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As cidades não metropolitanas têm seus fulgores. E não gostam de serem consideradas interioranas, até porque nem tão longe estão dos grandes centros e da orla marítima na época em que aviões e helicópteros encurtam cronologicamente as distâncias.
Desses burgos, grandes brasileiros partiram para as plataformas do mundo. Santos Dumont, saindo da cidade que hoje tem seu nome, para conquistar o controle sobre o veículo aéreo; Guimarães Rosa, que surgiu com sua ficção da boca do sertão, Cordisburgo, para perenizar-se nas letras; e o atual presidente da República, nascido num remoto lugar nordestino, se tornou "o cara", como o classificou o presidente da maior potência do mundo?
Nossas terras não têm apenas palmeiras onde cantam os sabiás. Há muito mais. É o caso de Cataguases, que gerou uma plêiade de escritores revolucionários, enquanto os tenentes brigavam por transformações políticas e correção nos rumos da administração nacional.
Um grupo de rapazes daquela cidade da Zona da Mata mineira andava "pari passu" em termos de ideias e de reformas na maneira de expressão literária. Francisco Inácio Peixoto, Guilhermino César, Rosáfio Fusco, Henrique de Resende e Ascânio Lopes estão no mesmo nível dos modernistas de 1922, e foram contemporâneos.
Em 1927, lançaram uma revista mensal de arte e cultura com o nome de "Revista Verde", que todo o Brasil que lê conhece, e quem não conhece, comete erro. Maria Zilda Ferreira Cury, em capa do livro "Francisco Inácio Peixoto, em prosa e poesia", apresentado, organizado e com notas de Luiz Ruffato, pergunta: "Como explicar um 'surto modernista' na pequena Cataguases, e ainda surto cronologicamente simultâneo às manifestações dos grandes centros como São Paulo e Rio?" Ela responde, mas as respostas estão nas obras de Niemeyer, Brecheret, Portinari, Djanira e Burle Marx que lá se encontram, e surgiram quando o cinema moderno brasileiro nascia com Humberto Mauro, também lá. Um milagre "no interior".
Muito do nome de Cataguases como polo avançado de cultura e arte se deve, exatamente, a um daqueles rapazes que, em 1927, lançaram a "Revista Verde", no ano em que Juscelino se diplomava médico na Faculdade de Medicina, em Belo Horizonte.
Francisco Inácio Peixoto e João Guimarães Rosa entraram juntos em concurso para o Itamaraty em 1935. Aprovado, o escritor de Cordisburgo prestou serviço ao Ministério; o mesmo não aconteceu a Chico Inácio, que muito se frustrou ao não ser convocado a servir no país no exterior. Se o Brasil não ganhou um bom diplomata. Cataguases ganhou em tê-lo em empreendimentos notáveis.
Maria Zilda comenta Francisco Inácio: "Foram 54 anos de produção literária, exígua, mas robusta, sobretudo na expressão e no resgate das vozes do cotidiano desses muitos Brasis que se abrigam sob um único nome."Se não atuou no Itamaraty, o escritor não deixou de percorrer mundo - ou como homem de letras ou como empresário bem sucedido e pioneiro. De tudo, deixou registros valiosos, mas econômicos, como bom mineiro.
Sobre ele, redigiu Drummond: "Francisco Inácio, usina pessoal de sonhos que se tornam realidade/ para voltar depois ao reino escuro de antes do sonho./ Ainda uma vez, que importa?/ Na água-espelho dos setent'anos/ a face límpida do criador vence as mesquinhas/ contingências do tempo".
Agora, no "Jornal do Enéas", que o escritor Enéas Athanazio edita em Balneário Camboriú (SC), encontro a crônica de Rosário François Fusco, filho de um dos pioneiros da "Verde". Conta um episódio de que é personagem Francisco Inácio. Certa vez, passando defronte à sua casa, no início da noite, ele ouviu gritos do escritor-empresário.
O rapazelho entrou imediatamente na casa e deparou o austero senhor defendendo-se ferozmente, com sua inseparável bengala, dos voos rasantes de um morcego que entrara na sala. François fez o animal sair, com gestos e gritos. Para o expulsador do morcego, este representava a mediocridade que habitava a cidade; para o autor destas mal traçadas linhas, seria a omissão e a corrupção que tomaram conta do país, hoje.
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O Brasil está muito bem, obrigado. O tempo das vacas magras se foi. Em consequência, o presidente pode andar pelo planeta acusando, às vezes grosseiramente, as nações ricas do Norte, pelo que deixaram de fazer pelos pobres, do Terceiro Mundo ou emergentes.
Em sua viagem ao Haiti, e a pequena nação merece respeito e ajuda, ativaram-se 30 programas, a cargo da Agência Brasileira de Cooperação, somando US$ 15 milhões. Mas desde janeiro, o Brasil já destinara R$ 375 milhões em investimentos para a reconstrução do Haiti.
Lula disse: "A viagem ao Haiti é de solidariedade para que a gente possa dizer ao povo do Haiti e ao Governo do Haiti que o Brasil vai continuar sendo solidário". Prevalece a lição da galinha: tem de botar o ovo e anunciar.
