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Farmácia centenária vira museu no Leste de Minas Gerais

Funcionando há 104 anos, negócio ainda mantém peças para produção de remédios e é ponto turístico

Daniel Antunes - Da Sucursal do Leste de Minas - 15/11/2010 - 07:35

LEONARDO MORAIS

farmacia_osny

Hoje com 89 anos de idade, Osny Carneiro trabalha na farmácia desde os 9

MARLIÉRIA - A história da farmacologia no Leste do Estado está preservada em um museu em Marliéria, município com cerca de 4 mil habitantes. Livros do início do século XIX, ingredientes para a fabricação de remédios – que chegavam ao Brasil em embarcações vindas da Alemanha e dos Estados Unidos – e até instrumentos cirúrgicos, usados durante décadas na centenária Farmácia São José, fazem parte do acervo. Uma história que começou em meados de 1906.

 

Naquela época, sarampo, gripe e malária eram as enfermidades que mais acometiam os moradores da região. Para ajudar a população, José Martins Carneiro e a mulher dele, Orminda Martins da Costa, passaram a estudar as propriedades das plantas e a buscar no meio ambiente remédios para salvar vidas.

 

Na casa onde moravam, foi instalada a Farmácia São José, quando Marliéria ainda era um povoado chamado Babilônia. Não demorou muito para o casal se tornar referência na região. “Minha avó era uma estudiosa do assunto. Ficava horas na frente dos livros tentando descobrir a cura para doenças diversas”, lembra o funcionário público Geraldo Carneiro, 59 anos, neto de José Martins e Orminda.

 

Com a demanda aumentando a cada dia, os filhos do casal também tiveram que aprender o ofício. Quem mais levou a sério a profissão foi Osny Carneiro, que desde os 9 anos já trabalhava na farmácia ajudando os pais a manipular os ingredientes.

 

O gosto pela profissão era tanto que o rapaz também se interessou em fazer partos. Hoje, com 89 anos, se orgulha em contar que foram mais de 300. “Era uma época muito difícil, porque a maioria das pessoas morava em fazendas e não havia estradas”. Com a morte da mãe, quando ainda era rapaz, Osny assumiu o negócio. Bastava o cliente entrar na farmácia com o receituário médico para que o remédio ficasse pronto em minutos. “Fazíamos pílulas de todos os jeitos, inclusive cápsulas. Não havia problema que a gente não tratasse”.

 

Direito de atuar como farmacêutico

 


Entre as raridades guardadas por Osny estão um tubo de vidro com soro, bem diferente das bolsas de plástico usadas hoje em hospitais e postos de saúde. Em 1954, a Secretaria de Saúde e Assistência do Estado de Minas Gerais concedeu a ele o direito de atuar como farmacêutico.

 


Além de manipular e realizar partos, Osny também aprendeu a fazer pequenas cirurgias e a cuidar de fraturas. Era a solução para quem não tinha condições de se deslocar até Ipatinga, onde havia o hospital mais próximo.

 

“A gente fazia de tudo e ninguém nunca morreu. Confio muito mais nos meus remédios do que nesses que hoje estão nas prateleiras das farmácias”, diz Osny.
O conhecimento que o farmacêutico adquiriu na produção de medicamentos despertou até o interesse do Exército, e ele foi convocado para a Segunda Guerra Mundial. Acabou enviado para o Mato Grosso.

 

Em Marliéria, a farmácia São José preparou medicamentos manipulados para a população até o início da década de 1980. Quase todos os atendimentos estão registrados em livros da família, cuidadosamente guardados. Com o advento dos produtos industriais e o rigor das leis sanitárias, os manipulados passaram a ser feitos apenas para pessoas mais próximas da família. O último teria sido produzido em 1983.

 


Fama dos medicamentos percorreu a região

 


Desde a inauguração, há 104 anos, a Farmácia São José é a única de Marliéria. Funciona até hoje no antigo casarão da família Carneiro e, há seis meses, foi arrendada. A idade avançada e a saúde frágil forçaram Osny a abandonar a profissão. Porém, ao novo dono do negócio, ele fez uma recomendação: que mantivesse intactos as prateleiras originais para armazenar remédios e o balcão de atendimento de madeira, feito sob medida.

 

“Aceitei o pedido na hora. A farmácia é uma atração turística. Muitos querem entrar, tirar fotos”, diz o técnico em farmácia Adão Gomes de Paula, 50 anos. Todos os dias, ele recebe a visita de Osny, que faz questão de acompanhar de perto o movimento do lugar.

 

Mesmo quase três décadas depois de a farmácia ter interrompido a fabricação de manipulados, ainda hoje clientes de várias partes da região procuram o estabelecimento pedindo remédios produzidos por Osny.

 

O advogado Paulo Ladeira, 58 anos, seguia para o Parque Estadual do Rio Doce com a família quando precisou comprar um remédio para diminuir a febre da mulher, Luciana. Entrou na farmácia e ficou impressionado quando viu a decoração. “Voltei no tempo. Me vi entrando em uma drogaria que existia perto da minha casa, em Belo Horizonte, para tomar injeção, quando era garoto. Hoje, todas as farmácias seguem um padrão que se tornou uma coisa chata, sem graça”.

 

Mas para que a farmácia centenária conservasse os padrões do início do século passado, técnicos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) precisaram ir à cidade para verificar as instalações. Só assim emitiram novo laudo autorizando o funcionamento. “A memória da nossa família foi preservada. A farmácia é um patrimônio do município”, diz Geraldo Carneiro, um dos cinco filhos de Osny.

 

Nas ruas de Marliéria, são muitas as histórias contadas por pessoas que tiveram a vida “salva” por fórmulas de Osny. A doméstica Geralda Caetano da Rocha, 41 anos, teve pneumonia na infância. Moradora da zona rural, foi levada pelos pais até a farmácia já com um quadro clínico considerado grave, com febre alta e dores no corpo. “Lembro que tomei um remédio e no dia seguinte já estava bem melhor”, diz.

 

Para atender os moradores que viviam longe da farmácia, Osny comprou uma mula. Além de Marliéria, os pedidos para a fabricação de remédios vinham de cidades como Jaguaraçu e Antônio Dias. “Só depois de muitos anos fui comprar um carro”, recorda o farmacêutico.

 

 


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