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Crack avança no rastro de política pública frágil

Apesar do crescente número de viciados na droga, faltam leitos para tratamento e diagnóstico da situação em Minas

Iracema Amaral e Letícia Simões - Repórteres - 14/04/2011 - 08:15

LUIZ COSTA

CRACK

Levantamento de ONG aponta 268 mil dependentes da droga na Grande BH

Minas Gerais precisa de uma política de combate ao crack capaz de conter o avanço do vício, considerado hoje uma epidemia. De acordo com a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), nos últimos dois anos cresceu em mais de 20% o número de ocorrências policiais envolvendo o consumo e o tráfico da droga. Em 2009, a Polícia Militar registrou 3.391 boletins relacionados ao entorpecente. No ano passado, foram 4.073.


“Precisamos de aprimoramento para redirecionar os investimentos”, diz o subsecretário de Estado de Políticas Antidrogas, Cloves Benevides. Ele alega que há uma série de obstáculos a serem superados. A começar pela falta de leitos para desintoxicar os dependentes químicos.


Também não há centros especializados de tratamento a longo prazo. Além disso, são poucos os profissionais capacitados para atender o número cada vez maior de pacientes. Qual a demanda reprimida? O subsecretário não sabe responder. Até porque, afirma, não há um levantamento atual do perfil do usuário de crack.
 

Crack


Benevides não contesta a estimativa feita pela ONG Defesa Social que indica 268 mil viciados na droga somente na capital e Grande BH. “Não concordo nem discordo. A quantidade pode ser maior ou menor”, diz.


O último balanço oficial sobre o assunto foi feito há dez anos, pelo Governo federal. Abordava o consumo de todos os tipos de entorpecentes no país. “Mas está defasado. De lá pra cá, o usuário de crack mudou todas as perguntas do mundo da droga”, avalia.


Segundo o subsecretário, uma nova pesquisa está sendo feita pelo Ministério da Justiça, por meio da Secretaria Nacional de Política sobre Drogas. Ele acredita que o estudo poderá responder quem são os dependentes e quais as necessidades de tratamento. O levantamento, em todo o território brasileiro, deve ficar pronto até o fim deste ano.


Enquanto o diagnóstico sobre o avanço do crack não é concluído, viciados encontram dificuldade para ser atendidos. De acordo com a ONG Defesa Social, só há 3 mil vagas para tratamento em todo o Estado.


Presidente da entidade, Robert William de Carvalho afirma que a ONG se prepara para lançar um serviço voluntário de apoio às famílias que não conseguem internar os parentes. A ideia é criar um cadastro via Internet para os interessados.


A partir da lista, a ONG fará um estudo caso a caso para entrar com ações judiciais e garantir o atendimento dos dependentes. “As políticas públicas direcionadas a esse público são ineficientes. As famílias não têm informações sobre onde conseguir ajuda, pois falta maior engajamento do Estado”.


A proposta é colocar advogados, psicólogos e assistentes sociais para acompanhar os parentes durante todo o tratamento do viciado. A previsão é de que o serviço comece a funcionar na próxima semana.


BH conta com duas unidades especializadas no acolhimento dos dependentes de crack: o Centro de Referência em Saúde Mental para Usuários de Álcool e outras Drogas (Cersam-AD), localizado na Região da Pampulha, e o Centro de Atendimento Psicossocial para Usuários de Álcool e outras Drogas (CAP-AD), também conhecido como Centro Mineiro de Toxicomania (CMT), na Alameda Ezequiel Dias, na Região Hospitalar. O Cersam-AD atende as regionais Venda Nova, Pampulha, Norte e Noroeste. Já o CAP-AD, o Barreiro, as regiões Centro-sul, Leste, Oeste e Nordeste da capital e quem vem do interior.


Acolhida para poucos


A terapeuta ocupacional Raquel Martins Pinheiro, diretora do Centro de Atendimento Psicossocial para Usuários de Álcool e outras Drogas (CAP-AD), afirma que a unidade tem dificuldade para absorver a demanda. “Dependentes do interior de Minas só são atendidos se tiverem onde ficar em BH. Não temos leito”.


Outro problema está no número de funcionários que, segundo ela, é insuficiente. “São dois psicólogos por turno e, por vezes, o paciente é obrigado a voltar para casa sem atendimento”. A maioria do público é formada por viciados em crack.


Raquel lamenta que a precariedade do serviço possa afetar de maneira significativa a vida de quem busca por socorro, mas não consegue. “Essa realidade não é desejável. Mudamos a forma de receber (os pacientes) para tentar diminuir esses casos”. A diretora confessa que já houve ocasiões em que ela mesma tomou a iniciativa do atendimento para evitar que o dependente voltasse para casa sem os devidos cuidados.


Hoje, o centro faz uma triagem com os usuários antes de encaminhá-los aos especialistas. Isso evita que quem não é da região de abrangência do CAP-AD seja acolhido no local. A diretora do Cersam-AD, na Pampulha, não foi encontrada pela reportagem para comentar o funcionamento da unidade.


Além dos centros de atendimento gratuitos, os dependentes podem conseguir ajuda em clínicas particulares, onde a internação chega a custar R$ 15 mil por mês, ou em comunidades terapêuticas. As últimas, em geral, são mantidas por outras entidades.


Para conseguir informações sobre os locais de atendimento disponíveis no Estado, as famílias podem recorrer ao serviço Disque Minas, pelo telefone 155.


Na quarta-feira, foi criada a Frente Parlamentar de Combate ao Crack na Câmara Municipal de Belo Horizonte. O objetivo da comissão é articular e fiscalizar políticas públicas voltadas às questões que envolvem a droga, além de propor soluções.

 

 


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