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Diante das agruras da vida interiorana, da falta de perspectivas generosas para os que lá moravam, a natural inclinação era mudar-se para as cidades grandes, para os centros de maior expressão, para as capitais, principalmente dos estados mais ricos. Isto é, São Paulo e Rio de Janeiro, no Sudeste, na orla marítima, núcleos dinâmicos e progressistas.
Imaginava-se, com água na boca: "morar em São Paulo", "morar no Rio de Janeiro". Mas com o crescente fluxo migratório, essas pessoas e famílias se instalavam muito longe do Eldorado. Distribuíam-se pela periferia, nos grotões e nos morros das metrópoles, cada vez mais distanciadas do que supunham: conforto, condições de viver bem, tranquilidade, segurança, saúde e educação.
As grandes cidades empapuçavam. Estavam inchadas, e inchação não é sinal de saúde. As cenas dramáticas a que se tem assistido nesse princípio de ano, como em épocas idênticas dos anteriores, são o reflexo da gigantesca e desordenada transferência de milhões de brasileiros para as metrópoles. Instaladas em regiões de risco, em áreas impróprias, para construções, sujeitas a desligamentos e a alagamentos, tornam-se, esses segmentos, vulneráveis às intempéries, às tempestades, aos desmoronamentos e consequente a perda da saúde e da vida, da esperança na felicidade que sonhavam na cidade grande.
No Brasil, acredita-se que os males só acontecem com os outros, jamais com a gente. Mas os acontecimentos subsequentes ao Natal de 2009 e até agora demonstram que o perigo mora ao lado, não é ficção ou cinema. Mas o janeiro que passou não foi o último que chega carregado de inquietações, de dramas, indeléveis às famílias, a avolumar as estatísticas, porque as causas persistem e os efeitos, serão semelhantes ou idênticos. Não custou muito e essa gente percebeu como também era difícil e mais perigosa a existência nas cidades de grande porte: trabalho só para os qualificados, transporte sujeito a longos congestionamentos, e ilimitada demora, desconforto, educação sujeita aos óbices do sistema, o risco dos pedófilos e aliciadores de menores, dos traficantes de drogas, tentando aumentar o rebanho de consumidores e mais mulas para levar papelotes, cigarros e cachimbos. A vida por um fio, talvez pendente de uma bala perdida, eliminando crianças e adolescentes, que deviam ser preparadas para o bom e reto cominho.
Mesmo assim, o êxodo das cidades ou vilas ou povoados com destino à cidade maior segue fascinando, depois de extintos os horizontes de sucesso futuro nos lugares de origem. Dali, partem também os desempregados nas megalópoles, os enfermos sem assistência, os que não têm onde morar, os que se alojam em qualquer ponto da cidade, na sarjeta, mas se dizem, orgulhosamente, moradores em São Paulo, ou Rio de Janeiro, mesmo Belo Horizonte ou Porto Alegre. Habitam ruas que existem, com esgoto a céu aberto, as enxurradas carregando os detritos que descem no morro para pontos de água estagnada, sujeita aos transmissores das mais várias e perigosas doenças.
Em Minas Gerais, um território maior que a França, registrou a diminuição da população em 157 municípios na última década. O interior se esvazia e aumenta a população sofredora das grandes cidades, sujeitas a todos os males mencionados, e cuja solução não existe senão a longo... muito longo prazo.
Com todas as bondades da natureza e bênçãos de Deus, para os que creem, permanecem o desafio de viver dignamente, em extensas regiões, se perdido no inóspito sertão ou à beira-mar plantado. Somos um pouco Haiti, mesmo com as bênçãos da Providência. Falta o terremoto e a rebelião das placas tectônicas. Ainda tem. Assim, há esperança, porque o povo é pacífico e bom.
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