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Roberto Chacur
Os mineiros do Porcas Borboletas vão tocar em Uberlândia, Goiás e São Paulo
Criado em 2003, em Cuiabá, como alternativa para quem não gosta de Carnaval, o “Grito Rock” chega em 2010 bastante ampliado como o maior festival integrado da América Latina. A começar pelos estilos que passeiam pelo projeto. “Só tem Rock no nome para caracterizar a atitude da ação, mas é bastante diverso, vai do samba ao heavy metal”, pontua Pablo Capilé, representante do Espaço Cubo (MT) e vice-presidente da Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin). Para ele, essa “miscelânia bacana” evidencia a maturidade organizacional e estética da cena independente. A edição deste ano, que começa na quinta-feira (4) e segue até dia 28, terá mais de mil shows, em 85 cidades de todos os Estados brasileiros, e também na Argentina (Buenos Aires e Córdoba, Uruguai (Montevidéu) e Bolívia (Santa Cruz de La Sierra). A expectativa é de que 150 mil pessoas prestigiem as apresentações.
Em Minas Gerais, serão mais de 100 shows (incluindo 20 bandas de outros Estados, sendo que cinco daqui representarão os mineiros lá fora), em 14 cidades. Em dez delas, as apresentações serão gratuitas: Uberaba, Montes Claros, Ipatinga, Patos de Minas, Ribeirão das Neves, Itabirito, Vespasiano, Divinópolis, Sabará e Guaxupé.
Em Belo Horizonte, as apresentações se concentram n’A Obra Bar Dançante, entre os dias 10 e 16, com ingressos a R$ 12 (de quarta a sexta-feira) e R$ 15 (a partir de sábado).
O “Grito Rock Minas Gerais” também vai passar por Uberlândia, Lavras e Poços de Caldas.
As atrações foram selecionadas a partir de inscrição feita no portal Toque no Brasil, que entrou no ar dia 5 de janeiro, com a proposta de ajudar os artistas independentes a interagirem com produtores e circularem fazendo shows _ três rotas de circulação já foram montadas. Segundo os organizadores, 1.200 artistas se inscreveram em dez dias.
Ao lado de São Paulo, Minas é o Estado com maior representatividade. “Minas Gerais é o Estado mais musical do país, com artistas mais interessantes, esteticamente falando”, afiança o cuiabano Pablo Capilé.
O mineiro Talles Lopes, representante do coletivo Goma (Uberlândia) e fundador das Casas Associadas (Associação Brasileira das Casas de Shows Independentes), concorda, mas observa que, apesar disso, e do que considera uma “estrutura privilegiada” (com Lei de Incentivo, Fundo de Cultura, Fórum da Música, Programa Música Minas etc), os artistas mineiros não têm conseguido se posicionar nacionalmente, ganhar visibilidade e espaço fora das montanhas.
É a vez de Capilé concordar: “O Mato Grosso tem menos de 100 artistas podendo circular, Minas tem mais de quatro mil. Mas o Mato Grosso posicionou duas bandas, Vanguart e Macaco Bong; Minas não posicionou nenhuma”, exemplifica.
Talles credita isso a uma certa acomodação dos mineiros, que só será mudada quando eles perceberem que o “artista iluminado”, aquele que despontava nos anos 1980/90, precisa dar lugar ao “artista pedreiro”, que é auto-produtor, se organiza coletivamente e acha que sucesso não é ganhar milhões, mas poder pagar suas contas.
“Tem artista que consegue recursos, faz quatro shows dentro de Minas e fica acomodado. Se não receber cachê, ficar em hotel três estrelas e viajar com a equipe completa, não se propõe ao desafio de circular o Brasil”, alfineta, acrescentando que se esse artista não se alinhar aos novos paradigmas de inserção no mercado, vai continuar sendo um grande artista em Minas, mas sem conquistar espaço fora. “O mercado é outro, tem que se adequar”, defende.
Para Capilé, o caminho é trabalhar sob a lógica do coletivo, e mesmo colocar o pé na estrada para formar público. “Participar de festival é um plano de mídia, não é para ganhar dinheiro. Os festivais estão cada vez maiores, estão substituindo o rádio”, defende, acrescentando que o público não vai a um festival por causa de alguma banda específica, mas pelo conceito do novo.
Lucas Mortimer, do Coletivo Pegada (BH), acredita que cada vez mais bandas estão compreendendo que têm que empreender e buscar alternativas para viabilizar as carreiras.
Os coletivos estão aí para mostrar isso. Capilé observa que, em 2006, o Circuito Fora do Eixo contabilizava cinco coletivos, 15 festivais de música independente e 200 bandas capacitadas para circular. Hoje, são 45 coletivos, 70 festivais e 2.500 bandas.
O “Grito Rock” reflete isso tudo. Começou em 2003, em Cuiabá. Em 2007, expandiu as fronteiras e promoveu 22 shows. No ano seguinte, foram 45 e, em 2009, 50. Neste ano, serão 85 e a expectativa é que em 2011 sejam 100.
E, assim como não se restringe ao rock, vai além da música. “Temos a música como primeira linguagem a ser explorada, mas a gente acredita que as plataformas que estamos criando podem ser utilizadas por todas as linguagens artísticas”, diz Talles, exemplificando com a circulação, ainda que embrionária, de teatro, e com as vinhetas disponíveis no YouTube.
Patos de Minas vai ter, além dos shows, debate ambiental com mostra de vídeo. Em Guaxupé, exposição de artes visuais; em Ipatinga, espetáculo de dança; em Uberlândia, produção colaborativa de conteúdo.
Informações neste link.