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Nascido em 1897, quase simultâneo com o cinema. Assim, Ronaldo Werneck começa trecho de um livro cuja leitura não pode ser negligenciada: "Humberto Mauro revisto por Ronaldo Werneck, editado pela artepaubrasil. A publicação não é rigorosamente, nova, tampouco velha. O que é bom vence o tempo e deixa marcas e sabores inesquecíveis. O vinho que o diga.
O volume tem outro nome: "Kiryri rendáua toribóca opé", que o cineasta traduziu ao pé da letra como: "Calma lugar rancho alegre no", ou simplesmente "Lugar de calma e sossego no Rancho Alegre". Ora, seria um trabalho para brasileiro algum desconhecer, muito menos os mineiros.
O livro é primoroso no texto, na concepção, na riquíssima iconografia, na felicidade do material - redigido, fotografado e extraído dos filmes. Enfim, algo para ninguém botar defeito e que, mais do que isso, deve ser preservado carinhosamente em lugar adequado, por conter o que agrada ao coração e ao espírito.
Quem assiste ao cinema contemporâneo tem o dever artístico, histórico e cívico de conhecer Humberto Mauro, que nasce naquele remoto 1897, quando também nasceu Belo Horizonte como capital de Minas Gerais. Para se ter ideia da importância desse montanhês de Cataguases, poderia recorrer a Sheila Schvatzman, numa publicação da Unesp, de 2033. Ali, ela diz: "Mauro percorreu e construiu com suas lentes o país que se inventa e reinventa sem cessar. Colocou em movimento as imagens e o imaginário que conformaram o Brasil até então e continuavam a se produzir, dando-lhes a sua interpretação, acrescentando símbolos, reiterando outros... Humberto Mauro constrói um Brasil que vem a se tornar, elas mesmas, matrizes do cinema brasileiro".
Ofereço tópicos do livro de Ronaldo para se avaliar a relevância do papel do cineasta e do poeta. O indomável Glauber Rocha, há 40 anos, deixou registrado: "...chamaríamos Humberto Mauro de puro, mas não de primitivo. E neste puro não está implícita a mínima relatividade. Puro como John Ford, puro como Griffith ou puro como o cinema intelectual de Eisenstein (
) Seu mundo é a paisagem mineira, o Mauro seria o único cineasta capaz de filmar Guimarães Rosa e dar no cinema a mesma dimensão do grande romancista".
E diria o próprio cineasta de Cataguases: "A roda d'água, por exemplo, é de uma fotogenia extraordinária. Aquele rodar lento, os musgos, a água batendo contra o sol. Agora, troca por um motor a turbina e vê a porcaria que fica. Pega um carro de bois no topo de um morro, contra o sol, o candeeiro, o carroceiro em cima do cabeçalho - é de uma beleza incrível! Agora, tira e bota um caminhão fenemê: é uma droga. O progresso é antifotogênico".
O poeta conterrâneo, que voltou ao lugar de nascença, diz que "revendo essas palavras, suas palavras-imagens, percebo como o cinema estava nele como se dele nascido, de tal modo que Mauro acabava sempre falando como se filmasse", extraindo beleza.
Quem não ler e sentir esse livro, não conhece nosso cinema.
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O governo concedeu visto de turista para a dissidente cubana Yoanni Sanchez vir ao Brasil a fim de apresentar o documentário "Canexión Cuba - Honduras", do cineasta Dado Galvão, do qual participa. Ela pedira autorização em carta enviada à presidente Dilma. Esta, cuidadosa no relacionamento com Havana, consultou antes a ilha, que sinalizou pela permissão.
A blogueira também solicitou, na oportunidade, audiência com Dilma, durante a visita que esta faria a Cuba nos dois últimos dias de janeiro. Mas o Planalto, de antemão, esclareceu que a agenda da presidente, embora não fechada, possivelmente não admitisse encontros com dissidentes. Suponho que o encontro entre as duas possa consumar-se, na permanência de Yoanni Sanchez no Brasil em data ainda não fixada.