Em Cuba, onde Lula esteve recentemente, aprovaram-se créditos de cerca de US$ 950 milhões, dos quais R$ 350 milhões para venda de alimentos, e US$ 600 milhões para investimentos em agricultura e infraestrutura. O volume de empréstimos à ilha somara US$ 1,2 bilhão em 2012, contemplando ainda cultivos de arroz, cana e indústria farmacêutica.
Antes que me esqueça. O Brasil anunciou também R$ 300 milhões para modernização do porto de Mariel, visto como porta de acesso ao mercado norte-americano. Nem sempre, porém, os beneficiários retribuem o amparo encontrado. É o caso da Bolívia que, mais de uma vez, tem recebido tratamento privilegiado do Brasil, de que é o grande fornecedor de gás.
O Tesouro brasileiro ou empresas liberaram expressivos empréstimos a La Paz, e, em contrapartida, Evo Morales, "muy amigo", em plena lua de mel pela bondade com que é tratado, decidiu invadir propriedades da Petrobrás. É sintomático o comportamento.
E não é só: a Bolívia está comprando, ou tentando comprar seis aeronaves chinesas no valor de quase US$ 58 milhões para combater o narcotráfico do país, terceiro maior produtor mundial de cocaína.
Morales diz que decidiu comprar o K-8, um avião de treinamento chinês que pode ser usado como avião leve de ataque, depois de os Estados Unidos terem impedido o país de adquirir aviões semelhantes da República Tcheca.
O principal aliado regional de Morales, o presidente Hugo Chávez também está negociando jatos chineses sob propósito anunciado de perseguir aviões que transportam cocaína. Será que os aparelhos fabricados pela Embraer não servem? Afinal, o metrô de Caracas está sendo ampliado com recursos assegurados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social... do Brasil. E o metrô de Belo Horizonte?
Enquanto isso acontece, reuniões se sucedem e o silêncio prevalece em muitos casos, inclusive quanto ao Maleta-Gate, envolvendo funcionários da Argentina e Venezuela, resultante da entrada em Buenos Aires de US$ 800 mil não declarados na mala de um empresário venezuelano.
Segundo denúncia à Justiça Federal, foi um "suborno transnacional, encobrimento e lavagem de ativos de origem delitiva". Esta a versão de Gerardo Morales (que nada tem com Evo), da União Cívica Radical, candidato a vice-presidente nas eleições de outubro na chapa de oposição liderada pelo ex-ministro da Economia Roberto Lavagna.
Em sua turnê mais recente - outras estão programadas -, o presidente brasileiro também anunciou um crédito de US$ 300 milhões para a renovação da frota de ônibus de El Salvador. O Brasil segue pródigo e liberal.
O mesmo não se dirá de outras nações. Na Suíça, por exemplo, a Suprema Corte decidiu que US$ 4,6 milhões congelados de contas bancárias ligadas ao ex-ditador do Haiti Jean-Claude Duvalier, o "Baby-Doc", poderiam ser devolvidos à família. Mas o Governo informou que o dinheiro ficará bloqueado até aprovação de uma lei que destine a trabalhos de caridade no Haiti. Segundo muitos haitianos, esse dinheiro foi desviado dos fundos públicos no país e deveria ser imediatamente retornado, sobretudo agora que a nação atravessa a pior das crises de sua história. Não se esquece: 'Baby Doc' foi derrubado do poder em 1986, após 15 anos de poder autoritário. E o dinheiro anda pelos bancos da Suíça, até hoje, sem função solidária.
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Indigna-me saber que perigosos criminosos estão soltos, presos e liberados por medidas judiciais, ou que simplesmente conseguiram fugir às grades. É o caso, por exemplo, do traficante Marcelo Ricardo Pereira, o Boto, mais uma vez localizado pela polícia do Rio e trancafiado.
A aparência do indivíduo, 36 anos, é de malfeitor, e dirigia um carro roubado no Rio de Janeiro. Entre suas ações, o ataque a um ônibus da Viação Itapemirim, que fazia o percurso Vitória-São Paulo. O veículo foi incendiado na Avenida Brasil, com seus 28 passageiros dentro. Oito morreram e sete ficaram feridos, alguns gravemente como a modelo Bia Furtado, que teve 45% do corpo queimado.
Há possibilidade de recuperação do criminoso, chefe de venda de drogas no Morro do Tuiuti, na Zona Norte de uma das mais belas cidades do planeta?
O Brasil não esquece João Hélio, o menino de 6 anos, arrastado por seis quilômetros pelas ruas do Rio de Janeiro, que faleceu em consequência de graves ferimentos. Os autores foram quatro adolescentes à época - fevereiro de 2007. Três anos passados, o hediondo crime não sai da cabeça dos brasileiros que dele tomaram conhecimento.
Assalto seguido de morte cruel.
Um dos autores, já maior, preso, praticava extorsões dentro da cadeia, onde cumpria pena de 44 anos e três meses de prisão. Monitorado pela polícia, no Complexo Penitenciário de Bangu, comprovou-se que ele simulava sequestros para tirar dinheiro de famílias - o "disque-extorsão". Mesmo com os bloqueadores de celular, chegaram a realizar cerca de mil ligações diárias, até para outros Estados.
Um dos autores do homicídio, agora maior, ameaçado de morte na prisão, seria enviado junto com a família para outro Estado, com nova identidade, como os demais, incluído no Programa de Proteção à Criança e ao Adolescente Ameaçado de Morte da Secretaria Especial de Direitos Humanos. O alerta da Imprensa evitou a grave liberalidade.
