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No dia 18 último, saiu aqui o comentário sob título "A difícil eleição", em que focalizei a escolha de Amilcar Martins para a Academia Mineira de Letras. Foi, de fato, um momento singular na história da Academia, que tem justamente o nome de Casa de Alphonsus. Minhas observações foram consumidas pelos fatos.
O outro candidato era Afonso Henriques Neto, de quem mostrei um sucinto retrato bibliográfico. Tinha e tem méritos para assentar-se numa cadeira na velha mansão de Borges da Costa, na rua da Bahia.
Amilcar foi escolhido para a vaga do poeta Alphonsus de Guimaraens Filho, pai de Afonso e filho do patrono da Academia. Explica-se, e nisso me ajuda Ângelo Oswaldo, brilhante membro do sodalício: "Quando Alphonsus faleceu, há dois anos, pensou-se logo no nome de seu filho, Afonso Henriques Neto. Trata-se de poeta reconhecido pela altura alcançada por sua densa produção, sendo, ainda, neto do grande Alphonsus e sobrinho do admirável João Alphonsus. Descende de três acadêmicos que marcaram a instituição fundada em 1909.
Pode-ser-ia brincar dizendo que se trata de regalo de pai para filho. Mas não constitui novidade ou desdouro: o próprio Ângelo Oswaldo recorda que a sucessão assinalada por vínculos familiares encontra gratos exemplos na presença de Pedro Rogério Moreira, filho de Mestre Vivaldi, na Academia Mineira, e de Cícero Sandroni, genro de Austregésilo de Ataíde, na Casa de Machado de Assis."
E termina o parágrafo o atual prefeito de Ouro Preto: "Eu próprio sou neto de José Oswaldo, ex-presidente da AML", e ninguém lhe contesta títulos e direitos. Pedro Rogério, filho de Vivaldi, comentou - mais de uma vez - que a Academia tinha tantos "Moreiras", que seria mais legitimamente chamada "Academia Moreira de Letras".
"Parece a muitos, a mim também, "singularmente valioso que "a academia conserve, entre os pares, um poeta que guarda e honra o nome do simbolista mineiro que é o nome da casa". Assim a eleição de Afonso Henriques é uma espécie de referendum ao vaticínio por ocasião da romaria dos acadêmicos a Ouro Preto e Mariana, pelo centenário do sodalício.
Esses registros me conduzem a um livro de Fernando Jorge, que jamais pôs travas à língua. E corajoso é, como se desprende de suas revelações e posições, sobretudo quando envolvem as atividades e os cidadãos com assento na Brasileira de Letras.
Em "A Academia do fardão e da confusão", o autor lembra que, na noite de 20 de julho de 1979, se realizava a cerimônia de inauguração do Centro Cultural do Brasil, novo prédio de 30 andares da ABL. Três generais compareceram, simbolizando o domínio que a ditadura exercia no sodalício: Geisel, Médici e Figueiredo. Presente Alguns outros ministros poderiam, talvez, incluir de maneira decisiva nas eleições dos "imortais".
Os dois Portellas lá estavam, Petronio, Justiça, e Eduardo, da Educação e Cultura, "cuja figura de aspecto garboso se assemelhava à de um dançarino de tango ou à de um cantor de cabaré".
A grandeza e o luxo do edifício chamava a atenção. O imortal Adonias Filho se manifestou contra a ostentação: a Academia deveria investir "mais em obras literárias e menos em obras de cimento". Assim Tristão de Athayde, ou seja, Alceu Amoroso Lima assomou à tribuna, como primeiro orador. Declarou:
"Durante a ocupação de Paris por tropas alemãs, um acadêmico francês se dirigia para sua Academia quando um soldado invasor lhe perguntou que edifício era aquele, no que ele respondeu: "é a casa da liberdade. Queremos ser a casa da liberdade".
Alceu manteve o raciocínio:
"... defender o passado, a dignidade das letras, da cultura, como um todo; é a defesa dos valores sem preço da liberdade criativa, e, através dela, da distribuição da Justiça. A Academia, longe de ser inimiga da liberdade, deve ser freio da Censura contra as ditaduras estéticas e políticas; deve ser a casa da liberdade."
Enfim, é por esses princípios e objetivos que a Academia existe. Os seus integrantes variam.
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Gaveteiro por nascença, de que se orgulha, o marianense confrade na AML Danilo Gomes, jornalista, poeta dos bons, não se esquece dos amigos, entre os quais prazerosamente me incluo. E, com uma folha de notícias suas e de sua vida, preenchidas de próprio punho, ele me envia um livro raro - "Botando os pingos nos is".
Um título paralelo esclarece: "As inverdades nas memórias de Samuel Wainer", e o autor é Rivadávia de Souza, "uma das melhores figuras humanas que tive a fortuna de encontrar em meu caminho", na opinião de Francisco de Assis Barbosa, ao discursar na solenidade de sua posse na Academia Brasileira de Letras.
