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LUIZ COSTA
Elis Regina auxiliou Josiane na quinta-feira no nascimento de Emanuel
Elas são médicas, rezadeiras, garrafeiras, enfermeiras, amigas. Na quinta-feira (5), dia internacional das parteiras, enfermeiras e estudantes fizeram uma passeata simbólica em frente ao Hospital Sofia Feldman, no Bairro Tupi, Região Nordeste de Belo Horizonte. O objetivo é chamar a atenção das autoridades para a importância das parteiras, função vital em locais onde os postos de saúde e hospitais ainda não chegaram. Estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU) também divulgadas na quinta-feira apontam que há um déficit de pelo menos 350 mil dessas profissionais em todo o mundo.
Em julho, um seminário internacional para discutir a importância das parteiras e criar formas de qualificar e apoiar essas mulheres acontece em Durban, na África do Sul. Antes, a preparação nacional será realizada em Brasília, com profissionais de todo o país. De acordo com a vice-presidente da Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras, Kleyde Ventura de Souza, em Minas Gerais as pessoas ligadas à atividade estão nas regiões Norte, Nordeste e nos vales do Jequitinhonha e Mucuri.
Apesar de não existirem dados oficiais sobre a quantidade de parteiras no Estado ou no país, entre 2001 e 2004 a Secretaria de Estado de Saúde capacitou 213 mulheres, em municípios com menos de 20 mil habitantes e tribos indígenas - entre elas as dos Xacriabás, em São João das Missões, e os Maxacalis, no município homônimo.
"A atividade envolve mais que o cuidado com a saúde. As parteiras se tornam parte das famílias, são madrinhas das crianças que vêm ao mundo, têm um certo status nas comunidades, uma liderança", destaca Kleyde. Ela ressalta ainda que, nas cidades, o papel de parteira foi substituído pelas enfermeiras, que são quem cuida das parturientes nos momentos que precedem o parto.
Esses cuidados, ressalta, ganham ano a ano mais importância. Tanto que o Ministério da Saúde incluiu cursos de treinamento e qualificação em programas de humanização do tratamento e de redução dos partos por meio de cesariana. "Essa moda, o intervencionismo, tem a ver com a saída dos partos das casas para o hospital. Quantos tios e tias nós não temos, todos nascidos em casa, grande parte deles com ajuda de parteiras?", questiona.
Enfermeira do Sofia Feldman, ela ressalta ainda que a instituição está entre os hospitais modelo do Sistema Único de Saúde atualmente. O Hospital conta com salas para parto na água e com opções de apoio diferentes da maioria das instituições no Estado. Entre as iniciativas premiadas está a adoção das doulas, mulheres leigas que ficam ao lado das mães durante as contrações e acolhem as mulheres em sua chegada ao hospital.
As enfermeiras também participam de todo o processo, desde a chagada no dia dos nascimentos, até a alta. É a função, por exemplo, da enfermeira Elis Regina Silva Pinheiro, mãe de um filho de dois anos e grávida de 10 semanas. Pós-graduada em enfermagem obstetrícia, foi ela quem recebeu e auxiliou Josiane de Oliveira Rodrigues, que trouxe ao mundo na manhã de quinta-feira o pequeno Carlos Emanuel. Sentada na cama, apreciando o filho, Josiane era só elogios. "Ela foi muito atenciosa. Só tenho a agradecer", disse. "Faço hoje os que as parteiras faziam antigamente", ressalta Elis Regina.
Com centenas de parto, Tonha quer retomar atividade
A enfermeira Antônia Colares, a Tonha, que já perdeu as contas de quantos partos já realizou em sua vida, quer dar continuidade à sua profissão, mesmo aos 75 anos de idade e com dores na coluna.
Antônia Colares: "Fico feliz por não ter ocorrido qualquer problema" (Foto: Girleno Alencar)
Tonha trabalhou por mais de 50 anos na Santa Casa do município e se orgulha de ter feito o parto de várias crianças na cidade, dividindo espaço com médicos.
No seu entendimento, hoje com a tecnologia disponível e com as especialidades médicas na área, ficou muito mais fácil fazer os partos.
"Há poucos dias, andava pelas ruas da cidade, quando uma mulher me abordou e disse que procurou a Santa Casa quando foi ter seu filho, mas como o médico demorou, eu fiz o parto. Fiquei feliz, é uma alegria muito grande", recorda Tonha, que em 2010 recebeu a Medalha de Honra de Montes Claros, maior condecoração oficial do município, concedida às pessoas que se destacam em várias áreas.
Tonha ingressou na Santa Casa como copeira, aos 20 anos, onde também foi faxineira. Posteriormente, fez curso de técnico de enfermagem e passou a fazer partos.
"Na época, quem trabalhava na Santa Casa, tinha que fazer de tudo. Existiam poucos médicos em Montes Claros e, por isso, muitas vezes tive que fazer os partos. Fico feliz por nunca ter ocorrido qualquer problema nos partos. Todas crianças sobreviveram" , garante Tonha.
A enfermeira conta também que chegou a fazer vários partos fora do hospital, como ocorreu com uma mulher que saiu do bairro Santos Reis para ir ao centro da cidade, mas acabou entrando em trabalho de parto na Rua Professor Monteiro Fonseca. "Terminei de fazer o parto, embrulhei a criança em lençóis e a levamos, junto com a mãe, para a Santa Casa", conta.
Atualmente, Montes Claros realiza 900 partos por mês, sendo 550 na Santa Casa e 350 no Hospital Universitário. Na próxima semana, a Maternidade do Hospital Aroldo Tourinho, fechada desde agosto do ano passado, voltará a funcionar, com capacidade inicial para 150 partos.