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Manoel Hygino dos Santos
Uma região ansiosa
 


Enquanto se contavam os mortos das tempestades e deslizamentos de terras em encostas de estados do Sudeste, enquanto se buscavam os corpos dos que perderam a vida no Sul - como no desabamento de ponte em Agudo, RS, - o Norte de Minas, com chuvas esporádicas e esparsas, se inquietava com a possibilidade da seca.
O fenômeno, há séculos, estigmatiza uma região e uma população que labora para vencer a adversidade climática e a omissão dos governos. Sou testemunha e partícipe na dor dos que, vindos do Nordeste, penavam em longas viagens em busca de melhor condição de vida. Sou testemunha das preocupações dos que plantam sem segurança da farta colheita e de algum lucro que recompense dignamente no norte mineiro.
Em meio ao drama dos que padecem em grandes centros, como São Paulo, pelo excesso de água que se apossa das vias públicas e destrói casas e edifícios de apartamentos, o nosso sertanejo teme o pior com uma estiagem que se alonga.
Já em novembro, o veterano e excelente jornalista Waldir Senna lembrava a mais rigorosa seca de que se tem notícia no Norte de Minas, a de 1976. Os jornais registraram mortandade de 20 mil reses e a intensa mobilização de entidades representativas do setor rural junto a autoridades estaduais e federais para assistência às populações flageladas.
Mas aquela era a época da Sudene, que centralizou as providências para minimizar os efeitos da estiagem. Ministros e secretários se deslocaram ao epicentro do fenômeno para estudar e anunciar medidas inéditas, como formação de frentes de trabalho e abertura de créditos bancários.
Mas no penúltimo mês de 2009, Waldir Senna Batista já advertia que a seca do ano que fluía se indicava possivelmente pior do que a anterior. Admitia-se a perda de 100 mil reses. As pastagens estavam dizimadas e a água de tanques e barragens se esgotavam. O rebanho, mais numeroso, se mantinha com complementos alimentares com estoques decrescendo perigosamente, enquanto a cana e forrageiras já tinham acabado. Água basicamente só de poços tubulares, com vazão em queda.
Em 2009, as chuvas vieram antecipadas no Norte de Minas, em setembro. Em outubro, foram intensas, mas rarearam a partir daí, aguçando a inquietação. Em dezembro, choveu pouco e, em 2010, o céu brindou pouco a terra e a esperança dos que a habitam.
Na região é comum: há as longas estiagens e, quando vem a chuvas, desabam pesadamente, registram-se tempestades, que produzem efeitos malignos sobre a população, destruindo as toscas casas em que se abrigam os campesinos (já se pode usar a palavra sem sintoma de ideologia), arrasam as plantações já feitas, avolumam ameaçadoramente as águas dos rios, muitos deles reduzidos antes a filetes de água.
Janeiro não contemplou favoravelmente as expectativas. E fevereiro, como será? A dúvida, cruel, deixa em ansiedade uma população que trabalha e produz, enquanto os moradores dos povoados buscam nas cisternas o líquido indispensável à saúde e à vida.
Nesse período, são os caminhões-tanque que socorrem ponderáveis parcelas de uma população sofredora, que não tem a quem apelar para amenizar o drama da falta de dinheiro para suprir as necessidades humanas mínimas, inclusive quanto à saúde. E remédio, às vezes são de alto preço.
A esperança se concentra nas orações, nas procissões, na promessa por dias menos perversos, nas penitências antecipadamente cumpridas para que as nuvens não decepcionem mais uma vez. É o calendário tenebroso que envolve muitos milhares de famílias, periodicamente, como se um castigo a punir pessoas que nada fizeram de errado e mau.
No Nordeste brasileiro, como observou Euclides, é o "magrém", a estação das secas. "Verde e magrém" são termos com que os matutos denominam naquela sofrida região as quadras chuvosas e as secas. O problema, conteúdo, não é de meras palavras. É a dura realidade que elas representam e que aterroriza o homem do Norte de Minas e a economia da região. Eis a questão.

Postado em 4 de Fevereiro, 2010
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