É uma edição da Record, do Rio de Janeiro, de 1989, e o título já revela o conteúdo. O autor, cujo nome é presentemente pouco conhecido é do assessor de imprensa do segundo governo Vargas, amigo pessoal do presidente e por ele designado e a quem conhecera na Estância de São Pedro, propriedade do embaixador Batista Luzardo. Cristalizou-se uma grande amizade, mesmo intimidade, e diante das afirmações de Samuel Wainer sobre suas ligações com o ex-presidente, decidiu Rivadávia desfazer inverdades, resgatar omissões e injustiças, cumprindo o que sempre encarou como missão: o jornalismo completo e íntegro, como consta da apresentação do volume.
Em página inicial, Joel Silveira enfatiza a personalidade de Rivadávia - o polemista ágil, severo e isento, severo mas isento, o temível espadachim - capaz de todos os golpes, mas incapaz de um só golpe baixo. A observação se fazia necessária, pela maneira como o autor do livro aponta as omissões, excessos, falsas informações tornadas públicas por Samuel Wainer.
Criticando o antigo diretor de "Última Hora", Rivadávia de Souza afirma? "Centrando sua narrativa em personalidades desaparecidas - Getúlio Vargas, João Alberto, Eurico Dutra, João Goulart, Assis Chateaubriand etc. -, Samuel ficou à vontade para edificar a imensa burla, no decorrer de cuja montagem artificial todos são vilões, somente ele figura como herói, mesmo quando se confessa intermediário de negociatas, igualmente mentirosas na parte relacionada ao desenvolvimento de homens públicos, que jamais dividiriam sua responsabilidade com alguém incapaz de merecer um mínimo de confiança".
No princípio de seu livro, na página 19 da segunda edição, Wainer comete o crasso erro de dizer que Getúlio, depois da vitória nas eleições de 1945, em que se elegeu deputado por nove estados e senador por dois, se retirara para São Borja, "na fronteira com o Uruguai", onde nascera".
Na verdade, São Borja (meu livro sobre Vargas tem como subtítulo "De São Borja a São Borja", para indicar o lugar de nascimento e sepultura de Vargas) fica na fronteira com Argentina, não com a Banda Oriental do Uruguai, hoje Uruguai, um sacrilégio geográfico.
Aproveita a ensancha o jornalista e escritor gaúcho: "Convém acentuar que São Borja não constitui um conglomerado de cubatas perdidas nos confins da África pré-libertação anticolonialista. Trata-se de um município ilustre, com uma população superior a sessenta mil habitantes, florão heráldico da região missioneira, onde nasceu a saga maravilhosa das reduções jesuítas".
E dá uma aula:
"Seu nome de batismo proveio-lhe de um santo, espanhol, São Francisco de Borja, vernaculização dos Borgia, família de papas e bandidos, inclusive a tresloucada envenenadora Lucrécia Borgia e outros do mesmo naipe. Entre os papas de origem hispânica, figuram Calixto III. O pai legítimo de nosso cruzado, moeda que ele inventou, em caráter pícaro e transitório, a fim de pagar as tropas portuguesas que aliciou do rei de Portugal para as santas cruzadas, além de outro papa bandidaço, Alexandre VI, dito O Infame, pai de Lucrécia e de Cesare.
No entanto, da lama putrefata dessa estirpe infamante surgiu uma flor de santidade, Francisco Borgia, terceiro geral dos jesuítas...", e assim por diante.
Resumindo: Wainer colocou São Borja fazendo frente ao Uruguai. "Tudo o que se segue no livro possui o mesmo caráter falso".
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Agosto no Norte de Minas não é este de 2010, quando a coluna de mercúrio desabou. É tempo de muito vento, de muito calor no clima e no espírito das pessoas. Antigamente, o redemoinho incomodava enormemente e levantava a poeira a grande altura. As más línguas diziam que era fácil aos aviadores, em pequenos aparelhos, identificar a região por onde voavam, a partir da capital. A primeira nuvem de pó era de Curvelo, na época sem pavimentação; lá de cima se podia saber onde ficava a maior cidade mais ao norte, Montes Claros, denunciava-a a seguinte de pesada nuvem de poeira, lá embaixo. Não havia necessidade de instrumentação a bordo.
Tudo mudou, faz um frio inacreditável. O sol tem medo de aparecer. A coluna de mercúrio desce até a menos de 10 graus centígrados. Tempo fechado como a sorte dos sertanejos, há muitos e muitos dias sem chuva. E, agora, com essa luminosidade e temperatura precárias do astro-rei.
Mas as festas de agosto, tradição da gente simples do sertão, que atravessa festivamente esta época do ano, impõe calor nos corações. Resgatam-se tradições pretéritas que as capitais não conhecem, nem interesse têm.
Darcy Ribeiro, o etnólogo, o sociólogo, e escritor, sonhava - estivesse onde estivesse neste mundo de Deus - com o oitavo mês do ano e a alegria cantante nas ruas, mesmo com a poeira, imaginando-se feliz ali como imperador das festas.