Esses fatos se desenrolaram enquanto morria em Santiago de Cuba, o preso político Wilmar Villar Mendoza, no Centro de Cuidados Intensivos do Hospital Clínico Cirúrgico, onde se hospitalizara recentemente, durante longa greve de fome. É o segundo a falecer netas circunstâncias, repetindo o ocorrido com Orlando Zapata, de 42 anos, sobre quem se negou a manifestar-se o ex-presidente Lula. Mais uma vez, outros dissidentes foram proibidos de ir ao velório e ao sepultamento. Depois de mais de 50 anos de "democracia comunista" na ilha, com os sacrifícios enormes causados à população, pelo sistema de governo e pelo embargo econômico dos Estados Unidos, vão-se abrindo novamente caminhos para o capitalismo. O mesmo, enfim, que aconteceu com a União Soviética, de que se guardam dolorosas memórias.
A viagem de Yoanni ao Brasil será um acontecimento importante, se realmente se efetivar. Ela é responsável por um dos 100 blogs mais influentes do mundo, segundo a revista "Time". Terá muito que contar, se a tanto se dispuser, além do que divulgar incessantemente pelo seu "Generación Y".
Formada em Filosofia Hispânica, Yoanni confessou: "Para evitar endeusamentos e futuras crucificações, deixo claro em uma das páginas que o meu blog é um exercício de covardia: dizer na rede tudo aquilo que não me atrevo a expressar na vida real".
Mas se há de argumentar que não o conseguiria, mesmo com a acanhada abertura que se faz em Cuba.
Através de seu instrumento de comunicação, a cubana faz com que as paredes de sua vida se tornem transparentes: "Gentes de todas as partes do mundo estão atentas aos meus estados de ânimo e prestam atenção aos possíveis castigos que podem me ocasionar o trabalho on-line. Só a perda de minha privacidade - o fim de uma bolha fabricada com anos de silêncio, intimidade e reserva - evita que eu seja devorada pela engrenagem que já engoliu tantos". Entre eles, o que a autora não cita, Mendoza e Zapata, que visitantes ilustres de Cuba preferem ignorar.
As coisas assim estão. Cuba precisa de solidariedade e seu povo de compreensão e carinho. Na pauta da presidente, não deveria constar o pagamento do Brasil dos US$ 450 milhões emprestados pelo Brasil, para reforma do Porto Mariel. Há muito a registrar, mas pode não ser conveniente falar nisso. Entre os registros, de que em dezembro se completaram 40 anos de ter Fidel anunciado a adesão ao marxismo-leninismo. São fatos que se tornaram passado. Mas não se esquecem as privações, provações e sacrifícios.
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O mundo tem pressa, o Brasil tem pressa, o homem deste país tem tanta pressa que abrevia o próprio destino. Fica a meio do caminho.
Dizia-se ser a pressa inimiga da perfeição e pode ser o caminho mais curto entre dois pontos. A pressa causa estresse e é letal. Compulsem-se as estatísticas.
Os casos de invalidez permanente entre operários vítimas de acidentes de trânsito quintuplicaram praticamente entre 2005 e 2010, passando de 31 mil para 152 mil por ano. Dados mostram que a maioria dos acidentados - mais de 70% dos casos em 2011 - usava moto e estava em plena idade economicamente ativa, entre 18 e 44 anos.
A situação não deixa em pânico apenas as famílias, que perdem um ou o único membro ativo, passando a viver da ajuda do governo.
A situação inquieta a Previdência, que teme arcar com os custos de uma geração de aposentados por incapacidade.
O quadro, ampliado, ainda mais preocupa. Em 2011, a previsão é de que o país deve ter perdido de R$ 4,5 bilhões com acidentes nas estradas federais. Isso representa toda arrecadação de impostos, em um ano, no Acre, Alagoas, Amapá, Maranhão, Paraíba, Sergipe e Tocantins juntos.
