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DIVULGAÇÃO
Disco do músico norte-americano tem participação do brasileiro Rodrigo Amarante
Em um instante de tietagem delirante, o músico norte-americano Devendra Banhart diz que os Mutantes foram melhores que os Beatles. E justifica: “Os Beatles fizeram música em todos os estilos, mas os Mutantes conseguiram colocar vários estilos em uma única canção”. Esse depoimento está em “Loki”, documentário de Paulo Henrique Fontenelle sobre Arnaldo Baptista e os Mutantes, outro bom momento do cinema (re)descobrindo a música brasileira.
Exageros à parte, é fácil entender a empolgação de Banhart, nascido em Houston, há 28 anos. Na esteira da revolução musical capitaneada pelos Beatles - e referendada pelos Tropicalistas - os Mutantes (1968-1972) deram um novo status ao rock brasileiro, até então (final dos anos 60) restrito a versões de sucessos ingleses e norte-americanos. Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee (mais Caetano, Gil, Tom Zé e o maestro Rogério Duprat) se apropriaram das experimentações dos Beatles, Beach Boys e Frank Zappa incorporando-as ao samba, MPB e outros ritmos tupiniquins e latinos, extraindo sonoridades originais, surpreendentes, desconcertantes. Portanto, não causa espanto que a música dos Mutantes, que se separaram há quase 40 anos, conquiste admiradores até hoje (como Beck e Sean Lennon, filho de John e Yoko).
Devendra Banhart, 28 anos, cultiva uma admiração singular pelo cenário musical do final dos anos 60, época do florescimento das principais vertentes do rock (psicodélico, progressivo, folk rock, country-rock, hard, glam), daí sua aproximação com a música (e a atitude) dos Mutantes. Daí, também, o fato de ser chamado de neo hippie, folk psicodélico e Neo Weird America.
“What Will We Be”, seu sexto álbum solo (lançamento Warner) e que traz a participação do brasileiro Rodrigo Amarante (Los Hermanos, Little Joy) e de antigos companheiros de banda, evidencia a devoção do cantor pela música dos 60. Todas as 14 faixas estão impregnadas de gêneros artistas e gravações daquela época.
Melodista caprichoso, letrista sensível, e habilidoso nas elaborações temáticas, combinações harmônicas e timbrísticas, Banhart produz uma música bastante agradável, que às vezes encanta e até surpreende. Mas, diferentemente dos Mutantes, Devendra faz o estilo reflexivo, tristonho; não tem nada daquela irreverência, do comportamento “clownesco” e debochado que marcaram as gravações e apresentações de Arnaldo, Rita e Sérgio.
“Can’t Help But Smiling”, a radiante e singela balada que abre o disco remete, por exemplo, aos Beach Boys (tocando ritmos caribenhos e sopros chicanos). Em “Angelika”, outra bela melodia, ele ataca também em espanhol (viveu algum tempo na Venezuela), como se fosse um cantor de Cabaré. A Variedade musical continua nos acordes e os solos em dueto das guitarras que dão um sabor especial a “Baby”, que parece a banda T. Rex ressuscitada na onda do reggae. T. Rex, de novo!, e Roxy Music predominam no rockzinho “16th &Valencia Roxy Music”, enquanto “Going Back” justifica o rótulo de folk psicodélico. “Rats” parece The Doors travestido de banda de rock sulista. “Maria Lionza” é viajandona (Crosby & Nash encontrando Pink Floyd). E em “Brindo, latina e progressiva, ele parece João Gilberto cantando em espanhol.