É possível, e quase aconteceu.
Esses fatos revoltam os homens de bem deste país e os que repartem a dor com a família da vítima, ela também é vítima de atrocidade. Nada se pode fazer? O advogado Gilberto Pereira da Fonseca contesta o estabelecido no Estatuto da Criança e do Adolescente:
"O estatuto é um incentivo ao crime e deveria ser mudado com urgência. Esta pessoa física ficou três anos internada e foi solta após um crime hediondo. Agora, entre todas as pessoas ameaçadas de morte no país, ele desfrutará de casa e nova identidade".
O causídico pergunta: ele está apto a conviver em sociedade? Quem abonará a decisão e se responsabilizará pela conduta de quem, ainda menor, praticou um crime tão bárbaro? Uma situação que se lastima, mas ainda sem solução.
Nas grandes cidades não poderá agir como nas de pequeno ou médio porte, como São Joaquim da Barra, em São Paulo. Ali, os menores de 18 anos não podem estar na rua depois das 22 horas, desacompanhados dos pais ou retornando de atividades educativas. O objetivo é minimizar as situações de risco a adolescentes, quando em verdade há jovens assaltando, violentando e matando em grande parte das cidades, em todas as regiões.
De fato, o crime se banalizou no país. Mata-se por um problema de somenos importância, ou sem importância alguma. Um esbarrão involuntário ou o furto de objeto até desavalioso impele o indivíduo a lançar mão do revólver e destruir a vida de um cidadão e de uma família. A vida vale pouco, mas porque também a impunidade ganhou foros de instituição ou de direito.
Há interesses pérfidos nesta situação, em que adolescentes passam de usuários de drogas a seu intermediário, na capital, no seu entorno, em todo o Estado. Os comerciantes da droga maldita, de todas as idades, pululam por todos os lugares. A autoridade não tem como mantê-los presos, porque há necessidade de espaço para os que estão chegando.
A situação é muito mais grave do que a da época do famoso inspetor Padilha, no Rio de Janeiro. Infinitamente pior do que Chicago dos anos 30. A criminalidade se alastrou como erva daninha.
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Houve anúncio, anos atrás, de um "abril vermelho", que compreendia a invasão de várias propriedades rurais no país pelos grupos sempre, com os objetivos de sempre. Enquanto isso, a expressão "reforma agrária" se tornou praticamente encontrável de novo nas conversas e nas páginas dos jornais, que não deixam para depois.
Há alguns meses, a revista "Veja", destacando o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, ressaltava que além de invadir, depredar e saquear fazendas, ele ameaça de morte, pratica extorsão e terror entre os próprios camponeses. "O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária funciona como um braço auxiliar dos criminosos, que recebem dinheiro, informações a apoio logístico para executar as operações", registrou.
Num corte de jornal, encontrei a nota: Temos um governo que nos últimos anos transferiu mais de R$160 milhões para entidades ligadas ao MST, que financia, com dinheiro público, ações que ninguém pode chamar de movimento social. E se pergunta: "Movimento social destrói sede da Embrapa, unidade de pesquisa da Aracruz, promove cárcere privado, destrói laranjal da Cultrale?" São indagações que se perdem na imensidão das outras sem resposta neste país extraordinário.
Algo precisa ser feito para acabar com os excessos frequentes, com o desrespeito à propriedade, para que a comunidade internacional, ela própria, acredite mais no Brasil, um dos grandes fornecedores de bens do campo a todo o planeta. Haja vista que as exportações do agronegócio brasileiro chegaram a 42% de todas as vendas externas nacionais, no exercício passado; além de ser a maior participação na pauta de exportações desde a década de 60. O ministro Stephanes observa que não são as vendas do agronegócio que aumentaram mas os outros setores é que exportaram menos por causa da crise financeira. A produção dessa área não sofreu a redução que os demais itens registraram. Há, pois, de preservá-lo, e condições de incentivá-lo, podendo conquistar, em curto prazo, 10 bilhões de dólares.
Diante desses dois fatos, há de analisar-se e buscar explicações e respostas. Estas aparecem com Guilherme delgado, doutor em economia, professo visitante da Universidade Federal de Uberlândia, ex-pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, especializado em política agrária. Ele fez em algumas linhas uma síntese questão:
"O problema todos estão no estatuto jurídico da propriedade fundiária. A Constituição de 1988, em vigor, define, a terra como um bem social - não é uma propriedade absoluta, onde se pode fazer o que bem entender.
Existe aqui uma pendência política sem solução, que envolve governo, agricultores, imprensa etc. A terra está sujeita por lei à desapropriação; aí nascem o conflito e as pressões do poder agronegócio. Para cumprir sua função social, precisa ter produtividade, mas os índices hoje usados estão muito defasados.
A referência é o censo agrícola de 1975, feito portanto há mais de 30 anos. Outra exigência é o respeito à legislação ambiental, que não se aplica na reforma agrária, pois falta a regulamentação. Não vale também para desapropriação o uso da terra com trabalho escravo ou mesmo com plantio de maconha.