No exercício passado, até agosto, os acidentes custaram R$ 9,5 bilhões ao país, um crescimento de 4,6% em relação a 2010, descontada a inflação. Foram 3.768 acidentes com mortes, 43.361 com feridos e 79.430 sem feridos nas rodovias da União. Um acidente por morte custa, em média, R$ 567 mil e 60% vem da perda de produção da pessoa.
Em 2012, são quatro feriados em sextas-feiras, que propiciam viagens prolongadas e, consequentemente, riscos e pôr a vida a prova. As advertências das autoridades e o amplo destaque dado às tragédias pela imprensa não têm dado o resultado esperado na população. E a frota continua crescendo, inclusive com a inadimplência e o aumento do número de carros abandonados.
A produção da indústria automobilística se mantém elevada. Bom sinal sob determinados aspectos, mau sob muitos outros, porque estradas não serão recuperadas de um ano para outro, e as enchentes de recente período chuvoso causaram grandes danos à malha rodoviária e às vias urbanas. O número de acidentes tende a evoluir e a letalidade das estradas é fato patente, num país em que há pessoas que insistem em dirigir alcoolizadas, sob efeito de outras drogas e sequer sem habilitação.
Um panorama complexo, pois. Sem se esquecer de um dado significativo. Setenta e cinco por cento dos moradores das cidade brasileiras com mais de 100 mil habitantes, ou seja, 32% levam mais de uma hora no trajeto entre a casa e o trabalho ou escola. Levantamento da CNI/Ibope revela que o transporte coletivo é utilizado por 61% dos brasileiros, mas somente 42% o consideram seu principal meio de locomoção. A última informação a despeito da propaganda sobre a produção brasileira de petróleo, não somos auto-suficientes.
A própria Petrobras relata que o governo se verá na obrigação de importar este ano mais gasolina do que em 2011. Virão de fora cerca de 45 mil barris por dia, 4 mais do que no ano findo. Pior: o parque de refino nacional está no limite e nova refinaria, se tudo correr bem, somente em 2013.
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Jornalista fiscaliza tudo, não apenas os políticos. Assim, causou-me surpresa quando encontrei no "Opção", de Goiânia, em seu suplemento "Opção Cultural" um extenso, e bem elaborado artigo do escritor J.J. Leandro. Nele evoca os nomes e os feitos de brasileiros que ajudaram a desbravar o Oeste, inclusive Goiás.
O articulista observa que pouca gente ouviu falar em Couto de Magalhães, militar, político, homem das letras. Refere-se ao personagem, à época em que foi presidente da vizinha província e "rasgou os sertões de Goiás a passo de cavalgadura ou em batelões por água. O fruto dessas viagens inquietas foi o livro "Viagem ao Araguaia", onde ao lado de um estudo da terra e do homem, ele antecipa Pedro Ludovico defendendo a mudança da capital goiana de Goiás para Leopoldina, à margens do grande rio".
Depois de expressões de admiração pelo desafio enfrentado por Couto de Magalhães em sua peregrinação cívica pelo interior do estado vizinho, J. J Leandro o elogia pela obra literária que produziu. "Em pleno século XIX, quando a linguagem rebuscada era padrão entre os autores acadêmicos, homens como Couto de Magalhães, calejados no lombo de burros, tinham a pena livre de atavios e aprumada como o passo das mulas com que varavam os sertões".
E disse mais o autor goiano: "Ele, Couto, tinha clara a preocupação em registrar as mudanças na vida e nos costumes do povo para que as gerações futuras soubessem mais sobre nosso país. Em "Viagem ao Araguaia", ele diz: "Ah, leitor, quantas e quantas coisas, mesmo neste São Paulo de onde escrevo esta, já vi mudar, desde o tempo em que era rapaz até hoje!"
E as transformações deviam a Couto Magalhães. Só que o articulista não fez a mínima referência à origem e procedência do desbravador. Nem deixou uma pista de onde viera, de que Estado, de que município.
