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O filme sobre o companheiro Lula não rendeu financeiramente o que se esperava, nem o sucesso por simpatia. Para a revista inglesa "The Economist", o Lula tratado na cinebiografia "é bom demais para ser verdade". E a publicação critica seu lançamento em ano eleitoral.
Mas, em Cuba, Yoani Sánchez se insere entre as cem pessoas mais influentes do mundo, segundo a revista "Time". Ademais, a conceituada "Foreign Policy" a classifica como uma das dez intelectuais mais importantes de 2008.
Yoani, filóloga e autora cubana do blog "Generación Y", tem 34 anos. Ou seja, menos da metade da idade de Fidel, que completa 84 em 13 de agosto próximo. Ambos são lidos na ilha mais do que qualquer coisa que apareça impresso, porque ela tem o "blog" e ele o jornal "Granma", porta-voz do Governo e do redator Fidel.
A filóloga não tem medo. Declarou à jornalista Alexandra Martins que assiste na ilha a um cenário de desabastecimentos: "Faltam leite e energia elétrica. Enfrentamos apagões constantes". É um panorama triste, que lembra o caos do Haiti depois do terremoto de 12 de janeiro.
Diz ainda a cubana: "A primeira pergunta que um cubano faz pela manhã é o que ele vai comer naquele dia. Mas, hoje, nós, cubanos, estamos preocupados com a falta de um produto especificamente: o papel higiênico, que não sabemos se vai faltar. Mas, enquanto houver o "Granma", creio que estamos salvos". Entenda-se.
Yoani Sánchez é mais enfática que a própria filha de Fidel, médica. Alina Férnandez, que publicou um livro definidor sobre a Cuba de Fidel, já traduzido ao português e editado no Brasil.
"O papel do sanitário é importado da China, da Itália e de outros países. São transações comerciais muito instáveis. O problema é que o Governo não tem dinheiro para pagar seus credores, não tem caixa".
Antigamente, como aqui no Brasil, a palavra "companheiro" era sintoma de companheirismo, de camaradagem, de solidariedade, de aproximação entre as pessoas. Mas o vocábulo está perdendo sentido e uso na ilha. "Companheiro representa esse coletivismo, de igualdade entre as pessoas. Atualmente, ela foi substituída por "mi brother", "mi sócio" ou "mi amigo". Já não se utiliza mais".
Versada no estudo e conhecimento da língua como instrumento de vivência e convivência entre os homens, Yoani explica o que acontece em sua pátria, quando determinados vocábulos são esquecidos: "A linguagem pode enterrar ou validar qualquer utopia. Todas as palavras têm um momento em que são mais utilizadas. Essa eliminação (de certos vocábulos) é um refluxo do processo psicológico que ocorre dentro das pessoas. Esse processo foi, talvez, de ruptura mesmo, e menos de desuso".
Daí, o termo "companheiro" estar falecendo na ilha do Caribe. A filóloga, que passou toda a vida sob o comunismo de Fidel, tem autoridade para manifestar-se com conhecimento de causa. Lá como cá, jornalista não é bem visto e Yoani declara:
"Na prisão de Canaleta, há 51 presos políticos, a maioria jornalistas, com penas que variam de seis a 30 anos. Dos 75, que foram presos durante a Primavera Negra de 2003, 24 saíram por motivos de saúde ou porque o Governo sofreu algum tipo de pressão.
Só Fidel pode dar a ordem de libertação dos que ficaram. Existem muitas denúncias de maus-tratos, a estrutura da prisão é péssima e sempre sofrem mais aqueles que estão presos por motivos de consciência. As famílias sofrem muito porque muitas delas estão a 100 quilômetros de distância e, além do mais, só são autorizadas a fazer visitas uma vez a cada três meses.
O futuro da ilha é incerto. Há explicação: "Um sistema que funciona há cinquenta anos e necessita mostrar seu líder envelhecido para validar-se quer dizer que as coisas vão muito mal mesmo. Não entendo essa necessidade de mostrar a velha classe continuamente, rastejando. Para mim, esse sistema "vai se apagar em breve".
Por aqui, a palavra "companheiro", que serviu a um livro de Gabeira perde vez. O sistema vigente se esforça para continuar, para sobreviver. É o mesmo que em Cuba.
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