Na Europa, que valoriza a agricultura familiar, há um tratamento severo para aplicação das regras de meio ambiente. O critério da produtividade, defasada, é o único aplicável atualmente. Enquanto o Brasil não resolver essa situação, não teremos sossego no campo".
A pergunta final, vamos dizer assim, ficar para mim mesmo. E por que não "resolver essa situação? Que interesses o impedem? Enquanto não se deu respostas práticas, o movimento dos sem terra estupra a Constituição, como declarou, há quase um ano, o professor Ives Martins. Não respeita a lei nem a ordem, continua a receber apoio, mesmo quando, além do esbulho, começou a adentrar o caminho dos crimes contra a vida em suas invasões ilegais.
Mas a vida não para, Juiz de Lençóis Paulista, SP, aceitou denúncia do Ministério Público contra 22 integrantes do MST acusados de envolvimento na Depredação da fazenda da Cultrale em Iaras, SP; e o prefeito de Aracantuá, mandou requerer o despejo de 70 famílias de dissidente do MST, que acamparam numa área do município no sábado de carnaval. Porque o Movimento não participou dos festejos de Momo. E o governo não responde a questões essenciais.
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Até 21 de março, a exposição "Bax - O mar de Minas", na Galeria de Arte Copasa, na Rua Mar de Espanha, 525. Tudo a ver com esta terra que ele tanto amou, desde Japão de Oliveira, hoje Itaguara.
Terceiro mês do ano, signo de Peixes, sob o qual também vim ao mundo. Quando a Copasa ainda era Comag, fui conhecer o projeto de Rios, o idealizador do empreendimento, na modesta sede da Rua Espírito Santo. Deu certo. Transcorridas décadas, já se pode aferir que as águas correram por seu leito, para chegar a bom termo. A água de Minas serve às gentes de Minas. Somente agora me inteiro de que o servidor número 1 da velha companhia era nada mais, nada menos, do que o excelente Petrônio Pereira Bax, amigo do coração, que não teve a ventura de assistir à sua inauguração de exposição na rua-cidade, que é Mar de Espanha. Tampouco quiseram os bons fados que o artista estivesse presente à sua belíssima mostra sobre a face de Jesus, em Ouro Preto. Nem à exposição em Belo Horizonte "O mar de Minas", se bem que estivesse de corpo inteiro, de plena arte, na criação de temas que pertencem ao homem e ao perene. Deus e os dons da natureza. O número 1 da Comag é o número 1 de criações belíssimas, que só aos predestinados se confere o dom. Inspira-se o artista no pobrezinho de Assis, recebendo o acolhendo em suas telas cores que conduzem os sentimentos à beleza suprema. Diante da criação de Bax, tão retraído e tímido em sua grandeza criadora, mergulhamos na água de seus sonhos e de sua maneira de ver a terra, e os homens, e os bichos todos, e os bens da flora, que fazem a pátria universal.
Quem visitar a exposição de agora, identificará detrás das cores e das imagens o universo das terras da Umbria, onde nasceu um dos santos mais amados do catolicismo: II Poverello. O século XI é o século XII findante e o nascente XIII, quando as lutas entre guelfos e gibelinos agitavam as cidades italianas.
Como São Francisco, Bax irmanou-se com o universo, foi irmão do sol, da água, das aves e dos demais animais. O "Cântico ao Sol", com o qual o Poverello proclama seu amor a tudo que existe, é uma das mais lindas páginas da criatividade humana. Com a exposição "O Mar de Minas", Bax nos brinda, com sua adoração pela vida seu ingresso num outro tempo e lugar. Como o santo da Itália, deixou o burburinho da cidade e continuou sua obra no alto das montanas de Minas, de onde vislumbrou mais longe e para sempre os caminhos do homem pelo infindo e pelo perene.
Simone Bax, a filha, faz a peregrinação das telas pelo mundo que foi do pai e ainda é nosso. Ainda. Percorremos as mesmas vias no sentido do eterno e do glorioso, que é dos homens de boa vontade e de fé. Este o grande mistério e significado da arte. Na do pintor de Japão, uma arte ingênua, alegre, com as cores e inúmeros tons, advertindo para a beleza que há diante de nós e não vemos. Há de se despertar para ela e senti-la, pois gera enlevo e felicidade. Mauro Santayana, que percorreu mundos, conheceu pessoas, simples e importantes, avalia que Bax propõe reajustamento do mundo a partir da beleza: "Talvez chocado com as superfícies, pejadas de coisas técnicas e aprisionadoras, mergulha na infância e nos oceanos imaginários, descobrindo a beleza no território vedado à depredação do homem." Razão tinha René Dionnet em seu "Salmo do Pintor", ao reverenciar os artistas do pincel, recriando o mundo nas telas e nos murais; da terra verde, suporte da vida; do vermelho, símbolo de seu amor; do branco, emanação de seu poder; do azul símbolo da sabedoria. Nas palhetas da jubilação, no atelier do trabalho, na natureza, com os pássaros, com a erva do chão... os pintores do Senhor, cabem louvar, porque sua alma é uma bênção de Deus, imitação de seu poder criador!
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Guardei o livro de Fernando Zuba, mas o deixando bem à mão. Poderia ter de a ele recorrer, a qualquer momento. Em verdade, o assunto que focaliza é antigo e pode voltar à pauta a qualquer instante. O livro? "Malvinas: Crônicas de Guerra", que o jornalista de Montes Claros editou, em 2008, pelo Armazém de Ideias.