Couto de Magalhães, de nome José, foi batizado em 18 de dezembro de 1837 na Vila de Diamantina. Terminados os cursos elementar e médio, matriculou-se na academia de Direito em São Paulo, enquanto lecionava filosofia no mosteiro de São Bento, sendo seu aluno Prudente de Morais, depois presidente do Estado e da República.
Foi presidente também das províncias de Goiás, Pará, Mato Grosso, designado a governar Minas no gabinete Zacarias, não aceitando a distinção, como não quis presidir a província do Rio. Com exceção de São Paulo, esteve à frente dos destinos das demais províncias, quando sequer chegara aos 31 anos.
A seu respeito, escreveu o historiador Sóter Couto: "Cientista emérito, notável escritor e poliglota, era uma organização fora do comum. Falava inglês, francês, alemão, italiano, espanhol, tupi e vários dialetos indígenas".
Sua via foi uma epopeia. Paladino do nacionalismo, indianófilo apaixonado, teve atuação marcante na Guerra do Paraguai, lutando em Mato Grosso contra três perigosos inimigos: fome, peste e paraguaios. Pena que J.J. Leandro não o soubesse!
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Embora destinado a focalizar um personagem singular na vida brasileira nas primeiras décadas do século XX, extrapola. Consegue reconstituir, com riqueza de minúcias, o surgimento e tentativas de consolidação do Partido Comunista Brasileiro, muito aproximadamente ainda da ascensão dos soviéticos na Rússia.
O título é forte, mas apenas extraído de uma peça acusatória do processo em que se viu acusado o protagonista, por desafiar os donos da Internacional Comunista e seus áulicos, naqueles duros, bélicos e sangrentos tempos. Assim é "Um cadáver ao sol", que levanta, ao preço de insistentes pesquisas no Brasil, na América do Sul e na Europa, a vida de Antônio Bernardo Canellas. Anarquista, comunista suspeito e frustrado, e termina a carreira e a existência dramática, mas silencionasamente. Como foi mesmo seu fim?
A autora é Isa Salles, sobre quem os editores não registram muito. Jornalista, formada em 1965 na Universidade do Brasil, com extensão na Fundação de Ciências Políticas da Sorbonne e no Programa Jornalistas na Europa, em 1977-78. Presa política pela ditadura militar, acusada de integrar a VPR, Vanguarda Popular Revolucionária, respondeu a dois processos no Rio de Janeiro e São Paulo e trabalhou em jornais da resistência, como "Opinião" e "Pasquim", com o pseudônimo de Iza Freaza.
Antônio Bernardo Canellas, nascido em Niterói em 1898, cedo se inclina às ideias da esquerda e, em 1922, ei-lo desembarcando em Moscou, depois de muitos esforços. Participaria do IV Congresso da Internacional Comunista, que empolgou jovens daquela época, pouco sabedores do que de fato acontecia na União Soviética e no âmago das discussões.
Uma experiência decepcionante, porque Canellas descobriu que não havia uma ditadura do proletariado, mas sim uma ditadura do partido, sobretudo cruel depois da ascensão de Stalin. O jovem brasileiro, todavia, não era senão um dos 394 delegados à Internacional, e foi considerado como anarquista, o que no fundo continha dose de verdade.
As lutas internas na IC, as disputas pelo poder, o contato com importantes figuras do socialismo, do comunismo, dos partidos europeus e americanos, seus embates verbais e suas tentativas de elevar a voz no grande conclave em Moscou, o fizeram descrer de um futuro venturoso. Em plena assembleia, interpelou o camarada Trotsky, divergiu, votou contra matérias de interesses dos bolcheviques, levou a pior. Foi expulso da Internacional e do partido, e carregou ao longo da curta vida o peso da suspeita, de graves acusações sofridas.
Uma luta sem êxito, mas que a autora, tão dentro do tema, soube explorar muito bem na edição da Ediouro. Enfim se pode saber profundamente sobre aquele período difícil para a humanidade, aberto com a vitória da revolução e, depois, maculado o caminho pelo sangue na era Stalin.
