|
|
| .Minas |
Cristiano Couto
Terreno, de 5.120 m², onde será construído o hotel, fica na Av. Getúlio Vargas
O projeto de um hotel de três andares e 8.500 metros quadrados de área construída, que será erguido às margens da lagoa central de Lagoa Santa, aprovado no início deste do ano pela Prefeitura, vem tirando o sono de moradores da cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). A preocupação é de que o prédio seja o primeiro passo para a verticalização definitiva da área no entorno da lagoa - a exemplo do que aconteceu nos bairros Buritis e Belvedere, em Belo horizonte - e do fim da qualidade de vida dos moradores. A obra foi aprovada no início deste ano, menos de 60 dias após a Câmara de Vereadores alterar a Lei de Uso e Ocupação do Solo, o que ocorreu em 27 outubro de 2009.
Para tentar reverter a situação, moradores do entorno da lagoa prometem uma série de protestos e buscam órgãos públicos como aliados. A ideia é embargar a construção do hotel e fazer com que a orla da lagoa volte a ser uma área de preservação ambiental.
O primeiro passo aconteceu na última semana, quando foi marcada para o próximo dia 15 uma reunião com presenças da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Antes disso, uma série de reuniões vem tumultuando a Câmara de Vereadores - a última delas realizada na terça-feira passada.
“Nosso maior temor é que essa orla seja toda tomada por prédios. O que nos garante que a nossa lagoa, nosso maior atrativo turístico, não vai ter o mesmo destino que a região da Savassi ou do Bairro Belvedere, em Belo Horizonte?”, questiona o topógrafo e morador da orla Oscar Otto von Sperling Gieseke.
Ele conta que sua família chegou ao município em 1923 e, desde então, a paisagem já mudou várias vezes. Agora, o questionamento que faz é a respeito do modelo de desenvolvimento que a Prefeitura e a Câmara estão propondo à cidade. “Vivemos em um município com muitas casas, e sem os prejuízos da verticalização, sem trânsito, com o ar ainda aceitável. Não podemos abrir mão disso simplesmente por interesses de alguns”, defende Oscar.
O secretário de Planejamento de Lagoa Santa, Breno Salomão Gomes, rebate a acusação e afirma que, com cuidado, é possível sim ocupar a orla da lagoa, gerando desenvolvimento e renda para o município sem agredir a paisagem. O secretário reforça ainda que Lagoa Santa passa por uma explosão demográfica, mas, como ainda tem a característica de cidade dormitório, enfrenta sérios problemas para aumentar a arrecadação.
“É importante ressaltar que nos últimos dois anos a cidade está crescendo, em média, 20%. Nossa estimativa é que tenhamos saltado de 49 mil habitantes para mais de 65 mil, de 2007 para cá”, afirma. Ainda segundo ele, o pedido de aprovações de imóveis também é recorde. De acordo com dados da Secretaria de Planejamento, em todo o ano de 2009 foram licenciadas 750 unidades habitacionais, entre casas e prédios. O número é 22% mais alto que em 2008. Só neste ano, até a última quarta-feira, foram aprovadas 630 unidades.
“Nosso desafio é tentar associar este crescimento com melhoria na renda do município. Temos que fornecer saneamento, escolas, hospitais, tudo isso para a população que chega à cidade. E, para isso, temos que ter fontes geradoras de renda aqui”, destaca.
Hotel será lançado em abril
Segundo informações da Incorporadora e Construtora Dominus, o hotel de luxo, já batizado como Promenade All Suits Lagoa Santa, será lançado em abril. O investimento para a construção é de R$ 20 milhões, e várias faixas espalhadas pela cidade já oferecem participações no capital como forma de investimento.
Quando pronto, será administrado pela Rede Promenade. A construção será da própria Dominus, que atua há 15 anos no mercado imobiliário e participou, entre outros, da construção do hotel Fasano, no Rio de Janeiro, que é administrado pela mesma empresa.
O hotel de Lagoa Santa será construído em forma de “U”, escalonada, ou seja, em degraus que acompanham o terreno. Todos os 180 apartamentos, cada um com 30 metros quadrados, terão vista para a lagoa. A obra ocupará um terreno de 5.210 metros quadrados, localizado à Avenida Getúlio Vargas, que margeia toda a lagoa, no Bairro Joana d’Arc. Haverá também um centro de convenções, restaurante para serviço do hotel e aberto ao público, área de lazer com piscina e academia com vista para a lagoa.
