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LEONARDO COSTA
José Fortes, morador de Conceição do Ibitipoca, com a prótese do avô
JUIZ DE FORA - Nos idos de 1900, a humanidade vivia sem televisão. O rádio, que ainda engatinhava na Europa, só teve primeira transmissão oficial no Brasil em 1922. A imprensa escrita se restringia a uma elite letrada de centros urbanos. Mas foi neste contexto, de poucas referências, e numa propriedade no interior de Minas, que o agricultor Júlio Fortes, falecido em 1949, desenvolveu uma prótese de braço, que, segundo a família, pode ser uma das pioneiras do país. Ou, pelo menos, uma das poucas ainda preservadas.
Os descendentes do sitiante moram em Conceição de Ibitipoca, distrito de Lima Duarte. O local sobrevive do turismo. O Parque Estadual que leva o mesmo nome do arraial atrai milhares de visitantes durante o ano. Um destes turistas, um médico paulista, levantou a hipótese pela primeira vez. Ele ficou admirado ao se deparar com o objeto e perguntou a sim mesmo se não estava diante da primeira prótese de braço confeccionada no Brasil.
O objeto tem cerca de 60 centímetros de comprimento, e possui um gancho na parte posterior em formato circular. Pesa, aproximadamente, 800 gramas. Possui alças de couro para se prender ao restante do braço amputado e é feito de madeira da região, conhecida com “bico de pato”, de alta resistência.
“Ele tentou fazer primeiro com uma espécie de bambu, o taquaruçu, mas o material não resistiu”, revelou José Antônio Fortes, de 56 anos. Neto do agricultor e vereador pelo município de Lima Duarte, é dele a relíquia ortopédica brasileira. O objeto se encontrava na sede Sítio do Tanque, herdado por José Antônio, no município de Bias Fortes. “A necessidade fez com que ele fosse criativo. È um exemplo de garra e vontade de vencer”, disse.
A prótese artesanal chamou a atenção do professor da faculdade de fisioterapia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Eduardo José Ganzá Vicente, que desenvolve pesquisas com grupos que abragem amputados de perna e coxa na UFJF. O professor teve contato com a o objeto somente por meio de fotos fornecidas pelo Hoje em Dia. “Mesmo sabendo da importância em descobrir se foi ou não a primeira prótese de membro superior confeccionada no Brasil ou em Minas, deveríamos pensar neste tempo de outra forma”, disse ele. Para o fisioterapeuta, é preciso levar em conta que, mesmo nos dias atuais, o processo de reabilitação após amputações ainda não é satisfatório, o que torna o feito de Júlio Fortes, no início do século passado, de grande valia.
Eduardo pondera que o objeto merece um estudo profundo para que se torne um marco na proteziação no Brasil. “Como um senhor do interior poderia confeccionar uma prótese que o ajudaria nas tarefas do campo e do lar, criando vários filhos, sem ter noção alguma de anatomia, fisiologia articular e sobre os mecanismos de protetização? ”, questiona.
Exemplo de vida contado pela família
A prótese de Júlio Fortes guarda uma rica história familiar de superação contada de geração em geração pelos Fortes de Conceição de Ibitipoca. Júlio, que viveu entre 1898 e 1949, perdeu a mão e parte do braço ainda muito jovem, e antes de se casar. “Foi um descuido. Ele moia a cana no engenho quando aconteceu o acidente”, revela o neto.
Apesar das limitações, Júlio casou-se com Ana Cândida. O casal teve 12 filhos, criados, curiosamente, com a força do trabalho braçal do pai. “Ele trabalhava na lavoura em geral, só não conseguia colher o arroz e cortar a semente de capim, que depende dos dedos”, conta Vicente Sá Fortes, de 54 anos, um dos seis netos de agricultor que vive no arraial.
Ele acredita que a prótese desenvolvida pelo avô tenha sido a última de uma seqüência iniciada no início do século 20. Para Vicente, o exemplar que resta é da década de 1940. “Ele criou da própria imaginação, pois não tinha rádio e nem TV na época”, orgulha-se Vicente, que é pedreiro, comerciante e escrivão em Conceição do Ibitipoca. Como o irmão José Antônio, ele lamenta não ter conhecido o avó, cujas histórias eram contadas pelo pai, Júlio Fortes Filho. “Meu pai dizia que ele era um homem enérgico e que resolvia os problemas na hora. Nem que fosse no braço”, brincou. Já Ana Bernardino da Silva, de 61, teve o privilégio de conhecer o patriarca que marcou gerações dos Fortes. Colaborada da igreja histórica do Arraial, erguida em 1692, onde quase diariamente badala os sinos, ela conta uma dos fatos interessantes sobre o casamento do avô. O braço amputado teria contribuído para a decisão da noiva de Júlio que teria confessado aos mais próximos. “Este não vai para a guerra”.