O anarquista Alexander Berkman, americano de origem russa, definiu aquele momento: "São dias sombrios. O terror e despotismo esmagaram a vida nascida em outubro. Os ideais da revolução foram traídos, os ideais sufocados no sangue do povo. A ditadura esmaga as massas. A revolução está morta, seu espírito grita no deserto".
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Ângela Vaz Leão lançou, na Academia Mineira de Letras, o seu livro "Cantigas de Santa Maria", tornando-se, como enfatiza Jacyntho Lins Brandão, da UFMG, "uma das mais destacadas conhecedoras desse corpus, em todas as suas peculiaridades linguísticas, culturais e poéticas". As "Cantigas de Afonso, o sábio" ou "Cantigas de Santa Maria", obra de Afonso X, constituem o grande cancioneiro medieval galego-português. O soberano dedicou-se à cultura e às letras, em meio às lutas e inquietações de sua época, merecendo perfeitamente o apodo".
As "Cantigas" são eminentemente do rei e, pelo apuro da forma, um monumento literário de nossa língua arcaica, não inteiramente extinto pelo passar destruidor do tempo. Logo após o lançamento do livro da professora Ângela, Yvonne de Oliveira Silveira, formada em Letras pela hoje Unimontes, de que se tornaria professora de Literatura Portuguesa e Teoria da Literatura, decidiu lançar seu "Cantar de Amiga", Pós-graduada pela PUC e sempre atualizada em cursos onde ocorrerem, ela trata a matéria com dedicação e denodo, como o demonstra.
O livro de Yvonne é a mais recente declaração de amor à região em que vive, à terra em que nasceu, as pessoas com as quais conviveu e convive, ressoando "traços fundamentais da gente montes-clarense", como observa Anelito de Oliveira, doutor em letras pela USP, dentre outros títulos.
Para apresentar o livro da escritora norte mineira, Raquel Mendonça diz que o caminho de Yvonne "foi sempre o das palavras, das lições, das letras e de cultivar a língua portuguesa e a literatura com generosas doses de amor, talento e conhecimento". Miriam Carvalho, mestra em Literatura Brasileira, aprofunda o comentário:
"Poeta, merecedora das "doçuras matinais" (sequestro suas palavras) e "do sol da ventura imortal", e "das ondas de espumas dos Quinze anos", e do "mar longo da vida" e "do canto de violino ao redor dos sonhos rendados", Yvonne, influenciada pela cultura portuguesa, pelas cantigas de amigo, atualiza em seus cantares a vida de nosso tempo sob a ótica de uma intimidade espontânea, às vezes, na forma versificatória de quadras.
Outra escritora Maria Luíza Silveira Teles, proclama: "Yvone, ao exprimir toda a gama de sentimentos que a tomaram pela existência, brindou a uma celebração maior: a celebração de tudo que caracteriza a sua própria vida e compõe a belíssima canção da vida do Ser Humano".
Enfim, "Cantar de Amiga" é um hino de amor, porque a própria palavra dela emana. Nesse volume gracioso, a autora lembra minha mãe, "Tercília", que não mais está entre nós. Tampouco a rua não é mais aquela em que ambas residiram, pois - tomada pelo asfalto - perdeu a paz e o encanto, transformou-se em fervedouro:
"Carros, motos, bicicletas,/ bancos, lojas, farmácias,/ lanchonetes, restaurantes,/ tiraram amigos e o lar". Mas a autora, em espírito, lá permanece em evocação porque lá é a sua rua, a rua de sua infância, que tão longe está.
Cantiga ou Cantar de Amiga são versos para sempre.
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Foi na segunda-feira, 16 de janeiro deste ano, que a Academia Mineira de Letras liberou a indesejada nota de falecimento. Era o acadêmico e escritor Bartolomeu Campos Queiróz, ocorrido na madrugada. Os golpes se consumam quando a noite cede lugar a um novo dia.
Bartolomeu entrou para o sodalício há relativamente pouco tempo e me lembro quando o ex-presidente Murilo Badaró me perguntou como receberia sua candidatura. Com mais de 40 livros publicados, alguns traduzidos para o inglês e dinamarquês, estudioso da filosofia e da estética, utilizou sua arte como processo educativo.
