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Eis que o geólogo, professor Roberto Murta, me traz um livro raro: "Guia politicamente incorreto da História do Brasil", de Leandro Narloch, com ilustrações de Gilmar Fraga, lançado pela Leya, de São Paulo, no ano passado. Tudo nesse livro é inusitado, a começar pela disposição do autor de contestar fatos considerados incontestáveis, na crônica.
Já aí uma demonstração de coragem, em uma sociedade tão acostumada a acompanhar o que já foi dito e escrito, de ser a maria-que-vai-com-as-outras. Leandro Narloch levanta os problemas, discute-os, pesquisa-os, põe-os na berlinda, para que a nação tenha uma versão não consuetudinária ou a consagrada por historiadores celebrados ou meros seguidores de ideias e contos tidos como irreversíveis, por que pretensamente perfeitos.
Na última capa, o autor já se justifica: "É hora de jogar tomates na historiografia politicamente correta. Este guia reúne histórias que vão diretamente contra ela. Só erros das vítimas e dos heróis da bondade, só virtudes dos considerados vilões. Alguém poderá dizer que se trata do mesmo esforço dos historiadores militantes, só que na direção oposta".
Vai além: "Este livro não quer ser um falso estudo acadêmico, como o daqueles estudiosos, e sim uma provocação. Uma pequena coletânea de pesquisas históricas sérias, irritantes e desagradáveis, escolhidas com o objetivo de enfurecer um bom número de cidadãos".
E Leandro consegue seu objetivo. Levanta questões sérias e graves, que poucos teriam a ousadia de levantar e pôr as cartas na mesa, a elas se contrapondo. Até porque, até certo ponto, somos um povo que tem medo da verdade, o que explicaria a hipocrisia que domina determinados setores da política nacional.
Antes de entrar nos temas focalizados, informemos que Leandro Narloch é jornalista e nasceu em Curitiba. Foi repórter da revista "Veja" e editor das revistas "Aventuras na História" e "Superinteressante". Tem 31 anos, uma idade preciosa, em que as pessoas porque jovens, têm interesses aguçados e reclinação indesviável de contar o que sabe.
Vejamos alguns tópicos, para que se possa antecipar o conteúdo dos casos: Zumbi tinha escravos, Santos Dumont não inventou o avião, João Goulart favorecia empreiteiras. A origem da feijoada é europeia, Aleijadinho é um personagem literário; antes de entrar em guerra, o Paraguai era um país rural e burocrático, e quem mais matou índios no Brasil foram os próprios índios.
Mas ainda se comenta sobre escritores, samba, o Acre e os comunistas. Aquilo que não se encontrará esmiuçado em qualquer outro livro, nesse se acha explicitado, tintim por tintim, doa a quem doer, contrariando inúmeros e desfazendo mitos, sagas e costumes.
A própria história, com H maiúsculo, merece acres observações do autor, que não formula opiniões vagas. Ele investe no passado, perscruta, pesquisa, investiga sem preconceitos e limites de qualquer espécie.
Ele chegou a dizer o seguinte, que vai melindrar muitos setores e estudiosos:
"Existe um esquema tão repetido para contar a história de alguns países que basta misturar chavões, mudar datas, nomes de nações colonizadas, potências opressoras e pronto. Você já pode passar em qualquer prova de história na escola e, na mesa do bar, dar uma de especialista em todas as nações da América do Sul, África e Ásia. As pessoas certamente concordarão com suas opiniões, os professores vão adorar as respostas".
Na introdução, o autor observa que os índios botavam fogo na floresta para cercar os animais com fogo e depois abatê-los, e não só para conseguir espaço para cultivo, como ora se pensa, o que, aliás, não vem de hoje.
Outro assunto é Zumbi: ele não era Francisco, nem teve educação católica. Esta é uma ficção criada pelo político e jornalista gaúcho Décio Freitas. As presentes anotações são amostra grátis do que é reduzido a bocadinhos nesse livro, que merece ser lido com gosto.
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