Só a palavra-título diz muito: "Malvinas"; talvez bem mais conhecido que "Falklands", que os europeus e norte-americanos mais facilmente memorizavam. O importante é que, transcorridos dois anos e pouco, foi oportuna a ideia de conservar o volume com os escritos de Zuba bem perto. Mais uma vez, a histórica querela em torno do arquipélago do Atlântico Sul, que os ingleses querem para si e que os argentinos consideram seu, voltou ao noticiário internacional.
É que, na segunda quinzena do curto fevereiro, a plataforma Ocean Guardian, da empresa Desire Petroleum, estava em Port Stanley, capital das ilhas, para iniciar quase imediatamente a exploração de hidrocarbonetos na bacia norte do arquipélago, segundo as próprias autoridades locais.
Que se poderia fazer? Entrar em guerra com os ingleses como os membros da ditadura militar argentina fizeram anos atrás, em 1982, e assistir à derrocada de uma expectativa de recuperação do arquipélago, tão próximo ao território platense?
Foi mais um morticínio a que se assistiu de longe, porque interessava fundamentalmente à Grã- Bretanha e à Argentina.
Aquela perdeu 235 soldados, mortos, mais 777 feridos; 10 aviões e 24 helicópteros destruídos, dois destróieres, 2 fragatas e 2 navios auxiliares afundados e 3 destróieres, 3 fragatas e 2 navios auxiliares avariados.
Do lado da nação sul-americana, perdas muito maiores. A guarnição militar contava nas Malvinas com 10 mil homens do Exército, incluindo unidades de fuzileiros navais, veículos blindados "Panhard", aviões "Pucará", "Hércules C-130", helicópteros "Bell UH" e "Puma", Caças "Skyhawk", "Dagger", "Mirage HI" e "Super Etendard", que operavam a partir do continente.
Cerca de mil homens perderam a vida e número não divulgado de feridos, 76 aviões e 26 helicópteros destruídos, 1 cruzador, 1 barco-patrulha e 3 navios auxiliares, afundados além de dois barcos-patrulha avariados.
Uma tragédia, que até hoje envergonha os argentinos e provoca lágrimas em numerosas famílias dos que esperavam que seus homens viriam do campo de guerra vitoriosos e que o sonho de retomada do arquipélago se concretizasse. Um sonho fugaz!
Para a alma argentina, uma insuportável decepção! E os que lá nasceram têm acendrado amor à pátria, um orgulho do que são e não admitem perder, seja nos campos de futebol, seja nos campos de batalha.
Zuba, que lá estava, narra o fim da inglória campanha. No dia 14 de junho, a Inglaterra disparou os últimos tiros, fez milhares de prisioneiros, porque a guerra estava vencida. Seus soldados entraram nas ruas de Port Stanley sem qualquer reação. Pouco depois, representantes dos dois lados se encontraram para discutir os termos da rendição. Cerca de 9.800 soldados argentinos entregaram suas armas.
A derrota oprime, deprime e, às vezes, avilta. Para o jornalista-escritor, o fim da campanha desgastou ainda mais o regime militar, havia dez anos no poder. Diz mais: "Da euforia inicial à humilhação da derrota e a dor da verdadeira tragédia que se abateu sobre o país, o povo voltou às ruas para chorar pelos seus mortos e clamar pela cabeça do general Leopoldo Galtieri e demais integrantes da Junta Militar".
Galtieri foi removido do poder, outros militares de alta patente julgados e condenados. Realizadas eleições no ano seguinte, com participação de 80% do eleitorado, foi escolhido para dirigir a nação Raúl Alfonsin, advogado, que introduziu profundas reformas nas Forças Armadas e levou aos tribunais a aventura nas Malvinas.
Mas a guerra não terminou. Os ingleses põem mais lenha à fogueira, ao iniciar a exploração de petróleo nas Falklands. É mais um peso que a Argentina suportará, agora com a solidariedade de povos da América, que defendem a tese que o grande império dos mares já terminou.
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Bem decidiu o Governo de Minas Gerais ao patrocinar a edição de cinco livros importantes em nossa literatura e que se achavam esgotados. São obras marcantes e a reedição mais deu grandeza ao centenário de fundação a Academia Mineira de Letras, que - no ano passado - se comemorou.
Entre as publicações, uma praticamente desconhecida dos novos leitores e pouco ainda sabida dos antigos. É "Parnaso Mineiro", de Francisco Coelho Duarte Badaró, cuja primeira edição (e única?) se deu em 1887, em Ouro Preto, exatamente dez anos antes da solene inauguração de Belo Horizonte como nova sede do governo.
Impresso na Tipographia da Província de Minas, tem como subtítulo "Notícia dos poetas da Província de Minas Geraes", evidenciando a modéstia ao autor, que exerceu a advocacia na antiga metrópole. Na tiragem de 2009, o prefácio é da professora Maria Francelina Pereira Ibrahim Drummond, que me esclarece que, de fato, a edição de 1887 é única, acrescentando valiosas informações sobre o escritor e seu legado.