Cursou o Instituto de Pedagogia em Paris e participou no Brasil de importantes projetos educativos, presidindo a Fundação Clóvis Salgado e como o integrante do Conselho Estadual de Cultura. Seus títulos referendam sua vida e sua carreira: Prêmio Cidade de Belo Horizonte, Prêmio Jabuti, Selo de Ouro da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil, Diploma de Honra da ABB, de Londres, Prêmio Rosa Blanca, de Cuba, Quatrième Octogonal, da França, Prêmio Academia Brasileira de Letras, dentre muitos outros.
Nascido na tranquila Papagaio, na região central de Minas, ocupou a Cadeira 26 da Academia, e soube enfrentar as vicissitudes da vida para corresponder a seus sonhos e realizar seus projetos. A insuficiência renal o obrigava às indispensáveis, mas cansativas sessões de diálise, com a qual conviveu durante anos de existência, sempre com superior força do espírito e estocisimo.
Consagrado em nível nacional e com obras editadas no exterior como autor no universo infanto-juvenil, Bartolomeu não se afastou ou menosprezou a literatura destinada ao público adulto, em que se revelou de virtudes elevadas e como tal foi recebido pela crítica e pelos leitores.
Para ele, a escola tem de ser mais criativa, promovendo a interação do livro didático com o livro literário. Lutou por suas ideais e convicções, por todos os meios ao seu alcance. Não escrevia por vaidade, mas por necessidade de expressão. Como se manifestou, recentemente, o também escritor mineiro Ronaldo Cagiano, a literatura lhe proporcionou estar à vontade e a salvo, o único paraíso concebível e confiável: o mundo dos livros.
A propósito, quando se perde Bartolomeu, se lembrará também Duílio Gomes, de uma grei de artistas da palavra, como o confrade Danilo Gomes e Daniel, gente da melhor espécie até porque nascida em Mariana. Duílio, com idade próxima à de Campos Queirós, partiu também recentemente, depois de uma insidiosa enfermidade que não lhe permitia reconhecer os amigos junto ao leito.
Nosso Duílio dizia: "Escrever não é a coisa mais importante do mundo, mas deixar de fazê-lo, quando se tem vocação para tanto, pode ser a pior coisa do mundo". Embora, digo-o eu agora, pior é perder os amigos, como vai acontecendo dolorosamente.
De todo modo, o essencial é que o escritor, o bom escritor, não se insere em uma raça em extinção. Graças a eles, sobrevivemos, e vivemos tão aprazivelmente quanto possível. Assim será pelos séculos afora.
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"Galanga, Chico-Rei" é o título que ganhou o espetáculo que visita Belo Horizonte, contando a história do personagem que sensibilizou o Brasil (de pretos, brancos, amarelos e vermelhos) ao ascender da condição de escravo a líder de uma comunidade procedente da África, aqui conquistando o seu lugar. E, pelo que li, a quarta incursão musical de Paulo César Pinheiro na temática afro-brasileira, trata-se de um herói raro no Brasil, que conseguiu a liberdade, a do filho e de toda a sua tribo, além de mina de ouro em Vila Rica, em que trabalhava. O teatrólogo João das Neves, diretor, adverte para a cura em torno das lendas sobre Chico-Rei. Com ênfase aparecem no musical Maurício Tizumba e Titane, na supervisão musical.
Afonso Arinos conta que, segundo a tradição oral, Chico perdeu na travessia do Atlântico a mulher e filhos, só escapando um. A mortandade nos navios negreiros era tamanha que tubarões seguiam as embarcações, aguardando os corpos lançados ao mar.
Em Vila Rica, Chico-Rei, trabalhando também aos domingos e dias santos, comprou a liberdade e a do filho. Depois, ambos se dedicaram a alforriar todos os membros da tribo, tornando-se, segundo Lúcia Machado de Almeida, o primeiro líder abolicionista do Brasil. Livre da escravidão, a comunidade comprou uma mina de ouro. A Encardideira, organizando uma espécie de corte particular.
