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Escolas públicas estimulam leitura por meio dos gibis

Histórias em quadrinhos ajudam a criar o hábito de ler e abrem as portas para os grandes clássicos da literatura

Jaqueline da Mata - Repórter - 2/11/2010 - 20:45

CARLOS ROBERTO

gibis

Junior descobriu o gosto pelos livros graças aos gibis

Professores de escolas públicas de Belo Horizonte recorrem a gibis como meio de alfabetização e incentivo à leitura. O resultado é um interesse muito maior dos estudantes pelo hábito de ler. As revistas em quadrinhos, charges e tiras de jornal são, em muitos casos, a porta de entrada para a descoberta de clássicos assinados por Ziraldo, Monteiro Lobato, Carlos Jansen e Figueiredo Pimentel, além de Machado de Assis e Eça de Queiroz. Um dos reflexos da estratégia é o aumento no índice de leitura entre os pequenos, que em oito anos passou de 1,8 livro por ano para 4,7, de acordo com pesquisa do Instituto Pró-livro. Sem necessidade exclusiva de um texto escrito, os quadrinhos podem ser usados até na educação infantil, durante a pré-alfabetização.

 

A leitura é feita de maneiras diversas. Desde cedo, as crianças aprendem a “ler” o mundo que as cerca. A educadora e psicopedagoga Lucinéia Toledo ressalta que os pequenos são capazes de efetuar formas de leitura avançada muito antes de iniciar a alfabetização. Isso se dá por meio de incentivos quando, ainda bebês, são estimulados por figuras e telas.

 

“Quando meninos e meninas já estão maiores, os quadrinhos são ótimos por conterem humor, cor e, principalmente, uma sequência da história, que dá à criança uma percepção da narrativa”, destaca Lucinéia, que trabalha no Centro de Aperfeiçoamento dos Professores da rede de educação de Belo Horizonte e garante que gibis acabam sendo um suporte para formar leitores de outros livros.

 

As tirinhas, como ressalta, são também bastante utilizadas por proporcionar uma maneira lúdica de leitura. Os estudantes gostam por poderem, primeiro, dar sua interpretação e, depois, chegar a um entendimento.

 

Por causa delas, alguns até desenvolvem talentos que nem desconfiavam ter. Foi o caso de Junior Ferreira Apolinário, 17 anos, estudante da 8ª série da Escola Municipal Professora Acidália Lott, no Bairro Paulo VI, Região Nordeste da capital. Filho de uma diarista e de um fiscal de ônibus, Junior aprendeu a ler aos 8 anos, por meio de quadrinhos. “Narudos, X-Men e mangás eram as minhas revistinhas preferidas”, diz o estudante.

 

Tímido, ele se expressa por meio dos desenhos que começou a fazer inspirado nos gibis. O talento acabou despertando a atenção dos professores, que o incentivaram a continuar com a arte. Foi também por meio desse tipo de leitura que Junior descobriu o interesse pelas obras de Ziraldo, suas preferidas. “Menino Maluquinho foi a primeira que li. Quando não estou desenhando, leio para passar o tempo”, conta.

 

Como Junior, o paulista Laerte Coutinho, 60 anos, um dos maiores cartunistas do Brasil, criador dos Piratas do Tietê, começou a ler estimulado por diversas fontes. Ele conta que a história em quadrinhos foi mais que útil em sua formação. “Não foi benéfica somente do ponto de vista de leitura, de aprendizado de língua. Foi um aprendizado das possibilidades narrativas com imagem, da importância simbólica de certas figuras, de construção de roteiros, etc”, diz Laerte.

 

Segundo ele, a ausência de adaptação do texto à linguagem infantil acabou por ajudar na sua formação, enriquecendo o seu vocabulário. O cartunista destaca que, quando era criança, os intérpretes da Disney e de outras publicações aplicavam textos nos balões em branco que vinham para a América Latina, guiados por um sentido vago da história. “Líamos frequentemente coisas como: Homessa! João e seus asseclas nos ludibriaram”, recorda Laerte.

 

Ele ressalta que lia também revistas de autores nacionais, como Maurício de Souza e Ziraldo. Lola – um de seus personagens mais famosos, publicado no jornal Folha de São Paulo –, por exemplo, trabalha justamente o imaginário da criança. Segundo o cartunista, ao desenvolver a personagem ele leva em conta o grau de habilidade de leitura de crianças menores.

 

Laerte comenta que não há mais sentido a crítica que se fazia nos anos 1950, que colocava as histórias em quadrinhos como uma sub-linguagem, uma expressão de natureza inferior à literatura dita “pura”. Em sua avaliação, não é só a juventude que tem pouco interesse por leitura, e sim a população em geral.

 

Já o quadrinista Lacarmélio Alféo, o Celton, 51 anos, bastante conhecido em BH por vender revistinhas de sua autoria pelas ruas, procura atingir um público mais adulto.
“A maioria dos meus leitores tem mais de 18 anos. Noto que as edições que mais saem são aquelas em que coloco temas do cotidiano”, diz o escritor, que começou a gostar de ler por causa dos gibis.

 

Na época, década de 1960, ele lia escondido, pois as revistinhas eram proibidas para menores de 13 anos. “Pegava do meu irmão mais velho. Minha mãe nem imaginava. Hoje tudo mudou e vejo que as crianças desenvolvem um gosto maior em ler via quadrinhos”, diz Celton.

 

 


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