoria a partir de 2008, que estabelece competição entre obras de jovens cineastas com no máximo dois filmes.
Filha de Sílvio Da-Rin, que já escreveu uma história bastante reconhecida no cinema nacional – consulte o Google para dimensionar _, e estabelecida no Rio de Janeiro, Maya buscou um dos limites amazônicos para realizar seu primeiro longa. Lá onde o mapa-mundi torna Peru e Colômbia vizinhos do Brasil, a câmera encontra Letícia (Colômbia) e Tabatinga (Brasil) dividindo o mesmo chão urbano, cercado de mata e rio por todos os lados.
O Peru também não está longe. É possível alcançá-lo em rápida viagem de barco a motor, vencendo o curso do rio caudaloso, de intensas correntes e águas amareladas, com diversos destroços naturais à vista.
Para o bem e/ou para o mal, atualmente vivemos uma época de fartura em imagens e em informações. De tal maneira que a simples menção dos dados acima já é suficiente para nos situar num cenário um tanto selvagem ou quase isso. Para nos conectar ao imaginário que o território amazônico evoca, mesmo quem, literalmente, ainda nele nunca pôs os pés.
A câmara de “Terras” passeia neste cenário: mostra seus habitantes, sua paisagem, mas – é curioso – jamais exibe sua fauna.
Por isso, talvez seja o filme sobre a Amazônia em que menos se vê bichos. É que, afora os recortes que faz da beleza da região, quando a câmera observa de muito perto detalhes pictóricos da mata e da cidade, o filme parece se interessar mais pela natureza humana e pela natureza, digamos, terrena, por rio e mata.
Esta espécie de escolha torna o longa um tanto exótico (pela grandeza e pela exuberância da paisagem, que a maioria dos espectadores de cinema talvez conheça menos) e um tanto familiar também. Porque, apesar até da predominância indígena da população, identificamos sua condição humana, seus hábitos, seus desejos.
O impulso que os leva, embora tão distante dos centros tidos como mais modernos, ao usufruto de símbolos essenciais de modernidade como o celular, a camiseta estampando frases em inglês e os clubes de terceira idade.
Por tudo isso, “Terras” oscila entre um registro interessante que, sem desgosto, nos prende ao longo da 1h15 que dura – como disse Caetano, quase sempre é muito magnetizante acompanhar imagens de gente falando -, como uma obra sobre um mundo ainda por descobrir melhor; e a impressão de falta, que outras escolhas talvez o levassem a resultados mais satisfatórios. Porém, Maya fez as suas escolhas, que resultaram num filme simpático, interessante, defensável sem dúvida.
E, se faltarem motivos para não nos lembrarmos dele no futuro, com certeza nos lembraremos da senhora indígena, bastante sábia na comparação entre os nativos da terra e aos que a ela chegaram.
Se documentários carecem tanto de grandes personagens, nela “Terras” encontrou o seu.
Em relação aos curtas, falou-se maravilhas sobre criadores de Minas.
Da inteligência e da graça irresistível de “Perto de Casa”, de Sérgio Borges, um dos articuladores da produtora Teia; e de “Calça de Veludo”, de Ana Moravi e Dallani Lima, sobre conhecido performer de Belo Horizonte, tão radical em suas escolha que acabou virando morador de rua – mudança que o filme não chegou a acompanhar.
Das sete opções de Série 2 da Mostra Foco, duas eram mineiras, mas a maioria não pareceu relevante.
A rigor, só “As Corujas”, do cearense Fred Benevides, e o experimento do mineiro André Novais Oliveira, em “Fantasmas”, levam jeito.
No mais, a graça trazida pela aparição de um pastor alemão no Cine Tenda, antes da exibição de “Terras”, logo cercado por câmeras fotográficas e de filmagem; a presença do ator Márcio Vito, curitibana radicado no Rio, que em 2008 veio a Tiradentes por atuar em “No Meu Lugar”, longa de estreia de Eduardo Valente, e voltou este ano como turista, movido pelo encanto do festival; e o tipo peculiar de turismo praticado na cidade, que faz com que o garçom se sinta à vontade para peitar o consumidor assustado com a exorbitância do preço cobrado por uma garrafa das pequenas de água mineral. A bagatela de R$ 2,80. Vai uma?
* Miguel Anunciação viajou a convite da produção da 13ª edição do Festival de Cinema de Tiradentes