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ARQUIVO HOJE EM DIA
O cineasta (dir.) durante as filmagens de “Um Lobisomem na Amazônia”
“Você está falando com um fantasma. Eu já não existo mais”. Com uma grande galeria de personagens sobrenaturais, como vampiros e múmias, bem que o diretor Ivan Cardoso poderia estar fazendo um tipo. Não é o caso. Criador do “terrir” brasileiro, em que se destacam êxitos de bilheterias como “O Segredo da Múmia” (1982) e “As Sete Vampiras” (1986), ele se sente traído pela política cultural do país.
O acanhado lançamento de seu longa-metragem “Um Lobisomem na Amazônia”, no ano passado, foi a gota d’água para o que ele define como um “momento de trevas total”, mais assustador e realista que muitos de seus trabalhos. Para quem não viu (e certamente quase ninguém assistiu), o filme está ganhando uma chance na tradicional mostra “Passou Batido”, realizada pelo Cine Humberto Mauro.
“Um Lobisomem na Amazônia” aparece ao lado de produções premiadas como “Desejo e Perigo”, de Ang Lee, “À Procura de Eric”, de Ken Loach, “Loki - Arnaldo Baptista”, de Paulo Henrique Fontenelle, e “Ninho Vazio”, de Daniel Burman.
O longa de Ivan é um corpo estranho nessa seleção. Até pelo desinteresse do diretor de realizar um trabalho intelectual. É, por sinal, completamente despretensioso.
“Poucos diretores do cinema brasileiro têm a minha filmografia. Pouquíssimos diretores do país gostam de cinema americano como eu. Menos ainda gostam de fazer cinema comercial. E o que eu ganhei com isso? Castigo”, salienta.
A sua descrença na produção nacional é medida num punhado de frases pessimistas, irônicas e que atacam do governo ao público (“Brasileiro gosta de matar e roubar; odeia arte”).
“Viramos cineastas de terceira. Primeiro, vêm os americanos. Depois, os filmes da Globo Filmes. Em terceiro, o cinema brasileiro. Ninguém vai ver cinema brasileiro. Somente otários como eu e você. O cinema de verdade acabou há muito tempo”, dispara o cineasta, que não se deu ao trabalho de acompanhar o borderô de seu mais recente filme. “Nem sabia que estava em cartaz aí”, completa.
Mesmo contando com um produtor tarimbado (Diler Trindade, de Xuxa e Trapalhões), o filme saiu de cartaz rapidamente das praças onde foi lançado _ em Belo Horizonte, entrou numa sala do Ponteio, sem repercussão.
“No Rio, ele ficou três semanas em exibição. No mesmo lugar, há uma exposição minha com fotos de Raul Seixas que já dura quatro meses. Como não cobrei nada, só sairá quando eu resolver tirar”.
Como os lobisomens voltaram à mídia por causa da superprodução “O Lobisomem”, com Benicio Del Toro e Anthony Hopkins, Ivan chegou a cogitar pegar carona no equivalente americano, “com um nome falso, de gringo, bem como o de todo elenco”.
Curiosamente, quem pôs esta estratégia em prática, intencionalmente ou não, foram os programadores do Cine Humberto Mauro, já que o licantropo hollywoodiano estreia nesta sexta-feira (12).
Pelo menos um nome de seu elenco Ivan não precisaria mudar: o do ator espanhol Paul Naschy, lendário intérprete do homem-lobo em 14 filmes. “Fiz o longa por causa dele, depois que nos encontramos num festival em Portugal. Ele gostou muito do meu trabalho e quis trabalhar comigo. É o que Tom Jobim dizia: só temos reconhecimento quando saímos do aeroporto”, observa.
Misturando os enredos de “A Ilha do Dr. Moreau”, de H. G.
Wells, e “Amazônia Misteriosa”, de Gaston Crulls, o filme é um verdadeiro jardim zoológico de personagens de terror, na definição do próprio Ivan Cardoso.
Às voltas com a restauração de “Nosferatu no Brasil”, que fará 40 anos de lançamento em 2011, o diretor ainda tem dois filmes inéditos em circuito - “A Marca do Terrir” e “Sarcófago Macabro”. Mas diz que a vontade é de botar fogo em tudo.
“O que houve com um cinema que está a reboque da TV? Simplesmente morreu. Não existe isso no mundo. Seria a mesma coisa que um Jack Nicholson topasse fazer a novela das oito”.