O mesmo sente Paulo Narciso, jornalista, que sai pelas mesmas ruas, desfilando e revivendo passado jamais obscurecido. Ele deve ter redigido essas linhas: "Atracou a Nau Catarineta. Marujos deixam o convés e já se vão ajuntar aos caboclinhos, aos Catopês. Cantarão e dançarão pelos próximos seguidos dias. Pelos arrebaldes, primeiro (ouça-os ao longe), depois pelas ruas centrais, que percorrem penitentes há cerca de duzentos anos, trazidos por um surdo de tambor de apelo intraduzível, que entregue aos corações, e nas mentes. Mistério, mágicas, sortilégio. É chegado o tempo longínquo das Festas de Agosto. Ao anunciá-las, a esperá-las, entraram de prontidão todos os ipês, por todos os caminhos. Alta Gala do Sertão."
Para 18, dia do primeiro reinado dos Catopês - o de Nossa Senhora do Rosário, as previsões eram de temperaturas reduzidas. A mínima esperada era de 9 graus, com ventos de 13 km por hora, soprando da direção Leste-Nordeste.
É preciso conhecer as tradições locais para entender os sentimentos dessa gente, que cultiva a religiosidade desse tempo, que é de festa, de alegria, mas também de meditação. No segundo dia, o mastro de São Benedito, sai de noite da Praça Roxo Verde até a igreja do Rosário, na Praça Portugal, no centro. No dia seguinte pela manhã, é o reinado do santo africano.
Até o domingo, que - em 2010, caiu em 22 de agosto - catopês, marujos e caboclinhos desfilando pelas vias públicas da cidade, de manhã e à noite, saindo de vários bairros para concentração na igreja do Rosário. É a mais antiga festa popular da cidade, antigo Arraial de Nossa Senhora da Conceição e São José de Formigas, onde o bandeirante Antônio Gonçalves Figueira obteve uma sesmaria e se assentou...
As festas de agosto, nos dias 16, 17 e 18, são respectivamente em homenagem e reverência a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Divino Espírito Santo. É quando se promovem práticas puramente religiosas, tais como missas, bênçãos e levantamento de mastros, mas também outras atividades populares, além de cavalhadas e o bumba meu boi, que ficou na saudade.
Neste mês abriram-se inscrições para o 2º Salão Nacional do Psiu Poético, que já também é iniciativa cultural conhecida no país. Participam poetas, cineastas, artistas de todo o Brasil, mesmo do exterior, que enviam seus poemas, livros, filmes, CDs ou propostas para performances com tema livre.
O festival propriamente dito é de 4 a 12 de outubro e propõe, este ano, um diálogo com a sétima arte, sobre o tema "Cinepoestia", enfatizando o liame da cidade e da região com o cinema.
Que as santidades de agosto premiem os que dedicam ao folclore e as artes! Eles merecem.
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Maurício Nabuco nasceu em Londres, em 1891, filho de Joaquim Nabuco e Evelina Torres Ribeiro Nabuco. Em 2010, completa-se um século da morte do pai, data solenemente lembrada no Brasil.
Ao abandonar o curso de Direito na Universidade de Bonn, regressou à pátria; três anos depois, ingressou na carreira diplomática como adido à Secretaria do Ministério das Relações Exteriores.
Isso é o que conta "Reflexões e Reminiscências", sua biografia, editada pela Nova Fronteira em 2001, e que acabo de receber como presente para a temporada de inverno, já no acaso. Trata-se de um repositório de valiosas experiências vividas por Maurício Nabuco, que ajudam a entender os problemas deste nosso tempo.
Não se cingiu o diplomata ao Itamaraty. Cuidou também do Correios e Telégrafos. E se perguntava, para responder antecipadamente aos possíveis críticos: "Que tem um funcionário do Ministério das Relações Exteriores, como eu a ver com isso? Tem muito. Primeiro, o trabalho de rotina com a União Postal Universal e as convenções telegráficas internacionais."
Naquela época, eram dois os serviços: os Correios e os Telégrafos. Ele estudara ambas repartições, inclusive a fusão, "que trouxe apreciáveis economias ao Estado". O jovem diplomata teve um encontro com José Américo de Almeida, ministro de Viação. José Américo convidou-o a participar dos negócios da pasta, no ramo que escolhesse. Sugeriu Correios e Telégrafos. Pensava: "A Argentina já tinha então ótimo serviço de correios. Por que não poderia tê-lo o Brasil?"
Julguei oportuno focalizar o tema, depois da recente crise por que passou o setor. No tempo de Nabuco, o desprestígio do serviço oficial de correios e telégrafos era tanto que muitas empresas não lhe confiavam correspondência, sustentando seu próprio corpo de entregadores.
Antes de assumir o cargo, Nabuco estuda o problema in loco, o que demandou meses, contando com a colaboração de servidores da área. Uma decisão foi adotada: despolitizar o setor, partindo do pressuposto de que "Comunicações constituem o primeiro serviço público do qual seja essencial afastar a política. Tornava-se indispensável por exemplo, distribuir as diretorias regionais de acordo com a densidade do tráfego e não segundo critério político-estadual vigorante. "Tais atos requerem coragem política e confiança de propósito", dizia.
Houve dificuldades para introduzir a inovação no Serviço. O próprio Nabuco declara que "José Américo, idealista, bem-intencionado, mas jovem então, não tinha experiência político-administrativa bastante para intervir, com confiança e êxito, no andamento de reformas tão amplas."
