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Maurício de Souza
O psicólogo Pedro Pinheiro Chagas ressalta que a discalculia caracteriza-se pela dificuldade básica
Logaritmos, progressão aritmética, análise combinatória ou uma simples regra de três. Ter que lidar com a Matemática não é uma tarefa agradável para muitas pessoas. Mas, a matéria, para entre 3 e 6% da população mundial, é mais que sinônimo de aborrecimento, é um obstáculo real que, via de regra, causa sofrimento e comprometimento social e emocional. São os portadores da chamada discalculia, um transtorno de aprendizado da Matemática, ainda pouco desvendado pelos cientistas. Uma pesquisa realizada pela UFMG em parceria com a Universidade Aachen, da Alemanha, busca conhecer melhor a discalculia, com a identificação de suas causas e efeitos, estabelecer sua prevalência na população brasileira e ainda desenvolver estratégias que auxiliem quem sofre com o transtorno a vencer as dificuldades.
De acordo com o psicólogo Pedro Pinheiro Chagas, mestrando em Neurociências e um dos pesquisadores envolvidos no trabalho, a discalculia caracteriza-se pela dificuldade básica do indivíduo com a noção de numerosidade, e a capacidade presente já nos bebês e até em muitos animais de discernir e estimar quantidades. “É um transtorno específico da aritmética, que não está ligado a retardo mental, problemas pedagógicos, de educação deficiente ou à falta de interesse do aluno”, afirma. Ele explica que a pesquisa pretende traçar subtipos, com a identificação de mecanismos cognitivos comuns a grupos de indivíduos pesquisados, que possam ser associados a essa dificuldade básica na noção de numerosidade, e ainda investigar possíveis questões da genética humana que possam agravar ou potencializar fatores ambientais determinantes da discalculia.
O professor Vitor Haase, coordenador do Laboratório de Neuropsicologia do Desenvolvimento do Departamento de Psicologia da UFMG, responsável pela investigação cognitiva da pesquisa, informa que, desde 2008, quando foi iniciado, o trabalho contou com a colaboração de 2 mil voluntários. Crianças, com idades entre 8 e 12 anos, alunos de escolas públicas e privadas de Belo Horizonte e de Mariana, que se submeteram a um teste de desempenho escolar (TDE). Deste total, 200 crianças com o resultado mais baixo no TDE foram selecionadas para uma segunda etapa da pesquisa, que envolve entrevistas clínicas individuais, para a avaliação neuropsicológica , a aplicação de um teste aritmético e a coleta de sangue.
Entre as 200 crianças pesquisadas na segunda fase do trabalho, 50% apresentaram dificuldades no aprendizado da Matemática que podem indicar que sofrem de discalculia. Mas, o professor alerta que esses resultados preliminares ainda não podem ser referência para se estabelecer, por exemplo, a prevalência do transtorno junto à população. “Precisamos aumentar a amostra para confirmar o resultado”, acrescenta.
A vertente genética da pesquisa, a cargo do Laboratório de Genética Humana/Médica do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, examina parte do genoma dos voluntários selecionados para participarem da segunda etapa do trabalho, por isso, há a coleta de sangue.
Conforme Vítor Haase, em função de indícios, como a reincidência de casos em uma família, sabe-se genericamente que as causas da discalculia estão ligadas a fatores genéticos. Por isso, o material genético dos voluntários é analisado nas áreas cromossômicas que se relacionam com as Síndromes de Turner e Velocardiofacial, cujos portadores também apresentam dificuldades no aprendizado da Matemática. O objetivo é descobrir se algumas crianças com dificuldades com a Matemática têm as alterações genéticas descritas para as duas síndromes sem que, necessariamente, sejam portadoras das doenças. “Queremos estabelecer uma base genética para as dificuldades de aprendizagem de Matemática”, diz.