Chico voltou a ser soberano como nos bons tempos da África, e, nos dias de festa, saía à rua espetacularmente vestido ao lado da nova esposa e do filho, com trajes reais. Dançavam-se exóticos ritmos ao som de músicas cantadas na língua nativa, acompanhadas por instrumentos africanos.
Não é difícil achar a mina. Saindo da Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, pode-se localizar uma das bocas da Encardideira, que fica nas vizinhanças. Deixando a igreja, toma-se um atalho na rua Dom Silvério, que desce à esquerda da rua Antônio Dias ou Bernardo Vasconcelos. Atravessam-se duas pontes pequenas muito próximas, a segunda com uma cruz, e - bem em frente - no fundo de uma pequena grota, alcança-se a escura e misteriosa mina abandonada.
Dizem os supersticiosos que, em determinadas noites, ouve-se, partindo do interior da mina, o ruido forte e cadenciado de um pilão: é a trituração de invisível minério, que rompeu séculos e continua.
No quintal de uma casa à direita de uma das pontes, existe outra abertura, supostamente da mesma galeria. Lúcia acrescenta:
"Ainda restam várias 'bocas de mina' espalhadas pelo antigo arraial de Antônio Dias, lúgubres e escuras como o lugar vazio deixado por olhos mortos nas caveiras".
João Camillo esclarece que os negros das minas eram extremamente unidos e os mais ricos auxiliavam a alforria dos demais pobres, e Chico-Rei é exemplo.
Os da tribo, generosos e amigos, não raro aparavam no Brasil os próprios senhores caídos na miséria, socorrendo-os com os recursos que conseguiam amealhar depois de forros pelo trabalho. A isso, o musical não deve referir-se.
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O ano de 2012 é bissexto. Quer dizer que terá mais um dia, além dos 365 do quatriênio anterior. Quem leu os jornais ficou sabendo que o fato decorre da implantação do Calendário Juliano, em 45 a.C.
Quando o ano começa, há de lembrar que não se trata apenas do início de um período para pagamento de impostos, os elevados tributos do Brasil. O homem tem direito a ser um pouco mais feliz e movido pelo combustível da esperança, não inserido entre os Direitos Humanos, mas a que todos deveríamos ter acesso. Depois de gastar nas festas natalinas, às vezes bem mais do que se poderia, o princípio do calendário é doloroso, sobrecarregado de compromissos.
Já no primeiro dia, viu-se pelos noticiários que a incerteza gerada pela ameaça de proliferação nuclear e pelo aquecimento global fez o Boletim de Cientistas Atômicos adiantar um minuto no relógio do Apocalipse. Esse simbólico instrumento aponta agora cinco minutos para a meia-noite, quando ocorrerá o cataclismo nuclear.
Quem diz é Allison Macfarlan, presidente da associação na Universidade de Chicago, criador do sistema, em 1947, para ilustrar o risco da corrida atômica. Enquanto isso, Lawrence Krauss, professor de física da Universidade de Arizona, completava o raciocínio dizendo que o relógio foi adiantado devido "aos perigos claros e iminentes da proliferação nuclear e mudança climática, assim como diante da necessidade de se encontrar fontes de energia seguras e duráveis".
Os cientistas não fizeram referência ao Irã, que continua seu programa nuclear, contrariando as nações do Ocidente, temerosas de que ele possa evoluir e visa a produção da bomba atômica. Em todo caso, o presidente daquele país, Mahmud Ahmadinejad viajou às Américas em busca de apoio.
O presidente iraniano visitou Cuba, Venezuela, Nicarágua e Equador para defender seu projeto, não suficientemente conhecido. Como, aliás, o tipo de amparo dos quatro líderes americanos não é bem sabido. Afinal, o que podem eles fazer para dar sustentação a Ahmadinejad?