Em nota, a Prefeitura de Lagoa Santa afirma que a Lei nº 2.942/2009, que muda as características de ocupação da margem da lagoa, foi aprovada por unanimidade na Câmara de Vereadores e “sancionada tendo em vista os crescentes investimentos no eixo de expansão do Vetor Norte, entre eles o Centro Administrativo do Governo de Minas Gerais, a implantação do Aeroporto Indústria, expansão do Aeroporto Internacional Tancredo Neves, transferência da Unidade do Centro de Instrução e Adaptação a Aeronáutica para Lagoa Santa e a construção do campus da Faculdade de Ciências Médicas no município”, que abrigará 6 mil pessoas.
Sobre o fato levantado por moradores de que o terreno onde o hotel será construído pertencia a Marcos Avelar de Matos, irmão do prefeito Rogério César de Matos Avelar (PPS), o que poderia ter motivado a mudança na legislação, a assessoria de comunicação da Prefeitura informou que a lei beneficia a todos os proprietários de terrenos na orla, cuja extensão é de sete quilômetros. A Prefeitura alegou ainda que a mudança da lei foi proposta pelos vereadores, e não pelo executivo.
Lagoa lidera escolha de símbolo da cidade
Prestes a receber a primeira grande obra em suas margens, a lagoa central de Lagoa Santa é apontada como imagem que melhor representa a cidade - recebeu o voto de 76,79% dos internautas na enquete disponível no site da Prefeitura (www.lagoasanta.gov.br). O resultado, que constava até a tarde da última sexta-feira, aponta que a lagoa recebeu 3.553 votos. Em segundo lugar aparecia a Gruta da Lapinha, com 14,65% (678 votos), seguida pela Escola Municipal Dr. Peter Lund, com 5,23% dos votos (242), e, em quarto, o Morro do Cruzeiro, com 3,33% (154).
Mesmo sem a garantia de que apenas moradores do município tenham participado da enquete, os números mostram que a lagoa é o símbolo presente no imaginário local. A construção de um hotel e a mudança do status da orla devem provocar polêmica nos próximos dias.
Para o coordenador de mobilização do Projeto Manuelzão e presidente do Conselho da Área de Proteção Ambiental (Apa) Carste, Procópio de Castro, o projeto do hotel é o primeiro passo do que classifica como “o início da verticalização da orla da lagoa”.
O ambientalista afirma que a mudança na legislação é mais uma prova de que não existe um projeto de desenvolvimento sustentável para o Vetor Norte, mas apenas projetos de expansão imobiliária, em sua maioria descoordenados. “Estamos avisando, há quatro anos, desde que surgiu a proposta do Vetor Norte, que o ecossistema do carste é muito frágil. Mas parece que as consequências ainda não estão muito claras para a população. Devastação é como dengue: a pessoa só teme depois que sofre as consequências na pele”, diz.
Ainda de acordo com informações do ambientalista, a ocupação da orla da lagoa e a pavimentação da cidade vêm contribuindo para que o corpo d’água já apresente sinais de fraqueza.
A profundidade da lagoa, por exemplo, era de 17 metros nos anos 1960. Hoje, não passa dos sete metros em seus pontos mais fundos. A qualidade das águas, de acordo com Castro, também não é mais a mesma. Apesar de contar com rede de captação de esgoto, parte das casas despeja seus efluentes diretamente na lagoa. A orla também é povoada por caramujos pretos, que podem transmitir esquistossomose.
Isso não impede, no entanto, que boa parte dos moradores da orla se divirtam pescando em suas águas. É o caso da pensionista Corina de Oliveira, 71 anos, que há pelo menos 30 pesca diariamente em um ponto mais raso, bem em frente à sua casa. O hotel será construído alguns metros à frente, no mesmo bairro, o Joana d’Arc.
“Antigamente até comia, mas agora dou tudo o que pego para a minha nora. Não tenho medo de poluição, mas é que agora moro sozinha, e um peixe inteiro é muita coisa. Aproveito mais é para distrair a cabeça”, diz a senhora.
Sobre a construção do novo hotel, Corina se mostra indiferente. “Ainda nem tem obra, nem nada. Quando começarem a construir, me preocupo. Quem é que sabe o dia de amanhã?”, questiona, risonha.