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Manoel Hygino dos Santos
Além do Mediterrâneo
 


O ministro dos Direitos Humanos do Brasil, Paulo Vannuchi, afirmou - embora os jornais não tivessem dado ênfase - que nosso governo continua "pressionando diplomaticamente" o "ditador" do Irã para que envie ao Brasil Sakineh Aashtiani, sentenciada à morte por enforcamento, inicialmente por apedrejamento.
Vê-se que Teerã, acha que ameniza a dor da condenada. E o ministro de cá, de confiança, portanto, do presidente da República, afirma que o ditador do lado de lá do Mediterrâneo merece crédito. "Se esse ditador tiver um mínimo de bom senso, deveria permitir que ela venha morar no Brasil e seja salva". Ahmadinejad, contudo, mantém áspero silêncio.
O governo do Irã, que tanto apoio encontrou do Brasil e da Turquia no "acordo" nuclear, até desafiando o Conselho de Segurança da ONU, não se deu por derrotado no caso da senhora Sakineh: "Quais são as consequências desse tipo de tratamento aos criminosos e assassinos? Será que a sociedade brasileira e o Brasil precisarão ter, no futuro, um lugar para os criminosos de outros países em seu território?", foi o questionamento, que não teve revide de Brasília, talvez percebendo estar em rota errada.
Parece uma crítica direta ao Brasil, que sequer tem prisões para abrigar "criminosos e assassinos" de cá, como se verifica por cenas desumanas colhidas pelas tevês sobre a situação das prisões.
Se verdadeiramente houve o adultério de Sakineh e a posteriormente denunciada acusação de mandante do assassinato do marido, isso é caso tão tremendamente horrível? É algo extremamente complexo. Recentemente uma adolescente brasileira com 14 anos condenada a seis meses de prisão em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, por "sexo consensual" com um paquistanês, motorista de ônibus escolar, o que será punido com deportação.
Nesse último caso, os promotores públicos acusaram a jovem de combinar o encontro com o paquistanês, através de mensagens com textos "eróticos". Inicialmente, a adolescente alegou estupro mas depois se retratou. Nos Emirados Árabes, crimes de sexo são analisados sob a "sharia", lei islâmica, segundo a qual os acusados que passaram a puberdade são julgados como adultos. Sexo fora do casamento é ali considerado ilegal.
Cada terra tem seu uso.
Também no Irã, um jovem de 18 anos, está para ser executado por ser homossexual. A informação é do "The Guardian", da Inglaterra. Ebraim Hamidi afirma não ser homossexual, mas foi condenado por sodomia. Sem representação legal própria, e é defendido por um advogado de direitos humanos, o mesmo que atua no caso de Sakineh.
Mas quem defende esses casos também vivem seu drama. O advogado foi coagido a deixar o Irã por perseguições políticas, após assumir o caso Sakineh, que ganhou repercussão internacional. Hamidi está preso há dois anos e, no início, com três dias de detenção, teria confessado o crime sob tortura. O Judiciário insiste que o réu deve ser executado. Será que o Brasil não vai interferir também por ele? E as lideranças dos grupos brasileiros que defendem os direitos humanos?
O Irã, porém, nem sempre foi assim. Até porque o poeta Omar Khayyam, o mais conhecido no Ocidente, pregou em seus versos o culto do vinho e do amor. Um embaixador nosso que por lá andou registra que, até nossos tempos, a produção de vinho no Irã era considerável, apesar das proibições do Alcorão, encontrando ávidos consumidores na população. São vinhos de qualidade discreta, de sabor adocicado, cujo nome persa, jarab, deu em português a palavra xarope - adequada para descrever o produto original.
A negligência na observância dos preceitos religiosos do Islam era extremamente generalizada no Irã, segundo o diplomata M. Pio Corrêa, nas classes dirigentes, o embaixador diz jamais ter conhecido um iraniano que não fizesse questão de explicar que o Islam foi imposto, sob pena de morte, pelos detestados invasores árabes na base do "crê ou morre". No caso de Sakineh e do jovem supostamente homossexual a lei é obedecida com todo rigor, como se vê.

Postado em 9 de Setembro, 2010
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