Mas não se podia permanecer como estava, havendo necessidade de eliminar a pasmaceira em que se encontraram os dois serviços. Observou que "as comunicações, que incluem transportes de toda natureza, constituem o primordial problema num país da extensão territorial do Brasil".
Naquela época, haviam as caixas de Correios nas vias públicas, que foram retiradas por problemas políticos. Nabuco confessou: "Cubro meu coração tristeza, escondo minha cabeça de vergonha, quando vejo, já há algum tempo, retirarem dos logradouros públicos as tradicionais caixas coletoras postais, universalmente usadas. São as pillar boxes na Inglaterra, marcos postais em Portugal, ou que nome tenham, e por cujo formato, localização e cor podemos, sem outra indicação, conhecer desde logo o país no qual nos encontramos".
O diplomata se opunha visceralmente ao usuário ser forçado a pagar condução até uma agência do correio para encaminhar uma simples carta. Para ele, a diminuição das facilidades da correspondência constituída uma das mais chocantes demonstrações de retrocesso na cultura nacional.
Ainda bem que Nabuco não vive em nosso tempo, pois teria outras razões para expressar seu descontentamento. Imagine se ainda tivéssemos as caixas postais nas ruas. Seriam um regalo para os pichadores e os vândalos, que tudo roubam para fazer dinheiro nos ferros velhos.
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Dificílimo compreender atitudes da administração pública nacional. Enquanto inventa obras pra realizar, com fins francamente eleitoreiros; enquanto distribui ajudas a nações necessitadas neste e outros continentes; enquanto conta vantagens com relação à situação da economia e o previsto PIB deste ano, deixa obras imprescindíveis, importantes, sem realização. E os que ousam ou usam formular críticas ou fazer reparos à União são severamente admoestados ou contestados pelos altos escalões da República, a começar pelo Presidente.
No campo rodoviário, Minas Gerais tem muito a exigir, porque nela se encontra a maior malha do país. Quem se dirija a outras regiões obriga-se a aqui trafegar, enfrentando dificuldades e desafios de longas viagens por estradas que não oferecem apreciáveis condições.
Numerosas e crescentes são as estatísticas desses percursos perigosos, nem sempre representados pelas cruzes afixadas em centenas e centenas de quilômetros. São pessoas que, mortas, não poderão mais acrescentar votos nas eleições de outubro.
Há de se compreender que não faltam receitas, como evidenciam os resultados mensais da arrecadação tributária. O que acontece, então?
A Rodovia da Morte, semanalmente, diariamente, aparece nas notícias da Imprensa, atualizando dados sobre os desastres registrados, que poderiam incontestavelmente ser reduzidos, se não houvesse omissão do poder público. Embora se grite denunciando um quase genocídio, não se fala no alargamento da malsinada estrada ou na correção dos trechos mais assassinos. Silêncio.
O Anel Rodoviário de Belo Horizonte, cada vez mais percorrido, parece igualmente não inscrito entre as obras prioritárias.
Aqui mesmo, li que esse Anel, palco de pelo menos 115 mortes nos últimos três anos, desprezado pelo Dnit, poderá ser assumido pelo governo do Estado. Esta a disposição do governador, que enviou ofício ao Ministério dos Transportes, propondo que o Executivo mineiro assuma a revitalização.
Já que em âmbito federal, a obra não vai pela frente, que o Estado dela cuide. Mas lógico que o governo federal repasse ao Estado as verbas já definidas pela União, de R$ 800 milhões, que por enquanto se restringem à inclusão no papelório oficial. Mais do que justo, esperando-se que, pelo menos, não fique o pleito restrito à boa vontade dos administradores federais, que não revelam boa vontade quanto à liberação de recursos para o Estado natal de Juscelino e Tancredo Neves.
Anastasia declarou:
"Gostaria de registrar nossa preocupação em função da importância daquele trecho rodoviário federal para Belo Horizonte, para a Região Metropolitana e para Minas. Proponho que a obra seja realizada no nível estadual". Como estamos em período de eleições, há de esperar que a respostas seja rápida e favorável. Não o sendo, alarga-se o prazo para consecução de um projeto indispensável.
Mas não é só ela - a obra do Anel - prejudica a economia e as comunicações no Estado. Medidas outras, de menor custo exigem adoção, como a reativação dos pontos de pesagem dos veículos de cargas que cortam o território e que são responsáveis pelo desgaste acima do preconizado pelos respectivos projetos. Não é obra propriamente, mas pequenos serviços nesses postos, para abrigar os funcionários que ali cumprirão o seu dever.
E os radares que estão igualmente desativados? E a ausência até de placas de advertência e de orientação dos motoristas?
Muito se tem dito sobre o caos no tráfego aéreo no Brasil, nos anos mais recentes. Uma das causas reside exatamente no medo de enfrentar longos itinerários rodoviários em estradas que constituem perigo para as pessoas. Não é só a conveniência de uma viagem mais rápida pelos céus brasílicos que impelem aos voos. As rodovias em condições precárias são um estímulo ao uso dos aviões.
Ás inúmeras vítimas nas estradas que cortam Minas os jornais não dedicam necrológios. Como em Gaza, restam apenas lembranças, porque não há espaço para nominá-as nas edições diárias, tanto os que perdem a vida.