Para ela, a obra "é precursora da História da Literatura Mineira"o que, por si só, justifica ter um desses pequenos volumes à mão e aos olhos. A professora adverte para o surgimento dos "parnasos", ou "antologias" em nosso meio, com esta denominação e várias outras. "Ao longo do século XIX, este gênero constituiu a base documental para a consolidação do cânone nacional".
Explica mais: "Apesar das variações semânticas, os termos designam seleções de textos literários em prosa ou verso, seguidos da indicação biográfica dos autores". F.C. Duarte Badaró é "discreto no objetivo de tão somente recuperar o leitor para a literatura, mas o "Parnaso Mineiro" é expressão regional destas antologias." Mas a primeira a reunir poetas da Província de Minas. A iniciativa do autor foi primeira, pois antes de sua obra, não se tem notícia de outra publicação com o propósito de organização antologia de poetas mineiros com esboço de crítica..."
Duarte Badaró nasceu em Piranga, estudou no Caraça, passou a Ouro Preto para os preparatórios e se formou em Direito em São Paulo. Em 1884, foi nomeado promotor em Minas Novas, fez-se juiz municipal concursado, juiz de Direito e se casou com a filha de líder político local, como era bastante comum à época. Tornou-se personalidade, foi ministro junto à Santa Sé, mereceu uma extensa biografia de Murilo Badaró.
O autor seleciona quatro poetas do século XVIII: Cláudio Manoel da Costa, José Basílio da Gama, Frei Santa Rita Durão e Manoel Inácio da Silva Alvarenga; e 13 do século XIX: José Elói Otoni, José Joaquim da Silva Guimarães, Padre Manoel da Silva Guimarães, Padre Correia de Almeida, Bernardo Guimarães, José Pedro Furst, Jaime Augusto de Castro, Aureliano Lessa, Afonso Celso Júnior, Pedro Fernandes, Randolfo Fabrino e Antônio Augusto de Lima.
Curiosamente, no "Parnaso" encontrei um bardo de Montes Claros, que me era completamente desconhecido: Pedro Fernandes "um grande e desventurado talento sublevado", "não conhecia conveniências ante a mediocridade assanhada e atrevida", golpeava os sandeus com um vigor inclemente", "dotado de um gênio desigual e violento, adquiria muitos inimigos, que depois o perseguiram até dentro na mesma cova!"
Exerceu a advocacia no serão e "alevantou a tribuna judiciária". Para Duarte Badaró, "o poeta morreu na madureza do talento: suas numerosas poesias existem". "Provavelmente aparecerão, mas quem sabe se como obra de algum aventureiro?"
Todo volume é digno de atenção. Mas o autor lembra também, como dito, o Padre Silvério Ribeiro do Carvalho, que no seu tempo teve muito prestígio e admiradores. Nasceu e viveu no arraial do Paraopeba, seguindo a profissão dos pais - lavradores. Não se sabe a data de seu nascimento, mas Duarte Badaró afirma que, em 1842 vivia, tendo composto versos para os rebeldes finalmente derrotados em Santa Luzia.
Escreveu sátiras, mas também admiráveis liras, algumas em louvor a D. Maria Madalena, mulher do governador Athaydes e Mello. A ela, dedicou poesias ora alegres, ora tristes e - mesmo - amorosas.
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O terremoto que feriu tragicamente o Chile no dia 27 dá sequência ao cruel início de ano nesta parte do mundo. Depois da tragédia que abalou o Haiti em janeiro, a que enlutou fevereiro nos Andes deixa rastros de dor e sangue.
Não é a primeira vez que o progressista país andino sofre com esses fenômenos. Mesmo as pessoas da atual geração terão recordações de registros anteriores, que apresentaram uma letal contabilidade de vítimas e altíssimos prejuízos materiais.
O desastre foi antecipado pela fragorosa derrota do Colo Colo, prestigioso clube esportivo chileno, uma espécie de Siderúrgica, de Sabará, ou do Vila Nova, de Nova Lima, por seus liames com a indústria extrativa nacional. Mas o fracasso do time diante do Cruzeiro, em Belo Horizonte, em pleno Mineirão, sequer imita em distância a catástrofe do final de fevereiro.
O Chile, facilmente identificado pelo mapa mundi, constituído por uma faixa de território entre a Cordilheira dos Andes e o mar, com máxima largura de 360 km, numa extensão de 4.300 km, é uma franja à esquerda da América do Sul.
O Chile é, porém, mais do que salitre e cobre, explorados por poderosos grupos internacionais. É povo, que se manifestou em sucessivas oportunidades e deu caminho a projetos progressistas, que fazem do país um dos mais adiantados do hemisfério.
A nação conquistou dois Prêmios Nobel de Literatura: Pablo Neruda e Gabriela Mistral. Aquele se meteu em política, quase sem querer, movido pelas circunstâncias e ideias. Foi amigo e correligionário do presidente comunista Salvador Allende, que se suicidou no Palácio de La Moneda, atacado por fortes contingentes militares de terra e ar.
Confessou: "A vida política veio como uma tempestade para me tirar do meu trabalho. Voltei uma vez mais para a multidão. A multidão tem sido para mim a lição de minha vida. Posso chegar a ela com a inerente timidez do poeta, com o temor do tímido, mas - uma vez em seu seio - sinto-me transfigurado. Sou parte da maioria essencial, sou mais uma folha da grande árvore humana".
