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CRISTIANO COUTO
Ramiro Batista segue os passos da história desde o primeiro comício pelas Diretas Já!
A expressão “atravessar o Rubicão” remete a um dos mais famosos episódios de Roma na Antiguidade Clássica: o general e estadista Júlio César, no ano 49 a.C., tomou a decisão crucial de atravessar o rio Rubicão com seu exército, transgredindo a lei que determinava o licenciamento das tropas armadas toda vez que elas retornassem pelo norte de Roma. Com a máxima “alea jacta est” (a sorte está lançada), César assumiu todos os riscos, transpôs o rio com suas tropas e mudou os rumos da história. A alegoria com o episódio de César perpassa o romance “O Dossiê Rubicão – Quando a morte assume o poder” (editora Batel, 512 páginas, R$ 55), que o jornalista Ramiro Batista lança nesta quarta-feira à noite no Foyer do Palácio das Artes.
É o terceiro livro publicado por Ramiro – que estreou em 1983 com “A Pintinha Negra”, coletânea de sátiras políticas sobre sua terra-natal, Muriaé, na Zona da Mata, onde trabalhou em jornais locais. Também lançou o romance “O Camaleão no Abismo” em 1986, em que descreve a educação sentimental de seu protagonista. Em “O Dossiê Rubicão” a proposta não poderia ser mais corajosa e oportuna: Ramiro constrói uma trama ficcional que reúne jornalistas às voltas com a cobertura política que alcança da frustrada campanha popular pelas Diretas Já! até a posse malograda do presidente eleito Tancredo Neves.
“É uma mistura de ficção e realidade para desvendar Tancredo e sua campanha à Presidência da República”, explica Ramiro, que naquele período histórico fazia seu aprendizado como jornalista profissional em Belo Horizonte. “Os personagens da política da época tiveram seus nomes reais mantidos no romance, mas os nomes dos profissionais de imprensa são todos fictícios, misturando experiências reais e literárias que criam o pano-de-fundo para contar um dos momentos mais traumáticos da história recente do país”, destaca.
“O Dossiê Rubicão” consumiu três anos de trabalho, segundo o autor. “Há muitos anos que venho maquinando este livro, mas o começo da redação, de fato, foi há cerca de três anos, quando li ‘O Código Da Vinci”, recorda. “Foi o best-seller do norte-americano Dan Brown que deflagrou a escrita do livro, mas o modelo para a narrativa está mais para ‘Agosto’, do Rubem Fonseca”, aponta. Publicado em 1990, o romance policial de Fonseca também funde ficção e história do Brasil, culminando com o suicídio do presidente Getúlio Vargas.
“O título inicial era ‘Pequenas Vilanias’, para remeter às imposturas do dia a dia, tanto na imprensa e na política como na vida das pessoas comuns. Também cheguei a trabalhar com o título ‘O Código Tancredo’, mas gostei muito da sugestão do editor para o título definitivo. Ficou mais abrangente e mais literário”, avalia. Na época descrita no romance, o autor também trabalhava em jornal de Belo Horizonte, mas preferiu situar seus personagens em um jornal fictício de São Paulo, por ele batizado de “Folha do Povo”.
“A imprensa brasileira naquele período vivia muitos dilemas e transformações. Era a transição da censura da ditadura militar para as liberdades democráticas e era o começo das mudanças na tecnologia para a produção industrial da notícia, das laudas de papel nas máquinas de escrever para as primeiras telas de computador”, aponta. O processo técnico do jornalismo está descrito em várias passagens do romance e fornece as imagens da primeira página do livro, que reproduz uma antiga lauda datilografada com a manchete que traz o “furo” de reportagem que mudaria a história do Brasil e movimenta as intrigas criadas pelo “Dossiê Rubicão”.
Para o autor, o extenso trabalho de pesquisa sobre aquele período revelou as limitações do trabalho jornalístico dos profissionais que cobriram a eleição e o drama de Tancredo. “Este distanciamento de 25 anos nos ajuda a compreender melhor os boicotes, as traições e as ameaças de golpe que o Tancredo enfrentou. Tanto que, no livro, ele aparece mais humanizado, cercado por aquela teia complexa de acontecimentos que fizeram história”, conta o autor, que transcreve frases e falas dos políticos envolvidos e eventos importantes, do primeiro Rock’n Rio a fatos internacionais que eram notícia.
O ritmo de trabalho para o livro foi intenso, confessa Ramiro. “Li muito, pesquisei jornais e revistas, e tentei ser metódico na redação de pelo menos três páginas por dia”, recorda. Do primeiro comício pelas Diretas Já!, em janeiro de 1984, até as vésperas da posse do presidente Tancredo, em abril de 1985, o romance segue os passos da história e do fictício triângulo amoroso entre o jovem repórter, uma editora do “Folha do Povo” e Leão Machado, personagem emblemático que redige a carta-testamento que encerra o romance.
Envolvido com a maratona de lançamento do livro, Ramiro Batista já criou um site para estender a publicidade do trabalho e pretende partir agora para a divulgação dirigida do romance, em BH e em outras capitais. “O sonho de todo autor é ser lido por muitas pessoas e ter adaptações em outras mídias. Como diz a frase célebre de Tancredo, ninguém tira os sapatos antes de chegar ao rio, mas ninguém vai ao Rubicão só para pescar”, conclui.