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GOVERNADOR VALADARES – A manifestação que reuniria familiares e amigos dos mineiros Juliard Aires Fernandes, 19 anos, e Hermínio Cardoso dos Santos, de 24, no Centro de Sardoá, Leste do Estado, nesta quinta-feira (2) foi cancelada. Segundo uma das primas de Juliard, Gislaine Aires de Almeida, 34 anos, os pais dos imigrantes estão exaustos e indispostos para saír de casa. “E a situação de Hermínio ainda está indefinida. Achamos melhor adiar, sem data marcada”, disse.
Faixas, cartazes e camisas com fotos dos dois imigrantes, amigos que cresceram juntos apesar da distância de seis quilômetros de uma casa na outra, - a família de Juliard mora na zona rural de Santa Efigênia de Minas e a de Hermínio Sardoá – foram preparados para a manifestação. Os dois amigos saíram juntos rumo aos Estados Unidos dia 3 de agosto, em busca do sonho que fomenta a emigração no Vale do Rio Doce - ter dinheiro para comprar casa, carro e abrir o próprio negócio. Eles fariam a travessia ilegalmente, via fonteira do México, onde o sonho foi interrompido.
O corpo de Juliard e documentos de Hermínio foram localizados em uma fazenda em Reyonosa, próxima à cidade de San Fernando, no estado de Tamaulipas, na fronteira entre o México e os Estados Unidos, onde 72 imigrantes foram executados. O crime ocorreu há pouco mais de uma semana. Até a tarde desta quinta-feira, o corpo de Hermínio não havia sido identificado e nem o corpo de Juliard havia sido repatriado. O objetivo da manifestação seria cobrar agilidade no traslado do corpo do sardoaense e na identificação de Hermínio.
Uma das organizadoras do protesto é Juliana Aires de Almeida, 24 anos, prima de Juliard. Ela embarcaria na mesma viagem, mas desistiu depois de descobrir estar grávida de dois meses. Na noite do dia 28 de agosto, assim que recebeu a notícia da morte do primo e desaparecimento de Hermínio, que por sua vez, é primo do marido dela, perdeu o bebê. O aborto foi espontâneo. “Foi um susto muito grande. Éramos como irmãos. Nós três fomos criados juntos”.
Outra organizadora é a irmã de Juliard, a dona de casa Leila Márcia Aires Fernandes, 26 anos. “Eles não eram vagabundos. Bastava apenas mandarem os dois de volta pra casa”, disse indignada Leila Márcia, para quem o protesto serviria principalmente para pedir justiça. Ela acredita que mobilizações semelhantes não permitiram que o caso do mineiro Jean Charles, executado pela polícia britânica no metrô de Londres, há cinco anos, fosse esquecido. Gonzaga fica a 39 km de Sardoá. ”Também não vamos permitir isso”, assegurou.
O procurador geral da República em Governador Valadares, Edilson Vitorelli, visitou as duas famílias pela manhã. Um dos objetivos foi verificar se estão recebendo a assistência necessária dos órgãos competentes e checar informações de familiares de que alguns deles estariam recebendo ameaças do crime organizado mexicano, o que não teria sido comprovado. “Percebi que estão bastante traumatizados, abalados com a situação, mas não notei medo, angústia que pudesse ser resultante de ameaças”, disse Vitorelli.
Outra expectativa era que o contato com os familiares pudesse ajudar na investigação do Ministério Público Federal (MPF) sobre a viagem de Hermínio e Juliard, e resultasse em informações sobre os "cônsules", agenciadores que fazem a intermediação entre os imigrantes e os “coiotes”, responsáveis pela travessia no México. Vitorelli apurou que os dois imigraram por conta própria, o que afastaria o crime de aliciamento. E os familiares não sabem ou revelam nomes dos agenciadores, receio que dificulta as investigações da polícia.
Segundo o procurador, existem inúmeros inquéritos policiais contra pessoas acusadas de aliciar interessados em fazer a travessia ilegalmente, mas nenhum está preso. Também não há casos de imigrantes desaparecidos.“Embora a emigração para o estrangeiro não seja, em si mesma, um crime, o recrutamento de pessoas para esse fim pode ser enquadrado no artigo 206 do Código Penal (CP), cuja pena é de até três anos de prisão. Mas sabemos que, rotineiramente, são os próprios emigrantes que procuram os intermediadores para facilitar sua entrada ilegal nos países de destino. Assim, o serviço prestado é encerrado com a transposição da fronteira, sendo difícil a caracterização do crime tipificado no artigo 206 do CP, se não houver nenhuma outra finalidade, como exploração sexual ou trabalho escravo”, afirma Vitorelli.
Na quarta-feira (1º), uma equipe da Subsecretaria de Assistência Social da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese), visitou as famílias dos imigrantes para informá-las sobre decisão do governo em dar a assistência necessária para o translado dos corpos e funerais e também preencher formulários do Itamaraty com autorização para que as certidões de óbito dos mineiros sejam emitidas. No caso de Hermínio, se for confirmado entre os mortos.