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Jornal belo-horizontino, em edição de 26 de agosto, noticiava a respeito da restauração do Teatro Francisco Nunes, no Parque Municipal, considerando-o o primeiro da capital mineira, porque existiram outros depois.
Há um engano, quando informa que "desde abril de 2009, a primeira casa de espetáculos da cidade...está fechada, à espera de recursos para reforma e sob ameaça da queda do telhado, infestado por cupins".
De fato, quando o jornalista e teatrólogo Artur Azevedo veio a Belo Horizonte no princípio do século passado, publicou em seguida suas anotações. No "Minas Gerais", edição de 26.11.1901, reportava-se à existência na Afonso Pena de duas igrejas, uma católica e outra metodista, e de um grande teatro, além da estação dos bondes. A capital engatinhava.
No dia 3 de fevereiro de 1902, o viajor voltou ao assunto, para finalmente referir-se a um teatro, "um teatrinho provisório, de madeira, edificado em trinta e seis dias, pelo sr. Francisco Soucasseaux, inteligente industrial, construtor e fotógrafo ali muito estimado.
"Esse teatro, que contrasta pela sua modéstia com os soberbos palácios e palacetes da nova capital, tem sobre os nossos (os do Rio de Janeiro) a vantagem de possuir uma instalação elétrica de primeira ordem, que nada fica a dever aos melhores teatros do mundo".
Seguem detalhes sobre as instalações na sala e no palco. "A iluminação é perfeitamente graduada por um aparelho engenhosíssimo, que produz, na cena o efeito exato do sol, da lua e do relâmpago, que nos teatros do Rio de Janeiro é obtido ainda com a chama do licopódio, como no tempo da onça".
Licopódio? Vou ao dicionário: um pó inflamável de que se faz uso nos teatros para simular relâmpagos e raios.
O Soucasseaux ficava aproximadamente no mesmo local em que se construiria o Municipal, ou seja, na Bahia com Goiás, como esclareceu o cronista Moacir Andrade. Mas o empresário construtor do primeiro prédio para teatro já tinha planos para o futuro, como revelou a Artur Azevedo.
Seria de pedra e cal, na mesma área em que erguera o de madeira, mas que já incluiria uma galeria, alguns salmos acima dos camarotes e uma pequena inclinação no palco. Azevedo, que entendia do assunto, observou que o teatrinho de Belo Horizonte preencheria perfeitamente os seu fins.
A disposição dos camarotes seria magnífica, o palco de bom tamanho, corredores largos, o aspecto geral simpático, elegante e leve. Assim como o Francisco Nunes, dos anos cinquenta, que ficou no Parque, o imaginado por Soucasseaux se localizou no centro de um jardim oferecendo as comodidades possíveis não só aos espectadores como aos artistas. O escritor visitante achava que não haveria público para lotar a casa por enquanto, porque "Belo Horizonte não tem população teatreira para mais e não há nada tão triste como um teatro vazio em noite de espetáculo".
Já está claro que o primeiro teatro da capital-bebê foi mesmo o Soucasseaux. Ela não esperaria mais de meio século para receber uma casa de espetáculos. A metrópole que os mineiros tinham construído tinha antigamente demonstrável sensibilidade para a arte que se transmite pelo teatro. Amava mesmo o teatro, di-lo José Clemente, pseudônimo de Moacir Andrade.
No teatro Soucasseaux, exibiram-se até companhias estrangeiras e representavam-se revistas teatrais locais, de muito espírito. Lá se montou a revista "O Gregório", muito engraçada, escrita por Artur Lobo, reconhecido intelectual, bom poeta, que sofria de tuberculose.
Depois, encenou-se "A volta do Gregório", também do autor de Coração de Jesus, então município de Montes Claros. Na estreia, universitários de Direito, insuflados, vaiaram a peça e insultaram o autor, em grande alarido. Sensível, o dramaturgo se magoou profundamente com o incidente.
O episódio teria contribuído para sua prematura morte, o que poderá ser tema de outro comentário. De todo modo, não nos faltaram teatros.
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