Mas o poeta fala do mar, não de terremotos.
De "viernes", sexta-feira, para sábado, pela madrugada, deu-se o cismo, o sexto maior registrado pela história, destruindo edifícios, pontes, viadutos, casas e muito que o homem erguera sobre o solo em Santiago e Concepción, a segunda maior cidade do país. A magnitude se avaliava pelos 8,8 graus na escala Ritcher, de dez pontos.
Os dados são veementes por si. O terremoto, segundo o Instituto Geológico dos Estados Unidos, foi mais forte que o do Haiti, no mês precedente, que alcançara 7,0 pontos. O epicentro foi o mar, a 115 km de Concepción e 325 de Santiago, o mais forte no Chile, ao longo da história, mas também em todo mundo.
Lembramos o de 22 de maio de 1960, na região de Valdivia, que atingiu 9,5 pontos. O mais mortal ocorreu em 24 de janeiro de 1939, que roubou a vida de milhares de pessoas entre 30 mil e 50 mil. Os efeitos da energia liberada se estendeu a todo o Pacífico, do Norte a Sul, sendo adotadas medidas prévias para evitar maiores males na costa de outros países, pois o cismo de fevereiro demonstrou que as catástrofes são globais. Tsunamis eram temidos em outros mares.
Centenas de pessoas morreram e 2 milhões foram afetadas, e assim continuará até que se recupere o que restou, embora as vidas não possam ser resgatadas dos escombros. Há males irrecuperáveis.
A paisagem pátria que inspirou o poeta não será sentida tão proximamente como se desejaria. Há necessidade de um novo renascimento. Neruda: "Voltando ao Chile, fui recebido por uma vegetação nova nas ruas e nos parques. Nossa maravilhosa primavera pintara de verde as folhagens dos bosques. Fazem tanta falta as folhas verdes à nossa capital cinzenta como faz falta o amor ao coração humano. Respirei o frescor dessa jovem primavera".
O Chile tem altas montanhas, as mais altas da América do Sul. Mas é também vítima dos vulcões e dos tremores de terra, cuja intensidade chega ao Brasil, cujos prédios altos oscilam e causam medo e tonteiras. O novo presidente do Chile chega ao posto supremo da nação em momento dramático. Terá de demonstrar superior condição para vencer o quadro encontrado e que lhe legará Bachelet. Receberá incumbência de dar sequência à construção de uma sociedade justa verdadeiramente.
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O problema é sério e, todos os dias, o noticiário dos jornais, das televisões e dos rádios aparecem prenhes de registros a respeito. Refiro-me ao narcotráfico, que financia as organizações criminosas do país e incentivam o uso das drogas, a partir da adolescência, mesmo na quase infância. Nos dias de Carnaval, aparentemente diminuiu o número de ocorrências anotadas pelas autoridades. Ou porque as festividades foram mais visíveis do que a ação policial, ou porque os agentes da lei tiveram de empenhar-se mais para a boa ordem do evento, ou porque, quem sabe?, os traficantes estivessem em atividades mais intensa com seu sórdido negócio.
Everardo Maciel, que não é do ramo, porque especialista em economia e finanças, comentou ainda no ano passado o tema. Declarou que são dispensáveis mais estatísticas para evidenciar a associação entre o narcotráfico e o vertiginoso aumento da criminalidade no Brasil, especialmente nas cidades. É uma questão abrangente na América Latina.
A violência é considerada resultado de desigualdades sociais, mas não é causa única. Assim, a solução seria de demorada solução, pois "a remoção ou mitigação" do problema não é processo rápido, nem simples. Se tivermos de acabar com as desigualdades, primeiro para alcançar a consecução do nobre propósito, os resultados não têm data. O caos urbano, como tenho repetido, é fator significativo para a violência e o narcotráfico, e nos grandes centros os núcleos urbanos estão muito próximos da periferia. Nestas, as habitações sub-humanas facilitam o desenvolvimento das atividades criminosas. Não são casas, mas ajuntamento de pessoas em espaços mínimos, praticando todos os atos e se testemunhando e se instruindo nos maus exemplos dos pais e dos de mais idade. Para Everardo, "a ausência do Estado e da lei é a causa primeira dessas zonas de exclusão social". Não há preocupação com o ensino e a educação dos que nascem, que vivem à mercê do que assistem, todos os dias e noites, de viva voz e por ação dos genitores, que não assumem as responsabilidades paternas.
