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O uso do álcool como combustível foi sempre problema no Brasil, quando não deveria sê-lo. Aliás, está proibido usar o vocábulo 'álcool', agora é etanol, mas mesmo assim o problema persiste. Os governos jamais acertaram o passo com relação à questão, e isso vem desde o tempo da ditadura.
Enquanto o Brasil anuncia que vai ensinar a América Central e países da África a produzir esse combustível, como alternativa à gasolina, nós mesmos nos vemos perdidos no emaranhado de dificuldades para encher o tanque de todos os veículos circulantes no país. E a indústria automobilística, que tomou uma poderosa injeção de ânimo com a redução do IPI para os veículos em 2009, segue entregando carros às revendedoras, a todo vapor.
Um carro foi sempre um fascinante objeto de uso pessoal. Vem de longe, desde o tempo do Ford bigode ou do Ford 29, pretendido por quantos chegavam a um determinado período de vida ou de construção do futuro. Entre os bens mais desejados, um quatro rodas, com um pneu de sobressalente, numa época em que rodovias propriamente ditas sequer existiam.
Com carro a álcool, percorri boa parte do Brasil e andei nele pelos países que formam hoje o Mercosul, tão falado mas ainda tão pouco funcional. Naquela época, viajar com veículo a álcool era até certo ponto um desafio ao bom senso, tamanhas as dificuldades de encontrar o combustível em boa parcela dos postos. A situação melhorou.
Mas a frota cresceu demais, o Governo quer arrecadar IPI e anunciar que está criando vagas no setor automobilístico, os empresários do setor fazem o seu papel: fabricam, disponibilizam o produto e auferem lucros. Tudo faz parte.
Eis a situação: o preço do etanol subiu, atravessa-se a entressafra de produção de cana-de-açúcar, e admite-se que o combustível poderá faltar. Estamos em janeiro ainda. Mas os especialistas afirmam que, se continuar o consumo no atual nível, em março ou abril não haverá estoque para abastecimento do mercado.
No momento, o bom está no Nordeste, vivendo sua safra plena e podendo suprir a demanda do Centro-Sul e Sudeste. Mas, quando ela terminar, a partir do quarto mês, como será? O Nordeste terá de responder à sua própria demanda e de parar o envio do combustível para a região que abriga a maior frota de veículos.
O aparentemente o incrível acontecerá, e já se pensa seriamente nisso. O Brasil vai buscar o etanol de que carece nos Estados Unidos, como já procedeu com gasolina no passado. Ficamos constrangidos a adquirir na grande potência do Norte o que nos falta, meio para contornar as consequências da entressafra.
Lá, no país dos Rockefeller e dos Bush, há etanol sobrando, pois a oferta é bastante grande e o consumo interno ainda relativamente pequeno. O obstáculo é que a alíquota de importação pelo Brasil presentemente é de 20%, e o Governo de cá se obrigará a reduzi-la, o que, por sinal, é um pleito antigo.
Parece capricho, mas não é. São fatos. Voltamos ao que éramos, comprando combustível para atender a nossas necessidades, se não quisermos ver a frota parada, a indústria diminuir o ritmo de produção e o nosso consumidor deixar o veículo parado.
Depois de tanto sacrifício para comprar o seu bem mais almejado, afora a esposa, os filhos, a namorada, encostará o quatro-rodas na garagem, para os que a têm, ou junto ao passeio, sujeito à ação dos vândalos. Estes, aliás, não faltam.
Está-se em busca de soluções viáveis, e tudo tem de ser feito em alta velocidade, porque o tempo urge e os problemas crescem. Por enquanto, ao que consta, não há previsão de chegada de cargas de álcool no volume imprescindível à nossa precisão.
Não se pode esquecer, por outro lado, que já temos um comércio apreciável na produção de aguardente para o mercado externo. E o consumidor interno não pode privar-se de sua caninha antes das refeições.
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