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Muito mais do que um som que os pais, principalmente, acreditam ser "lindinho", o balbuciar do bebê ou a cantoria espontânea da criança são bastante significativos. O canto dos pequenos pode ser um instrumento para avaliar o desenvolvimento cognitivo deles. E ter, na ciência, a mesma relevância que o desenho, a fala, os modos infantis.
É o que comprova um estudo desenvolvido pela professora da Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Maria Betânia Parizzi Fonseca. De acordo com Betânia, a música cantada pela criança espontaneamente varia de acordo com a idade e evolui de forma previsível e já conhecida pelos profissionais da música. "A proposta é que esse tipo de canto seja cientificamente aceito como expressão do desenvolvimento da criança. Existe uma evolução natural e característica especial para cada etapa do desenvolvimento da criança", diz a pesquisadora.
Bastante desinibido, Carlos Henrique de Oliveira Silva faz aulas de canto, na Escola de Música da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) desde os 5 anos. Hoje, com 7 anos, conta que além de cantar, toca também violão. "Canto até em espanhol", garante.
Betânia enfatiza que este canto espontâneo da criança pequena é profundamente diferente da música produzida por crianças mais velhas e da produção musical dos adultos. É justamente essa diferença, como analisa, que faz com que muitos não o considerem como música. "Essa música da criança pequena não pode ser ouvida com os mesmos padrões com que nós adultos relacionamos com a música", observa Betânia.
Para o trabalho, a pesquisadora analisou o canto de 40 crianças com idade entre 2 e 6 anos, alunos do Núcleo Villa-Lobos de Educação Musical. "São músicas que eles inventam", ressaltou Betânia. O estudo é parte do programa de doutorado em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da UFMG de Betânia. A análise, como ela explicou, levou em conta oito padrões musicais, como ritmo e estrutura melódica.
Os resultados demonstram o modo como ocorre o desenvolvimento musical infantil, que se dá por padrões que, dentre outras coisas, mostram como crianças pequenas percebem o tempo. "Com a música, a criança começa a ter uma compreensão intuitiva do tempo", diz Betânia. Ela explica que o fato de estar inserida numa cultura que mede o tempo de forma cronológica, poder perceber este tempo de forma intuitiva é uma grande evolução. "No canto espontâneo, naturalmente a criança anuncia, pelo tom, quando a música está começando e quando está terminando".
Ana Carolina Lombardi, 3 anos, canta quando acorda e quando brinca. O canto, como conta sua mãe, a arquiteta Flávia Lombardi, não passa de "nan, nan,nan". "Mas é um tom afinadíssimo e num ritmo muito interessante para sua idade", elogia a mãe.
Betânia comenta o fato de uma criança de 4 anos, por exemplo, cantar com características de uma de dois anos. "Isso representa que existe um problema. Essa criança, com certeza, terá problemas de déficit cognitivo, ou seja, de aprendizagem e, se diagnosticado antes o problema, pode ser tratado", afirma.
A proposta é fazer das análises um recurso propedêutico da mesma forma como se observa a criança quando brinca, quando desenha. "Atualmente, esse tipo de canto não é compreendido como ferramenta aplicável na avaliação do desenvolvimento da criança, nem é valorizado pela comunidade da saúde. Betânia lembra ainda a importância de estimular os bebês com tons diferentes na linguagem, o tipo "manhês". A criança que é estimulada, como ressalta, com certeza terá maior evolução cognitiva. "Crianças que só são cuidadas, ou seja, não recebem estímulos, geralmente apresentam déficit cognitivo", analisa. Ainda nesta linha, ela destaca que não é somente colocar um CD e deixar tocando. A criança precisa ver os movimentos da boca, os gestos, o que faz grande diferença. "A música é uma forma de o homem se ordenar no tempo. São nas músicas que as crianças inventam, o canto espontâneo, que se observa como elas percebem o tempo", enfatiza a pesquisadora.
O seu trabalho mostra que de 7 a 8 meses, o bebê balbucia com a finalidade de se comunicar com as pessoas. Não se pode afirmar que ele esteja falando ou cantando. Mas nessa idade ele já é capaz de reproduzir sons consonantais e de repetir sílabas, como dá-dá. Aos 2 anos, a crianças está cantando. Seu canto é "errante", há poucos momentos de regularidade rítmica. Essa criança esboçou uma "finalização" para seu canto. Aos 5 anos já predomina a regularidade rítmica. A criança "divide" seu canto em frases musicais e o ouvinte é "conduzido" ao final do canto, que agora tem começo, meio e fim.
A coordenadora de Iniciação da Musicalização Infantil da Escola de Música Uemg, Janina Soares Damião, diz que quando se trabalha com música, vários campos são trabalhados: coordenação motora, socialização, percepção auditiva, e outros. "Quanto mais cedo a música é introduzida na criança, maior se torna seu campo de percepção", destaca Janina. Ela conta que são vários os exemplos de crianças que começaram a educação musical e tiveram grande evolução comportamental: "Tem crianças que chegaram aqui ainda muito tímidas e hoje já se socialização bem melhor", compara.
Pois Luiza Karol Rocha Pimenta, 9 anos, que estuda música desde os 6 anos, se diverte nas aulas em grupo. "Gosto de cantar olhando pela janela. Meu pai toca sax e eu metalofone", gaba-se Luiza. Sua colega, Beatriz Souza 9 anos, também gosta de soltar a voz. "Fui criada com muita música", entoa a menina.