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O Brasil tem merecido censuras de determinadas autoridades e da Imprensa Internacional por seu posicionamento diante de outras nações. Mas também entre nós reservas se fazem em todos os segmentos - de veículos de comunicação e dos cidadãos. Aqui mesmo, numa edição dominical, li o comentário do leitor Humberto de Luna F. Filho, de São Paulo, sobre a conduta do ministro Franklin Martins, que ele classifica de "O Joseph Goebbels tupiniquim", preocupado com a imagem do Brasil no exterior.
O leitor pergunta:
"Desde quando nossa embaixada em Honduras virou chiqueiro de Manoel Zelaya. Desde quando o contribuinte brasileiro passou a financiar comitivas oficiais que vão a Cuba lamber as botas de Fidel Castro. Desde quando o seu chefe (do ministro) elegeu a Venezuela a maior democracia da América Latina. E desde quando Mahmoud Ahmadinejad passou a ser figura sagrada no Palácio do Planalto".
Há muitos brasileiros que não concordam com as posições do país em suas relações internacionais. Mais de uma vez, por este pedaço de página, comentei a questão e vi ilustres cidadãos tecerem críticas à nossa atuação.
Em 22 de agosto - lembremo-nos dos maus agouros do oitavo mês! - o ex-ministro Rubens Ricupero fez uma veemente advertência sobre o momento brasileiro, sob o título, que diz muito, "Miopia moral". Começa dizendo: "Cumplicidade interna com a corrupção sob pretexto de governabilidade e complacência externa com tiranos e violadores de direitos humanos em nome do realismo são as manchas principais que se vive no Brasil".
É um artigo que merece ser lido, relido, meditado. Em determinado trecho, adverte: "Não é moralismo cumprir quase o dever médico de alertar que o mesmo vírus de doença passada acabará por produzir efeito igual no organismo humano".
No que tange à política exterior não é menos duro o ex-ministro: "No plano externo, chamar de estratégica relações com regimes ditatoriais que condenam mulheres ao apedrejamento pode também conquistar aplausos ideológicos ou lucros comerciais. Contudo, quem faz isso vende a própria alma, jogando fora os valores éticos e arruinando o prestígio nascido do exemplo".
É intocável o pensamento de Ricupero que reconhece que os americanos desmoralizaram os ideais de sua democracia com o apoio a ditadores militares na América Latina e os crimes no Iraque. E isso aconteceu com a maior potência do mundo, que como tal - do ponto de vista meramente material - se mantém.
O Brasil é muito diferente, e Ricupero observa que nosso país "não é potência militar nem econômica, só dispondo do poder de persuasão e do exemplo", daí ser mais grave a posição assumida diante de outras nações, "pois nos empobrecemos do nosso único trunfo e riqueza".
A partir de então, o articulista repete, em palavras sábias, o que o leitor de São Paulo observara: "No exterior já se multiplicam artigos afirmando que o Brasil é o maior amigo dos tiranos e que nossa política errática e irresponsável ameaça a aspiração a membro permanente do Conselho de Segurança".
Citam-se exemplos, que me cabe transcrever:
"Argentina e México, também candidatos da América Latina, são exemplares na atuação no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, contrastando com o Brasil, aliado de Cuba, Paquistão e demais bloqueadores da investigação e luta contra as piores violações na Coreia do Norte, Irã, Congo, Sri Lanka, Darfur etc".
Efetivamente, a política exterior brasileira vive uma fase complicada, ela que sempre constituiu um orgulho para o cidadão e para a própria América Latina. O Brasil sempre foi confiável, sem ser subserviente.
Embora distribua recursos a países mais pobres, não somos uma nação de Midas. Vivemos ingentes dificuldades e muito resta a fazer. Para Ricupero, "essa incoerência revela calculismo oportunista e confusão de valores. O calculismo, porém, tem fôlego curto: no longo prazo liquidará a governabilidade e o prestígio externo". Vale a pena ler este trecho final mais vezes.
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Os antigos diziam que o exemplo vem de cima. Ou seja, dos que vencem na vida, que ascendem a posições elevadas, os que fazem sucesso em suas atividades. Mas, pelo que se observa, apenas parte de suas existências podem ser exemplares. Digo-o, ao conhecer declarações de um cantor exitoso na carreira e que se tornou ministro da Cultura. Logo da Cultura!
Gilberto Gil declarou, em documentário, que o canal de TV Biography Channel exibiu no dia 15 de agosto, que a maconha o acompanhou até recentemente na vida. Aliás, acontece a muitos brasileiros que são sucesso e aparecem nas coluna sociais e políticas... por que da editoria policial não saem.
O ex-ministro da Cultura, de 67 anos, afirmou que, quando se mudou para Londres, tomou "cento e tantos ácidos", mas só a maconha lhe servia como uma "flanela na lente sentimental e musical". Lembrou: "Toda vez que eu fumava, desembaraçava alguma coisa", referindo-se ao efeito da droga.
Em 2005, quando ainda ministro da Cultura, Gil disse ser a favor da legalização das drogas, revelando que deixou de fumar maconha aos 50 anos. O cantor, como numerosos que têm microfones à disposição, opina que a questão precisa ser tratada como problema de saúde e não como crime, possivelmente recordando quando foi preso, nos anos 70, com maconha, em Florianópolis.
