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Cristiano Couto
Na juventude, Euclenes era exímio dançarino e hoje passa horas pintando panos de prato
Histórias de vida narradas por quem jamais pensou em publicá-las foram reunidas num livro surpreendente. A obra, editada pelo Lar dos Idosos São José, foi lançada ontem em Belo Horizonte. “Muitas Histórias ‘Pra’ Contar” reúne 15 “causos” de moradores do asilo, gravados ao longo dos últimos cinco anos.
Entre os relatos, chama a atenção o de um garoto que foi impedido por sua mãe de se casar. Mas, por ser um dançarino diletante, frequentador do Clube Elite, acabou rodopiando pelos salões de uma emissora de TV com sua “segunda paixão”, a cantora Ângela Maria.
O administrador do asilo, Celso Pascoal, revela que a meta é publicar pelo menos outros três volumes, uma vez que foram tomados depoimentos de 40 idosos.
A ideia, revela o administrador, partiu do empresário Ricardo Pimenta. Voluntário na instituição dentro do Projeto Afeto Selado, foi ele quem começou a gravar as histórias “do arco da velha”.
Há vários anos, Pimenta dedica parte de seu tempo escrevendo e lendo cartas para os velhinhos do Lar dos Idosos São José.
“Como a grande maioria dos moradores vem do meio rural, é carente e analfabeta, foi preciso reunir forças para transcrever e catalogar as histórias. Mas o resultado superou nossas expectativas”, diz Pascoal. “Pimenta conquistou a confiança de todos, e sua iniciativa agora rendeu esse delicioso fruto, que tem como autores os próprios moradores da casa”, completa.
Os fragmentos de vida foram compilados pelo jornalista mineiro Flávio Anselmo.
Ainda segundo Pascoal, entre os 40 entrevistados, quatro já faleceram. Mas os que seguem firmes não escondem a emoção de ver, agora, suas histórias publicadas. Como o dançarino Euclenes Barbosa, 75 anos. No livro, ele relata sua infância sofrida e a possessão da mãe, que o impediu de se casar por ela não ter tido sorte no próprio relacionamento amoroso.
Natural de Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, ele conta que sua vida começou de forma agressiva. O pai abandonou a mãe com seis filhos pequenos e somente ele sobreviveu. “Minha mãe se tornou superprotetora. E avessa ao casamento.
Quando fiz três anos, viemos morar em BH. Adolescente, comecei a traçar o meu destino. Foi quando o samba entrou na minha vida de maneira definitiva”, recorda.
Frequentador assíduo, durante a juventude, do Clube Elite, Euclenes lembra que já sambava muito bem, mas precisava aprender outros ritmos para conquistar Edna, a pequena mais cobiçada do pedaço.
Foi assistindo à TV, recorda, que ele aprendeu passos de valsa, tango e bolero. Ao apresentar a moça para sua mãe, deparou-se com um sonoro “não”. Para tentar contornar a situação, engravidou a namorada, mas mesmo assim foi impedido de casar-se.
Aos 17 anos, quando ficou órfão, Euclenes foi morar no Rio de Janeiro e trabalhou em emissoras de TV. Foi onde ele conheceu seu maior ídolo, a cantora Ângela Maria, que sempre o chamava de “meu garoto”.
“Certa vez, nos corredores da televisão, Ângela Maria me chamou para dançar.
Levamos um bolero ali mesmo nos corredores da emissora. Só de brincadeira. Ângela Maria foi o segundo amor de minha vida. Não pela mulher, e sim pela cantora, pela voz. Depois, nunca mais a vi. Só a ouvi no rádio ou nos discos. Mas sou apaixonado por ela até hoje”, admite o dançarino.
Agora, além de ensinar passos de dança para os colegas do Lar São José, Euclenes costuma invadir a cozinha do asilo para dar pitaco nas receitas. “Depois da dança, minha paixão é o fogão”, confessa.
Páginas têm história de amor e racismo
O casal Vicente e Ana Moreira, ele com 76 e ela com 72 anos, também deu sua contribuição à obra. Há três anos no Lar dos Idosos, Vicente optou por relatar sua infância sofrida. Negro, sofreu na pele o preconceito racial que, na época, era bem mais forte. Mas não hesitou em se vingar, logo de quem não devia. “Não me dei bem no grupo escolar, fui expulso da escola. Na minha sala, eu era o único de cor.
