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No dia 18 último, saiu aqui o comentário sob título "A difícil eleição", em que focalizei a escolha de Amilcar Martins para a Academia Mineira de Letras. Foi, de fato, um momento singular na história da Academia, que tem justamente o nome de Casa de Alphonsus. Minhas observações foram consumidas pelos fatos.
O outro candidato era Afonso Henriques Neto, de quem mostrei um sucinto retrato bibliográfico. Tinha e tem méritos para assentar-se numa cadeira na velha mansão de Borges da Costa, na rua da Bahia.
Amilcar foi escolhido para a vaga do poeta Alphonsus de Guimaraens Filho, pai de Afonso e filho do patrono da Academia. Explica-se, e nisso me ajuda Ângelo Oswaldo, brilhante membro do sodalício: "Quando Alphonsus faleceu, há dois anos, pensou-se logo no nome de seu filho, Afonso Henriques Neto. Trata-se de poeta reconhecido pela altura alcançada por sua densa produção, sendo, ainda, neto do grande Alphonsus e sobrinho do admirável João Alphonsus. Descende de três acadêmicos que marcaram a instituição fundada em 1909.
Pode-ser-ia brincar dizendo que se trata de regalo de pai para filho. Mas não constitui novidade ou desdouro: o próprio Ângelo Oswaldo recorda que a sucessão assinalada por vínculos familiares encontra gratos exemplos na presença de Pedro Rogério Moreira, filho de Mestre Vivaldi, na Academia Mineira, e de Cícero Sandroni, genro de Austregésilo de Ataíde, na Casa de Machado de Assis."
E termina o parágrafo o atual prefeito de Ouro Preto: "Eu próprio sou neto de José Oswaldo, ex-presidente da AML", e ninguém lhe contesta títulos e direitos. Pedro Rogério, filho de Vivaldi, comentou - mais de uma vez - que a Academia tinha tantos "Moreiras", que seria mais legitimamente chamada "Academia Moreira de Letras".
"Parece a muitos, a mim também, "singularmente valioso que "a academia conserve, entre os pares, um poeta que guarda e honra o nome do simbolista mineiro que é o nome da casa". Assim a eleição de Afonso Henriques é uma espécie de referendum ao vaticínio por ocasião da romaria dos acadêmicos a Ouro Preto e Mariana, pelo centenário do sodalício.
Esses registros me conduzem a um livro de Fernando Jorge, que jamais pôs travas à língua. E corajoso é, como se desprende de suas revelações e posições, sobretudo quando envolvem as atividades e os cidadãos com assento na Brasileira de Letras.
Em "A Academia do fardão e da confusão", o autor lembra que, na noite de 20 de julho de 1979, se realizava a cerimônia de inauguração do Centro Cultural do Brasil, novo prédio de 30 andares da ABL. Três generais compareceram, simbolizando o domínio que a ditadura exercia no sodalício: Geisel, Médici e Figueiredo. Presente Alguns outros ministros poderiam, talvez, incluir de maneira decisiva nas eleições dos "imortais".
Os dois Portellas lá estavam, Petronio, Justiça, e Eduardo, da Educação e Cultura, "cuja figura de aspecto garboso se assemelhava à de um dançarino de tango ou à de um cantor de cabaré".
A grandeza e o luxo do edifício chamava a atenção. O imortal Adonias Filho se manifestou contra a ostentação: a Academia deveria investir "mais em obras literárias e menos em obras de cimento". Assim Tristão de Athayde, ou seja, Alceu Amoroso Lima assomou à tribuna, como primeiro orador. Declarou:
"Durante a ocupação de Paris por tropas alemãs, um acadêmico francês se dirigia para sua Academia quando um soldado invasor lhe perguntou que edifício era aquele, no que ele respondeu: "é a casa da liberdade. Queremos ser a casa da liberdade".
Alceu manteve o raciocínio:
"... defender o passado, a dignidade das letras, da cultura, como um todo; é a defesa dos valores sem preço da liberdade criativa, e, através dela, da distribuição da Justiça. A Academia, longe de ser inimiga da liberdade, deve ser freio da Censura contra as ditaduras estéticas e políticas; deve ser a casa da liberdade."
Enfim, é por esses princípios e objetivos que a Academia existe. Os seus integrantes variam.
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