Mas Gilberto Gil não é o único ministro a expressar-se sobre as drogas. O do Meio Ambiente também costumava falar sobre o tema, e achando também que as drogas deveriam ser liberadas, que seria condição para evitar as guerras entre as poderosas gangues que disputam o maldito mercado no Brasil. Liberadas, como em países outros, elas não teriam esse apelo de hoje, principalmente junto aos segmentos mais jovens da população. Seria?
O que é bom para outros países e povos nem sempre é para o nosso e os brasileiros. Não constitui caso único e primeiro, mas não custa pôr as barbas de molho. Ademais, essa história de definir o problema um caso de saúde e não de polícia, nada resolve.
A área de saúde no Brasil é de difícil solução, considerando fatores vários, que começam pelas suas dimensões territoriais, pela pobreza da população (que existe, sim) pelos maus hábitos de uma gente indisciplinada, que não observa as orientações médicas, que não dispõe de saneamento básico suficiente, que não ganha o bastante para alimentar-se bem e adquirir medicamentos... embora não falte o necessário para o celular, para comprar um automóvel ou moto, e por que não dizer? Também drogas.
Droga é "droga". O essencial é que a população disso se convencesse, mas isso tem sido inviável. Somos indisciplinados e os jovens rebeldes, em qualquer tempo lugar.
Por sinal, o médico Salvador Ferrari, de Ponte Nova, respeitável e querido nos 95 anos que soma de vida, acaba de lançar mais um livro "A Fé", em que fala sobre vários assuntos, inclusive drogas. Ele enfatiza, e vale a pena repetir, que o vício se instala, regra geral, porque as drogas possuem como denominador comum o fato de proporcionar bem-estar transitório quando introduzidas no organismo. Passado o efeito agradável, surgem sintomas agudos de ansiedade; para o indivíduo ver-se livre dessa angústia, lança mão dela novamente para voltar o bem-estar. E o ciclo vicioso começa.
O vício se estabelece mais nos adolescentes, porque é o período de conflitos, medos, rebeldias, indecisões. Se o adolescente é emocionalmente bem constituído, bem formado, se tem bom ambiente doméstico e de amizades, consegue superar a fase. No entanto, o que mais se encontra é o jovem julgar os pais ultrapassados, destituídos de autoridade. Quer enfrentar o mundo, assumir a sua individualidade, viver a vida de acordo com os padrões a que dá valor e sofre frustrações que assustam.
Porque não têm lugar ainda definido na sociedade dos adultos, aproximam-se dos iguais a fim de estabelecer a própria identidade. Questionam-se: para que viver? Que sentido tem a vida? As más companhias o conduzem à droga e esta a desvios muitas vezes irreversíveis, não alcançando os 67 anos de Gilberto Gil.
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Na fronteira do Brasil com a Argentina, no território das Missões. O Dr. João Roque Landblut, advogado, naquele sábado de Aleluia, estava em seu escritório tranquilo, espiando a rua, após afastar a cortina da janela. Tudo parado. O calçamento com suas pedras úmidas e brilhantes, uma chuvinha se esfarelava em névoa, o vento soprava do norte, empurrando as nuvens para o sul.
Esperava ouvir boa música e, aproximando-se o meio-dia, tomar um Chivas. Foi quando a secretária anunciou duas pessoas, uma velha idosa e um moço, gente pobre que queriam uma conversa particular. Contra a vontade e fumando um cigarro, o advogado atendeu-os e o jovem expôs a situação: a irmã, Maria, desapareceu e lhe disseram que só ele, o advogado Landblut, seria capaz de localizá-la.
A polícia não demonstrou interesse pelo caso e o tempo passava. O marido, Abrilino, dizia nada saber. Passara a noite fora e na, segunda-feira, regressando ao lar, não encontrada Maria, mãe de seus dois filhos. Era o que alegava.
A esposa "não regulava bem. Parecia esquecer-se das coisas, falava tudo atrapalhado. Isso, às vezes, nem sempre. Assim, de normal, ela era certa. Só às vezes ficava meio variada, meio atacada da cabeça", declarou o irmão.
O delegado se justificou declarando que seu serviço não era cuidar de loucos. O único que se interessara foi o cabo Tomás, porque os conhecia e ajudou a procurar, nada conseguindo, porém.
Na segunda-feira, falou ao delegado, que mandou buscar Abrilino, trabalhador em uma construção. Demorou a chegar e, quando veio, já estava acompanhado do Dr. Inácio dos Santos Machado, advogado. Afirmou ignorar onde estava Maria e como desaparecera.
Abrilino não olhava nos olhos de Landblut, disse que não estava em casa na noite do sumiço, e era estranho que agora afirmasse que nada sabia. Maria fora ao culto e não voltara. Acrescentou que a procurara, de noite, estava escuro, não adiantou. Landblut constatou que não conseguiria algo positivo. Tentou averiguar porque Maria se enlouquecera. O marido, ou viúvo?, explicou que ela falava bobagem, rezava dizendo que tinha muito pecado, que todos iriam para o inferno, com um rosário nas mãos, gritava por Deus.