A evolução das próteses
A palavra prótese, de origem grega, significa “eu coloco no lugar de”. Por definição, elas servem para substituir uma parte anatômica inexistente, dando a aparência de um membro normal. Um pequeno histórico sobre a protetização, fornecido pelo professor Eduardo Ganzá, revela que em 424 a.C. o historiador grego Heródoto registrou as façanhas de Hegistrados, um vidente Persa, que foi condenado a morte pelos Espartanos.
Ele escapou dos instrumentos medievais de tortura amputando o seu próprio pé. Após a cicatrização confeccionou um pé de madeira e viajou para Tregea caminhando. Recapturado, foi finalmente decapitado.
Outras publicações, no entanto, revelam que uma prótese de couro e madeira foi a solução encontrada por um médico da época dos faraós egípcios para resolver uma provável amputação do dedão do pé. O raro trabalho ortopédico está presente em uma múmia de 3,5 mil anos. A descoberta, que atesta o avanço da cirurgia no século 15 a.C., foi feita por arqueólogos egípcios e alemães em 1995, em Sheikh Abdel Garna, perto da cidade egípcia de Luxor .
“Sem dúvida, foi no século XX onde tivemos o maior avanço tecnológico na área de componentes ortopédicos para próteses. A Primeira Guerra Mundial aumentou o número de amputados e forçou estudo maior dos componentes ortopédicos”, revelou. Até então, a confecção de próteses era feito dentro de oficinas.
Após a Segunda Guerra Mundial começou a produção de componentes pré-fabricados, agilizando a confecção de próteses, pois se podia comprar os pés e joelhos já prontos. Foi então que surgiram indústrias que se preocupam somente em fabricar componentes ortopédicos, proporcionando progressos de grande significado.
“Graças a isso, os ortesistas e protesistas deixaram de dedicar-se à fabricação de componentes, podendo aprimorar-se às adaptações.
Fortes chegaram com os bandeirantes
A família do agricultor Júlio Fortes teria chegado à Conceição de Ibitipoca junto com a Bandeira do capelão Padre João de Faria Fialho, vigário de Taubaté (SP), por volta de 1692. E seria um dos poucos clãs paulistas tradicionais que permaneceram na região, ao invés de seguir para as principais regiões auríferas de Minas Gerais, especialmente, Vila Rica, atual Ouro Preto.
A possibilidade é defendida pelo bisneto do agricultor, Gabriel Célio Fortes, de 30 anos, que trabalha como condutor ambiental no Parque Estadual de Ibitipoca, reserva ambiental mais procurada em Minas. “A ramificação da nossa família é a mais humilde. Tivemos a influência genética de escravos”, revela. A história de Júlio Fortes e sua prótese artesanal é sempre contada por Gabriel aos grupos de turistas como exemplo de superação e incentivo para enfrentar longas caminhadas. “Tenho orgulho de fazer parte desta história”, salientou.
A hipótese de Gabriel encontra respaldo na dissertação de mestrado do turismólogo Bruno Bedim. Ele elaborou um amplo estudo sobre o processo de intervenção social do turismo na Serra de Ibitipoca, apresentado, em 2008, ao programa de pós-graduação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
“Ocorre que, em meados do século XVIII, a escassez e as dificuldades encontradas na mineração resultaram numa equação econômica desfavorável aos mineradores, em que o lucro obtido com o ouro não compensava o custo de sua extração. Diante de tais circunstâncias, a maioria do contingente minerador de Ibitipoca possivelmente se deslocou para outras regiões”, revela um trecho da pesquisa. A partir do mesmo estudo é possível estabelecer um vínculo entre a família Fortes de Conceição de Ibitipoca com um dos políticos mineiros mais tradicionais, o ex-governador José Francisco Bias Fortes (1891-1971). No comando do Estado, entre 1956 e 1961, o político não teria se interessado em criar um parque na região.
“O então governador de Minas era natural da região de Barbacena, possuindo ainda ramos familiares em Bias Fortes, município que carrega inclusive o sobrenome da família do governador e cujo território se estende até as escarpas da Serra de Ibitipoca.