Em Havana, Fidel o recebeu para uma conversa de duas horas, e, aliás, Castro é muito bom nisso. Em artigo publicado no "Granma", jornal oficial cubano, o antigo presidente disse que o iraniano está tranquilo, mesmo com possibilidade de um ataque dos Estados Unidos.
Enquanto Mahmud viaja para o Novo Mundo, um especialista em química e diretor da instalação de enriquecimento de urânio de Natanz, região central do país, foi assassinado. Dois homens numa motocicleta (eles usam lá também esse veículo mortífero) colocaram uma bomba com um imã num carro do cientista, em plena luz do dia, na própria capital. A explosão, que não é a primeira contra técnicos iranianos, matou Roshan.
Um site de Teerã anunciava que essa morte não ficará nisso. O Irã responde no mesmo tom, numa contraofensiva contra o Ocidente. Durante o funeral do cientista, pessoas gritavam "morte aos terroristas". Os terroristas são os ocidentais.
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Depois de uma bela antologia publicada na Espanha com poesias de poetas brasileiros contemporâneos, Zina C. Bellodi se propôs o outro projeto. Formada em Letras pela Universidade do Estado de São Paulo, Zina elaborou dois livros sobre lugares da terra bandeirante.
Talvez influenciada pela lição de Tolstoi, de que primeiro se deve interessar pela aldeia natal, a autora da antologia cuidou de divulgar um empreendimento precioso do ponto de vista social e humano em Guariba (SP). Foi fiel a Olavo Bilac, que ensinava o dever de se amar a terra em que se nasce.
Em um dos livros, conta a história da Fazenda Santa Cruz, que inicialmente foi, no final do século XIX, uma propriedade de mais de 500 alqueires, pertencente a personalidades na história de Guariba e Jaboticabal.
Relata-se a chegada da ferrovia, que pressionou o desenvolvimento agrícola, comercial e industrial do povoado de Guariba. O crescimento determinou a emancipação do município antes integrante de Jaboticabal. Para essa evolução, muito favoreceu o café, de que havia 270 mil pés na Fazenda Santa Cruz.
É útil acompanhar a evolução desse pedaço de São Paulo, contando com a contribuição valiosa da iniciativa privada, ou seja, daqueles pioneiros que obrarem para construção de uma sociedade tranquila no interior paulista, a que se deve a formação de um importante centro produtor. Entre essa gente, estão ascendentes da família Bellodi, dando cumprimento ao Estatuto da Terra. Criteriosamente se operou para manutenção das famílias no local, oferecendo-lhes condições dignas de vida.
O prefeito Hermínio de Laurentiz Neto, mais recentemente, adquiriu a sede da fazenda de um grupo empresarial, para transformá-la num centro de capacitação. Nele, já se encontram um conjunto habitacional ocupado por famílias, uma creche, e áreas de apoio a departamentos da prefeitura, uma iniciativa que mereceria ser conhecida e seguida por outras municipalidades.
O segundo livro é a história de Maria Luíza Carrão Jakovac, remanescente de origem portuguesa.
Radicou na região com o esposo, para trabalhar, produzir e ampliar a prole, no melhor estilo que os lusos estabeleceram ao se transferirem para o Brasil, naquele século. A Senhora Carrão, quase aos cem anos, perdeu o esposo, mas não o bom gosto e o carinho para os que lhe são próximos e a terra que a recebeu e abriga.
Chega ao centenário, com alegria para celebrar a vida, bem viver, não tem mágoa, rancor, desânimo, queixas; conserva boas lembranças, revolvendo fatos do baú da memória, nos constantes encontros com os da grei e de outras do município.
Nos dois livros de Zina C. Bellodi, ambos publicados no final de 2011, se tem uma ideia muito valiosa de como podem ser bons os tempos presentes, repetindo épocas pretéritas, em que havia laços de afeição entre as pessoas; pessoas que trabalhavam para sustentar-se e oferecer condições apreciáveis de convivência na família e entre as famílias.
O mundo seria outro, evidentemente mais seguro e venturoso, se esses ensinamentos e práticas tivessem perdurado.
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