Sentindo inúteis as diligências, Landblut procurou o cabo Tomás, de quem soube que Abrilino no domingo do desaparecimento estivera na zona boêmia; "clareou o dia lá". Contou que o esposo era um borracho, "quando bebe, então, é o diabo. A coitada é quem aguentava. Quanta judiação, quanta surra levou!"
Concluiu o raciocínio: "Um cara como o Abrilino não enxergar a diferença entre surrar... e matar." Observou que não adiantava insistir junto ao delegado ou ao promotor: "vai perguntar um pouco daqui, outro pouco dali. E é só. Tudo vai ficar como está".
Para o cabo, Maria estava morta, embora fosse apenas um palpite. "Ela foi morta", mas não disse por quem. O corpo talvez fosse lançado ao rio, que passa perto. O promotor temia a população: "Ficaríamos em má situação. O mundo abriria a boca, poderia até nos processar. E daí, em que situação ficaria eu?"
Landblut e o promotor discutiram. O primeiro observava que, no tribunal, o promotor "abre a boca, diz besteira, exagera e torce o crime, de santo faz demônio, e... Nada. Dorme em santa paz com a consciência, e sonha que é herói".
O interlocutor se esquivou: "A lei permite, o crime está provado, só carece de interpretação. Mas, o Doutor sabe, até prova em contrário, todo indivíduo é honesto. E, no presente caso, existe a imputação de um crime que não se sabe se foi cometido. Se não foi, a calúnia e exige retratação. Ou, pena de prisão. Pense, então, em minha situação".
Por motivos e circunstâncias, Landblut desconfiou que Maria estaria sepultada em sua própria casa. Pediu pé-de-cabra e, com o cabo e o Pastor, levantou o piso do assoalho. Pouco demorou e apareceu o corpo, corroído. Ali a vítima fora enterrada.
O conto está no livro "Onde está Maria?", de Nélson Hoffmann, escritor, advogado, residente em Roque Gonzales, na fronteira. Lá, o corpo foi encontrado. Aqui, falta ainda o de Elisa.
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A jornalista Márcia Vieira, embaixatriz do Norte de Minas para o restante do Estado, me envia exemplar de "Sapo na Muda", livro do jornalista Luís Carlos Novaes, que tem como subtítulo "Meus amigos, meus mortos, meus caminhos tortos".
Já ouvira a expressão "passarinho na muda", que se refere a um período de transição do animalzinho voador e o período de candidatos a cargos públicos, esperando definições. "Sapo na Muda" me causou estranheza, que o também jornalista Felipe Gabrich explica.
É o nome da coluna mantida semanalmente no "Jornal da Notícias", de que é editor, em Montes Claros, o agora escritor.
Diz mais: "E o que é 'Sapo na Muda' senão as modificações que a vida vai nos proporcionando em todos os setores?
Ao longo da vida, vivemos os modismos, enfrentamos, derrubamos e implantamos governos; vencemos as barreiras dos mitos existenciais; apaixonamo-nos; beijamos; namoramos e casamos. Temos filhos e vamos tocando o presente e pensando no futuro, que já é agora".
O livro contém tudo isso, sendo personagem principal Luis Carlos Novaes, o autor, também conhecido como Perereca, ou para simplificar Peré, alguém que sabe escrever, o que já é relevante num país em que não poucos ocupam espaços nos jornais e as páginas de livros, sendo rigorosamente apedeutas.
O autor de "Sapo na Muda", o livro, descreve despretensiosamente a cidade como era num período muito duro para os brasileiros de um modo geral, porque período da ditadura militar, que serviu para que não poucos hoje gozem de indenizações vultosas concedidas pelo governo.
Quem tomar à mão o livro irá inicialmente julgar que se trata de contos, revelações, confissões e invenções sobre um povo que mora num lugar já distante da capital, sofrido pelas secas, mas também pela incúria ou omissão das administrações públicas.
Em verdade, é tudo isso e muito mais, relatado num volume agradável, que não passaria pela censura de outros tempos, dos governantes, ou de nossos próprios pais. Porque geralmente a censura começava em casa.
Mesmo para quem não conhece os personagens, os casos são interessantes e levam a pensar como agiríamos diante dos fatos e das circunstâncias expostas. Um grupo de revolucionários sem armas e munições, a não ser as da rebeldia, dos não chegados à maturidade, "aprontava", aventurava nas noites e nos dias, em todos os campos: na música, na imprensa, nas atividades esportivas - ou não, viviam e sonhavam, porque aquela era exatamente a época para os sonhos.
Mas era uma turma muito ligada nos acontecimentos, não apenas os locais. As notícias chegavam, músicas era exportadas do sertão, enquanto outras entravam de mansinho ou ruidosamente nos lares e nos bares, nos salões e nos clubes.
"Eh! Mundo nuvem, céu sem porteira.
1972 foi um ano interessante. Enquanto nos Estados Unidos os Democratas exigiam rigor em Watergate, aquela investigação sobre a tentativa de colocar microfones clandestinos na sede da legenda, no edifício Watergate, coisa tão comum hoje no Brasil, os Jogos Olímpicos de Munique tinham a atenção do mundo.