Sentavam juntos menino e menina e uma colega chamada Petrolina inventou que eu estava beliscando ela. A professora, dona Conceição, me deu uma reguada e puxou a minha orelha. Queria me levar para a secretaria, mas no caminho eu calcei ela (sic) e a joguei no chão. Pus o pé na frente dela porque ela me bateu, me puxou a orelha. Mereceu o tombo, rolou escada abaixo. Ela chamou o porteiro, seu Inácio, pra me pegar. Fui mais esperto. Passei no meio das pernas dela e fui embora. Nunca mais voltei pra escola”, lembra.
Seu Vicente e dona Ana tiveram quatro filhos, mas todos morreram ainda bebês. “Não sei se o problema era meu ou dela”. No entanto, o amor do casal continua inabalável, mesmo depois de mais de meio século de convivência. “Morremos de inveja. É um amor lindo, desses que a gente só vê no cinema e nas novelas”, atesta a cuidadora Renata Tavares, 37 anos.
Estranhamente, o capítulo reservado aos pombinhos não traz nenhum relato de dona Ana. De poucas palavras, ela se limitou a sussurrar que não gostar de ser fotografada. Mais eloquente, seu Vicente, que só agora está aprendendo a ler e escrever, não esconde seu orgulho em ter o nome eternizado em uma obra literária. “Agora me sinto mais importante”, gaba-se.
Localizado no Bairro Olhos D’Água, na Região Oeste de Belo Horizonte, o Lar dos Idosos tem capacidade para atender até 212 anciãos e abriga hoje 84. A casa, que funciona desde 1982, atende ainda a mais de 200 residentes carentes e é totalmente mantida com doações. Fruto da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura, o livro de 84 páginas terá sua venda totalmente revertida para a instituição.
Segundo o administrador do lugar, Celso Pascoal, a casa precisa de fraldas descartáveis, roupas de cama e agasalhos. As doações podem ser oferecidas pelo telefone (31) 3288-1252 e o livro, comprado pelo telefone (31) 3228-9200.
Quadrinhos contam a vida de ancião húngaro
Douglas Fernandes - Da Sucursal
DIVINÓPOLIS – Iniciado há cinco anos como um projeto de conclusão de curso de faculdade, a trajetória e os casos vivenciados pelo húngaro Myhaly Olah, morador de uma vila vicentina de Divinópolis, no Centro-Oeste mineiro, vão enfim ganhar vida nas histórias em quadrinhos.
Parceria entre a Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e o publicitário Dennis Rodrigo vai permitir a publicação do material, que reúne as memórias do ex-combatente da Segunda Guerra Mundial, retratado pelos traços de artistas de todo o Brasil. A previsão é de que o álbum seja lançado em setembro deste ano.
Membro de um destacamento do exército nazista e responsável por desarmar bombas, o húngaro, que completou 100 anos no último dia 12 de junho, possui um “baú de histórias” para contar.
As aventuras são muitas. Incluem a sobrevivência a um ataque de partisans (guerrilheiros) na Iugoslávia; o encontro com o líder sul-africano Nelson Mandela e até a façanha do húngaro ter conhecido e salvado a vida do então comandante Josip Broz Tito. “As histórias do húngaro são praticamente infindáveis. A proposta do álbum é um desejo do próprio Myhaly Olah em completar suas memórias, colocando no papel recordações que vão além do que já foi publicado em um outro livro”, diz Dennis. “Para isso, conversei bastante com ele para relembrar alguns dos fatos mais marcantes de sua vida”.
O publicitário de 29 anos conta que intensificou os trabalhos nos últimos seis meses, para que o material pudesse ser publicado em setembro deste ano, quando a UFSJ promove um evento chamado “Ciência e Arte”. O álbum foi produzido a várias mãos, contando com outros desenhistas como Wellington Santos, Raimundo Gomes, Hayla Rios, Mario Paixão e Daniel Tonelli.
Segundo Dennis, as histórias contadas por Myhaly Olah ganham importância tanto para o próprio “autor” quanto para os leitores, porque falam sobre escolhas feitas por uma pessoa, mas com o dom de tocar o coletivo.