Consumidor antecipado de drogas, vício adquirido no "lar", os adolescentes cedo ingressam no perigoso mercado, porque mais rentável que na atividade formal, para a qual não foram habilitados. E as ruas dos grandes centros são ali mesmo, na virada do morro e os usuários de classe alta ou média dispõem de recursos para saciar-se. O Brasil, maior nação da América Latina, é vulnerável à entrada dos mercenários das drogas, que têm milhares e milhares de quilômetros para furar a fronteira com suas cargas letais. Nem falo do que entra no território por via aérea e da enorme frota de caminhões que circula procedente de nossos vizinhos, que - mais pobres - estão dispostos a todas as ações. Como observou o escritor Júlio Ludemir, aqui dominar este ou aquele morro é uma questão de honra para as facções criminosas, por causa de seus "heróis", cultuados pelos seus súditos e por aqueles que, alguma vez, foram beneficiados com algum favor. Entre os heróis, Meio-Quilo e Escadinha, cuja história se confunde com a geração que ajudou a criar a mística do Comando Vermelho. Eram bandidos altamente populares, quase idolatrados pelas comunidades em que nasceram e foram criados. O enterro de Meio-Quilo foi prestigiado por verdadeira multidão, que gritava por seu "rei". Desafiando a lei e as autoridades, ergueu-se uma estátua em sua homenagem na principal praça de Jacarezinho. Não se esquecerá: a grande extensão das fronteiras constituem forte atração para as atividades ilegais. Por motivos vários, a inexistência de ações vigorosas das Forças Armadas e da Polícia Federal, carentes de efetivos e armamentos, são um convite para o descaminho e o contrabando, principalmente de armas e drogas. Cito exemplo. Para patrulhar a fronteira com o México, bem menor do que a nossa, os Estados Unidos usam 95 batalhões de artilharia, 150 helicópteros, 210 navios de patrulha e 110 aviões de busca. E nós?
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Suponho que jamais, em tempo algum, na história deste país, tantos problemas tenham sido transferidos ao âmbito da Justiça. A constatação leva à conclusão de que os dois outros poderes retrocederam na confiança do cidadão e de suas associações, e que a última esperança reside no Judiciário.
Pequenas e grandes questões, não resolvidas em nível administrativo, mesmo doméstico, são encaminhadas à Justiça, e nesse papel têm significativa atuação os juizados de pequena causa. A despeito de tudo, porém, os tribunais estão abarrotados de processos, por mais que os meios eletrônicos contribuam para amenizar o penoso desafio.
As faculdades entregam ao mercado anualmente centenas e centenas de novos advogados, para assumir a grave responsabilidade de interagir entre as partes. As demandas crescem estatisticamente, os crimes e delitos são utilizados como recursos das querelas não resolvidas por instrumentos hábeis da sociedade.
Por tudo que aí está dito, muito oportuna e útil é a apresentação de um pequeno livro, editado pela OAB Minas Gerais e a Del Rey-Livraria e Editora, neste incipiente 2010: "Ler ou não ler? Direito Cidadania Ética". No volume, a "Oração aos Moços", de Rui Barbosa; "A importância do Bacharel em Direito", do professor Ricardo Arnaldo Malheiros Fiuza; "Código de Ética e Disciplina da OAB", e "Os Dez Mandamentos do Advogado", de Eduardo J. Couture.
O advogado Luís Cláudio Chaves abre a publicação com curta mas relevante mensagem: Esta obra "serve para que os envolvidos no cenário jurídico brasileiro conheçam a importância da questão ética na advocacia, em relação à qual a Seccional mineira se dedica com veemência".
Reflete também "a importância de estimular o engrandecimento profissional e acadêmico de todos os envolvidos na rotina forense, sejam advogados, magistrados, promotores, defensores, servidores, estagiários e demais profissões essenciais ao funcionamento da Justiça".
Diante do que se registra em nosso meio, é essencial que o advogado se sinta responsável também pelo que acontece em nosso meio e a valorização pela confiança que a sociedade nele deposita. Mais do que nunca, na história deste país, desvios têm clamado pela ação desses profissionais, que têm grave responsabilidade social.
Couture ensina: "Tem fé no Direito como o melhor instrumento para a convivência humana; na Justiça, como destino normal do Direito; na Paz, como substituto bondoso da Justiça; e, sobretudo, tem fé na Liberdade, sem a qual não há Direito, nem Justiça, nem Paz."
Malheiros Fiuza, da Faculdade de Direito Milton Campos, acentua em certo ponto de seu depoimento, que constitui conselho e recomendação a todos os advogados: "O poder pessoal é próprio de seus negócios privados e, assim, disponível a seu sabor. Mas o poder institucional não é seu por inerência; é oriundo do Estado e, portanto, não admite transações e favorecimentos. Trata de coisas indisponíveis".
Nesta hora, em que políticos se envolvem primorosamente, em falcatruas e corrupção, a advertência é extremamente válida, porque obriga à admissão da sanção por atos delituosos. "O poder institucional é a força que a própria pessoa tem ou exerce, mas em virtude do cargo ou posição que ocupa na instituição chamada Estado. Não os confundam, sobretudo no exercício das funções públicas que vierem a abraçar."
E diretamente anos que operam na área do Direito: "E aqui entendo que o exercício da advocacia, chamada liberal, também é uma função pública "lato sensu", corretamente capitulada pela Constituição como função essencial à Justiça".
Em sua belíssima "Oração aos Moços", Rui Barbosa classifica o Direito "como uma grande bênção", um verdadeiro sacerdócio.
O grande tribuno, alquebrado pela idade e pela doença, emboca com escassos 71 anos, não conseguindo ler seu discurso de paraninfo aos formandos da Faculdade do Largo de São Francisco, em 1920, (quem o leu foi o professor Reinaldo Porchat), disse:
"Na missão do advogado, também se desenvolve uma espécie de magistratura. As duas se entrelaçam, diversas nas funções, mas idênticas no objeto e na resultante: a Justiça. Com o advogado, justiça militante; Justiça imperante, no magistrado". E recomendava "não fazer da banca balcão".
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