Com 18 mortos, numa ação dos terroristas do Setembro Negro, que lutava pela libertação da Palestina. E nós, aqui, aprendendo a lutar contra terroristas com fuzis de 1914.
Eh! Mundo éter, almas criadoras".
Aqueles jovens pensavam que a sua terra era livre e o seu quarto infinito. Tinham ideais de amor e liberdade, embora em plena ditadura. "Éramos bem mais criativos do que vejo nos meninos e meninas de agora, e nas discussões dizíamos verdades. Mas aprendi, ali, que as verdades não são para serem ditas. Basta olhar os olhos.
Vivíamos verdades, ideias e ideais, olhávamos para o futuro como se ele fosse acontecer dentro de dez anos. Na verdade, o futuro aconteceu rápido. Instantes depois...Tão estranho crescer, adolescer...
Escrevemos tranquilo sob a copa das árvores, "nós estávamos semeando, companheiros, no coração, manhãs e frutos e sonhos. Nós preparávamos, companheiros, sem ilusão, um novo tempo".
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O ex-prefeito de Belo Horizonte Jorge Carone Filho manifestou-me em telefonema de dias atrás, duas preocupação com relação à venda de terras brasileiras à China para exploração de minério de ferro. É, certamente, uma inquietação muito legítima porque extrapola as perspectivas da nação de aumentar a exportação, porque se está alienando partes do território.
Não se pode falar no tema sem recorrer à histórica resistência do presidente de Minas Gerais, Artur Bernardes, no caso da Itabira Iron. O acadêmico e ex-deputado federal Milton Reis, em "A Trajetória do Poder", analisa a questão em um parágrafo, suficiente para esclarecer do que se trata.
Mencionada empresa conseguira do governo brasileiro, na época de Epitácio Pessoa, autorização para explorar o minério brasileiro a preço praticamente simbólico. "Bernardes, com o acendrado nacionalismo demonstrado em todo o decorrer da vida, revelou-se contra os termos leoninos do contrato e conseguiu impedir que fosse firmado, por ser lesivo ao país e, principalmente, a Minas Gerais.
Ele entendia que Minas e o Brasil precisavam de usinas siderúrgicas, bem como de técnica aprimorada para a extração e exploração do minério, e, sobretudo, a administração deveria ser feita por brasileiros".
Ora, o Brasil tem de estar atento ao que lhe é essencial: o seu território, principalmente em se tratando da China, pelo tipo de regime que adotou, que não se resume à quase servidão de seu povo.
O mundo se viu encantado com o fantástico desenvolvimento do país asiático, um dos mais poderosos de nosso tempo. É realmente de se admirar, mas se há de examinar de que modo se fez esse salto mágico para superar poderosas nações do Ocidente.
O escritor-médico Marco Aurélio Baggio faz raciocínio: "A mídia enaltece a prosperidade chinesa, embasada pelo crescimento médio do PIB, em 10% sustentado há cerca de 30 anos: 1979-2008. Comentaristas internacionais não cansam de propalar que a China será a segunda potência econômica do mundo ou, mesmo, que superará os 15 trilhões de dólares do produto interno bruto dos Estados Unidos da América.
É próprio da natureza humana criar ilusões - dragões - para com eles maravilhar-se e temê-los. Há 15 anos, Lester Thurow em seu livro "Cabeça a cabeça", previa que o Japão seria a economia preponderante na virada do século vinte, vencendo a competição com os EUA e a União Europeia. Sua previsão falhou. Há 15 anos, o Japão patina sobre suas contradições, com crescimento pífio.
Em sua marcha para os países que detenham potencial de matérias-primas para sustentar o seu desenvolvimento, a China não mede esforços e atitudes. Não quer cingir-se mais a adquirir o produto, mas a própria terra que o contém, como no caso das Itaminas, cuja mina em Sarzedo foi vendida, na própria região metropolitana de BH, ao consórcio chinês ECE-Birô de Exploração e Desenvolvimento Mineral do Leste da China, uma estatal, evidentemente.
O dragão inquieta. Delfim Netto escreveu, há dias: "A China tem hoje, uma presença externa semelhante à dos europeus nos bons tempos coloniais: ela invadiu praticamente todo o continente africano". Mas não só a África está em sua mira, e seus negócios com o Brasil precisam ser pensados.
Delfim disse mais: "Não devemos admitir que as empresas estatais da China comprem nossas jazidas de ferro, manganês, ou porções de terra para a produção de alimentos". Mas não só alimentos, diríamos nós. Minério de ferro não é para sustentar a agricultura, até prova em contrário.
A China investirá US$ 14,8 bilhões no Brasil este ano; 42% será em Minas Gerais, ou seja, R$ 6,2 bilhões, a maioria dos recursos no setor mineral. O país asiático necessita de minerais, alimentos e energia e irá buscá-los onde estiveram, pelo preço possível.
O ex-ministro João Camilo Pena raciocina sobre as compras da China: "É completamente diferente de uma empresa privada atuar em outro país ou até mesmo comprar um espaço de terra. Nesse caso, não é uma organização e, sim, uma nação".
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